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9 de mai. de 2011

E no fim das contas, 'só sei que nada sei'

A imagem é meramente ilustrativa e foi criada para uma campanha francesa
de combate à exclusão social


À primeira vista, tive vontade de rir. A cena, inusitada, era também engraçada, embora seja reflexo de uma realidade caótica que, indiretamente, afeta a todos nós. Sentada no meio fio da frente de um estabelecimento comercial qualquer, quase no meio do trecho de rua entre duas movimentadas avenidas e em pleno meio dia de um domingo cinzento, uma pessoa, a qual a princípio me pareceu ser uma mulher, cortava o próprio cabelo, curto e pintado numa tonalidade que pode ser traduzida como um vermelho candente.

As roupas que vestia aparentavam estar desgastadas de tanto uso. Algumas bijuterias, nas mãos, pescoço e no cabelo, ajudavam na suspeita de se tratar de uma mulher. Ao lado, um carrinho de supermercado continha o que, aparentemente, eram todos seus pertences, algumas peças de roupa, cobertores velhos e papelão. Pelo trejeito, embora não tenha tido chance de comprovar, o auto corte de cabelo pareceu contar com auxílio de um espelho, além, obviamente de uma tesoura, daquelas pequenas que as escolas exigem como parte do material escolar das crianças.

Avesso às dificuldades e circunstâncias, e ainda que não saiba bulhufas sobre qualquer procedimento profissional de um cabeleireiro, arrisco dizer que o morador (ou moradora) de rua saia-se muitíssimo bem com seu corte. Envolto em uma repentina vontade de gargalhar do que via, em segundos, fui inundado por um mar de sentimentos. De maus a bons. O primeiro deles foi pena. O número de moradores de rua, não só em Porto Alegre, mas em outras capitais brasileiras e até mesmo cidades interioranas, aumenta vertiginosamente. São pessoas esquecidas. Nada respeitadas e que vagueiam pedindo esmolas e revirando lixo. Desiludidas e sem esperança. Um problema social grave e que parece estar longe de solução.

Embora se discuta a implantação de programas de assistência para erradicação da pobreza, confesso preferir o ceticismo, pois, de boas intenções, como diz o velho ditado, o inferno está cheio. Justifico: a política é uma seara inconteste de tentativas frustradas ou mal intencionadas de se promover mudanças significativas e para o bem coletivo. Basta olhar em volta para se ter a prova. Os investimentos em qualquer área são feitos em escala muito inferior ao crescimento e desenvolvimento da população, isto, quando não acontecem crivados de escândalos, desvios de recursos e abusos de toda ordem, seja nos grandes centros urbanos, seja nas pequenas cidades do interior, onde, em partes, ainda persiste a medonha política da concentração de poder e do coronelismo.

O morador ou moradora de rua de cabelos avermelhados, se por um lado, pode ser considerado exceção, em meio a uma infinidade de outros que não se dão ao luxo de manter os cabelos alinhados, faz parte de um cenário que envergonha, ou, no mínimo, deveria envergonhar. A mim, a você, a todos nós. A razão é muito simples: não sabemos lidar com o problema. Ninguém. Da Presidente da República ao gari ou a garota de programa que bate ponto na esquina de onde o morador de rua cortava o próprio cabelo.

O brasileiro pode ser o rei do “migué”, mas é indeciso, acomodado e como a maioria dos seres humanos, individualista. Só há comoção e ondas de solidariedade em casos extraordinários como tragédias naturais, ou que envolvam um forte apelo popular e emotivo. Em relação à mendicância, pouco ou nada é feito. Em partes, devido ao fato de muitas vezes os moradores de rua viveram da forma como vivem por opção e não por falta de oportunidades como, a primeira vista, pode-se suspeitar. Em outras, porque a mudança necessária para tirar das ruas pessoas em condições sobre-humanas é muito maior que a boa vontade e os interesses daqueles que respondem pelas fatias do bolo que são distribuídas todo ano no país. Talvez, até 2014 alguma atitude emergencial seja tomada, nem que seja para varrer os moradores de rua para debaixo do tapete até que os gringos de esbaldem e o brasileiro grite a plenos pulmões: “é hexa, é hexa”.

Em questão de meia hora, passei pelo morador de rua duas vezes. Na segunda, pude tirar a prova sobre o sexo do bendito e para minha surpresa, não era uma mulher, mas sim um homem que cortava os próprios cabelos. Àquela altura o morador de rua cantava, como se ferido, apunhalado no coração. Uma melodia sertaneja que de tão medonha esqueci já quando atravessava a Avenida Farrapos. Lembrei somente de Sócrates, o filósofo e sua famosa frase: “Só sei que nada sei”. E talvez, ninguém mais saiba.

22 de abr. de 2011

Quero parar de roer as unhas


A ponta do dedo indicador da mão direita dói. Roí tanto a unha que consegui machucar a carne. Está vermelho, inchado e febril meu pobre dedo. Chove. A água que despenca dos céus, em contato com o zinco do puxadinho do 101 faz barulho. Tenho jornais, revistas e livros a minha volta. Leituras inacabadas. Minha mesa está um caos. Na tela do computador páginas e mais páginas abertas de sites, portais, blogs. Twitter, facebook e outros.

Informação, informação, informação. Rapidez. Velocidade. Chego a conclusão que não “pertenço” a esse mundo. Levo as mãos à cabeça. Por mais que tente não consigo assimilar tudo que se passa. Não sei o que é novidade, o que não é. Os jornais parecem todos velhos, embora tenham cheiro de novo. De banca. As revistas inventam. São folheadas. Abandonadas. Talvez tenham mais sorte em um consultório de dentista. Devo ter ficado aprisionado em algum lugar entre o meio e o final da década de 1990, talvez nos oitenta.

Temo pelo futuro. Será que a tecnologia que atropela e empurra tudo para dentro de netbooks, iPhones, iPads, tablets e etecetera e etecetera, será acessível a um número razoável de pessoas, ou muitos verão a banda passar, chupando o dedo sem saber o que é usar um iPad ou ver televisão com qualidade e programação adequada a digitalização?

Talvez a pergunta que tenha de se fazer seja outra, afinal, ter acesso não é sinônimo de saber manusear e usufruir de todas essas benesses. No entanto, será que alguém se importa com isso? Eu, particularmente, duvido muito.

Vender é o que se quer. A todo custo. Quanto mais, melhor. A tendência, triste mais real, é que tudo se torne descartável. Computadores, celulares, sapatos, músicas. O barato não é trocar o vídeo cassete por um leitor de DVD. Eu paguei caro e em seis parceiras o meu e hoje se fala e se vende filmes, shows e tudo o mais em blu-ray. Amanhã, provável que esta tecnologia seja substituída por outra com vida útil ainda menor.

O barato é publicar fotos em tempo real onde quer que se esteja nas redes de relacionamento na internet. É viver quase que em função exclusiva de um celular. É ter a capacidade de exercer o maior número de tarefas, ainda que de forma não mais que razoável, no menor espaço de tempo possível. O barato é viver superficialmente. Começar e talvez não terminar. Compartilhar. Curtir.

Tudo que quero é meu velho toca discos de volta. Sentir o chiado da agulha no vinil. Desligar as luzes e esquecer da vida com o 2112 do Rush. Não quero ficar enrustido em fones de ouvido acoplados em malditos celulares sensíveis ao toque. Quero receber cartas. Escritas a mão. Quero saber como é a caligrafia do meu amor. O jeito que as letras são formadas, desenhadas. Quero Cartões de Natal. De Aniversário. Quero a beira do mar. O barulho das ondas. O sossego. A paz. Tirar o pé do acelerador.

Parar de roer unha. Sim. Parar de roer unha. Meu dedo ainda dói.


4 de abr. de 2011

Mulher-Maravilha

Suspeitei no olhar. Alguma coisa havia de diferente naquela mulher. Não podia ser uma simples filha de Eva. Olhando daquele jeito, definitivamente, não podia. Era uma mulher especial. Diferente. Embora no fundo eu soubesse, de início dei pouca importância a minha suspeita.

Era o olhar que me tirava do sério. Nunca tinha visto uma mulher com um olhar daqueles. Hipnotizante. Uma flechada invisível e certeira.

Ela falava pouco. Fazia o tipo observadora. Não caminhava. Desfilava. Um charme. Eu, bobo, Não parava de pensar.

Quem era ela afinal?

Os longos cabelos negros, o olhar, o jeito de se comportar. Fechei os olhos. O que vi ou imaginei ou sei lá o quê foi tal qual uma revelação. Entre tantas mulheres vestidas como a heroína dos quadrinhos, eu estava diante da verdadeira. Só podia ser. A verdadeira mulher maravilha estava comigo. Sem os trajes característicos, ou os braceletes, ou o laço e sem poder usar seus super poderes. Mas, era a mulher maravilha. Só podia ser a Mulher-Maravilha. Quem mais. Eu tinha descoberto a identidade secreta da Mulher-Maravilha.

Quando ela voltou, tentei conversar sobre a revelação.

- Eu sei quem você é.

- Quê?

- Sim, eu sei. Você é a Mulher-Maravilha. A verdadeira Mulher-Maravilha. Não precisa esconder isso de mim.

- Mulher o quê?

- Mulher-Maravilha. Você.

- Hmm..ai ai...só você mesmo.

Nesse instante, os olhos castanhos escuros [N.E: devia estar usando uma lente ou algum poder especial já que a dos quadrinhos tinha os olhos azuis] quase me fizeram congelar. Ela riu. Beijou-me os lábios encostou o rosto no meu peito e continuou sorrindo.

- Seu bobo. Adoro seu jeitinho.

Ainda assim mantinha a certeza. Era ela. De mãos dadas e caminhando pela avenida quase deserta eu ria e tentava controlar minha vontade de gritar para todos ouvirem.

- Eu estou com a Mulher-Maravilha, não é o máximo.

Rindo ela me pediu para não fazer escândalo. Falou com maciez

- Não consigo imaginar onde é que você tirou essa ideia de Mulher-Maravilha.

Continuamos o percurso. Eu estava escandalosamente obcecado com a minha revelação e a ideia e estar diante da verdadeira mulher maravilha. Quando a beijei pela última vez naquela noite, observei-a um pouco mais. Ela olhou para trás e riu. Eu acenei, coloquei mãos no bolso e recriminei o fato de nunca ter sido fã de histórias em quadrinhos.



3 de abr. de 2011

Talvez


O cursor pisca vagarosamente na tela em branco. De novo. É a terceira vez essa semana. Apagão. Mãos a cabeça. Concluo: 

- Falta inspiração para escrever. O texto não está fluindo. 

Saio. Desço os quatro lances de escada. Olho para rua em aclive. Subo, depois desço. Redenção. Caminho. Canso. Volto. Subo os quatro lances de escada. Respiro. Estou cansado. Constato, ofegante: 

- Estou fora de forma. 

Volto para o computador. O cursor piscando me irrita. Coloco água no fogo. Vou ao banheiro. Xixi. Descarga. Lavo as mãos. Volto para a cozinha. Preparo um café. Bebo uma generosa xícara. Pouco açúcar. O aroma talvez ajude a escrever, espero.

Penso. Uma, duas, três. Demais. O tempo passa e nada. 

A tela continua em branco. Ideias. Desespero. Abro as janelas. Do quarto. Ar fresco. Da internet. Distração. Nada que ajude. As ideias continuam vagas. Passeiam com sofreguidão. Nenhuma agrada. Penso:

- Vou desistir. Quem sabe na quarta vez, tenha mais sorte com as letras. 

O cursor, por fim, continua piscando, tão vagarosamente como antes. Decido. Aperto o botão. Desligo. Off. Cato um livro. Folheio. Penso. Preciso me concentrar. Leio. Cochilo. Fica pra próxima. Talvez na quarta tentativa o cursor deixe de piscar na tela em branco. Talvez.



3 de dez. de 2010

A pequena atrás do balcão

[Barros com Independência, quase lá. Foto: Adriano Comissoli]


Descia a rua de casa, na altura do Salão do Gomes, com duas sacolas plásticas de supermercado à mão, pão, papel higiênico, iogurte, presunto de peru, quando pensei que talvez devesse ter dito umas palavras a mais para ela. Afinal, ela havia sorrido. Coincidência como a que motivou o riso solto e convidativo, acho difícil voltar acontecer.

Já havia notado a presença dela. Pequena, pele morena, com poucos porém chamativos pelinhos nos braços, olhos escuros, porém profundos. A notei num domingo. Tão logo entrei no mercadinho, a vi passando ao meu lado. Percebi nos olhos dela algo diferente. Não soube o que. Depois daquele dia, a tinha visto, tão somente, uma vez. Deixei de lado.

Até esta tarde. Estava em dúvida sobre o que pedir. Ela quase desaparece por detrás do balcão. Uma graça. A touca esconde os cabelos escuros, os quais, ando enlouquecido para saber como são: livres, soltos, por sobre os ombros. Pedi quatro pãezinhos e, como acompanhamento, cento e cinqüenta gramas de presunto de peru. Nada mais.

Surpresa minha, quando as delicadas mãozinhas dela acertaram a medida e conseguiram retirar exatos cento e cinqüenta gramas de presunto de peru da prateleira. Não soube esconder a surpresa.

Disse:

- Uau, certeira!

Foi ai que ela riu. Foi ai que eu devia ter aproveitado. O sorriso era a deixa. Estava longe quando percebi que deixará passar a chance. Já no limiar da Cristóvão Colombo, por onde passa o Chácara das Pedras antes de subir pela Barros Cassal e pegar a Independência, atravessando a rua e assistindo o grupo de velhinhos que rotineiramente se empoleiram em caixas de madeira para conversar. Sempre assim, depois das dezoito horas.

Era tarde demais para mim. Perdi o sorriso. A chance.

Mas o que poderia ter feito. A chave já se contorcia na fechadura da porta do prédio. Já estava em casa. Refugiado. Com as duas sacolas de plástico e com doze reais a menos no bolso. Talvez, se tivesse dito algo a mais, ela entendesse de forma errada. Porém, é possível, que fosse justamente isso que ela esperava. Que eu falasse mais que “ual, certeira!”.

As chances de ela voltar a ser tão precisa nas cento e cinqüenta gramas de presunto de peru são mínimas. Não vou perder meu tempo com isso. Já estou no segundo copo de iogurte e ainda penso. Ela sorriu. Eu gostei do sorriso. Gostei dos olhos, do jeito e estou, quase em pânico de curiosidade, para saber como são os cabelos sem a bendita touca. Irei lá amanhã. Na primeira hora. Não. Talvez seja precipitado. Esperar para quê, ora pois? O que falar, meu deus.

O que sei, tão somente, é que preciso ser certeiro, tanto quanto ela.

2 de dez. de 2010

Tempo de autorreflexão

Embora o Papai Noel esteja com pressa, dezembro, normalmente é um mês desacelerado / Foto: Google


Dezembro é um mês atípico. Menos acelerado que os outros 11. Um período em que as atenções – naturalmente – se voltam para os festejos de final de ano: Natal e Reveillon. O comércio se veste de vermelho. As vendedoras têm de usar gorrinhos na cabeça e em alguns casos, um funcionário vira Papai Noel, com direito a barba feita de algodão e balinhas de R$ 1,99 para distribuir aos clientes. Abusa-se de símbolos característicos do período para encantar e, claro, persuadir quem quer que se atreva a entrar em uma loja e mesmo passar diante de sua vitrine.

É por isso, e por outras também, que dezembro amolece os seres humanos. Na teoria, engaveta, durante seus 31 dias, problemas, rixas, desavenças e picuinhas. Tudo é alegria no último mês do ano. Dezembro é menos adulto, mais criança. Menos sisudo e muito mais puro e jovial. Este clima – entre aspas – menos sério não impede de o período ser tido por homens e mulheres como um momento perfeito para uma autorreflexão.

Em dezembro, mais cedo ou mais tarde, será hora de avaliar o que foi feito durante o ano. O que pode ser melhorado, o que era para ter sido feito, mas acabou adiado. Planos vindouros, breves projeções, possíveis viagens. Onde se errou, onde se acertou. Dezembro é perfeito para isto. Dificilmente, alguém arrisca uma reflexão de si mesmo em outro momento do ano, a não ser que seja acometido por uma hecatombe. De resto, quando o mês no calendário for 12, os supermercados começarem a tocar canções natalinas e as casas e praças forem enfeitadas com luzes, renas, e tudo quanto o mais estiver associado ao Natal, é sinal que, mesmo sem querer, você vai fazer uma autorreflexão.

De vez em quando, uma autorreflexão vem a calhar
/ Foto: Carolina Tanase
Fazer este exercício é importante. Pode soar clichê, piegas, desnecessário, mas é importante. Ajuda no crescimento individual, a evitar novos erros, ou arquitetar novos acertos. Veja o que diz um professor da Universidade de Stanford, Estados Unidos, Albert Bandura, sobre isso: é através da autorreflexão que as pessoas exploram suas próprias cognições, habilidades, se autoavaliam, planejam novas ações, novas estratégias, novos desafios e modificam seu comportamento. Bingo. Todos devem realizar uma autorreflexão, ainda mais depois da mudança na ortografia, que a palavra virou uma só e com dois erres.

O que não pode, e talvez, seja o grande problema de todos nós – incluo-me na lista –, é depois de feita a minuciosa autoanálise, prometer mil e uma mudanças, e já no primeiro dia útil de janeiro, continuar igual ou pior que antes. Voltar a escrever a palavra de forma separada e com um só erre, nem pensar. Pecado, injúria e difamação, todos juntos num só.  

A autorreflexão vale lembrar, só terá sentido se desprendida de preconceitos, manias e teimosices, portanto, é bem possível que para alguns tipos não faça diferença alguma. Políticos por exemplo. São teimosos e acreditam nas próprias mentiras. As repetem tanto e estão tão acostumados com a morosidade do setor público que talvez, com muita boa vontade, consigam aprender a dar o nó da própria gravata. Os pobres são outro exemplo interessante. Aprenderam a acreditar cegamente nas mentiras ditas pelos políticos que acabaram – exceções existem, não se esqueçam – se acomodando e se contentando com migalhas. Reclamam aos montes, e às vezes esquecem de olhar para o próprio umbigo. Para estes dois casos, uma autorreflexão é quase inútil se feita sob um viés preconceituoso e empanzinado de teimosia. No entanto, como roga o ditado: toda tentativa é válida. Mãos a obra.



30 de nov. de 2010

Igualdade, intolerância, Huxley, Orwell...

Se fôssemos todos iguais, o mundo
seria uma chatice só

Levante os braços e agradeça por sermos diferentes uns dos outros. Imagine se fossemos todos iguais. Não haveria diversidade e, logo, combustível para a engrenagem que faz a carruagem seguir em frente manter o prumo. 

O mundo seria bestialmente chato. 

Se todos fossem tímidos, não haveria, praticamente, interação social. Cada qual em seu mundo, confabulando, teorizando e nada fazendo. Se fosse o contrário, as orgias, é bem possível, seriam infinitas, regadas a um falatório insuportável. Brigas, discussões, bacanais de toda ordem, um completo esculhambo. A junção destes e outros tipos fazem do viver uma arte, às vezes, bela, às vezes, triste. Pena sermos tão intolerantes. Depois tratamos disso.

O planeta precisa dos chatos, tanto quanto precisa dos nerds, dos extravagantes, dos reclusos. Faz parte de uma ordem natural, talvez, aquém nosso – sempre restrito – conhecimento. Mais: se houvesse igualdade em tudo e todo lugar, adeus clubes de futebol. Jogos na quarta e no domingo. Cerveja gelada, churrasco e flauta com o adversário. Ora, pois, que razão haveria para alguém torcer para um time em vez de outro? Nenhuma. Seriam todos iguais. O esporte, por si, não faria sentido. Nenhum deles. Música e artes e política. Idem. O mundo como o conhecemos não existiria. Por enes motivos. Uns bons outros maus. Seria, apenas, diferente e difícil de imaginá-lo.

Aldous Huxley, no longevo ano de 1932, ousou tratar de um mundo sem diferenças no clássico literário “Admirável Mundo Novo”. George Orwell, no também clássico e não menos atemporal, “1984”, foi outro que se predispôs a imaginar um mundo diferente deste como conhecemos e vivemos. Em ambos, apesar de contextos díspares, os seres humanos são incentivados pela eficácia da repetição – desde bebês – a seguirem regras tidas como imutáveis. Como se fosse o único caminho e modo de pensar e agir. Os dois livros são indispensáveis e altamente recomendados. Leiam, releiam, e teçam suas próprias considerações ao final.

O clássico de Huxley é sempre uma
boa pedida de leitura
Na impossibilidade de se recriar um mundo, semelhante ao descrito nas páginas dos livros de Huxley e Orwell, a força e a imposição de determinada ideia, ainda que feita à base de gratuita violência, transformaram-se em alternativa para imposição de uma falsa igualdade. Guardadas as devidas dimensões de comparação, o que protagonizou Adolf Hitler com o massacre de milhões de judeus e sua tresloucada tentativa de fazer emergir a tal supremacia ariana, pode-se traduzir como exemplo para o que se discute. Aliás, existem outros exemplos talhados com sangue inocente em que se tentou transformar uma ideologia em regra de convívio universal ou de um conglomerado de gente. Ditaduras (ou princípios de) se espalham, ainda hoje pelo globo, vide os casos de Venezuela e Coreia do Norte, por exemplo. Em todos estes e outros mais, o triunfar da intolerância. A propósito, os males todos que somos obrigados a assistir diariamente são fruto da falta de tolerância entre os homens.

Pena.

Se, por um lado, as diferenças entre os seres humanos são motivo para arquear os braços em comemoração, por outro, a intolerância e mania de uns poucos em não aceitar a diversidade, tentando impor suas vontades goela a baixo dos discordantes é, e sempre será, motivo de repulsa. Os seres humanos não foram concebidos para serem iguais uns aos outros. Não há de ser um livro ou dois, ou mesmo a ilusão de um ou outro mentecapto como fora Hitler e o é Chavez que transformará para pior este mundo. Viva as diferenças, abaixo a repressão, a intolerância e o achismo de uma minoria em fazer do ambiente em que vivem seu parque de diversões particular.

A única igualdade que conseguiram incutir, infelizmente, no imaginário popular até hoje é que todos podem ser jornalistas, assim, com um estalar de dedos.



11 de nov. de 2010

Ah, o mar

[Tem momentos em que estar fora de forma é tão somente um detalhe insignificante. Foto: @bruna_pires]

Ah, o mar. 


Verão chegando. 


Saudade da água salobra, da areia e dos marquinhas de biquini. 


Aguarde imenso azul, um dia irei para ficar.



19 de jul. de 2009

Sungas, havaianas e protetor solar

Foto: Anton Roos
[ Praia do Morro do Careca - Natal /RN]

Das piores a sensação de ter sempre uma serpente disposta a lhe picar o tendão de Aquiles. Não se pode mais confiar. Essa é a mensagem. Quem confia em demasia está fadado a ver seu tapete puxado, sem cerimônias ou escusas. O fato é que de fato não se pode mais confiar. Em ninguém. As serpentes estão por todo lugar e toda parte.
No entanto, tanta desconfiança torna – na teoria – o mundo em lugar impossível de se habitar. Milhões de indivíduos solitários e melindrados? É isso que nos tornamos? Benzadeus, um enorme covil de peçonhentas prontas para dar o bote? Óquei prometo a última interrogação do parágrafo: será possível não existir um lugar que seja habitável nesse planeta?
Pois eu acredito. Ao menos acredito que acreditar seja a única saída. Não levo jeito na arte de puxar o tapete ou picar o tendão de ninguém. Só não gostaria de chegar a conclusão que um isolamento quase que completo seja a alternativa ideal. À praia e avante. Mas antes, sem esquecer de estocar sungas, havaianas e protetor solar.

29 de mar. de 2009

Decepção

Foto: Anton Roos

Pedi auxílio e socorro para o meu velho dicionário em pedaços. Decepção era a palavra que procurava. Precisava definir o que sentia, ou achava sentir. Uma resposta. Será que tudo se justifica por malograr-se e mais nada. Desiludir-se. Pensei em razões que fizesse salutar a tal decepção. Por fim, não encontrei.

A bem da verdade não há. Esse é o ponto. Decepcionar-se com algo ou alguém ou alguma coisa é tudo, menos permanente. A decepção é puramente particular, dado àquilo que se crê e se considera em relação ao mundo, a vida, a sociedade e "talecoisa". Melhor: é algo momentâneo e evasivo.

O fato de se considerar decepcionado com alguém, por exemplo, exprime o que se quer ou se projeta sobre o mundo, não o que de fato a outra pessoa é. E não se pode querer que os outros sejam aquilo que você quer que elas sejam. Não se pode. De jeito nenhum. Decepção não deveria existir, talvez uns tombos como forma de aprendizado. Mas decepção não. Isso não.

12 de fev. de 2009

O sentido da vida

Não posso negar: às vezes sou um cara por demais pretensioso. Claro, ora pois, é petulante discorrer sobre o sentido da vida, ou, no mínimo, um devaneio divagar acerca de tema tão complexo. Todavia, existem questionamentos que insistem em atormentar meus dias: Porque cargas d’água afinal somos o que somos? E qual a razão de sermos e fazermos parte de um enorme mecanismo funcional e indubitavelmente coletivo?

Confesso que não sei. Já pensei tanto sobre que a conclusão mais sensata foi atestar minha total ignorância para com o tema. Não sei e não me envergonho por isso. Também não me abstenho de um dia, quem sabe, ser acometido por uma revelação mediúnica que abrirá diante dos meus olhos o livro das revelações do sentido da existência humana na Terra. Ufa.Importa dizer que hoje não sei qual é o sentido da vida. Ao menos da minha.

Os apressados podem usar de todo e qualquer argumento tido como lógico para contestar o que escrevi nos dois primeiros parágrafos. Religião, amor, família, sexo e blá, blá, blá. Ora, essas são as que me vem à mente agora, muito embora todos tenham relação entre si e sejam passíveis de discussão. Todos. Baseio-me na singularidade de cada individuo e na pobreza natural em se afirmar que existe um único sentido para a vida seja ele baseado em que e motivado por quem.

Viver é uma experiência única para cada ser humano, sendo assim impossível eleger uma única razão para regrar a todos. Deveras simples: o que faz sentido para um pode não fazer para outro e vice-versa. Uma das razões que me faz pensar desta forma é a ruptura de valores – simbólicos ou não – do se “viver” em sociedade nos dias atuais. Somos fruto de um processo histórico irreparável, sendo a única solução para a manutenção da vida, adaptar-se para bem ou para mal as mais truculentas situações as quais somos submetidos.

É isso que fazemos e isso que continuaremos a fazer. Recomeçar e recomeçar. Pois os ciclos da vida sempre se fecham e quando acontece é preciso uma ruptura para que um novo tenha início. Não existe perfeição e é uma imprudência perseguir esse status. A vida é individual e não coletiva, embora sejamos forçados e obrigados a interagir com o todo para não cairmos em desuso.

Pouco importa o número de argumentos contrários aos descritos nesse texto. Insisto em afirmar que não há um sentido definido para a vida, somente, um conluio de tentativas para fazer com o que o ser humano acredite que possa encontrar sentido toda manhã quando precisa acordar para laborar ou a noite quando se deita para descansar. Talvez mais grosseiro que a infeliz rima da frase anterior, seja acreditar que futebol, política e religião são ciências exatas.

Aprender-se-á: para a trinca acima e para o tal sentido da vida dois e dois nunca serão quatro.

21 de jan. de 2009

INS-TIN-TO. Simples assim.


O vira-lata que jazia embaixo da cadeira foi rápido. Passara deitado a coçar as pulgas por longos minutos, mas, como num passe de mágica, tornou-se um corredor veloz. As patinhas dianteiras e traseiras do canino iam e viam em sincronia perfeita. Em pouco, um rastro de poeira confundia-se com seu latido. Ele estava em processo de perseguição. Vã e solitária, no encalço do pneu de um carro.

Ele latia.

- O que faz esse cara correr desse jeito toda vez que passa um carro ou moto? – comentei entre um gole e outro de chimarrão. Antes do ronco que anuncia o término da cuia do mate, uma voz bradou ligeira:

- Instinto!

- Instinto? Quer dizer então, que correr em disparada no encalço dos pneus de motocicletas e automóveis é fruto do instinto do animalzinho? – retruquei em tom irônico.

- Sim! Pegue por exemplo um homem. Você mesmo, me diga se não fica todo assanhado correndo atrás de tudo quanto é rabo de saia quando vai a uma festa?

- Heim? Heim?

Silêncio. Reflexão. Dúvida. Vontade de negar o inegável, mas aparentemente impossível. A vitória não me pertencia e sabia disso. Enfim, concordei:

- Hummmm, digamos que sim.

- Então, é o instinto dele, da mesma forma que é do instinto do homem fazer o que faz quando está atrás de uma mulher – acrescentou a dona da voz ligeira.

Ponto.

Acabara a conversa. Não havia mais necessidade alguma de discussão. Era o bastante. A conclusão embora óbvia, era clichê por demais. Senão: O cachorrinho vai continuar correndo atrás dos pneus dos carros latindo como um louco e os homens vão continuar sua caçada atrás de uma mulher. Isso tal qual é feito desde os primórdios, quando ainda se arrastava a fêmea pelos cabelos e não havia indício algum de diálogo entre as partes.

Instinto. Assim, simples. INS – TIN – TO. Três silabazinhas inofensivas. O que move o homem e o que move o animal. Como parte de uma engrenagem preparada a trabalhar da mesma maneira pelos séculos sem fim. Talvez, não aja uma explicação plausível para um cachorrinho largar em disparada atrás de um automóvel. Afinal, o que ele quer? Saber como a roda gira? Mostrar que é capaz de parar a grande máquina? Sabe-se lá.

Possivelmente, o ideal seria questionar o que o homem realmente quer toda vez que vai a uma festa, e movido por uma garrafa e outra de cerveja ou destilado, se embrenha a caça de uma mulher tal qual um lobo faminto que avista um rebanho de ovelhas. Instinto?

19 de jan. de 2009

Beijo ruim


Acontece. Tem horas que até Afrodite torna-se impotente na formalização de um bom beijo. Aqueles beijaços de tirar o fôlego e querer sempre mais e mais. Esses. Não os outros em que não rola a perfeita interação lábios de um com lábios de outro. Em que o resultado é um só: um beijo ruim. Onde – os lábios – ficam ali, como se numa luta de dois ursos polares, sem encaixe, sem nada. Uma tentativa frustrada de dar liga e ter um pouco de prazer no entrelace de línguas.

Beijar é bom, todo mundo já ouviu falar nisso e possivelmente todo mundo assina embaixo o memorando, porém, é sabido, que nem todo mundo sabe beijar, ou, pode ser considerado como um bom beijador. Alias, beijar bem é para poucos. E talvez, e possivelmente e muito provavelmente o fato de ser um mal beijador não seja culpa do pobre coitado, ou coitada. Simplesmente, o camarada ou a querida não sabe e só. Assim e tão somente.

A de se convir que receber um beijo ruim é traumatizante. Horrível. Esquecível. Daqueles episódios que vivemos uma única vez e torcemos para que nunca aconteça de novo. Daqueles que a ínfima lembrança traz de volta a amargura pra boca e dá uma vontade de cuspir pra longe o beijo recebido. Como se possível. Não é. O fato já foi consumado, o beijo dado e tudo que se pode fazer é tentar esquecer. Procurar outra boca para se beijar, outra que tenha um encaixe legal e renda alguns suspiros. Nada mais.

O pior é quando o mal beijador acha que está abafando e continua insistindo e te lambendo e querendo te engolir. Cruz credo. Abre a boca como se fora um leão marinho e desenrola a língua mexericando-a para um lado e outro a procura de um espaço na sua tenra e macia boca. E aí o processo de lambuso gratuito começa e com ele a agonia. Um drama. Um martírio. Como se aqueles quinze segundos fossem durar duas eternidades e meia.

Olhar para uma pessoa e dizer olho no olho: Olha só, tu beija mal à beça. Cá entre nós, não rola. Alguém um dia a de considerar o beijo lambido de leão marinho daquela pessoa a melhor coisa do mundo. Porque tem gosto para tudo. E por mais que um beijo seja horroroso, mais dia menos dia, haverá um encaixe para ele. Afrodite não falha nunca. Um dia o beijo ruim terá seu encaixe. Tudo bem, não me pergunte como isso pode ser possível, mas é assim que é, e assim que sempre será. Pois na vida é preciso ter esperança. Não é justo, em hipótese alguma, ceifar de um mal beijador o direito de continuar tentando até encontrar seu par ideal.

9 de jan. de 2009

Fácil, extremamente fácil


Não sei por qual motivo comecei a escrever. Apenas comecei. Processo rápido, diferente de quando se usava máquinas de datilografia. Pouco as usei e provavelmente morreria de fome caso precisasse manusear uma hoje em dia. A tecnologia tem o poder de simplificar a vida. Torna-la mais fácil. Uma tomada aqui, um computador portátil ali, um ou dois cliques e uma página em branco parece implorar por conteúdo a sua frente.

Sou adepto da filosofia que diz que excesso de facilidades é prejudicial. Talvez todos esses aparatos tecnológicos devessem ter estampados em algum lugar bem visível do público consumidor: CUIDADO: facilitar sua fatigante vida em demasia lhe trará prejuízos irreversíveis em um futuro próximo. Certamente, teria mais cuidado com cada linha que fosse escrever. A propósito, essa seria a vigésima ou trigésima lauda borrada que teria jogado na lixeira.

Talvez a necessidade de não errar seja o grande chamariz daqueles tempos. Quando se escrevia a punho ou em velhas e galhardosas máquinas de escrever. De fato, preciso confessar: sou deveras saudosista. Criei certa ojeriza em escrever a mão. Sinto-me como se enclausurado em um tedioso processo de aprisionamento. Eu, um prisioneiro das facilidades promovidas da tecnologia. Alias, eu e o mundo.

O sexo. Ele mesmo, o momento mais íntimo e carnal protagonizado por dois seres, perdeu espaço para a internet. Veja só. Os enlaces afetivos de um homem e uma mulher ou não necessariamente seguindo essa ordem natural das coisas e blá, blá, passaram para um plano secundário na vida do bicho homem. E não é mentira. Prefere-se hoje em dia despender horas e mais horas navegando pela grande rede que transar. Duas semanas sem internet? De jeito nenhum. Sem sexo? Tudo bem.

Quer merda toda é essa? Uma simples mudança nos hábitos da sociedade moderna? As facilidades são tantas que é possível fazer sexo online. Quem precisa de uma conversa nessas horas, e tempo para se arrumar e se perfumar e sair a procura de lugares legais para se beber e conversar. Cenários se criam. Infelizmente, sem a maestria dos tempos em que se escrevia em pesadas máquinas de escrever.

3 de jan. de 2009

Um "misto-quente" pelos ares

A última noite em Porto Alegre foi de pouco descanso. Como se por passe de mágica, não havia sono. Nem a vontade de cerrar os olhos e, como qualquer pessoa normal, dormir, foi suficiente. Em poucas horas seria apenas eu e um avião. E então, e só então, algumas longas e intermináveis horas muito, muito acima do solo. Voando, entre nuvens e seja mais o que. Como se qualquer outro tripulante inexistisse. Como se voar pelos céus fosse o meio de transporte mais perigoso. E como se a qualquer momento o avião pudesse apontar seu bico para baixo e começasse a cair e cair e cair. Sem volta.

O sol ainda rolava de um lado a outro em sua cama aquecida. O clarear do dia era tímido. O assento, o último possível na aeronave. Eu e mais ninguém. A primeira providência: cerrar todas as janelas próximas. Não queria ouvir. Não queria ver. Queria simplesmente ter o poder de acelerar o tempo e chegar ao meu destino mais rápido. A segunda providência: ler. Ou tentar. Por pouco não proferir as palavras descritas no livro em voz alta. Para fugir. Escapar dos tremeliques daquele monstro aéreo. Da sensação desprezível de sentir-se um fraco enquanto todos a sua volta escancaram suas faces pela janela e observam a imensidão azul e os pontinhos miúdos das cidades, dos campos e dos mares.

E lia. O velho Buk. O velho safado. Escolhido a dedo. Charles Bukowski. “Um problema que eu enfrentava era ir ao banheiro. Estava sempre apertado, mas tinha vergonha de deixar os outros saberem da minha necessidade”. Nada mais peculiar. E sim, pessoas levantavam-se como se nada estivesse acontecendo e iam ao banheiro da aeronave. Continuava a ler quase sem conseguir esconder o desespero. “Era realmente terrível conter a vontade. E o ar estava puro, e eu sentia vontade de vomitar, vontade de cagar e de mijar, mas não dizia nada”. Pelos céus. Pessoas fotografavam a imensidão. E deixavam o sol entrar. E se pudessem enfiariam suas cabeças para fora para pegar um ar fresco. E eu cada vez mais tentando não aparentar que sentia medo, muito medo e que as palavras do velho Buk eram como uma cópia fiel do que se passava.

Minhas mãos jorravam água. Agarrava-me ao cinto de segurança da poltrona – graças a Deus – vazia ao meu lado. Tentava engolir o lanche servido pelas aeromoças. Qualquer balanço ou barulho suspeito fazia meu coração saltitar dentro do peito. Ler era a única saída. A não ser que resolvesse gritar e transformar o vôo num pandemônio. Seguia com Buk. “Entrei e ele fechou a porta atrás de nós. As paredes eram brancas. Havia um espelho e uma pequena janela cuja tela estava enegrecida e quebrada. Havia a banheira, a privada e os azulejos”. Pedi um copo de água. Talvez ajudasse. Gostava de ver o trabalho de bordo. Era possível pensar: se eles caminham normalmente pela aeronave é que tudo está bem e não há o que se preocupar. E não havia, embora eu achasse que havia.

A mulher que fotografava quase sem parar duas poltronas a minha frente resolveu conversar com um dos comissários. Descobri que restavam quarenta minutos de vôo. Pensei em chorar. Só faltava chover. A conversa dos dois revelou que voávamos acima das nuvens e que sim, era possível estar chovendo abaixo delas. Tentei voltar o foco para Bukowski. “Ele pegou o amolador da navalha que estava pendurado em um gancho. Seria a primeira de uma série de surras que viriam a ocorrer com mais e mais freqüência”. Era assim que me sentia. Exatamente como se tivesse levado uma surra.

- Estamos a 35 mil pés de altura.

Havia serenidade, tranqüilidade e outros tantos “ades” possíveis na feição do comissário. Ah, como queria me sentir daquele jeito. Deixei o livro de lado e parei para pensar na segurança em se viajar de avião. Logicamente, a proporção de acidentes nas estradas é incomparável com os acidentes ocorridos no espaço aéreo do planeta. E o avião chacoalhava. E eu segurava firme com a mão direta encharcada o cinto da poltrona ao lado. Voltei para o velho Buk.

“Você sabe como aquilo acontece? – perguntou.

Aquilo o quê?

Foder.

O que é isso?

- Sua mãe tem um buraco...ele juntou o polegar e o indicador da mão direita e fez um círculo – e seu pai tem um pinto...- pegou o indicador esquerdo e começou a enfiá-lo para frente e para trás dentro do buraco...”

Uau, havia descoberto o que era sexo. Ou uma de suas tantas teorias. Estava a 35 mil pés de altitude e não havia ninguém ao meu lado para contar o que acabara de ler. Veio-me a sensação que poderia não ter para quem contar. Estava prestes a gritar. Então, o alívio. Ouvir a voz do piloto foi um deleite. O pouso se aproximava. O primeiro drama matutino chegava ao fim. Tive uma hora antes de entrar em um avião novamente. Antes de seguir para uma nova jornada pelos céus do Brasil.

A contra gosto fui transferido para outro assento. Ainda no corredor, mas com muitas pessoas a minha volta. Todas com suas respectivas janelas expostas ao sol, ao mundo, ao vazio, a imensidão do lado de fora. Não havia para onde fugir. Apenas aguardar e torcer para não borrar as calças. O cansaço me consumia. Fechei minha janela para evitar que os raios do sol invadissem o meu reduto naquele avião. Ninguém poderia me privar disso, nem mesmo um dos comissários. Mesmo que fosse uma mulher linda, com pezinhos delicados e cheirosos, morena cor de jambo e com óculos de armação. Nem, nem, nem.

Vesti meus óculos escuros e fechei os olhos. Dormir. Pensava em dormir e tinha convicção que um cochilo era providencial para que o vôo final até meu destino passasse rapidinho. Mas não tinha como dormir. Optei por não olhar para os lados e tentar manter as aparências. Nada de pânico velho marinheiro, era o que pensava. Um garoto de uns 8 anos corria pelo corredor da aeronave. Parecia feliz e tranqüilo. Senti inveja. Muita. Como conseguia? Qual era o segredo? Pensei tanto que a hora completa de vôo terminou e o pouso foi – enfim – anunciado pelo comandante do avião.

Outro drama. Como pousar em Brasília é complicado. Será que todo pouso na capital federal é tão cheio de voltas e quedas súbitas e frios na barriga. Só conseguia ouvir a voz do garotinho. “Voar de avião é melhor, não tem trânsito”. Quase gritei: bravo, bravíssimo. Cheguei a aterrorizante conclusão que devo ser o único cagão a mais de 50 metros do solo. Não teve lanche, serviço de bordo ou “misto-quente” de Bukowski que desse jeito.


Post Scriptum:
- Desta feita, sem fotos minhas. Afinal, a de se convir que num desespero desses seja impossível tirar uma câmera fotográfica pra fora da bagagem e sair fotografando tudo que se vê. Lamento.

- E também, o pânico vivido impossibilitou-me de pedir a garota que fotografava sem parar que mandasse uma de suas “lindas” imagens por e-mail.

- Por fim, está incluso alguns trechos do livro: Misto-quente de Charles Bukowski. Cortesia deste blogueiro e de fato lido durante o vôo 6100: Porto Alegre – Belo Horizonte e 6150: Belo Horizonte – Brasília, na manhã de sexta-feira, 02 de janeiro de 2009.

2 de jan. de 2009

Traído por algumas horas


Na véspera do derradeiro dia de 2008 acordei de supetão em plena madrugada. Não era um pesadelo. Era inspiração. Recordo ter um texto arquitetado em mente. Prontinho e pedindo para ser parido. Enquanto encontrava uma nova posição na cama, regozijava-me de prazer. Ria. Bastava ser um pouco paciente e aguardar o amanhecer.

Minha cara no espelho não era das melhores. Creio que nenhuma fuça de ser humano algum seja das melhores tão logo acorde. Lavei meus olhos cheios de remela e arrisquei um novo sorriso. O texto. Sim, o texto. Devia ser parido urgentemente. Antes de me aconchegar para escrevê-lo tentei rememorar o teor, as linhas, os pontos, os acentos da obra vislumbrada durante a madrugada. Nada.

Tentei novamente. Precisava a todo custo encontrar o fio condutor que transformara a noite anterior em um delicioso enlace com os lençóis. Uma vez mais: nada. Esquecera de tudo. Cada linha, parágrafo, preposição, verbo, adjetivo. Não restava nenhum lampejo de esperança em escrever o referido texto. Somente um último dia para deixar passar. De um ano tomado por altos e baixos, e que nos seus últimos suspiros ainda parecia zombar de mim.

Não tive alternativa. Desisti. Passei o restante do dia pensando em tudo, menos no despertar noturno e no texto que não ganhou vida. Fiquei sem texto. Enfraquecido pelo esquecimento de algumas horas. Temeroso pelo futuro e pelas escolhas que fiz e que exigem raciocino rápido e faro aguçado.

O último dia de 2008 me fez perceber que deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é no mínimo uma burrice, com o perdão da palavra. Agora, preciso me recuperar das horas de vôo pelo Brasil e no quanto isso me impacienta, sempre que estou a 35 mil pés de terra fértil.

29 de dez. de 2008

Simplifique

Foto: Anton Roos


Mensagens de fim de ano são por natureza clichês. A maioria delas são repetidas ano após ano, valendo-se da astúcia e criatividade de quem a escrever – ou, a remodelar –, e nada mais. Particularmente, não gosto de escrever sobre. Já fiz em anos anteriores, e gostaria de poder não repetir as mesmas ladainhas que no fundo todo mundo conhece de cor e salteado, mas parece esquecer a cada novo dezembro.

Por isso optei por dois vieses. O primeiro tem como pano de fundo o verbo simplificar. O ser humano tem mania de complicar tudo que faz. O homem sempre acha que as mulheres são complexas em demasia e as mulheres acham o mesmo do homem. Individualmente, a complexidade é parte quase permanente na vida de todo ser humano. O bicho homem consegue complicar tanto sua passagem pela Terra que já nem sabe o que lhe faz bem e feliz.

Portanto, e agora sim, indo direto ao ponto: aproveite o momento das festas de fim de ano para não só repensar a vida como também para reaprender a conjugar o verbo simplificar. Óbvio, sem confundir simplicidade com relaxamento. Se existem poucas coisas que te fazem bem e feliz, faça uma, duas, quantas vezes forem preciso. Pras cucuias se o ditado é piegas, “a maioria dos problemas se resolvem sozinhos”. Ponto.

Na mesma direção do simplificar, o segundo viés: levar a vida menos a sério. Abaixo o stress e a depressão. Viver a vida é comer uma ala minuta as 5 e meia da madrugada sem se preocupar se duas horas depois é preciso trabalhar. É saber que toda a noite existe uma virada para um novo dia e que não necessariamente precisamos repensar a vida uma vez por ano. Os altos e baixos que acometem todo e qualquer ser humano não dependem de um número: dois mil e alguma coisa. Vão e vem sem aviso prévio. Por isso o melhor é simplificar e levar a vida menos a sério.

Até 2009.

25 de dez. de 2008

Um monte de asneira

Foto: Anton Roos

Falta pouco menos de uma hora e meia para que o Natal se torne passado. Daqui a pouco será uma nova contagem até o próximo. Como sempre. Todos os anos. As crianças conforme crescerem vão deixar de acreditar no bom velhinho. Os mais pequenos ainda sentirão algum fascínio pela figura do Papai Noel. E assim a roda da vida continuará a rodar.

O “rei” cantará as mesmas músicas deste no próximo especial de Natal. Todos assistirão por não terem mais nada para fazer ou por acharem que as músicas do cara são o que há de melhor. Ponto. Uns terão o que fazer na noite de 25 de dezembro, outros não. Esses talvez desperdicem tempo escrevendo asneiras para outros, com ou sem tempo, lerem.

O espírito de Natal será tema de colunas e crônicas e programas chatos de televisão, rádio e etecetera. O mesmo de hoje será o mesmo de amanhã, da mesma forma que foi o mesmo de ontem. As mudanças ficaram por conta de cada um. Individualmente. Alias, como sempre foi e sempre será, apesar de tanta balela que se apregoa por ai.

Tudo porque sempre haverá um marreco pra berrar no seu ouvido alguma besteira que amanhã talvez faça algum sentido. Ou não. Afinal, o que importa é que há uma razão para tudo, inclusive para se escrever quatro parágrafos com o intuito único de se postar uma foto. Ou duas, ou três, ou quatro. Amanhã, ou depois, ou semana que vem, ou no ano que se aproxima...tem mais.

13 de dez. de 2008

Ajustadores de letrinhas


O Hamilton Ribeiro tem uma fórmula para a realização de uma boa “grande reportagem”. Dela, sobressai-se o bom começo e o bom final. O recheio basicamente se traduzirá em trabalho, trabalho e trabalho. Ao ler o livro “O Repórter do Século”, obra que reúne algumas reportagens feitas – e premiadas – pelo jornalista nas décadas de 1960 e 1970, a reflexão parece inevitável:

- Porque existe tanta discrepância entre o bom texto jornalístico daqueles tempos para os de hoje?

Não cabe apontar qual é o melhor ou qual ostenta as melhores condições de trabalho para o jornalista. São tempos distintos e em ambos, existem argumentos passíveis de discussão. Uma guerra de interesses: nostálgicos X contemporâneos é o que menos interessa. Sempre haverá os defensores dos clássicos e pomposos textos jornalísticos de outrora e os que defenderão o jornalismo dinâmico e imediatista dos dias de hoje.

Ponto.

Falemos do texto. Do produto final da obra jornalística. Afinal, é ele que vai definir a grandiosidade da reportagem. Se o jornalista é bom ou não. O texto. Parafraseando o colunista de Zero Hora, Paulo Sant´Anna, “depois que se presente – no caso: a pesquisa, as entrevistas, as observações de campo, a reportagem em si e tudo quanto envolva o fazer jornalístico –, é só ajustar as letrinhas”. Bingo. Assim: o bom jornalista/repórter deve antes de tudo ser um bom ajustador de letrinhas.

Porém, só ajustar letrinhas garante teor e poder de transformação social ao jornalista. É preciso que exista reflexão, o que, aparentemente não há. É preciso que exista cobrança e principalmente vergonha na cara, tanto dos próprios jornalistas quanto da sociedade em geral. Se há, é pouco. Conheço pseudo jornalistas que não conseguem escrever um lead sequer e ainda se consideram aptos a exercerem a profissão. No entanto, pior são aqueles que nem jornalistas são, e parecem mais desajustadores de letrinhas que qualquer outra coisa.

30 de nov. de 2008

Eu sou betracofóbico

Existe fobia para tudo quanto é gosto. Dos mais variados gêneros e formatos, mesmo que haja discordância sobre um medo poder ou não ter um formato definido. Quem não tem um medinho sequer está mentindo. E é um baita de um mentiroso. A propósito, deve ter alguma designação para esses que tem medo de assumir que tem alguma fobia. Ou o medo da falta de alguma fobia.

Uma ex-namorada tinha fobia à baratas. Era um deus nos acuda. A guria ficava em estado de choque apenas em ver uma barata léguas de distância. Tranformava-se em um outro ser. Por segundos abandonava todo e qualquer resquício de racionalidade. Gritava, esperneava. Não tinha o que a fizesse se acalmar. A não ser quando se provava que a pobre barata já tinha levado umas chineladas sem volta.

As mulheres de modo geral odeiam baratas. Generalizando, é possível afirmar que todas tem fobia à barata. E como as baratas fazem parte da família dos ortópteros, então, todas fêmeas humanas são ortopterofóbicas. O que minha ex-namorada tem é ortopterofobia. Simples não. Já é possível xingar uma mulher assim. Veja só:

- Sua ortopterofóbica de meia tijela.

- O que seu safado.

- Sua ortopterofóbica de meia tijela.

- Aihmmm.

Aposto os tostões do bolso esquerdo da minha bermuda que a guria ia ficar vermelha de raiva. Possessa. Ia lhe subir aquela fúria, ela iria mexericar nos cabelos, empinaria os seios, gaguejaria uma ou duas palavras como se procurasse uma resposta a altura. Linda. Linda e linda. Um charme só. Se você sorrir, meu irmão, ela repetiria o mexericar, o empinar e o gaguejar umas três vezes mais.
Só pra ti.

- Safado, safado, safado.

Menos mal que não temos fobia da solidariedade. O brasileiro está demonstrando que ainda é possível acreditar numa mudança de atitude. Embora aumentem os casos de crimes passionais, a tragédia em Santa Catarina revelou que o povo brasileiro é solidário. Talvez seja uma mera demonstração do não desejar o mal aos outros, uma vez que a cada dia mais se sofre com mazelas semelhantes, se perde tudo e se começa do zero.

Infelizmente, solidariedade não é sinônimo de atitude. O brasileiro é um ser estagnado. Acostumado a ser ultrajado, desrespeitado, humilhado e mesmo assim continuar sorrindo. Por isso as pessoas se revelam tão solidárias. Como se o brasileiro fosse inferior aos seus governantes ou a outras pessoas em melhores condições. Como se estivesse umas dezenas de degraus abaixo, e o jeito fosse um só: união nos momentos de dor.

Que essa demonstração de irmandade não se restrinja aos momentos de dor e aflição. As igrejas evangélicas irão redobrar a vigília de oração a espera iminente de Cristo. O comércio vai se reinventar uma vez mais para melhorar as vendas de fim de ano. 2008 vai dizer adeus para uma minoria de saudosistas. Torcedores do São Paulo talvez. O ser humano, esse renovará os votos de um novo ano diferente e blá, blá, blá. Continuarão a existir os ablutofóbicos, os agirofóbicos, os anuptafóbicos (Deus me livre disso), os corofóbicos, os dipsofóbicos, os fronemofóbicos e os betracofóbicos como eu, que tem medo de rãs e sapos. Ah, e também os afóbicos, citados no primeiro parágrafo.
[ Esse se superou. Colocar um anfíbio vivo na boca é a coisa mais nojenta que já vi. Depois dessa, mais betracofóbico do que nunca ]
Quer saber mais sobre os medos citados no texto? Veja o Dicionário de medos