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21 de jul. de 2011

A loja de sapatos e a Copa do Mundo de 2014

E o coice na bola de Elano foi só o começo. Foto: EFE


O centro da capital fervilha. No vai e vem da multidão, frases de efeito tentam convencer os que passam da compra ou venda de produtos de segunda linha. Numa grande cidade, não é permitido vislumbres ou o andar descompromissado de quem não sabe exatamente o que quer ou para onde vai. Caminha-se com pressa. A meia tarde, o ritmo tresloucado chega ao ápice e inicia o descenso, até a calmaria da noite e a tensão da madrugada. Logo adiante, no interior de um estabelecimento comercial, o conglomerado de pessoas anuncia o evento do dia, ou da tarde, como queiram: “alguma coisa aconteceu”.

Como que num passe de mágica, a pressa esvai-se. A atenção se volta para o que estaria acontecendo dentro da pequena loja de calçados. Como um rebanho de gado marcado, sem ter noção alguma do que se passa ou, mesmo, das razões que as fizeram parar nas imediações do ocorrido, a maioria dos passantes para. Observa com o semblante curioso de quem mais se preocupa com o fim da jornada de trabalho e com o início da novela das oito, que por preocupação ou interesse no que se sucede de fato. A possibilidade de ser uma briga aflora os ânimos. Entusiasma. Por pouco, não se cria uma central improvisada de apostas.

A discussão, por mais acalorada que transpareça, não é suficiente para se tornar pública. Não se ouve o que falam os brigões do lado de dentro. Alguma coisa aconteceu e isso é o que importa. Um homem de estatura mediana, de pouco cabelo e franzino, em vão, argumenta com uma mulher, pouco mais de 30, e municiada por outras duas ou três pessoas, talvez, amigos, familiares. Amanhã, fato semelhante chamará a atenção de um novo rebanho de passantes e assim sucessivamente, depois e depois e depois. A quebra, às vezes brusca, da rotina é a condicionante da manutenção da normalidade. À pressa sempre haverá um limite. O patrão, os afazeres, o mundo podem esperar até que a cena seja encerrada.  

A necessidade em se acompanhar in loco a discussão no interior da pequena loja de calçados, traveste-se de uma curiosidade embrionária e particular dos seres vivos – pensantes ou não. Somos tentados ao espetáculo. Ao sensacional. Ao fora do comum. Das arenas medievais, onde homens e animais digladiavam-se até a morte aos auditórios de programas dominicais de televisão, no fundo, queremos o show, a contemplação, o que diverte e passa tempo.

No noticiário, o sério ganha novos contornos. Espectadores natos, por vezes, acabamos subservientes aos mandos, desmandos e caprichos de uma minoria. Embora pareça óbvio e irrevogável, a possibilidade de um fracasso dantesco em 2014, é suplantada pelo sonho do hexa e da confirmação da geração de Neymar e Ganso. Em curta passagem pelo aeroporto de Congonhas, na sexta-feira, 15, entre um embarque e outro, apenas constatei o que venho martelando há tempos, inclusive nessa coluna: não temos um pingo de condição para sediar uma Copa do Mundo. O rebanho a espera do embarque, nesse caso, é passivo ante a demora, a falta de informação, e a prestação deficitária de serviços básicos, como alimentação. O mesmo se repete em qualquer aeroporto de médio ou grande porte, das cidades sedes do mundial.

Não bastasse o caos nas salas de embarque, o mandatário da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é arrogante e ditador. É um personagem pastelão que chama atenção dos que passam mais pelo que não faz ou pelos comentários e atitudes individualistas e para seu próprio benefício. E assim, embora saibamos que a Copa e a Seleção sejam dele e não de toda nação brasileira, quando passamos diante da televisão, paramos, como parte do enorme rebanho que representamos. Ávidos pelo espetáculo, pelos gols, dribles e vitórias. No entanto, como no caso da loja de sapatos, houve pouco show e diversão da última vez que a seleção do Sr. Teixeira entrou em campo. Amanhã, como depois e depois, nossa atenção estará voltada para outra discussão no interior de uma loja de sapatos, talvez, com Ganso e Neymar como protagonistas.


14 de abr. de 2011

Vexame em azul, preto e branco

Atuação deplorável do Grêmio na Bolívia e humilhantes 3 a 0 na conta.
Foto: Aizar Raldes / AFP / CP
Já disse em outras oportunidades que não me apetece escrever sobre futebol. O tema é deveras passional. Mexe com sentimentos que transcendem a racionalidade e faz, muitas vezes, com que o ser humano regrida e tome atitudes imbecis. Embora tenha escolhido graduar-me em jornalismo, prefiro não discorrer sobre o tema. Opção pessoal. Já arrisquei algumas observações. Aqui e ali e acolá mas, em geral, a exceção de algumas digressões sobre meu time do coração, prefiro o silêncio.

A jornada do Grêmio na noite passada na Bolívia foi desastrosa. Uma das piores atuações do tricolor em anos. O que assusta, no entanto, é que alguns erros cometidos à exaustão na partida frente o fraquíssimo Oriente Petrolero vem se repetindo ao longo do ano. A mais alarmante é a falta de finalização de média distância. O Grêmio não chuta em gol. Existem momentos no decorrer das partidas que a impressão é que há uma proibição por parte da comissão técnica: “Vocês estão proibidos de chutar em gol”. Talvez haja alguma punição para quem ousar infringir tal determinação durante as partidas. Tenho sérias suspeitas quanto a isso.

No geral, passado o baque pela goleada sofrida em Santa Cruz de La Sierra. O Grêmio é um time que não inspira confiança no seu torcedor. Chega a ser aterrorizante. Troca-se passes de um lado para outro, sem objetividade alguma.  Afunilam-se as jogadas com uma previsibilidade de dar dó. Há um camisa 9 que não faz jus ao posto de centroavante. Está sempre mal posicionado. Não sabe fazer o pivô com os jogadores que vem detrás. Erra um gol atrás do outro e pior, não sabe jogar de outra maneira. E para deixar as coisas ainda mais preocupantes, não tem um companheiro no ataque. Hoje, aposta-se todas as fichas no Olímpico em um garoto de 17 anos. Se este não der certo, acabou-se a folia. O sonho. A esperança. O argentino é esforçado, mas “pisar” em bola é demais.

Há quem tente explicar a tragédia anunciada. Transbordam justificativas para o futebol tenebroso praticado pelo Grêmio. “Não deu nada certo”, disse o presidente. “Foi uma jornada desastrosa”, declarou o dirigente de futebol. O, porém, é que o time repete as mesmas deficiências jogo após jogo. O sistema defensivo comete falhas imperdoáveis, embora sejam jogadores profissionais e recebam altos salários para dar uma resposta, no mínimo, menos vexatória. Não praticam o futebol em campos de chão batido ou somente nos fins de semana com os colegas de trabalho. Não. Estes cabeças de bagre que hoje vestem a camisa do tricolor vivem EXCLUSIVAMENTE para isso. Treinam todos os dias. Como pode, então, baterem tanta cabeça como batem? Bola na área tricolor é meio gol. Também não há definição na lateral esquerda do Grêmio. O episódio envolvendo o preferido do treinador em Caxias, duas semanas atrás, é motivo para demissão por justa causa. 

Inadmissível. 

Perder como se perdeu na Bolívia e na serra gaúcha contra o Juventude é vergonhoso. Uma piada pronta, como dizem os torcedores do rival. O pior é que estão certos os colorados. O Grêmio não se ajuda. Não tem sequência. O Grêmio não tem alternativa para os momentos de adversidade ou de pouca inspiração técnica. É dependente de um ou dois, que nem sempre jogam. Às vezes até entram em campo, mas com tanta má vontade que o time parece estar com um a menos em campo. O que assisti na noite passada me preocupou por demais. A propósito,  não pode haver torcedor do Grêmio que consiga acreditar que este time possa se sagrar TRI da América. Aliás, acho que esta conquista, se já não foi, está indo pelo ralo. Como todo respeito, mas não vou me assustar se amanhã ou depois Celso Roth não for anunciado como novo treinador.



8 de jan. de 2011

Fez-se a vontade da maioria

Adriano Galiani, vice do Milan: Ronaldinho é 99,9% do Flamengo.
Depois dessa, alguém dúvida do destino do jogador?


Não fosse o auxílio de um ventilador ligado em sua máxima potência, estaria suando em bicas. O calor em Porto Alegre é coisa fora do comum. Parece um forno a capital gaúcha. O clima de euforia de ontem, principalmente nos arredores do Estádio Olímpico já não existe mais. Ronaldo deve mesmo jogar no Flamengo. O vice-presidente do Milan prefere assim. Anunciou a pouco, ao vivo via Rede Globo de Televisão: Ronaldinho é 99,9% do Flamengo.

A diretoria do Grêmio vai se pronunciar oficialmente as 15h de hoje. Porém, independente do que for dito pelo alto escalão gremista, não me resta dúvidas, e olha, que não é deliro em circunstância do calor estafante: a cúpula tricolor errou durante todo o processo/novela desta malfadada tentativa de repatriar o jogador.

Falou demais quando não podia. Agarrou-se em palavras ditas entre quatro paredes ou em conversas por celular e não conteve sua própria língua, enchendo de esperanças seu torcedor. O pior de tudo, na minha miserável opinião, foi a declaração de seu presidente dizendo que o clube pagaria o Milan. Mentira. Assumir um compromisso de cifras estratosféricas como este depois do jogador ter deixado o clube a ver navios 10 anos atrás, seria uma das maiores burrices, senão a maior já cometida no Olímpico. Um risco desnecessário e quase infantil.

No entanto, parece-me claro o que motivou esta e outras desencontradas declarações dos dirigentes gremistas: paixão. Esperança. Esperança de ver o menino projetado na Azenha voltar para fazer as pazes com o clube e com a torcida. Esperança de vê-lo voltar a jogar parte do seu melhor futebol disputando uma Libertadores de América (PS: Não acredito que Ronaldinho voltará a jogar como em seus melhores dias de Barcelona). Foi isso que fez a diretoria tricolor insuflar o noticiário com mensagens otimistas fazendo com que seu torcedor se enchesse de esperanças para o ano.


Camisa do Grêmio nunca mais
Na quinta-feira fomos todos obrigados a assistir a paupérrima coletiva de imprensa de Assis, Ronaldinho, Galliani e a pobre intérprete do vice do Milan. Uma bizarrice. Exposição gratuita e desnecessária. Assis, o empresário “sabe-tudo” bradou que os clubes brasileiros teriam conquistado independência para negociar, inclusive com altos valores envolvidos. A pergunta que não se faz, é: Ronaldinho Gaúcho, a beira dos 31 anos, há tempos sem jogar nem 25% do seu melhor futebol, vale tanto quanto está se pedinho e mais: vale o que está sendo proposto. Onde já se viu se pagar R$ 1 milhão e 800 mil reais por mês para um jogador de futebol.

Como torcedor gremista, lamento profundamente a balburdia que se anunciava ontem, inclusive com equipamentos de som sendo instalados no gramado do Monumental no meio da manhã sob alegação da festa pela volta do jogador, sem haver naquele instante certeza alguma sobre nada. Vou além: cá com meus botões, tenho minhas dúvidas se a ordem de retirada por parte do presidente gremista foi feita mesmo com toda irritação que se anunciou ou, se, percebendo que estavam bancando os bobos da corte, acharam (o alto escalão gremista) de comum acordo retirar os equipamentos.

Agora, 14h40, por mais que possa se acusar Assis ou Ronaldinho ou Galiani (isto irá acontecer), acredito - volto a repetir - que a culpa pelo fracasso do negócio é em grande parte da direção do Grêmio. Por fim, fez-se a vontade da maioria. Assunto – espero muito – ao menos em Porto Alegre, encerrado.


Atualização às 14h42: Como se deu a reviravolta no caso Ronaldinho, por David Coimbra, Zero Hora

21 de dez. de 2010

Uma aposta arriscada

Caricatura por Juarez Ricci


Não gosto de escrever sobre futebol no blog. Tanto é, que foram raras as vezes que publiquei textos sobre o tema. As exceções estão aqui e também aqui. A principal razão para me esquivar de falar sobre o esporte bretão é simples: sei que, de forma ou outra, serei tendencioso. Em miúdos: puxarei sardinha para minha brasa, e isso, não acho justo.

Porém, nos últimos dias, um assunto em especial tem inflamado as manchetes da imprensa especializada e, claro, do Rio Grande do Sul: o possível retorno de Ronaldinho Gaúcho para o Grêmio de Futebol Portoalegrense. Não pude evitar. A possibilidade é real, o tema delicado. Hora de separar razão e emoção. Eis o que penso.

Já ouvi de torcedores opiniões distintas. Uns favoráveis outros contra a volta de Ronaldo ao Olímpico. Cada qual com suas razões. Respeito-os. A relação da torcida tricolor com o antigo ídolo é, por natureza, complexa. Parte da nação azul o ama e outra o detesta, o considera um traidor, um mercenário. Quando deixou o clube em 2001, a impressão que ficou não foi das melhores. Como dizem alguns, saiu pela porta dos fundos. Em suma, a birra da torcida tem justificativa, mas é, de certo ponto, exagerada.

Os tempos são outros e isso é o que preocupa.

Possível retorno de Ronaldinho Gaúcho ao Grêmio.
O que esperar?
Se por um lado, Ronaldo se tornou o melhor do mundo. Pentacampeão com a seleção, ídolo no Barcelona, responsável por momentos mágicos e de raro entendimento entre um homem e uma bola de futebol; por outro, de uns três anos para cá vem jogando tão somente para o gasto. Já não é o mesmo craque inconteste, ainda que tenha dado indicativos de que, ao menos, esteja focado em retornar a seleção e jogar um bom futebol.

Bom futebol. É preciso ter em mente que Gaúcho não voltará a ser o craque que foi no passado. Pode ser muito útil, se compromissado e engajado com clube, diretoria e torcedores. Em forma e focado em objetivos claros e, preferencialmente, coletivos, pode fazer a diferença dentro das quatro linhas. Não jogará como em seus melhores dias, mas tem consideráveis chances de encher os olhos dos amantes do futebol. Talento não lhe falta.

No entanto, a contratação de Ronaldinho representa um investimento excessivo para os padrões de um clube como o Grêmio e somente possível com parcerias oriundas da iniciativa privada. Fato: o Grêmio não tem dinheiro para trazer o jogador. Sonha, aposta no carinho da família e do jogador pelo clube e arrisca. Exatamente. Arrisca. A tentativa tricolor em repatriar Ronaldinho Gaúcho é tida como a mais alta cartada da nova diretoria para a disputa da Libertadores de 2011. Daquelas, como dizem em Porto Alegre, de encher aeroporto. Um risco alto. Oito ou oitenta. Sem meio termo. Ou dará certo e as conquistas virão ou será um fracasso o qual prefiro não tecer qualquer previsão.

O possível retorno do craque ao Olímpico é também a tacada inicial da nova direção, novamente nas mãos de Paulo Odone e que tem como meta, também, a inauguração da Arena em 2012. A empolgação pelo bom futebol apresentado na reta final do Campeonato Brasileiro serve como incentivo. Existe uma espinha dorsal dentre os – possíveis – onze titulares e algumas peças de reposição. Existe um treinador identificado com o clube, ídolo eterno e que conta com apoio incondicional de todos que torcem pelo mosqueteiro gaúcho.

O que não pode é fazer da negociação pela volta de Ronaldo ao clube a pedra fundamental e com isso se esquecer de outras carências do time. O tombo pode ser grande. O Grêmio precisa de planejamento para conquistar os títulos que necessita. Odone e Renato parecem estar em sintonia. Ronaldo é bem vindo, mas não pode, de jeito algum, se tornar em um investimento surreal de uma quantia que o clube não terá condições de pagar, em caso de insucesso. Há um velho ditado que diz que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes. Ronaldo Fenômeno se pagou na volta ao Brasil. O mesmo pode não acontecer com Gaúcho.

Leia mais, notícias publicadas pela imprensa esportiva e gaúcha sobre o caso:

27 de set. de 2010

A trinca da mesmice


São três os assuntos para os quais, dizem: não haver consenso: política, futebol e religião. Debater esses temas, de acordo com esta linha de entendimento, é, portanto, jamais encontrar um denominador comum. Nunca. Em hipótese alguma. Não adianta insistir.

Política, futebol e religião são temas subjetivos. Todos têm – ou acham ter – uma opinião formada sobre eles e, por mais absurdo que pareça, são capazes de defender seus posicionamentos a ferro e fogo.

Um militante de esquerda, por exemplo, vai votar no partido e nos candidatos que defendem esta ideologia, mesmo que este partido ou bandeira após oito anos no poder tenha demonstrado um perfil muito menos radical do que aquele que o fez iniciar a militância. Dialogar, num caso como este, é como tentar convencer alguém que o céu não é azul, mas, sim vermelho.

Talvez pior, seja fazer com que um debate entre um torcedor xiita do Grêmio e outro do Internacional tenha um vencedor. Por mais que existam argumentos que possam qualificar um perante o outro, nunca haverá consenso. Para os gremistas o tricolor continuará imortal e para os colorados o Inter, gigante, multi-campeão e por isso superior. O mesmo pode ser aplicado para o caso de um debate entre torcedores de Palmeiras e Corinthians ou Vasco e Flamengo. Haverá argumentos para engrandecerem tanto um lado como outro, consenso, porém, jamais.

Em se tratando de assuntos ligados ao divino também. Imagine um católico convicto, um pastor evangélico, um espírita e um adepto do candomblé tentando convencer um ao outro que sua teoria é a correta. Impossível. Ainda que os quatro empreendam um debate pela eternidade afora, nunca vão conseguir tornar um assunto tão complexo em unanimidade.

Política, Futebol e Religião além da falta de consenso, padecem de outro mal. O discurso de seus protagonistas é sempre o mesmo. Os candidatos a presidência da república participaram de vários debates, sempre com os mesmos discursos de sempre. As mesmas frases de efeito e as mesmas tentativas de convencimento furadas. Jogadores de futebol, falam a mesma coisa sempre que terminam uma partida e fanáticos religiosos dizem sempre a mesma coisa para convencer os fraquejados de espírito. 

Três temas que, no fim das contas, caem sempre na mesmice e só enganam os bobos.


12 de ago. de 2010

Convite negado

Esta manhã tive de negar um convite. Não tive alternativa. Em 2006, assisti a finais da Taça Libertadores que consagrou o Sport Club Internacional como campeão, quase que somando coro com este amigo que hoje também reside na capital gaúcha. Não me arrependo, embora jamais tenha ameaçado torcer novamente pelo colorado.

O coração é tricolor.

Sem ter conseguido ingresso para assistir in loco a partida decisiva contra o paraguaio Chivas, na próxima quarta-feira, o amigo colorado me convidou para acompanhar a final em um boteco qualquer da cidade baixa. Recusei.

O coração é insistente, e vai continuar a saga do sofrimento.

A que ponto chegamos.
Minha prima, também colorada, que estava totalmente por fora dos acontecimentos vermelhos, até tentou me convencer que eu seria bem aceito como torcedor colorado.

- Não, obrigado.

A única explicação razoável que encontro é que ela desconhece o que significa amar um clube. Sou e serei sempre apaixonado pelo Grêmio, ainda que este, por ora, esteja residindo no fundo do poço. As lembranças do bi da América, quinze anos atrás são para sempre, assim como, para o apaixonado torcedor colorado as lembranças do bi na próxima quarta-feira, também serão.



1 de jul. de 2010

O melhor zagueiro

                                                                                     Foto: Arquivo/Agência Estado

Fui escalado como zagueiro a contra gosto. Não queria jogar ali. Queria ser o segundo homem do meio campo. Gostava de distribuir a bola e fazer o jogo andar. Queria a número oito. No único treino que tivemos, esforcei-me pelo meu lugar na meia cancha. Corri, marquei, dei passes de profundidade, orientei meus companheiros. Terminei o treino confiante.

Quando o time foi escalado, no entanto, estranhei. E não podia ser diferente. Fiquei com o número quatro. Era, por fim, o quarto zagueiro do time da escola. Ao lado do Pelé, o xerife da zaga, o número três. Pelé, na verdade, era Rodrigo que do rei do futebol herdou somente o apelido. Estudávamos juntos e sempre éramos colocados na defesa. No campo e nas quadras. Oficialmente, nunca me queixei do saudoso professor Cléver. Acatei, joguei e não ganhei. Perdemos por um chocho um a zero. Uma falha grotesca de cobertura e para meu eterno desespero, justamente nas minhas costas.

Explico: a partida se aproximava do fim. O jogo se concentrava no meio campo. Era passe errado daqui. Passe errado dali. Depois de um bate-rebate na intermediária a bola veio em minha direção. Avancei como um touro para isolar a pelota. Não olhei para os lados. Apenas para a bola. Quando, enfim, me preparava para um dos chutes mais grosseiros da história do futebol juvenil, fui traído pelo ímpeto do meu volante que no melhor estilo varzeano entrou de carrinho.

Trombou comigo, com a bola e com um atacante adversário. A bola espirrou graciosamente na única brecha de gramado possível naquele momento. O ponta-direita, esperto, agradeceu e correu como uma gazela, ultrapassou Pelé, dominou a bola e de bate pronto mandou para o gol. Minha experiência como zagueiro terminava naquela tarde.

Para ser um bom beque é preciso, em primeiro lugar, ser bom cabeceador. Seja para afastar o perigo da própria pequena área, ou para se arriscar no campo adversário quando da cobrança de escanteios. Gesticular com todos a sua volta, indicando onde cada um deve se posicionar é, também, fundamental. Driblar não é preciso, salvo raras exceções. Basta fazer com que a bola se mantenha o mais distante possível da sua própria meta. Arriscar jogadas individuais está fora de cogitação, a não ser que você tenha tanto talento quanto Franz Beckenbauer ou, goste de fortes emoções, como o capitão Lúcio.

Em suma, zagueiro pra ser bom precisa exercer liderança, ter pulso firme. Na seara política é semelhante. Sobressaem-se aqueles que exercem liderança e tem pulso firme. Jaques Wagner, atual governador do Estado, espera ser novamente escalado com o número quatro. Quer ser novamente o capitão de todos baianos.

Wagner tem jeito de zagueiro do interior. Marrento. Daqueles que dá canelada no atacante para intimidar. Paulo Souto é zagueiro mais técnico, não gosta de chutões. É mais comedido. Prefere sair jogando com categoria o que nem sempre dá certo, afinal, a marcação às vezes não deixa que o jogo flua com tanta naturalidade. Geddel é daqueles que passa os noventa minutos reclamando da arbitragem. É advertido uma, duas vezes. Na terceira acaba pendurado, o que pode comprometer todo um sistema de jogo. Em suma, peca pelos excessos, embora, exceder-se de vez em quando não faz mal a ninguém. Em breve, as três opções citadas passarão pela avaliação de milhares de técnicos em toda Bahia. Um só será eleito. Escalado para ditar as regras do povo baiano pelos próximos quatro anos. Pergunto: Quem será o melhor zagueiro: Wagner, Souto ou Geddel.

18 de jun. de 2010

Um voto contra a Copa no Brasil

Há cerca de dois ou três anos, não lembro bem, um velho amigo, colega dos tempos de colegial e advogado de excelente naipe convidou-me para ir a África assistir a Copa do Mundo. Á época meus bolsos estavam todos com um furo largo e que por esta razão não me dava garantias financeiras nenhuma de, sequer, sonhar com tal possibilidade.

A ideia de assistir in loco, ao menos, algumas partidas da décima nona Copa do Mundo da FIFA foi por terra. Nada pude fazer. Nesse ínterim, o Brasil emergiu como sede da próxima copa, a vigésima. Eis a oportunidade de se fazer presente in loco numa Copa do Mundo.

Porém, cético e desconfiado como sou, passei a desacreditar a realização desta copa em terra brasilis. Somos um país de corruptos, como o perdão da expressão. Fazemos “gato” para ter TV por assinatura. Sentimos orgulho em contar isso para os amigos e quem quer que seja. Achamos sempre, que o jeitinho brasileiro dá conta de tudo. Elegemos pessoas à semelhança de nosso caricato perfil e ainda assim, achamos que pelo simples fato de sermos pentacampeões e vivermos a base de esmolas é garantia de qualidade na organização de uma Copa do Mundo.

Eu deixo bem claro minha opinião, NÃO ACHO. Pelo modo como a banda vem tocando, a cada dia me torno mais e mais contrário a realização desta copa no continente chamado Brasil.

No texto a seguir, o jornalista de Zero Hora, David Coimbra, escreve sobre os furos da Copa da África, vale lembrar, com os olhos, o coração e coerência de quem está no país de Mandela.

No final do consistente artigo, o aviso:


“E agora, Brasil?
O que o fracasso da Copa africana pode causar à Copa brasileira?
Dor. Não há dúvida.
Os homens da Fifa já identificaram os pontos frágeis da organização da África do Sul, já demonstraram seu desagrado e decerto não aceitarão que tal se repita no Brasil. Haverá cobranças. E cobranças duras. Se o Brasil não se organizar, é provável que o fiasco não ocorra durante a Copa. É provável que ocorra antes dela”.

6 de abr. de 2009

Vá e não volte

Foto: Extraída do Blog do Braian
Poucas vezes senti tanto alívio depois de uma derrota em clássico. Acho que nunca. Primeira vez. Espero que única. Perder um grenal é horrível, mesmo que tenha se tornado praxe, depois de quatro derrotas em sequência.

Não costumo e não gosto de escrever sobre futebol. É tema demasiado passional. Cansativo e que aflora sentimentos quase doentios. Minha paixão pelo tricolor da Azenha é assim. Louca. Insana. Imortal.

Esse texto envereda-se pelo mesmo trilho: a passionalidade.

Pouco me importa os méritos do adversário. Prefiro me ater aos deméritos do tricolor a exaltar as óbvias qualidades do saci colorado. Alegrem-se, vos digo. São merecedores dos feitos e frutos hoje colhidos. Exemplo. Ponto. Nada mais a declarar sobre os que vestem vermelho.

Duas coisas parecem cruciais para a campanha sofrível do tricolor na temporada. A falta de pontaria dos atacantes e a teimosia do seu – graças aos deuses – ex-treinador e, também, de seus dirigentes.

Em três jogos pela Libertadores foram mais de 30 chances claras de gol desperdiçadas. Um abuso. Ridículo para um clube bi campeão nacional e bi da América. Uma vergonha. Incompetência em estado bruto.

O ex-comandante merece a mesma adjetivação. Incompetente. Teimoso. Covarde. E não existem justificativas para três derrotas em menos de 60 dias para o maior rival. Jogar bem, criar chances e não ser efetivo no ataque não é apenas casualidade ou falta de sorte.

A mesma trinca de adjetivos pejorativos delego aos dirigentes do clube. Recapitulando: incompetentes, teimosos, covardes.

No grenal que decidiu o título da Taça Fernando de Carvalho, Celso tão logo empatou a partida e vinha melhor em campo, tratou de colocar um defensor. Pra que, pergunto. Acuou-se ante um adversário tecnicamente superior e com uma dupla de ataque infernal.

Pediu para perder, só pode.

Afora que enfileirou partidas com time reserva pelo gauchão. Perdeu pontos preciosos e demonstrou a todos a falta de comando e ruptura que há dentro do grupo. É impossível, como torcedor, crer que haja algum grupo consolidado no Olímpico. O Grêmio 2009 é de uma mediocridade tão inconteste, capaz de fazer seu torcedor comemorar, mesmo depois de perder 4 grenais consecutivos a demissão do treinador.

Pouco para quem sonha (va) com o tri da América. Vai-te embora e não volte nunca mais.

3 de abr. de 2009

Quem bate o pênalti

Nos tempos de escola era dos mais requisitados para bater pênaltis. A bem da verdade nunca gostei de ser o cobrador oficial de pênaltis da classe. Considerava responsabilidade demais. Podia ir do céu ao inferno em segundos. Para isso, bastava mandar a bola para longe das redes ou para as mãos do goleiro adversário.

Tremia só de pensar.

Certa feita fomos disputar um torneio regional. Sonhávamos em voltar campeões. Consagrados. Nosso time teve a felicidade de cair de imediato na repescagem. Em caso de vitória na primeira partida na competição, estaríamos classificados para a disputa das finais. Vibramos. Contamos vitória. Nem pensamos na hipótese de perder e sermos eliminados.

Entretanto, quando a bola rolou o que se viu foi uma apatia completa. De ambas as partes. Um zero a zero sofrível, com ínfimas chances de gol de lado a lado. O jeito foi uma disputa simples e rápida por pênaltis. Cada time teria uma única cobrança. Quem desperdiçasse a sua seria eliminado.

Recebi a notícia que seria o batedor do meu time ainda no gramado:


O texto na íntegra pode ser lido aqui

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Lamento pelo formato de publicação do referito portal, mas não apito muito nesse sentido. Confesso que a foto ficou muito mal colocada. A cada dia o ditado se faz mais verdadeiro: de boas intenções o inferno tá cheio. Porém, boa leitura.

8 de dez. de 2008

Torcedor de futebol


Ser torcedor de futebol é variar momentos de alegria e tristeza em fração de segundos. É mais, e muito mais que isso, mas a afirmativa inicial ajuda a sintetizar o que é ser um torcedor de futebol, independente do time pelo qual o cidadão se impacienta, roe as unhas, faz preces, mandingas. Ri e chora.

Em 1995 o Grêmio disputava o bi da Taça Libertadores. Vitória no Olímpico por três tentos a um e ampla vantagem para o jogo de volta em Medelin. Tudo conspirava a favor. Era chegada a hora de gritar “é campeão” e extravasar a felicidade de uma grande conquista. Recordo ter fumado, eu e um amigo, uma carteira de cigarro em quarenta e cinco minutos. Dez para cada um. Média de um cigarro a cada quatro minutos e meio.

O Grêmio sagrou-se campeão. Empatou em um a um e levantou o caneco. Antes de dar o primeiro pulo e grito, o amigo já corria alucinadamente agitando uma camisa do time na mão direita e berrando feito louco. Só fomos nos abraçar aquela noite uma meia hora depois do fim do jogo. Poucos meses antes, esse mesmo amigo chorou copiosamente na derrota para o Corinthians pela Copa do Brasil e num instante de fúria arrancou a camisa tricolor que vestia e a vestiu ao avesso, segundo ele, para protestar. Vai saber. Torcedor é torcedor.

Eu parei de fumar, ele não. O Grêmio caiu para segunda divisão, voltou e fez do jogo da volta um episódio homérico para sua história. A ponto de inflamar sua torcida. Ontem vitimado pelos próprios erros e pelas restrições do seu elenco comemorou um vice campeonato de um certame que tinha tudo para ter ganho. Pela torcida, claro, não há outra explicação. A magia da nação tricolor transformou um relés segundo lugar em festejo.

E nessas horas, pode-se traduzir a magia dos estádios de futebol. A mesma magia de torcedor que esteve presente na Arena da Baixada na vitória do Atlético/PR contra o Flamengo que livrou o campeão de 2001 do rebaixamento; na torcida da raposa no Mineirão na vitória ante a Lusa e a vaga para a Libertadores assegurada; na torcida do tricolor paulista uma vez mais campeão e também, na torcida do Vasco da Gama. Lágrimas. Desespero. Paixão. Um apaixonado cruz maltino ameaça se jogar da marquise de São Januário. Pra que? Por amor a um clube de futebol, e nada mais?ta

Quem explica o sentimento de um torcedor. O mesmo que chora a perda ou conquista de um título e a vergonha de um rebaixamento. Quem explica as horas de discussão entre torcedores rivais, mesmo que no fundo, ambos saibam que de nada vai adiantar flautear o rival. Enfim, de que adianta ser torcedor de futebol?

5 de nov. de 2008

Nada além de uma grande ilusão


O raio caiu no mesmo lugar pela segunda vez. E parece que foi atraído, chamado. Pode cair, vá, caia de uma vez. Desde a Batalha dos Aflitos o torcedor gremista transformou-se num ser muitíssimo mal acostumado. Transpôs a barreira do “crer em milagres” para viver numa redoma onde o “viver a custa de milagres” é a regra determinante.

A perda do título brasileiro é a prova. O tricolor foi líder por 17 rodadas. Fez campanha no primeiro turno com direito a vitórias homéricas e consagradoras: 7x1 no Figueirense em Santa Catarina, 3x0 no Goiás em Goiânia, 4x1 no Atlético/MG em Belo Horizonte. Dava gosto de ver. O time que começou o certame pensando em não cair, acumulava pontos e enchia de orgulho seu apaixonado torcedor.

Porém a casa caiu. A farsa foi revelada. Não tínhamos time para ser campeão. Bom, até tínhamos, mas sem Eduardo Costa e Roger a qualidade aos poucos foi pro brejo. Os operários da Azenha deram sinais claros que não passam de operários e não há nada que faça a diferença em favor do time para a conquista do tão sonhado tri campeonato.

O porém é que o torcedor gremista vive de ilusões. Desde os Aflitos em 2008. Uma ilusão atrás da outra. O título do gaúchão de 2006 ante o – então – fortíssimo time colorado e a virada histórica contra o Caxias no Gauchão 2007, deram a torcida um “Q” de fanatismo religioso. A Libertadores do mesmo ano está aí para comprovar.

Nenhum gremista duvidava que o time reverteria o placar adverso de 3x0 no Olímpico frente o Boca de Riquelme e Palermo. Até profecias de Nostradamus alguns utilizaram para elucidar que o Grêmio iria vencer. Nada disso aconteceu. E a história todos conhecem. Fingiram esquecer. Sim, fingiram, pois ela está de volta. O time medíocre do Grêmio viveu uma doce ilusão de conquistar o título brasileiro. A torcida chorominga. Claro, mas é preciso ter os pés no chão. Afinal, fomos longe demais pelas peças que tínhamos. A ilusão acabou.

PS: Ainda com a tal “ilusão” reverberando no meu peito, espero morder a língua pelo que disse nesse texto ao final do campeonato, muito embora, ache que o Grêmio vá terminar a contenda em quinto e o São Paulo será tri. INFELIZMENTE.