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23 de dez. de 2010

Uma boa lição para sempre lembrar

Para quebrar a cara basta ter uma

Uma das grandes lições que aprendi nesta vida é não esperar demais das outras pessoas. Confesso não lembrar como se deu o aprendizado, sem em livro, filme, um amigo ou um amor que se foi. Não lembro. Apenas sei e repito sempre que tenho oportunidade que não é saudável tampouco inteligente depositar em outra pessoa uma expectativa aquém àquela que verdadeiramente ela (ou ele) pode oferecer.

Mais: é um erro e dos mais graves esperar que alguém seja aquilo que você queira que seja. Isso nunca irá acontecer, tenham sempre isto em mente. O que há e quando há, são pessoas que cedem quando sentem ser necessário e/ou são tolerantes, e na pior das hipóteses com razão e emoção devidamente equiparadas. Entendem o quão destemperado é depositar em outra pessoa expectativas particulares. 

Segue dois clichês de presente de Natal:

1º A perfeição de um não é a de outro. 

2º Criar uma ilusão é mais fácil do que se pensa.

Particularmente, tive experiências em ambos os lados da moeda. Primeiro depositei cegamente as mais absurdas expectativas em alguém, que apenas tempos depois fui descobrir que nunca as satisfariam. Que tudo tinha sido uma mera fachada. Um sentimento quase irracional falou mais alto e fez com que não percebesse que estava dando um passo muito maior que minhas duas pernas. Errei. Cai e tive de me reerguer, por conta própria.

Depois, quis o destino – ou seja lá o que for – que eu passasse por situação semelhante, desta feita do outro lado. Uma pessoa a qual admiro por demais depositou em mim expectativas às quais não tinha e não tenho como satisfazer. Hoje, confio que ela também esteja se refazendo de um tombo, infelizmente ocasionado pela minha instabilidade. Aprendi com ambas e por isso digo e repito, quantas vezes forem necessário:

Não depositem expectativas particulares em outras pessoas, esperando que elas ou eles correspondam de modo integral. Para quebrar a cara basta ter uma. Tudo bem, esse último e derradeiro clichezinho é brinde, um bônus pela ocasião festiva. 



22 de dez. de 2010

Gabriel acredita em Papai Noel


Gabriel tem só 4 anos. Ainda toma mamadeira antes de dormir e quando acorda pela manhã gosta dela morninha. Não pode ser muito quente, nem muito fria. Como toda criança dessa idade, começa o dia assistindo desenhos animados. Só depois que vai brincar com seus carrinhos ou com sua bola de futebol. Chorominga a noite como forma de pedir carinho e atenção para mãe.  Perdeu o pai faz pouco e é possível que não vá recordar suas feições quando chegar à adolescência.

Gabriel não foi programado. Foi um acidente. Nem o pai, nem a mãe previram sua chegada. Eram jovens, cheios de aspirações para o futuro, e claro, muito amor para compartilhar, tanto, que geraram Gabriel. Tiveram de aprender a conviver com o preconceito e a árdua missão de educar o filho pequeno. Não se casaram de papel passado. Optaram por conviver no mesmo lar de forma não oficial. Foram felizes por um tempo, os três: papai, mamãe e Gabriel.

Todavia, as brigas e discussões se tornaram freqüentes. A paixão descabida dos primeiros tempos foi murchando. Evaporou. Os sonhos já não eram os mesmos. Entre as diferenças do pai e da mãe estava Gabriel, dando seus primeiros passos e palavras. O menino deixou as fraldas, ganhou tios e tias e viu sua mãe lhe apresentar muitos dos amigos dela. Alguns dormiam na mesma cama que ela. Gabriel não entendia. Porque é que o pai não estava lá com a mãe e sim aquele outro tio que ele nem conhecia direito?

Papai e mamãe passaram a brigar com frequência. A separação foi inevitável. Gabriel passou a entender menos ainda o que se passava. Foi cúmplice de discussões e agressões. Chorou, incapaz de impedir que seus pais trocassem farpas diante de seus pequenos olhos. Aprendeu sem mesmo ter aprendido a conjugar o verbo sonhar, que isso não era pra ele. Seu mundo não lhe dava oportunidades para tal. Mesmo que sonhasse pouco, ter seu pai e sua mãe juntos e felizes com ele, aprendeu na marra que sua vida se encaminhava para um caminho chato e que não condizia com os momentos felizes que tinha enquanto brincava com os amiguinhos na creche, jogava futebol, tomava sua mamadeira morninha, sua mãe ia lhe buscar na escolinha, ou passava o final de semana com o vovô e a vovó. Nada disso.

Sem entender o mundo que o cercava, Gabriel perdeu o pai. Disseram para ele que o pai não voltaria. Disseram que o pai havia se enforcado. Tirado a própria vida. Mas porque o pai faria isso, se ele o amava tanto e queria que ele estivesse ao seu lado para lhe dar dicas sobre as garotas quando chegasse a hora? Os sonhos de Gabriel esvaíram-se. Teve de reconhecer na mãe a figura de um ídolo. Alguém que preza por ele mais que tudo e por quem ele deve total consideração, amor e respeito. Mesmo assim, Gabriel tornara-se um menino sem fantasia.

Não acreditava em Papai Noel e não entendia porque todo mundo ao seu redor insistia nessa história tola. Via a cidade se enfeitar, dezenas de velhinhos barbudos e com roupas vermelhas pelas ruas, presentes e mais presentes. Nada desse sonho encantado lhe dizia respeito. Entretanto, Gabriel teve uma revelação. Em um das muitos jantares que presenciara ao lado da mãe em sua casa, viu algo que lhe intrigou. No meio dos convidados da mamãe, um deles, embora não usasse as indumentárias vermelhas do Papai Noel se assemelhava e muito com aquele cara. Ele sabia que a barba do papai noel era feita de algodão. A daquele cara que ele observava com o canto do olho era real. Não podia ser. Será que Gabriel estava diante do verdadeiro Papai Noel?

Não resistiu a tentação e perguntou a mãe: Mãe, quem é aquele tio ali. A mãe, sem pestanejar, respondeu: Gabi, aquele tio trabalha com o papai noel. Gabriel se espantou. Os olhos brilharam. Um sorriso quis escapar do seu rosto. Mas restava a dúvida. Será mesmo que aquele cara barbudo conhecia o verdadeiro papai noel. Era sua chance. Precisava tomar coragem e falar com ele. Tinha vergonha. Procurava uma oportunidade de se aproximar. Sua mãe percebendo a inquietação do filho, o instigou a ir até ele.

Acho que tá explicado o porque de Gabriel ter ficado cismado
- Vai filho, pergunta pra ele. Pergunta se ele não trabalha com o papai noel. E lá foi Gabriel. Coração em disparada, correu e estancou diante do homem a sua frente e perguntou: - É verdade que você trabalha com o papai noel? O susto mudou de lugar. Quando vi aquele garotinho e percebi o brilho nos seus olhos, não titubiei e respondi que não só trabalhava com o papai noel, como o conhecia e que era seu amigo. O rosto daquele menino se iluminou. Um riso alto tomou conta do lugar. Gabriel correu para os braços da mãe para contar a novidade. O sonho voltara aquele pequeno coração. Gabriel acreditava em papai noel.



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PS: O texto acima foi escrito faz algum tempo, mas, tendo em vista a proximidade de mais um Natal, vem a calhar