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21 de jul. de 2011

A loja de sapatos e a Copa do Mundo de 2014

E o coice na bola de Elano foi só o começo. Foto: EFE


O centro da capital fervilha. No vai e vem da multidão, frases de efeito tentam convencer os que passam da compra ou venda de produtos de segunda linha. Numa grande cidade, não é permitido vislumbres ou o andar descompromissado de quem não sabe exatamente o que quer ou para onde vai. Caminha-se com pressa. A meia tarde, o ritmo tresloucado chega ao ápice e inicia o descenso, até a calmaria da noite e a tensão da madrugada. Logo adiante, no interior de um estabelecimento comercial, o conglomerado de pessoas anuncia o evento do dia, ou da tarde, como queiram: “alguma coisa aconteceu”.

Como que num passe de mágica, a pressa esvai-se. A atenção se volta para o que estaria acontecendo dentro da pequena loja de calçados. Como um rebanho de gado marcado, sem ter noção alguma do que se passa ou, mesmo, das razões que as fizeram parar nas imediações do ocorrido, a maioria dos passantes para. Observa com o semblante curioso de quem mais se preocupa com o fim da jornada de trabalho e com o início da novela das oito, que por preocupação ou interesse no que se sucede de fato. A possibilidade de ser uma briga aflora os ânimos. Entusiasma. Por pouco, não se cria uma central improvisada de apostas.

A discussão, por mais acalorada que transpareça, não é suficiente para se tornar pública. Não se ouve o que falam os brigões do lado de dentro. Alguma coisa aconteceu e isso é o que importa. Um homem de estatura mediana, de pouco cabelo e franzino, em vão, argumenta com uma mulher, pouco mais de 30, e municiada por outras duas ou três pessoas, talvez, amigos, familiares. Amanhã, fato semelhante chamará a atenção de um novo rebanho de passantes e assim sucessivamente, depois e depois e depois. A quebra, às vezes brusca, da rotina é a condicionante da manutenção da normalidade. À pressa sempre haverá um limite. O patrão, os afazeres, o mundo podem esperar até que a cena seja encerrada.  

A necessidade em se acompanhar in loco a discussão no interior da pequena loja de calçados, traveste-se de uma curiosidade embrionária e particular dos seres vivos – pensantes ou não. Somos tentados ao espetáculo. Ao sensacional. Ao fora do comum. Das arenas medievais, onde homens e animais digladiavam-se até a morte aos auditórios de programas dominicais de televisão, no fundo, queremos o show, a contemplação, o que diverte e passa tempo.

No noticiário, o sério ganha novos contornos. Espectadores natos, por vezes, acabamos subservientes aos mandos, desmandos e caprichos de uma minoria. Embora pareça óbvio e irrevogável, a possibilidade de um fracasso dantesco em 2014, é suplantada pelo sonho do hexa e da confirmação da geração de Neymar e Ganso. Em curta passagem pelo aeroporto de Congonhas, na sexta-feira, 15, entre um embarque e outro, apenas constatei o que venho martelando há tempos, inclusive nessa coluna: não temos um pingo de condição para sediar uma Copa do Mundo. O rebanho a espera do embarque, nesse caso, é passivo ante a demora, a falta de informação, e a prestação deficitária de serviços básicos, como alimentação. O mesmo se repete em qualquer aeroporto de médio ou grande porte, das cidades sedes do mundial.

Não bastasse o caos nas salas de embarque, o mandatário da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é arrogante e ditador. É um personagem pastelão que chama atenção dos que passam mais pelo que não faz ou pelos comentários e atitudes individualistas e para seu próprio benefício. E assim, embora saibamos que a Copa e a Seleção sejam dele e não de toda nação brasileira, quando passamos diante da televisão, paramos, como parte do enorme rebanho que representamos. Ávidos pelo espetáculo, pelos gols, dribles e vitórias. No entanto, como no caso da loja de sapatos, houve pouco show e diversão da última vez que a seleção do Sr. Teixeira entrou em campo. Amanhã, como depois e depois, nossa atenção estará voltada para outra discussão no interior de uma loja de sapatos, talvez, com Ganso e Neymar como protagonistas.


17 de jun. de 2011

A espera do capitão

O xerife da zaga canarinho após marcar um gol pela seleção


Por alguma inexplicável razão, sempre achei o Lúcio, zagueiro da Inter de Milão e da Seleção Brasileira parecido com um tio (ou será ex-tio) meu, ex-marido de minha tia, irmã de minha saudosa mãe. No sábado pela manhã, 11 de junho, recém-chegado ao Aeroporto Internacional de Brasília, procurava um assento para a espera pelo voo até Porto Alegre, remarcado do dia anterior, então cancelado devido às cinzas do furacão chileno que pairava no Rio Grande do Sul. O tempo cinza mantinha uma camada densa de névoa nos céus da capital federal. Não havia como voar. Cheia, a sala de espera, comportava desde remanescentes de outros voos cancelados de dias antes, até passageiros com passagens marcadas para a véspera do dia dos namorados. Muitos destes, casais em busca de um final de semana romântico.

Havia dado quase uma volta completa no saguão, quando, enfim, encontrei onde sentar. Coloquei a mochila sobre as pernas, a fim de guardar as duas revistas que me fariam companhia durante o voo. Ao meu lado um solitário rapaz também aguardava o chamado para embarque e a sua direita, com uma criança no colo, o zagueiro da seleção. A primeira vista, Lúcio me pareceu bem ‘menor’ do que transparece pela televisão. Menos implacável, digamos. Até, custei a reconhecê-lo. A filha – ainda que o fluxo de pessoas indo e vindo gerasse um barulho impróprio para o descanso – dormia como se nada pudesse ser suficientemente capaz de importuná-la. A direita do capitão, o filho, um garoto de cerca de 10 anos, manuseava o celular com rapidez, distraindo-se com um jogo eletrônico qualquer. Lúcio permanecia quieto, como se preferisse não ser incomodado. Por ninguém.

“Olha ali, não é o Lúcio, o zagueiro?”, cochichou uma mulher, sentada no banco em frente, para o marido distraído, em pé, e angustiado com a demora do embarque. A quase notícia animou o homem. Com um sorriso, ele confirmou para a mulher se tratar do famoso jogador e inquieto, aproximou-se, estendeu a mão e por pouco não acordou a pequena no colo do pai campeão. “E aí Lúcio, vai pra Porto Alegre também?", perguntou, dizendo que estava preso em Brasília desde quinta-feira a espera de liberação para retornar para casa. “Não, vou pra Salvador”, respondeu o capitão, reforçando não estar muito disposto a enfrentar, por agora, o frio da capital gaúcha. 

Chamado para o embarque o solitário rapaz a minha direita e esquerda do futebolista famoso, antes de se retirar, aproveitou para cumprimentar o jogador e desejar boa sorte. Com a poltrona vaga, o outrora distraído gaúcho sentou e voltou a carga. “Volta quando pro Beira-Rio, tá difícil continuar com o Bolivar”, disse, como se esperando uma declaração bombástica ou então, que o jogador jurasse amor pelo Sport Club Internacional, clube que praticamente o revelou para o mundo. Nada disso. A simpatia do capitão ainda que longe de ser forçada, parece fruto dos anos de contato com fãs, imprensa e o mainstream do futebol. A conversa entre os dois terminou assim que a mulher do jogador e a filha mais velha retornaram.

“Nosso voo foi cancelado”, contou a mulher ao zagueiro. Com um pouco de sorte, segundo ela, seria possível um encaixe para um voo até Porto Seguro, às 11h. Aquela altura passava pouco das 8h30. O portoalegrense curioso ficou sem saber se Lúcio, um dia, voltaria a compor a zaga do Inter e o jogador, em segundos, desfez o sorriso do rosto

A notícia deixou o camisa 3 ainda menos disposto a conversas superficiais, como a que manteve com o fã colorado. A cara de poucos amigos, a filha no colo, e o transtorno do atraso na viagem, na certa, inibiam outros passageiros a se aproximarem e ‘tietar’ o beque, com nítidos sinais de querer tão somente confirmar o embarque para o litoral e a retomada do descanso antes de se reintegrar ao grupo da seleção que em julho disputa a Copa América na Argentina. Até a esposa tentou.  “Vai buscar um suco e um pão de queijo pro seu pai, vai”, disse para o garoto que jogava no celular. “Não quero nada não”, respondeu o jogador, antecipando-se ao filho.

Com um beijo no rosto da pequena que descansava em seu colo, Lúcio fixou o olhar em algum ponto qualquer do saguão, e segundos depois, voltou-se para a mulher e pedindo que providenciasse a mudança no voo. Agora com a filha mais velha sentada a sua esquerda, o zagueiro pediu aos filhos que encontrassem no GPS do celular, algum lugar que pudessem ir enquanto aguardavam o embarque. Enquanto conversava com os filhos, o capitão voltou a sorrir. A espera de Lúcio me fez ter mais certeza sobre minha descrença na realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Pena que não perguntei a opinião do capitão, que sim, lembra vagamente meu tio ou ex-tio, ex de minha tia, irmã de minha mãe.


PS: Este post é especial, pois, trata-se da ducentésima publicação do blog