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16 de set. de 2010

O amor precisa voltar

É comum se dizer que sem amor o ser humano não vive. Essa palavrinha de quatro letras acompanha o homem desde sua concepção, tanto, que somos em grande parte, frutos dele: o amor. Na edição passada [na coluna semanal que assino para o jornal Classe A de Luís Eduardo Magalhães/BA], republiquei texto de um talentoso amigo e quase graduado nas artes do jornalismo, em que ele rechaça por completo as crônicas e poemas que versam sobre o amor.

Desta feita, que fique claro, não pretendo estender a discussão proposta pelo colega, pois, considero que o confronto de ideias, quando feito de maneira civilizada, é a melhor forma para se encontrar um denominador comum. A questão que levanto é, digamos que, mais simples: falta-nos amor. Isso mesmo. Está faltando amor na vida das pessoas. Compartilhar este sentimento tão natural e essencial para a continuidade da vida. Conjugar o verbo. Amar.

Há alguns anos assisti uma cena, no mínimo, intrigante e que de certa forma pode ajudar na compreensão daquilo que proponho esta semana. Tratava-se de uma cena que simboliza o quão complexo o amor pode se apresentar para as pessoas. O quão importante são os pequenos detalhes e talecoisa. As miudezas subjetivas, que em dado momento da história da humanidade foram alvo de deturpações. De um momento em que se tentou igualar a todos a números objetivos e sem emoção. A tal racionalidade de Descartes e outros tantos.

Na tela, um pesquisador mostrava seu trabalho para um programa de televisão especializado na mãe natureza. Explicava os mínimos detalhes e aprendizados absorvidos ao longo de anos de pesquisa e observação. Estudava um pássaro raro. Em miúdos, o tal pesquisador delegou anos preciosos de sua existência a seguir os rumos daquela pequena ave. Criou, inconscientemente, um vínculo afetivo exclusivo com aquela espécie e com o trabalho que realizava.

No decorrer da apresentação, tanto o pesquisador quanto a emissora foram pegas de surpresa. Presenciaram o nascimento de uma nova vida, de um novo pássaro daquela rara espécie. As câmeras atentas captaram todos os momentos daquele nascimento. O homem, no alto de sua subjetividade e incapaz de equilibrar o racional com o afetivo, simplesmente desabou em lágrimas. Chorou copiosamente e não escondeu a emoção ao ver o pequeno pássaro ganhar a vida. Era como se fosse um filho, um presente após tantos anos de dedicação e pesquisa. Aquele homem protagonizou uma das cenas de amor mais belas e ao mesmo tempo inquietantes que já assisti e, com o perdão da assertiva, muito mais honesta, por exemplo, que muitas vis tentativas do cinema e da teledramaturgia.

É bom que fique claro que não importa nesse texto encontrar as razões que fizeram aquele homem, dedicar toda uma vida a pesquisa dos hábitos de vida de um pássaro raro. Seria injusto procurar motivações para isso. Meus vieses poderiam deturpar qualquer análise. No entanto, julgo necessário dizer que é provável que aquele homem tenha encontrado no trabalho a motivação necessária para viver. Talvez, os desencontros amorosos daquele homem o frearam e serviram de estímulo para que se distanciasse de novos “encontros”. Como fazem muitos corações partidos nesse mundo, aquele pesquisador procurou o foco para sua felicidade em outra realidade.

Quando se estão em jogo dois universos distintos, duas cabeças pensantes e cheias de “verdades”, o amor pode acontecer, como pode “desacontecer”. Pode se tornar uma ferida enorme. Incurável. Como pode se tornar uma necessidade mútua de presença, de carinho, de afeto, de vida. O acúmulo de “desacontecimentos” pode levar uma pessoa a tomar decisões parecidas com a do pesquisador ou, ascender para o lado negro da força, e cometer, por exemplo, assaltos primários com um capacete na cabeça e escapulindo com uma motocicleta. O ser humano precisa aprender a lidar com as novas rotinas da vida neste século, adaptar-se e deixar que o amor volte a acontecer em suas vidas, senão, seremos cada dia mais vítimas de bandidos covardes que pensam ser vilões de uma história em quadrinhos, escondidos atrás do visor de um capacete.




12 de set. de 2010

Chico não gosta de crônicas de amor


Para o Chico não existem crônicas, nem poemas de amor. Romances sim, mas quase todos de qualidade nula. É a opinião dele, prefiro não questionar. Chico, diz-se muito se admirar “do homem que se aproxima da mulher amada com uma folha amarfanhada de versos contidos, sem métrica ou ritmo, com rimas que unem sem nenhuma vergonha amor e dor”. Chico acredita ainda que poesia ruim se escreve em cinco minutos e uma crônica de má qualidade em pelo menos seis. As aspas utilizadas neste primeiro parágrafo fazem parte da abertura de uma crônica escrita pelo talentoso e quase graduado colega Francisco Marcos. Vasculhando meus arquivos reencontrei o por pouco esquecido texto que rechaça a existência de crônicas ou poemas de amor. Os argumentos são classudos, e ainda que questionáveis, merecem um tiquinho de atenção. Segue, entre aspas, o restante do texto escrito pelo Chico.

“O cronista geralmente tem algum conhecimento da língua maior do que os poetas. E não é discriminação não, porque eu mesmo já tentei uma que outra poesia de amor, que nem de amor é, como defenderei ainda. Também tem mais fôlego que o poeta, afinal, não é fácil escrever razoavelmente em prosa, fazendo das regras gramaticais, um mar caudaloso de simbioses entre poesia, literatura. A poesia hoje se faz de símbolos e de palavras soltas, sem nuances com a subjetividade real e terrena, pois boa parte tendenciam para uma realidade metafísica e planetária...e o que é mais importante: a poesia de hoje proíbe a conjunção”.

“Como eu dizia, não existem crônicas de amor. Conheço um amigo que escreve sempre a suas namoradas em forma de crônica, longas crônicas que falam desde um sorriso perdido no meio da sala até suas fantasias sexuais mais íntimas. É o modo que ele tem de lhe escrever cartas. Assim, pensa ele, vai manter viva duas coisas muito importantes na sua vida: a namorada (que ele perdeu recentemente, diga-se de passagem) e a literatura (que também não é das melhores)”.

“Por sinal, também não existem cartas de amor”.

“O que quero dizer com isso é que o amor, esta abstração de rara compreensão, inexaurível em toda a sua fonte de matéria-prima para as artes, não pode jamais ser reproduzido num estado de consciência minimamente necessário para se escrever qualquer coisa que preste. A frase é velha, o clichê mais do que repetido, mas aqui ele cabe: o amor embriaga; e não conheço ninguém que, embriagado, tenha escrito uma só linha que prestasse”.

“Mesmo Vinícius de Moraes, grande poeta e amante etílico, escreveu maus poemas quando bêbado; há uma teoria corrente entre os que o lêem sem a pretensão (ou diria estupidez) acadêmica de que Vinícius escrevia justamente sob (sob!!) este estado alterado em que se encontram as pessoas que se amam”.

“De resto, o amor não existe em literatura. As crônicas de Rubem Braga que falam de mulheres são, antes, crônicas de sedução. O amor não acontece; está para acontecer. O espaço de tempo entre uma e outra coisa pode ser ínfimo, mas é crucial para se compreender a inexistência do amor na literatura. O texto literário sobre o amor só existe antes e depois. A crônica de sedução é antes”.

“Outro tipo de crônica tida erroneamente como "de amor" e a do depois, ou seja, a crônica do ressentimento. Hoje este gênero perdeu muito de sua força – mas não toda – e é melhor explicada se se usar como exemplo as músicas sertanejas. Crônicas de ressentimento são ruins como músicas sertanejas, porque falam invariavelmente de uma traição sofrida, de um abandono repentino, de tapas e beijos”.

“O grande mestre Machado de Assis é um que jamais ousou escrever sobre o amor, pois bem compreendia a impossibilidade disso. Por outro lado, compôs obras-primas de ressentimento e sedução. Dom Casmurro é um romance de ressentimento; Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma mistura entre o ressentimento e a sedução. Nos contos de Machado encontra-se de tudo, menos amor. O que não quer dizer que quem escreva, e bem, sobre estes períodos anteriores ou posteriores ao amor sejam uns insensíveis. Joaquim Maria Machado de Assis amava Carolina; mas sabia que, para a literatura, este sentimento era uma afronta ao bom-senso”.

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E então, amigo leitor (a): concorda?