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24 de dez. de 2010

Lendo: Solar de Ian McEwan

Capa da edição lançada no Brasil
Não faz muito disse que vinha tendo sérios problemas para manter minhas leituras em dia. Resolvi checar o que andava esquecido na minha biblioteca particular. Escolhi o mais recente romance do inglês Ian McEwan, Solar. Estou o lendo e creio que antes de segunda-feira já o terei finalizado. Falta pouco.

Se tivesse que resumir Solar em uma única palavra, acho que escolheria: estranho. Não é um romance típico. Está longe disso. O personagem principal é Michael Beard, um cientista vencedor do Nobel a beira dos 60 anos, obeso, comilão e mulherengo. A narrativa de McEwan vai de um lado a outro, intercalando boas passagens com algumas nem tanto. Okay, algumas passagens são terrivelmente chatas.

No entanto, os detalhes e a minúcia com que Ian versa sobre as questões ambientais, aquecimento global e outros é de cair o queixo. Aliado a isso, conforme as páginas vão sendo viradas, alguns trechos cômicos e partes em que a coisa não anda nem com reza braba.

Existem volumes escritos por McEwan melhor que este. A quem discorde. Eu mantenho o que disse: 

Solar é um livro estranho.


PS: Terminei a leitura. A parte final é eletrizante. [editado as 20h30 de 25/12]

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Veja o que outros dizem sobre Solar:



17 de ago. de 2010

O fim do JB e a "invenção da leitura"

Para não deixar o blog sem novidades, segue abaixo artigo escrito para a edição nº 198 do Jornal Classe A


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A imprensa de papel como um todo, em especial a dos jornais, há muito anda em polvorosa com a perda de leitores. As grandes corporações digladiam-se em busca de uma solução frente o expressivo avanço da comunicação via internet. Na EUA e Europa, nomes consagrados como New York Times e Le Monde investem em projetos alternativos e novos planos de negócios para manter na ativa as redações de papel. O fraco rendimento nas bancas aliado aos desencontros legislativos em relação a – pseudo – liberdade promovida na web, são apenas alguns dos nós que a velha imprensa tenta desatar.

Em meio a este cenário, migrar para o universo cibernético virou regra, sob risco de extinção. No Brasil o mais recente caso, envolvendo grandes jornais e o dilema do universo online, deu-se com o Jornal do Brasil, popularmente conhecido como JB. No último dia 14 de julho um anúncio de página dupla anunciou, de forma oficial, que a partir de 1º de setembro, o JB só seria encontrado em versão online. “O JB vai sair do papel. E entrar na modernidade”, dizia a manchete. E mais: o formato do jornal será compatível com e-readers como iPad e Kindle e a assinatura mensal será de R$ 9,90.

Kindle
Um rápido parêntese. (A discussão e tentativa de popularização de leitores virtuais (e-readers) é constante nos grandes centros e claro, nos países desenvolvidos e onde a tecnologia de informação consegue se desenvolver melhor, em muito, devido a qualidade de acesso a internet, o que por ora, não é o caso da região oeste. O mesmo pode ser dito em relação aos aparelhos do tipo iPad e Kindle, este último, inclusive, já foi testado pelo jornal Zero Hora de Porto Alegre, sem muito sucesso).

De acordo com dados da Associação Nacional de Jornais (ANJ), em 2009, circulação diária de jornais pagos no país foi de 8,193 milhões, recuo de 3,46% em relação a 2008, quando a circulação crescera 5%. No blog do jornalista Ricardo Noblat, em artigo publicado na véspera do anúncio do fim da versão impressa do JB, o Diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, lamentou o fim formato papel do jornal. Em contra partida, Pedreira fez questão de frisar que este é um caso isolado e que aposta no crescimento da circulação dos jornais no país este ano. Em suma, o representante da ANJ mantém vivas as esperanças em um aumento no número de leitores, pois só assim para sua previsão se concretizar.

Enquanto isso, talvez o artigo publicado no Observatório de Imprensa na última terça-feira, 3, sirva como alerta para que outros jornalões brasileiros não sigam o mesmo caminho do JB. Na França, uma editora está conseguindo refrescar o mercado de jornais de papel com títulos dirigidos a crianças e jovens. Em cinco anos, a editora La Play Bac emplacou três títulos de diários entre a molecada. As publicações mantém uma média estável de 150 mil assinantes em toda a França. Le Petit Quotidien (O Pequeno Diário), dirigido a crianças de até dez anos, Mon Quotidien (Meu Diário), para crianças e adolescentes entre dez e 14 anos, e L´Actu (derivativo de "últimas notícias"), com público-alvo entre 14 e 18, são jornais compactos, de quatro a oito páginas, com muitas imagens coloridas e assuntos de interesse de seus públicos específicos.



O que mais intriga? Os donos da editora consideram que o segredo do sucesso tem sido publicar notícias para crianças e adolescentes, em vez de tentar explicar o noticiário de adultos para crianças. Além disso, os jornais para os pimpolhos são feitos para serem lidos em dez minutos e funcionam como parte do esforço de educação das famílias. Cada assinatura custa o equivalente a 20 por mês, a empresa fatura 18 milhões de euros por ano e 10% dos lucros vêm dos anúncios. Se comparados aos suplementos infantis e juvenis dos jornais brasileiros, os diários para meninos e adolescentes na França oferecem muito mais do que as reportagens sobre comportamento, jogos eletrônicos e bandas de música que enchem o Estadinho, Folhinha e Globinho. Quando perguntado se os leitores infantis vão migrar para os jornais de adultos quando crescerem, o diretor da editora francesa foi direto. "Não, se os jornais de adultos não derem a eles o mesmo prazer de leitura".

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Links interessantes

Quer saber mais sobre o Kindle, clica aqui




31 de jul. de 2010

Leitores, uma raridade

[ Foto: Anton Roos, Setembro/09 - Museu Oscar Niemeyer, Curitiba/PR ]

O colega Sampaio publicou no blog que edita, notícia de que a Revista Caros Amigos estaria fazendo campanha via twitter para angariar compradores (leitores) para a revista.


Independente de posicionamento ideológico, a inusitada campanha é um aviso:


- Pouco (ou nada) se lê em terra brasilis.



13 de jul. de 2009

Alguém e seus teclados


Bater numa mesma tecla mais de uma vez, pode em dada circunstância ser ou soar natural. Entretanto, quando a ação se torna repetitiva, vira um tormento. Pior que pseudo tecladistas compondo melodias paupérrimas e vendendo sob a tutela de música. Alguém e seus teclados e por ai vai.

A tecla referida é a leitura. Já escrevi sobre isso. Várias vezes. Admito aos quatro ventos que leio pouco, e ainda assim, vejo que a minha volta o grau de leitura é muito menor. Ninguém lê. Ou na pior das hipóteses poucos leem. A prática da leitura é um exercício saudável, e com a vantagem de não precisar de orientação, como quando se quer praticar exercícios em academia de ginástica. Praxe e todos sabem, é uma regra natural, não precisa de decoreba.

Fácil. Apenas se lê: jornais, revistas, livros, bulas de remédio, folhetos de supermercado. Simples. Cheguei à conclusão, que muitas pessoas assinam certas revistas não por serem leitoras de tal destas publicações, mas por status. A assinatura de Veja, por exemplo, em muitos casos é pra fazer banca. Ela é folheada e folheada por um, dois, dezenas de pessoas. Mas ninguém as lê. O mesmo acontece com outras revistas.

A razão: tempo. As pessoas consideram mais importante aproveitar o tempo fazendo outras coisas ou simplesmente permanecer com a bunda aterrada no sofá vegetando que lendo alguma coisa útil, não necessariamente Veja, uma vez existir publicações melhores no mercado e nas bancas. Dia desses entrevistei um professor de educação física. Ele me disse que o tempo é também inimigo da prática de exercícios. No entanto, ninguém percebe que fazer exercícios e ler pode evitar transtornos futuros. Saúde física e mental, entende?

Não? Deve ser fã de Alguém e seus teclados. Só pode.

15 de jun. de 2009

Calda de chocolate





Troquei o “u” pelo “l”. Fazem duas semanas. Mais precisamente no artigo “Dias, e dias” (publicado na edição nº 134 do Jornal Classe A). Está lá. Um erro aparentemente banal, movido, muito mais por uma desatenção de momento. Calda ao invés de cauda. Piano de calda, escrevi. Errei. O correto seria “piano de cauda”. Caldas são aquelas que mamãe fazia para a cobertura dos seus, sempre deliciosos bolos de chocolate. E pianos, cá entre nós, não têm cacoete para caldas de chocolate.


Resolvi iniciar o texto desta semana falando deste episódio, justamente por respeito aos leitores desta coluna. Nada mais óbvio, afinal detenho de um espaço em um importante jornal de nossa cidade e por isso responsabilidades com tudo que escrevo. O leitor merece. Não me considero um ás na arte de escrever. Se faço, é por paixão, dedicação e claro, por acreditar que a leitura é o melhor exercício para os momentos de ócio e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.


Leitura e educação, a propósito, são – ou deveriam ser – como gêmeos siameses. Um não deveria viver sem o outro. O ato de educar diretamente ligado à leitura. E o hábito da leitura a educação. Essa semana tive o prazer de conversar com a responsável por esta importante pasta no município de Luis Eduardo. Quinze minutos. Um contato quase casual, mas deveras produtivo. Alias, sou fã de educadores compromissados com o saber. E ela, demonstra justamente isso: compromisso.


Esta palavrinha anda em desuso. Pouco ou nada utilizada. São poucos aqueles que nos rotineiros exames de consciência, se perguntam a cerca dos seus compromissos para com a sociedade. Para com o próximo, para com o planeta, para consigo mesmo. Quando escrevi “calda” ao invés de “cauda” não o fiz por maldade ou burrice. Se assim fosse não estaria me valendo deste espaço. Errar é da natureza do ser humano. Ter compromisso uma meta, um objetivo. Incorrem em falta gravíssima aqueles que acreditam na perfeição. A perfeição não existe. A insistência de sua procura seja talvez, um dos grandes erros do ser humano. Já escrevi sobre isto em outras oportunidades, e talvez, não seja oportuno rememorar o óbvio. Como diria um amigo advogado: a maior riqueza que o ser humano pode ter é o conhecimento. Infelizmente nem todos pensam assim. A secretária por sua vez, acredita na educação e faz por ela sua razão de viver. Saí do gabinete contente. “O educador precisa ter conhecimento que sua profissão só se justifica porque existe uma pessoa para ser educada”.


Nos últimos meses tenho sido motivado a acreditar na gratuidade inerente ao ser humano como forma de beneficiar o coletivo. Uma espécie de fuga da obviedade egoísta que move a todos nós. Este quase narcisismo que nos condiciona a agir e pensar o “eu” e não o “nós”, uma vez laborarmos pela simples manutenção de nossas necessidades básicas em detrimento do bem estar coletivo.


A história não mente. O manifesto é responsável pelas mudanças mais significativas da sociedade. Isto quando fundamentado. Organizado. As grandes revoluções tiveram início na organização e fundamentação de uma ideologia diferente da em vigência. Um piano de cauda necessita de muito espaço. Talento é verdade. Para os que tocam e os que o carregam. Afinal, seria muito mais fácil se o piano carregado pela Secretária de Educação e, em contrapartida, por cada um de nós fosse de calda, de chocolate.

24 de fev. de 2009

Conversa de botequim, mosquitos e um livro



A única irritação eram os mosquitos. Atrapalhavam minha leitura. Estava totalmente tomado pela narrativa de Ayaan Hirsi Ali. Devorava cada página como se precisasse terminar de ler Infiel, a qualquer custo antes que o sono me pregasse uma peça. Estava envolto em uma aura de rebuscado sentimentalismo.

Lia e afastava os mosquitos.

Então, novamente o malfadado questionamento. Assunto que tentara esquecer e parecia morto e enterrado: A ciência e a conversa de botequim. Muito mais a conversa de botequim.

Senti como se o texto que devorava fosse direcionado a minha pessoa e a mais ninguém. Já ouvira a história da conversa de botequim outrora e isso me incomodava. “O texto é bom mas parece uma conversa de botequim”. Era isso que dizia o professor anos atrás.

Agora, a subliminar mensagem que recebia parecia querer me alertar sobre os perigos de se fazer ciência. Dias antes me pediram para ter cuidado. Atolei o rosto no travesseiro duas noites seguidas pensando no tal cuidado que precisava ter. Pensei até que me haviam ceifado a liberdade.

Enquanto virava uma nova página tentava imaginar a mulher dona daquela história. Real. Fascinante. Um desafio à manutenção dos dogmas impetrados como infrações letais no seio da sociedade. Senti-me impotente ante as decisões que preciso tomar em um curto espaço de tempo.

Preciso fugir das amarras de conversa de botequim, instaurar no meu íntimo o sentimento de um pesquisador e claro, propagar aos quatro ventos: leiam o livro de Ayaan.
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Confira:
Infiel, de Ayaan Hirsi Ali
A história de uma mulher que desafiou o islã
Companhia das Letras
496 páginas

Informações da orelha do livro: AYAAN HIRSI ALI nasceu em Mogadíscio, capital da Somália em 1969. Em 1992, exilou-se na Holanda, onde foi eleita deputada, em 2003. Ameaçada de morte, foi obrigada a abandonar a Europa e vive atualmente nos Estados Unidos. Em 2005, a revista Time a incluiu entre as 100 pessoas mais influentes do mundo.

3 de jan. de 2009

Um "misto-quente" pelos ares

A última noite em Porto Alegre foi de pouco descanso. Como se por passe de mágica, não havia sono. Nem a vontade de cerrar os olhos e, como qualquer pessoa normal, dormir, foi suficiente. Em poucas horas seria apenas eu e um avião. E então, e só então, algumas longas e intermináveis horas muito, muito acima do solo. Voando, entre nuvens e seja mais o que. Como se qualquer outro tripulante inexistisse. Como se voar pelos céus fosse o meio de transporte mais perigoso. E como se a qualquer momento o avião pudesse apontar seu bico para baixo e começasse a cair e cair e cair. Sem volta.

O sol ainda rolava de um lado a outro em sua cama aquecida. O clarear do dia era tímido. O assento, o último possível na aeronave. Eu e mais ninguém. A primeira providência: cerrar todas as janelas próximas. Não queria ouvir. Não queria ver. Queria simplesmente ter o poder de acelerar o tempo e chegar ao meu destino mais rápido. A segunda providência: ler. Ou tentar. Por pouco não proferir as palavras descritas no livro em voz alta. Para fugir. Escapar dos tremeliques daquele monstro aéreo. Da sensação desprezível de sentir-se um fraco enquanto todos a sua volta escancaram suas faces pela janela e observam a imensidão azul e os pontinhos miúdos das cidades, dos campos e dos mares.

E lia. O velho Buk. O velho safado. Escolhido a dedo. Charles Bukowski. “Um problema que eu enfrentava era ir ao banheiro. Estava sempre apertado, mas tinha vergonha de deixar os outros saberem da minha necessidade”. Nada mais peculiar. E sim, pessoas levantavam-se como se nada estivesse acontecendo e iam ao banheiro da aeronave. Continuava a ler quase sem conseguir esconder o desespero. “Era realmente terrível conter a vontade. E o ar estava puro, e eu sentia vontade de vomitar, vontade de cagar e de mijar, mas não dizia nada”. Pelos céus. Pessoas fotografavam a imensidão. E deixavam o sol entrar. E se pudessem enfiariam suas cabeças para fora para pegar um ar fresco. E eu cada vez mais tentando não aparentar que sentia medo, muito medo e que as palavras do velho Buk eram como uma cópia fiel do que se passava.

Minhas mãos jorravam água. Agarrava-me ao cinto de segurança da poltrona – graças a Deus – vazia ao meu lado. Tentava engolir o lanche servido pelas aeromoças. Qualquer balanço ou barulho suspeito fazia meu coração saltitar dentro do peito. Ler era a única saída. A não ser que resolvesse gritar e transformar o vôo num pandemônio. Seguia com Buk. “Entrei e ele fechou a porta atrás de nós. As paredes eram brancas. Havia um espelho e uma pequena janela cuja tela estava enegrecida e quebrada. Havia a banheira, a privada e os azulejos”. Pedi um copo de água. Talvez ajudasse. Gostava de ver o trabalho de bordo. Era possível pensar: se eles caminham normalmente pela aeronave é que tudo está bem e não há o que se preocupar. E não havia, embora eu achasse que havia.

A mulher que fotografava quase sem parar duas poltronas a minha frente resolveu conversar com um dos comissários. Descobri que restavam quarenta minutos de vôo. Pensei em chorar. Só faltava chover. A conversa dos dois revelou que voávamos acima das nuvens e que sim, era possível estar chovendo abaixo delas. Tentei voltar o foco para Bukowski. “Ele pegou o amolador da navalha que estava pendurado em um gancho. Seria a primeira de uma série de surras que viriam a ocorrer com mais e mais freqüência”. Era assim que me sentia. Exatamente como se tivesse levado uma surra.

- Estamos a 35 mil pés de altura.

Havia serenidade, tranqüilidade e outros tantos “ades” possíveis na feição do comissário. Ah, como queria me sentir daquele jeito. Deixei o livro de lado e parei para pensar na segurança em se viajar de avião. Logicamente, a proporção de acidentes nas estradas é incomparável com os acidentes ocorridos no espaço aéreo do planeta. E o avião chacoalhava. E eu segurava firme com a mão direta encharcada o cinto da poltrona ao lado. Voltei para o velho Buk.

“Você sabe como aquilo acontece? – perguntou.

Aquilo o quê?

Foder.

O que é isso?

- Sua mãe tem um buraco...ele juntou o polegar e o indicador da mão direita e fez um círculo – e seu pai tem um pinto...- pegou o indicador esquerdo e começou a enfiá-lo para frente e para trás dentro do buraco...”

Uau, havia descoberto o que era sexo. Ou uma de suas tantas teorias. Estava a 35 mil pés de altitude e não havia ninguém ao meu lado para contar o que acabara de ler. Veio-me a sensação que poderia não ter para quem contar. Estava prestes a gritar. Então, o alívio. Ouvir a voz do piloto foi um deleite. O pouso se aproximava. O primeiro drama matutino chegava ao fim. Tive uma hora antes de entrar em um avião novamente. Antes de seguir para uma nova jornada pelos céus do Brasil.

A contra gosto fui transferido para outro assento. Ainda no corredor, mas com muitas pessoas a minha volta. Todas com suas respectivas janelas expostas ao sol, ao mundo, ao vazio, a imensidão do lado de fora. Não havia para onde fugir. Apenas aguardar e torcer para não borrar as calças. O cansaço me consumia. Fechei minha janela para evitar que os raios do sol invadissem o meu reduto naquele avião. Ninguém poderia me privar disso, nem mesmo um dos comissários. Mesmo que fosse uma mulher linda, com pezinhos delicados e cheirosos, morena cor de jambo e com óculos de armação. Nem, nem, nem.

Vesti meus óculos escuros e fechei os olhos. Dormir. Pensava em dormir e tinha convicção que um cochilo era providencial para que o vôo final até meu destino passasse rapidinho. Mas não tinha como dormir. Optei por não olhar para os lados e tentar manter as aparências. Nada de pânico velho marinheiro, era o que pensava. Um garoto de uns 8 anos corria pelo corredor da aeronave. Parecia feliz e tranqüilo. Senti inveja. Muita. Como conseguia? Qual era o segredo? Pensei tanto que a hora completa de vôo terminou e o pouso foi – enfim – anunciado pelo comandante do avião.

Outro drama. Como pousar em Brasília é complicado. Será que todo pouso na capital federal é tão cheio de voltas e quedas súbitas e frios na barriga. Só conseguia ouvir a voz do garotinho. “Voar de avião é melhor, não tem trânsito”. Quase gritei: bravo, bravíssimo. Cheguei a aterrorizante conclusão que devo ser o único cagão a mais de 50 metros do solo. Não teve lanche, serviço de bordo ou “misto-quente” de Bukowski que desse jeito.


Post Scriptum:
- Desta feita, sem fotos minhas. Afinal, a de se convir que num desespero desses seja impossível tirar uma câmera fotográfica pra fora da bagagem e sair fotografando tudo que se vê. Lamento.

- E também, o pânico vivido impossibilitou-me de pedir a garota que fotografava sem parar que mandasse uma de suas “lindas” imagens por e-mail.

- Por fim, está incluso alguns trechos do livro: Misto-quente de Charles Bukowski. Cortesia deste blogueiro e de fato lido durante o vôo 6100: Porto Alegre – Belo Horizonte e 6150: Belo Horizonte – Brasília, na manhã de sexta-feira, 02 de janeiro de 2009.

26 de nov. de 2008

Um simples livro

As melhores entrevistas do Jô são com autores de livros. Livros. Sempre tive vontade de escrever um. A bem da verdade esse ainda é um sonho. Talvez um dia. É preciso ter fé. Quando fui a Brasília conhecer o Congresso e o Senado e o funcionamento de alguns dos seus setores de comunicação, tão logo tive uma folga na agenda, resolvi ir ao cinema. Outra paixão. Precisava assistir o novo James Bond. Com tempo de sobra até a sessão legendada do filme – dublado não dá – coloquei meus pezinhos calçados com uma alpargata jeans rumo a primeira livraria que encontrei.

Esbaldei-me. Literalmente. Horas e horas mexericando e lendo e procurando. E o cheiro dos livros, a textura das capas. Que tentação meu Deus, que tentação. Reuni uma pilha embaixo do braço e sentei numa poltrona de couro preta. Ultra confortável. Tava me sentindo. Li uma barbaridade. Selecionei o que me interessava, fiz um cálculo rápido para saber se teria condições financeiras de arcar com a despesa e enfim, sai com uma sacola cheia de livros.

Entretanto, sou um ser raro. Pelo menos sinto-me como um cara quase em extinção. Ninguém lê. Ou parece não ler. Ou, então faz como nos filmes. Pouco antes de dormir, vestindo daqueles pijamas azuis marinho com uma listra branca na borda e de óculos de grau no rosto. Duas páginas de leitura e nada mais. Só pode. Se pudesse carregaria um livro para todo lugar. Cinco minutos de ócio bastam para uma lidinha básica.

Coloquei meu nome numa lista de amigo secreto. Eu e mais umas vinte mulheres. Relutei antes de aceitar o convite, afinal, dar presente para uma mulher é uma das tarefas mais difíceis que conheço. Sofro um bocado só de pensar. As gurias me disseram que poderia escolher minha preferência para o presente. Foi instantâneo: quero um livro. Mais um.

Até sugeri: quero esse aqui ó. Não sei se entenderam. Estou até com receio. Será que vão aceitar. Será que vão comprar um livro bacana, que mereça uma posição de respeito na minha biblioteca particular. Só de pensar naqueles livros chatérrimos de auto ajuda sinto a sobrancelha se ouriçar. Deus me livre. Quero um livro que valha a pena. Tem tanta coisa boa por aí. Confio nas meninas, elas tem de ter bom gosto. É só um simples livro. Um simples livro.

11 de nov. de 2008

Um ato contra o sexo sem compromisso


Damas e cavalheiros faz um tempinho que matuto sobre sexo. Sua importância e afins. Tendo sempre em mente essa cultura de consumo que nos move. Confesso nunca ter escrito nada sobre o tema, justamente para evitar retaliações, uma vez que meu posicionamento é totalmente radical com relação ao tema.

Porém, numa bela manhã de ócio, navegava eu pelas entranhas da senhorita Neti quando, enfim, encontrei alguém com pensamentos semelhantes aos meus. Não resisti a tentação de dividir os argumentos do autor do texto em questão com todos que volta e meia visitam este blog.

Antes da linkagem propriamente dita, algumas passagens do texto Sexo? To fora, escrito pelo Marcus Gabriel para a coluna Pensamentos Delfianos do DELFOS.

“Agora, seja sincero: todas as pessoas que fazem sexo estão prontas para sustentar, criar e guiar EQUILIBRADAMENTE uma nova vida humana? A resposta a essa pergunta já excluí todos os adolescentes, pré-adolescentes e jovens adultos do planeta. Esse grupo em especial, que mal saiu das suas próprias fraldas, não tem a capacidade e/ou responsabilidade para cuidar de outra vida”

E essa:

“Apesar de tantas conseqüências nefastas e funestas, o mundo continua a defender uma vida sexual “livre”. Por quê? O espírito do Carpe Diem chega até nós de duas maneiras principais: meio social e propaganda. Meio social é um pouco óbvio. As pessoas com quem nos relacionamos pensam assim e nós não questionamos, nós queremos nos sentir parte de algum grupo, nós queremos identidade social e ser aceitos, então acabamos repetindo uma baboseira como se fosse verdade. Somos CONDICIONADOS a acreditar que não terá nenhuma conseqüência esse estilo de vida.”.

Palmas pro Marcus. Abaixo o link para leitura na íntegra do referido texto.

Divirtam-se.


10 de set. de 2008

A conjugação do verbo LER

Comecemos pelo trivial: Eu leio, Tu lês, Ele lê, Nós lemos, Vós leis, Eles lêem. Nada mais básico e ao mesmo tempo antiquado. Os verbos em voga nesses tempos de navegações virtuais são ACESSAR, TECLAR e assim por diante. As leituras ficaram em segundo plano. Ou na pior das hipóteses reféns das abreviações e das caretinhas presentes no universo “on line”.

Os que necessitam da escrita para sobreviver sofrem de uma dor angustiante, como se procurassem uma saída em Alcatraz, ou um antídoto para uma doença terminal. Uma válvula de escape com ar e fôlego suficientes para revitalizar a morbidez destes
tempos de convergência.

Existem campanhas publicitárias as favas falando da importância da leitura. Incentivando o hábito e a necessidade de fazer dos livros, dos jornais, das revistas, amigos para todas as horas. Os impressos se popularizam. Abaixam o preço nas bancas em busca de novos leitores. Renovam-se.

Os profetas do final dos tempos não se cansam. Aumentam o tom de voz para alardear o desaparecimento dos jornais. Cinco anos. A chuva e a brisa fria quase gelaram os ossos dos que ouviam a “previsão”. “Não há consenso” é o que se pode concluir. Parcialmente, subliminarmente, superficialmente.

“Os jornais não vão acabar”. Uma pesquisa tenta motivar os muitos já desmotivados pela falta de público para seu trabalho. Cresce o número de leitores de jornais populares no país. Talvez seja a saída – a popularização do jornalismo impresso – ou uma das. Rememorando os tempos em que o rádio era o leão da selva comunicacional, a segmentação foi a saída encontrada pelos seguidores de Roquete Pinto.

Nesses tempos de Eu teclo, tu teclas, e por fim, todos nós teclamos, o primeiro passo e mais provável é o consenso. Sem leitores não se faz jornalismo, então, nada mais óbvio que conservadores e liberais da comunicação unirem forças e na pior das hipóteses tentarem se entender. É difícil em se tratando de jornalistas, mas ou se faz agora, ou se morre na praia. E nesse caso, não haverá ninguém para ler a fatídica notícia.