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30 de nov. de 2010

Igualdade, intolerância, Huxley, Orwell...

Se fôssemos todos iguais, o mundo
seria uma chatice só

Levante os braços e agradeça por sermos diferentes uns dos outros. Imagine se fossemos todos iguais. Não haveria diversidade e, logo, combustível para a engrenagem que faz a carruagem seguir em frente manter o prumo. 

O mundo seria bestialmente chato. 

Se todos fossem tímidos, não haveria, praticamente, interação social. Cada qual em seu mundo, confabulando, teorizando e nada fazendo. Se fosse o contrário, as orgias, é bem possível, seriam infinitas, regadas a um falatório insuportável. Brigas, discussões, bacanais de toda ordem, um completo esculhambo. A junção destes e outros tipos fazem do viver uma arte, às vezes, bela, às vezes, triste. Pena sermos tão intolerantes. Depois tratamos disso.

O planeta precisa dos chatos, tanto quanto precisa dos nerds, dos extravagantes, dos reclusos. Faz parte de uma ordem natural, talvez, aquém nosso – sempre restrito – conhecimento. Mais: se houvesse igualdade em tudo e todo lugar, adeus clubes de futebol. Jogos na quarta e no domingo. Cerveja gelada, churrasco e flauta com o adversário. Ora, pois, que razão haveria para alguém torcer para um time em vez de outro? Nenhuma. Seriam todos iguais. O esporte, por si, não faria sentido. Nenhum deles. Música e artes e política. Idem. O mundo como o conhecemos não existiria. Por enes motivos. Uns bons outros maus. Seria, apenas, diferente e difícil de imaginá-lo.

Aldous Huxley, no longevo ano de 1932, ousou tratar de um mundo sem diferenças no clássico literário “Admirável Mundo Novo”. George Orwell, no também clássico e não menos atemporal, “1984”, foi outro que se predispôs a imaginar um mundo diferente deste como conhecemos e vivemos. Em ambos, apesar de contextos díspares, os seres humanos são incentivados pela eficácia da repetição – desde bebês – a seguirem regras tidas como imutáveis. Como se fosse o único caminho e modo de pensar e agir. Os dois livros são indispensáveis e altamente recomendados. Leiam, releiam, e teçam suas próprias considerações ao final.

O clássico de Huxley é sempre uma
boa pedida de leitura
Na impossibilidade de se recriar um mundo, semelhante ao descrito nas páginas dos livros de Huxley e Orwell, a força e a imposição de determinada ideia, ainda que feita à base de gratuita violência, transformaram-se em alternativa para imposição de uma falsa igualdade. Guardadas as devidas dimensões de comparação, o que protagonizou Adolf Hitler com o massacre de milhões de judeus e sua tresloucada tentativa de fazer emergir a tal supremacia ariana, pode-se traduzir como exemplo para o que se discute. Aliás, existem outros exemplos talhados com sangue inocente em que se tentou transformar uma ideologia em regra de convívio universal ou de um conglomerado de gente. Ditaduras (ou princípios de) se espalham, ainda hoje pelo globo, vide os casos de Venezuela e Coreia do Norte, por exemplo. Em todos estes e outros mais, o triunfar da intolerância. A propósito, os males todos que somos obrigados a assistir diariamente são fruto da falta de tolerância entre os homens.

Pena.

Se, por um lado, as diferenças entre os seres humanos são motivo para arquear os braços em comemoração, por outro, a intolerância e mania de uns poucos em não aceitar a diversidade, tentando impor suas vontades goela a baixo dos discordantes é, e sempre será, motivo de repulsa. Os seres humanos não foram concebidos para serem iguais uns aos outros. Não há de ser um livro ou dois, ou mesmo a ilusão de um ou outro mentecapto como fora Hitler e o é Chavez que transformará para pior este mundo. Viva as diferenças, abaixo a repressão, a intolerância e o achismo de uma minoria em fazer do ambiente em que vivem seu parque de diversões particular.

A única igualdade que conseguiram incutir, infelizmente, no imaginário popular até hoje é que todos podem ser jornalistas, assim, com um estalar de dedos.



30 de jan. de 2009

Achado no meio da mata

Foto: Evans/Three Lions/Getty Images.
[ Douglas C-53-DO, Em algum lugar do passado ]


Na década de 1930, F. M. Blotner poderia ser apenas um dentre as centenas de funcionários da Pan American Airways. Vinha de um insucesso quando tentara operar sua própria companhia aérea, com rotas entre Miami (EUA) e Nassau nas Bahamas. Um pouco antes fora piloto da marinha americana durante a primeira guerra mundial. Chegou ao Brasil com um cargo e uma missão: administrar as operações da PAN AM no país e encontrar um local para construção de um novo aeroporto.

A essa altura, a Pan American era a principal companhia área em atividade no mundo, com rotas regulares para boa parte da América Central, Europa e Brasil, incluindo a capital, Rio de Janeiro. Contrariando as tendências, o alto e magro Blotner, adentrou na mata em busca de informações climáticas e topográficas. Avaliou a disposição dos moradores da região para o trabalho e sua possível recepção com relação a um aeroporto. Pacientemente, esperou até 1937 pelo aval da companhia para executar o projeto. Oportunidade em que pode, enfim, enviar um grupo de engenheiros não aeronáuticos para Barreiras, cidade localizada no oeste do Estado da Bahia a aproximados 960km de Salvador, com o intuito de encontrar o campo de aterrissagem ideal.

A escolha do local não foi das mais fáceis. Foi necessária uma minuciosa expedição para limpar terreno e abrir caminho para os homens da PAN AM. O local escolhido ficava a aproximados 5 quilômetros dos limites da cidade. Rodeado por florestas, escondia surpresas até então desconhecidas para os americanos. Com os trabalhos quase encerrados, restava a realização de um vôo experimental para demarcar o local e liberar a construção. Todavia, um erro da equipe de engenheiros, por pouco não se transformou em tragédia. Durante o vôo percebeu-se a existência de um planalto elevado cerca de 300 metros da borda do local escolhido. Não fosse uma manobra arrojada do piloto, o trabalho de vários anos de Blotner teria sucumbido com o acidente. A aterrissagem forçada acarretou em mudança nos planos. Um novo local precisava ser encontrado.

Quis o destino que a procura não se estendesse. Uma nova expedição levou os engenheiros da PAN AM ao mesmo local que quase provocara o acidente. Estupefatos, constataram que a região precisaria de apenas alguns ajustes de terraplanagem para sua utilização. Após a construção de uma estrada para alcançar a nova descoberta, a empresa contratou cerca de 380 pessoas que moravam nas redondezas para edificação de hangares e limpeza dos cerca de 1.800 metros que mais tarde serviriam como pista de pouso e decolagem.

A carga horária de trabalho variava entre 3 e 5 h diárias, e as centenas de pessoas imbuídas na construção do aeroporto foram acometidas por diversas enfermidades, dentre elas a malária. A falta de um local apropriado para o gasto dos salários, fez com que a PAN AM trouxesse roupas, isopores, mosquiteiros e estruturasse minimamente o local para garantir a conclusão da obra e a permanência dos nativos barreirenses trabalhando. F. M. Blotner, principal responsável pelo achado, não escondeu sua felicidade quando da conclusão da obra. “Esta pista de aterrissagem é a melhor do Hemisfério Oeste”. Como se não bastasse, e mesmo que não pretendesse soar profético afirmava que o Aeroporto que ajudara a conceber era uma excelente base potencial para os aviões do exército americano.
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28 de jan. de 2009

Um grande enigma ou um arremedo de obviedades


[ O navio General Mann, um dos responsáveis pelo translado dos combatentes brasileiros para a Itália em 1944 ]


Entre o início das obras do Aeroporto Internacional da Serra da Bandeira em Barreiras, ainda em 1937, sua conclusão e intervenção estrangeira e por fim sua utilização como ponto estratégico na segunda grande guerra, são 4 anos. Getúlio, por sua vez, só criaria a FEB (Força Expedicionária Brasileira) em 1943 e o Brasil participaria de combates na Itália quase que somente no ano seguinte, a esta altura, no ápice do conflito. Hitler e sua esposa Eva Braum cometeriam suicídio à 30 de abril de 1945 e a guerra chegaria ao fim pouco depois.


Oito anos. Nada mais, nada menos. Suficientes para causar imensas transformações em Barreiras e, obviamente, em todo mundo. Supõe-se com muita boa vontade, que essa delimitação temporal seja aceitável para decifrar o enigma que envolve essa história. Os anos subseqüentes, pelo visto, tem um quebra-cabeça mais fácil para se montar e por isso não suscitam tanta discussão e comprometimento.

A informação que se apregoa como verdadeira por quem de direito no município, atesta que não havia nenhuma relação, que não as pertinentes as burocráticas e políticas, entre o então presidente da República Getúlio Vargas e o engenheiro Geraldo Rocha. Entretanto, aceitar como absoluta tal afirmação seria desmerecer o esforço de pesquisa e os anseios jornalísticos por trás dessa jornada. A questão não é desabonar o que é tido como fato, mas sim procurar nas entrelinhas informações que fundamentem e – por que não – acrescentem a história de Barreiras. A cada nova investida e tentativa de busca de informações, martela no subconsciente a questão que desde o início mais preocupava: será que não existem mais personagens para contar essa história?

Se Barreiras ainda sob o estigma da ditadura de Vargas dava prosseguimento a construção de um aeroporto e este em pouco tempo se tornava internacional e estratégico para a Segunda Guerra Mundial, como não questionar o que envolveu todo aquele processo? Que dias foram aqueles ora, pois?

A grandeza do acontecimento não merece ficar reprimida a dois ou três parágrafos e/ou a quinze minutos de conversa de botequim. Isso é fato e também uma afirmação, por mais pessoal que possa transparecer. Alias, parece claro, se levarmos em conta que mais de sessenta anos depois boa parte dos atuais moradores de Barreiras se restringem aos dois parágrafos e aos quinze minutos de bate papo. A boemia vista mesmo que esporadicamente no centro histórico do município, não tem o poder de voltar o tempo de modo a nos colocar frente a frente com os grandes personagens daquela história. O que nos restam são fragmentos de um período que mexeu com uma cidade. Quem dera tivéssemos algumas horas diante de Geraldo e Getúlio. Nem que fosse nos anos de 1950, aqui mesmo em Barreiras. Talvez, regado a charutos e algumas garrafas de whisky.

As condições de acessibilidade a Serra da Bandeira eram precárias. Teoricamente, não era qualquer um que dispunha de transporte e condição financeira para chegar até o “aeroporto” e usufruí-lo. A propósito, essa é outra “quase” afirmação, tendo em vista as referências que se apresentam. Geraldo Rocha, se tivéssemos confabulando uma obra cinematográfica, certamente se apresentaria como pseudo oscárizavel, tamanha a necessidade de desvendar e esclarecer os atos feitos por ele e que foram contundentes para fazer dessa história algo tão fascinante.

Nem que devore todas unhas dos dedos, ou tenha de fazer um retrocesso psiquiátrico até o convés dos Generais Mann ou Meigs, nos idos de setembro e outubro daquele longínquo 1944. Por mais arriscado que seja, é melhor que conjecturar falsetes tendo por base, por exemplo, um solitário parágrafo escrito por Alzira Alves de Abreu: “No encontro que manteve com Vargas em Natal, em fevereiro de 1943, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt mencionou a possibilidade de o Brasil enviar tropas aos Açores e à ilha da Madeira. Vargas lembrou que esse envio dependia do recebimento de equipamento bélico para o Exército, a Marinha e a Força Aérea, prometido pelos EUA”.

Onde estão as peças do quebra-cabeça? Insisto e assim continuarei, até que consiga decifrar esse grande enigma ou, na pior das hipóteses, constatar que tudo não passava de um colossal arremedo de obviedades.

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Esse texto foi escrito em março de 2008, auge da epopéia para reconstrução desta história. Infelizmente, muitos dos questionamentos sugeridos ficaram encalhados ante uma série de atropelos e desencontros. Porém, as outras duas partes prometidas serão postadas na seqüência, em breve.

23 de jan. de 2009

Avanço das tropas


Eis o primeiro texto da série do Aeroporto de Barreiras. Alguns ajustes foram feitos no texto para sua melhor compreensão. Amanhã tem mais.

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[ O jornalista e engenheiro Geraldo Rocha ao lado da esposa, nos tempos que o Aerporto de Barreiras tinha voos constantes para o Rio de Janeiro, então capital da República ]


**Avanço das tropas **

Dois dias a menos para o Rio. O artigo da Revista Time data de 02 de setembro de 1940. A obra da Pan American chegava ao fim no Aeroporto de Barreiras e a constatação à época era um alento pela diminuição na escala Miami-Rio, que até então durava cinco longos dias. Barreiras era um inóspito lugar no interior do Brasil, rodeado de verde "amazônico" e que dispunha de privilegiada disposição para o tráfego aéreo. A aviação comercial se tornava realidade para o município, muito embora, as condições para o tráfego de veículos terrestres praticamente inexistiam.

Apesar de vaga, a descrição era um resumo do que se via nestas terras há 68 anos atrás. Sob o prisma estrangeiro. O olhar daqueles que tornaram realidade o aeroporto e indiretamente colocaram Barreiras na rota do progresso. Todavia, a pedra fundamental para a construção do aeroporto se deu três anos antes, em 1937. Percebe-se, que a guerra só seria fato dois anos depois. Getúlio Vargas imprimia no país um regime ditatorial, chamado Estado Novo, e até que se prove o contrário, Geraldo Rocha aumentava seus negócios tanto dentro, quanto fora do país.

Entretanto, as provas cabais da ligação entre os dois nos levam a 1950, cinco anos após o fim do conflito. Getúlio estava em campanha para reeleição. As imagens não mentem, havia uma relação de amizade e reciprocidade política entre eles. Mas desde quando? A essa altura o aeroporto mantinha um fluxo de vôos nacionais e internacionais. Barreiras e Rio entrelaçavam-se as suas maneiras e predisposições. Os interesses já eram outros. E os americanos já estavam longe.

Será que Geraldo teve conhecimento da guerra diplomática pela qual o Brasil passou durante o conflito, e que levaram Vargas a firmar acordo com os EUA? E por mais que ninguém toque no assunto, o que seria do país se Hitler tivesse atacado nossa costa? O governo de Getúlio á época era ditatorial e conduzido por grande número de militares. Estes pendiam para o lado do manda-chuva do exército alemão. Getúlio continuava em cima do muro. Aguardando? Mas o quê? Um ataque do pentágono e a inclusão forçosa de bases aliadas no país?

Seis meses antes da entrada dos EUA na guerra, as bases e rotas aéreas já eram uma realidade dentro do território brasileiro. Isso em 1941. Dentre estas, encontrava-se Barreiras e seu aeroporto. O que antes se resumiu a reuniões, telefonemas, telegramas e muitas conversas diplomáticas, faz parte da história e se configura como um enorme quebra-cabeça.

Aliás, a afirmativa ideal para começar um relato como esse seria: não estamos mais em guerra, a guerra acabou. Apesar da contração negativa explicitada na sentença e das sete décadas que separam este daquele dias. A propósito, e por falar em sentença, a única que me vem a mente nesta manhã ensolarada no Oeste baiano, é a necessidade de correr contra o tempo. O mesmo que se esvai na proporção que o quebra-cabeça se torna mais difícil e atraente. O botão da bomba H, nesse caso, está em conciliar as tarefas que não condizem com os propósitos desta empreitada.

Um amigo e ex-cabo do exército brasileiro não hesita em afirmar que Adolf Hitler foi um grande líder. Arrisco-me em dizer que o austríaco de bigode e cabelo lambido pra direita foi, também, um grande estrategista. Getúlio também foi a depender do raio de visão e das implicações que suas decisões tiveram para o país. E agora, é preciso, mais do que nunca, que a visão estratégica e o poder de aliança dessas duas emblemáticas figuras de nossa história nos sirvam de exemplo.

É chegada a hora de fazer com que nossas tropas avancem. E mais, que todas quatro divisões de infantaria jornalística presentes nesse jogo, não só: joguem o mesmo jogo, mas também, se valiam das mesmas regras. É como roga o velho clichê: pulso forte. A hora das importantes decisões é agora. Hitler e Getúlio tiveram as suas e ajudaram a escrever um dos capítulos mais sangrentos da história da humanidade. Que sejamos sábios nas nossas, afinal, a missão é recontar a história valendo-se de todas as peças possíveis desse sedutor quebra-cabeça. Que as tropas avancem.