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31 de mar. de 2011

Ozzy é o maior

Ozzy, definitivamente, para lavar a alma

O show do homem que fundou o Black Sabbath no final da década de 1960, na noite de quarta-feira, 30, em Porto Alegre, superou todas as expectativas imagináveis.

Embora se arraste pelo palco e pule tão desengonçado quanto um marreco, Ozzy Osbourne provou o porquê de ser considerado um semi deus do estilo que abalou o mundo.

Ozzy é ingênuo, mas, ainda assim, uma figura naturalmente carismática. Um velho louco, que parece se negar a envelhecer, mesmo sendo evidente o efeito das décadas de excessos, shows, longas turnês e inúmeros escândalos no currículo.

Um maluco capaz de invariavelmente criar polêmica sem ao menos ter noção do que está se passando. O episódio com a bandeira do Grêmio, logo na primeira canção da noite, é, no mínimo, emblemático.

Um golpe de sorte arrisco dizer. De um maluco torcedor que adentrou o ginásio do rival com uma bandeira do clube da Azenha escondida na mochila e, que, motivado pelo frenesi que se iniciava a atirou no rumo do palco. Um “tiro no escuro”, como perdão do trocadilho.

O episódio da bandeira do Grêmio, flagrado pela lente
do fotógrafo Ricardo Duarte / RBS
Algo que se fosse planejado não surtiria o efeito que causou. Ozzy poderia ter ignorado o pano azul estirado no lado dos retornos. Podia. Ozzy pegou a bandeira, sem saber do que se tratava ou o que representava e a colocou sobre as costas. Um gesto sincero, de respeito com o fã que a jogou no palco. Um gesto de amor com seu público, independente de torcida.

Ozzy não precisa de torcida.

Se alguém tivesse tido a feliz, ou infeliz – vai do gosto do freguês – ideia de jogar uma bandeira do XV de Piracicaba ou com a capa de um disco das Frenéticas, Ozzy, muito provavelmente, teria tido a mesmíssima atitude e a colocado entre os ombros. E cantado, e pulado feito um marreco.

Tanto é que algumas músicas adiante no set, uma bandeira do Rio Grande do Sul foi jogada ao palco e o vovô Ozzy enrolou-se com ela como se fora sua conhecida de anos. A rejeição à bandeira colorada já na parte final do show, podem dizer os colorados mais ferrenhos, “porque o idiota que a jogou, jogou ela na cara dele”.

Pode ser. O que importa, no entanto, é que não foi por desfeita, muito menos por que Ozzy gremista e não colorado. Ozzy é maior que ambos e provou isso com um show incrível. Desfilando um clássico atrás do outro.

Só o seminal disco Paranoid (1970), teve quatro músicas revisitadas: Fairies Wear Boots, War Pigs, Rat Salad e Iron Man. E o que dizer de Mr. Crowley, Shot in the Dark, Crazy Train e Mama, I´m Coming Home, todas interpretadas com paixão, amor e vontade de fazer com que as 12 mil pessoas lotaram o Gigantinho se divertissem e voltassem para suas casas com a sensação de terem visto um grande show.

Pois eu voltei aos melhores anos de minha adolescência, quando carregava na carteira uma foto do velho madman junto da frase:

“Ozzy é o maior”.

Ontem tive plena certeza disso.



9 de nov. de 2010

O dia que vi o Rush – Parte 3 [enfim, o sonho realizado]

Reparem que meu ingresso contém o meu nome e RG. Para guardar mesmo.

Ingresso na mão, fomos eu e Tiago rumo ao portão de entrada. Lembrei do malfadado guarda-chuva que carregava na mochila. Passei pela primeira revista. Pela segunda. Subimos uma rampa antes da derradeira revista, esta sim, feita por policiais. Achei conveniente contar a verdade e dizer, de cara, que tinha um guarda-chuva na mochila e que pela manhã chovia em Porto Alegre.

O policial apenas pediu para ver o guarda-chuva. Disse-me que tudo bem e que somente guarda-chuvas com ponta não eram permitidos. Por fim, me desejou um bom show. Entrei no Morumbi. Nada poderia me impedir de realizar o sonho de ver os três patetas ao vivo. Nada.

Quando pisei na pista, olhei para cada canto do estádio e gritei. Levantei os braços e comemorei como se tivesse conquistado o título de um esporte que não prático. As 18h estava dentro do Morumbi, sem ter gasto exorbitâncias para chegar e com um único pensamento: aproveitar ao máximo. Em 2002, não pude assistir a primeira vinda do trio ao país e oito anos depois, prever uma terceira vinda era loucura. Além do mais, por mais que um dia eles voltem, a oportunidade de ver e ouvir a banda tocar o álbum Moving Pictures (1981) na íntegra é uma só. Outra colher de chá para os fãs como esta, sabe-se lá quando. A máquina do tempo, nesse caso, só trabalha uma vez.

A capa do álbum Moving Pictures (1981), tocado na íntegra na turnê

A meta então, passou a ser encontrar um bom lugar para assistir ao show. Depois da invenção da área premium, esta tarefa ficou mais difícil, pois além de ter de chegar com enorme antecedência aos locais dos shows, é preciso ter sorte para não ser esmagado pela multidão que vem de trás, torcer para que nenhum troglodita com dois metros de altura estanque a sua frente na pista premium, impedindo, desta maneira, que você enxergue o espetáculo e, também, que nenhum segurança resolva fazer o mesmo e atrapalhar ainda mais a visão do palco.

Não demorou para que os sintomas de todo o desgaste daquele dia aflorassem. Passar três horas e meia até o início do show em pé não é uma tarefa simples para quem já passou dos 30 anos. É tanto que resolvi não mais assistir shows da pista, depois que o show terminou. Se não tiver grana para bancar o “phodão” na área vip, ou vou para as arquibancadas ou me contento com vídeos no youtube e lançamentos em DVD.

Tentando não pensar na mochila que carregava nas costas, nem no desconforto que sentia nos pés, vi o coração disparar quando as luzes se apagaram e o vídeo de abertura do show começou a rodar no telão. A qualidade do vídeo, diga-se de passagem, torna a condição de fã da banda ainda mais natural. Aliás, como é bom ser fã do Rush. Você paga para ver um show, de brinde assiste a dois vídeos impagáveis e extremo bom gosto, dois sets e cerca de 24 músicas irretocavelmente tocadas.

E mesmo, depois da internet ter facilitado a vida de todo mundo, proporcionando vídeos quase que instantâneos de qualquer show das turnês dos nossos artistas preferidos e de todos sabermos o repertório que será tocado muito antes do show, vale cada centavo estar presente in loco, fazendo parte daquilo tudo. Na primeira parte do show, por exemplo, Geedy Lee cantou como se estivesse com o mesmo poder de fogo do final da década de 1970.

Feliz da vida, com uma cerveja gelada e o ingresso do memorável show
Canções como “Presto”, “Marathon”, “Freewill” e principalmente “Subdivisions”, fizeram daquela primeira parte do show um verdadeiro arregaço. Que banda extraordinária. Como tocam, Lee, Lifeson e Peart. O fim da primeira parte, foi também o reinício do meu martírio pessoal. O cansaço aos poucos estava se tornando iminente. Esperar por mais 20 minutos até o reinício do show foi das tarefas mais angustiantes de todo dia e noite de 8 de outubro.

Na segunda parte do espetáculo, o Moving Pictures inteirinho. A começar por “Tom Sawyer”, a música que no Brasil ficou famosa devido a abertura do seriado Profissão Perigo. Antes porém, outro vídeo, tão bom quando o reproduzido na abertura do show. A execução do clássico álbum de 1981, não foi perfeita por dois pontos: a voz de Lee falhou em alguns momentos, principalmente em “Red Barcheta” e o vento empurrava o som para tudo quanto é lugar, fazendo com que, em alguns momentos, se tivesse a impressão da banda estar tocando apenas com os retornos do palco. A música mais prejudicada pela ventania foi “Vital Signs”, infelizmente, já que se trata de uma música interessante no repertório arrebatador de Moving Pictures.

Impossível deixar passar em branco, também, as duas novas canções que farão parte do próximo disco de estúdio da banda, Clockwork Angels, previsto para o ano que vem. “BU2B”, tocada na primeira parte do set e “Caravan” são dois petardos, com baixo na cara e riffs de guitarra como a muito não se ouvia em discos da banda. Sinal que vem coisa boa por aí.

Neil Peart e seu kit de bateria. 
Não bastasse apresentar um dos seus mais emblemáticos discos, o trio canadense ainda tem fôlego para desfilar alguns clássicos da década de 1970, como as primeiras duas partes da sensacional “2112” e a belíssima “Closer to the heart”. Neil Peart, o polvo responsável pelas baquetas, como sempre, é capaz de fazer cair o queixo de todos os presentes com um solo de bateria irreprensível. Pena que, a essa altura, meus dois joelhos também tenham começado a enviar sinais para meu cérebro, como se fosse meu pobre e mortal corpo dizendo: Você não tem preparo físico para agüentar tanto tempo em pé.

De fato, a parte final do show foi uma luta para me manter de pé. O torpor era inevitável. Assistia a demonstração de preciosismo do trio em cima do palco, como que satisfeito por toda a maratona que tive de passar para vê-los, mas ciente que não tenho mais pique para suportar tanto desgaste para tentar ver um show. Vale a pena, pelo clima, por fazer parte de toda aquela história, e porque por pelo menos dois dias, os pés, as costas e o pescoço vão te lembrar que você resolveu ultrapassar os teus próprios limites para assistir a um show de rock.

Bom, possivelmente seja o único a considerar a escolha de “La Vila Strangiatto” para abertura do bis com um equívoco. A música é linda, e por ser instrumental, dá uma trégua pro gogó do Geedy, mas para quem teve o dia do cão que eu tive, ela não foi a melhor opção para aquele fim de show, diferente de “Working Man”, que embora tenha sido tocada numa versão diferente, sem o destruidor riff de abertura, mostrou para quem quer que fosse que no palco, dificilmente, uma banda é melhor e mais certeira que o Rush. Uma pena que, a esta altura, eu já estivesse tão destruído.

Antes do apagar geral das luzes, um terceiro vídeo foi apresentado nos telões. Pelo que soube, trata-se de um extra do filme “Eu te amo, cara”, o qual ainda não consegui assistir. Para fãs do Rush é essencial, para quem não conhece, vale como incentivo para tentar entender o porque do Rush ser a banda que é, com fãs tão especiais e diferenciados.


O dia que vi o Rush – Parte 2 [a odisséia]

Entre embarque e a decolagem, passava de 15h15min, quando enfim, a aeronave começou a sobrevoar Porto Alegre rumo à São Paulo. A boa notícia, pensando da forma mais otimista possível, é que na pior das hipóteses, antes das 17h, estaria em São Paulo, logo, na cidade em que os canadenses se apresentariam naquela noite. Ou seja, a probabilidade de perder o show, foi reduzido a zero. Ver o Rush era questão de horas.

Neófitos na maior cidade do Brasil, começamos, eu e Tiago, uma peregrinação em busca do método mais rápido e barato de chegar ao Morumbi: metrô. Para se ter uma ideia, o serviço de táxi do Aeroporto de Guarulhos até o Estádio do Morumbi custa R$ 141 reais, ou seja, para duas pessoas, de bermuda, camiseta, boné e um show para assistir (cujo ingresso já havia custado R$ 150 reais) estava fora de cogitação.


Para chegar até a estação de metrô mais próxima, no entanto, precisamos embarcar em um ônibus rumo a Tatuapé. A viagem, de cerca de meia hora, nos fez pensar nas possibilidades. Contando com a sorte, poderíamos chegar ao estádio antes das 18h. Não podíamos errar, muito menos, bancar os manés na grande metrópole. Era chegar na Estação Tatuapé e em poucos minutos já estar dentro do metrô e assim por diante. Sem falhas.

No meu caso, havia um outro problema. Comprei o ingresso com a opção de retirada na bilheteria, ou seja, precisava chegar ao estádio e encontrar a bilheteria que estava realizando este serviço. Depois de tudo que já se passara aquele dia, optei pela precaução.

Alex Lifeson (guitarra), Neil Peart (bateria) e Geedy Lee (baixo e vocal)
- Só acredito que vou ver o Rush quando estiver dentro do Morumbi, disse.

Na Estação Tatuapé, um susto. Centenas de pessoas caminhando sem parar como se estivessem sempre atrasadas. A alternativa lógica foi pedir informação para um guarda.

- Quero chegar no Morumbi. Como é que eu faço?, perguntei.

Depois de pensar por alguns segundos, o guarda me traçou um roteiro, que segundo ele, nos deixaria na porta do estádio.

- Pegue o metrô até Anhangabaú, desça e vá em direção a Rua (não lembro o nome da dita). Ai é só pegar um ônibus via Morumbi.

A orientação pareceu fácil. O porém é que antes mesmo de comprar o bilhete do metrô, já havia esquecido o nome da rua dita pelo guarda. Pensei que o mais lógico seria chegar até lá e partir para um novo recomeço. Em Anhangabaú decidiríamos como continuar o trajeto até o Morumbi.

Por instinto, tão logo descemos na estação, achei conveniente seguir a multidão. Não demorou para o Tiago me perguntar:

- Tu sabe pra onde a gente ta indo.

- Não, mas já vamos descobrir, respondi.

Quando chegamos à saída, a sorte pareceu, enfim, sorrir para nós. Avistamos uma camiseta do Rush. O ser que a vestia conversava com um taxista. Corremos para não perde-lo de vista. O homem da camiseta do Rush, aparentemente desistiu do táxi e começou a descer por outro caminho. Contornamos a saída o mais rápido possível e gritamos:

- Ei, ei, do RUSH.

O homem e a camiseta do Rush parou. Virou para nós e ao ver que eu também vestia uma camiseta da banda, se mostrou convidativo. Após um diálogo rápido, resolvemos os três tentar o táxi novamente. Por R$ 30 reais, em média, seria  possível chegar ao estádio. Sem hesitar, entramos no táxi e rumamos para, aquela que imaginamos ser, última parte da maratona.

Vinha do Pará o homem da camiseta do Rush. Disse que iria tentar comprar ingresso na hora, pois havia tomado à decisão de ver a banda na véspera. Aproveitou que estaria em São Paulo a trabalho para ver o show. O trajeto Anhangabaú até o Morumbi, demorou outros longos 30 minutos e serviu para uma reafirmação: São Paulo é muito maior do que se imagina.


O Estádio do Morumbi para quem o visita pela primeira vez transparece ser um colosso. Localizado em uma baixada, as bilheterias ficam localizadas em ruas íngremes nas duas laterais. Para meu azar, o lado em que ficamos não era onde deveria retirar meu ingresso. Tive de fazer todo o contorno.

Não consegui esconder a ansiedade. Havia esperado anos para ver o Rush ao vivo e mesmo assim, depois de todo o parto que fora chegar até ali, precisava colocar as mãos no ingresso e principalmente, adentrar na pista do estádio para enfim, respirar aliviado e poder aproveitar cada segundo deste que considerava o show de toda vida.

O dia que vi o Rush – Parte 1 [a chuva e o atraso]

Sair de Porto Alegre pela manhã para assistir ao show a noite. Eis o objetivo


Quando amanheceu em Porto Alegre naquela sexta-feira, 8 de outubro, chovia. Nem bem saltei do colchão, olhei com ar de incredulidade pela veneziana da cozinha afim, tão somente, de constatar com que intensidade a água se derramava dos céus.

Pela primeira vez, temi o pior.

Dentro em pouco rumaria para o Aeroporto Salgado Filho a fim de embarcar para São Paulo e a noite, depois de tantos anos de espera assistir a um show do Rush.

Em 2010, o trio canadense fez sua segunda passagem pelo Brasil. A primeira em 2002, rendeu um DVD gravado no Rio.

Aquela altura de manhã, sem mesmo ter lavado o rosto depois de uma longa noite em que mais tentei dormir do que o contrário, não interessava se minha chegada em São Paulo fosse atrasar. O que me angustiava era a possibilidade de encontrar o aeroporto, em Porto Alegre, fechado para pousos e decolagens ou, ainda, ter de engolir em seco uma notícia trágica, como a do cancelamento do meu voo.

Em vão, tentei não alimentar esta possibilidade.

A chuva continuava a cair e eu precisava dar um jeito de chegar ao aeroporto sem estar encharcado, uma vez, a ideia era levar o mínimo possível de roupas e acessórios, ir direto para o Morumbi e só pensar em descanso depois que Geedy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart deixassem em definitivo o palco àquela noite.

Sem opção, tive de arrumar um lugar para um guarda-chuva na minha pequena e básica mochila. A chuva ainda caia, mas com menos intensidade. Em cinco minutos e já na parada de ônibus torcia para que o voo não tivesse maiores atrasos. Não conseguia desligar a ideia de que algum evento aquém minha vontade pudesse impedir a realização do sonho de ver o Rush em ação.

Os minutos que se sucederam foram os mais longos possíveis. Já sem chuva, atravessei a parada de ônibus em frente ao Pepsi on Stage até o hangar superior do aeroporto, ciente que o guarda-chuva que trazia na mochila não seria mais usado até meu retorno à Porto Alegre.

Esbocei um sorriso, afinal, em poucas horas estaria na pista do Morumbi vendo a banda que mais amo no mundo. Encontrar outras pessoas com camisetas do Rush indo de lado à outro do saguão de check in não foi tarefa das mais difíceis. A impressão que tive foi de que todos os fãs do Rush do Rio Grande do Sul estavam ali.

Chegado o meu momento de fazer o check in tive a primeira confirmação de que o dia seria longo e realizar este sonho, particularmente, algo para se contar por gerações. A aeronave que faria o voo, Porto Alegre/São Paulo encontrava-se, a menos de 40 minutos do horário previsto para a decolagem no Aeroporto de Guarulhos aguardando liberação para vir até Porto Alegre e só então realizar a viagem. A previsão otimista da atendente da companhia aérea era de um atraso de aproximadamente 1h30min. Na melhor das hipóteses, chegaria em São Paulo perto de 14h, duas horas depois de esperado.

Como não sou dotado de poderes especiais, muito menos tenho a fórmula para me transportar de um lugar para outro pelo poder infinito de minha mente, tive, a contragosto, de esperar. Em pouco, a hora e meia anunciada pela atendente se transformou em duas e logo em TRÊS longas horas de atraso. As 13h quando já era para estar em solo paulista ainda aguardava a liberação para embarque, fato que só aconteceu, quase uma hora depois.

O parceiro de show, conhecido no saguão do aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre.

Nesse meio tempo, conheci o Tiago, de Criciúma/SC, que também tinha como destino em São Paulo, o Estádio do Morumbi e o show do Rush. Conversa vai, conversa vem, resolvemos, tão logo, chegássemos a Guarulhos irmos juntos para o estádio. O motivo: gastar o mínimo de grana possível. 

8 de nov. de 2010

Paul

Paul arriscou frases em português. Deu boa noite aos "gaúchos" e ajudou no coro de "Ah, eu sou gaúcho"


Quando Paul McCartney se despediu pela última vez do público gaúcho, no final da noite do domingo, 7 de novembro, precisei de cinco minutos para respirar. Queria guardar o momento. Imortaliza-lo. Faltava pouco para a meia noite.

Sentado em uma das cadeiras do anel superior do Beira Rio, deixei-me observar a viagem dos papéis picados largados ao vento depois de encerrado o espetáculo. Sorri. A ficha ainda precisava cair: “eu assisti o show de um beatle”, pensava alto.

Ainda que nunca tenha sido um fã ardoroso dos Beatles, aprendi a apreciar e, principalmente, respeitar a obra que Paul e os demais garotos de Liverpool produziram em sua meteórica carreira. Não fosse a chance que dei para sua música, talvez não soubesse, ou mesmo tivesse dificuldade em compreender que a obra de John, Paul, George e Ringo está um patamar acima de tudo o que foi criado a partir do momento em que as sonoridades de guitarra, contrabaixo, bateria e vocal foram unidas para o bem comum.

Os quatro garotos de Liverpool, Inglaterra
que mudaram a história do Rock. Foto de 1962

 Testemunhar, in loco, em meio a uma multidão de mais de 50 mil pessoas a interpretação de canções atemporais como “The Long and Winding Road”, “Eleanor Rigby” e “Day Tripper”, por exemplo, torna auto-suficiente a constatação: Os Beatles são muito mais que uma banda de rock.

Repetir que eles foram a banda mais influente da história, depois de assistir Paul dedicar em claro e bom português, canções para os amigos John (“Here Today”) e George (“Something”, uma das melhores de todo show) é chover no molhado, e soa tão inadequado quanto tentar explicar que razões fazem com que milhares de pessoas, entre jovens recém iniciados em discos como Abbey Road ou Revolver, ou mesmo senhores e senhoras acima dos 50 anos enfrentem o calor e o sol de meia tarde em filas mal organizadas e estafantes.

A propósito, a lógica é simples. Bastou uma primeira frase dita em português e a execução de “All My Loving” para que toda a maratona de um dia ou mais diante dos portões do Beira Rio fizesse sentido. Impossível não se emocionar com o talento e o carisma de sir Paul McCartney. Paul é único. Uma entidade da música e da arte contemporânea. Uma lenda que está viva e presenteando platéias ao redor do globo com momentos ímpares como os da noite de 7 de novembro.

O show de Paul teve mais. Teve “Ob-la-di, Ob-la-da”, pela primeira vez tocada no Brasil. Por fim, o espetáculo acabou por se transformar em uma aula de amor a vida e a música. O encontro tardio do ídolo com os fãs, hoje acima dos 50 anos. Fãs que dançaram e não tiveram vergonha em enxugar os olhos lacrimejantes quando Paul sentou ao piano para cantar “Let it be” e “Hey jude”. O show deste 7 de novembro é também o sonho daqueles que aprenderam desde o berço, ou mesmo, foram concebidos ao som de um dos inúmeros sucessos criados pelo grupo. O show, como não poderia deixar de ser, é uma explosão de sentidos, como em “Live and let die”. Um clássico, um hino, uma obra de arte. Uma música que somada a outras como “Blackbird”, “Band on the run” e “Helter Skelter” me fez pensar:

- Será que algum dia verei um show maior que esse.

Difícil, muito difícil.   



11 de out. de 2010

Eu vi o RUSH


Assistir a um show dos canadenses do Rush era, até a noite da última sexta-feira, 8 de outubro, um sonho. No entanto, e ainda que a chuva que caia em Porto Alegre tenha conseguido atrasar o voo para São Paulo em 4 horas, o sonho se tornou realidade e hoje, três dias após o inesquecível show do trio na capital paulista, posso dizer em alto e bom som:

- Eu vi o RUSH

Segue duas fotos in loco, pouco antes do histórico concerto e um vídeo de qualidade inquestionável da clássica “Tom Sawyer”, que abriu a segunda parte do show.

Cerveja gelada e ingresso na mão. Há duas horas do início do show

Na odisséia para ver o Rush, encontrei ainda em Porto Alegre, o Tiago, lá de Criciuma/SC, que além do Rush foi no SWU ver o Rage Against the Machine. Grande figura.




PS: Uma descrição com mais fôlego e detalhes, prometo para breve aqui no blog.

2 de abr. de 2010

Calcinha, preta e com rendinhas?

Um show para milhares em Luís Eduardo
Na primeira apresentação depois de receber o prêmio de “Melhor Música do Ano” no Domingão do Faustão da Rede Globo, consagrada banda de forró leva fãs ao delírio na capital do agronegócio
Foto: Anton Roos

A atração mais esperada nas comemorações pelo décimo aniversário de Luís Eduardo Magalhães, por pouco não se apresentou. Impossibilitado de pousar no Aeroporto de Barreiras, em decorrência das fortes chuvas que caiam na cidade mãe no final da tarde de segunda-feira, 29, a aeronave que trazia os quatro vocalistas da banda Calcinha Preta para o oeste da Bahia acabou pousando hora e meia depois, por volta de 19h e 30 min no Aeroporto Internacional de Brasília, distante 560 km do município aniversariante, também sob forte chuva.

A notícia chegou ao conhecimento da organização do evento em Luís Eduardo, e consequentemente do prefeito Humberto Santa Cruz, pouco antes do por do sol e quando as nuvens cinzentas ainda eram tão somente uma ameaça. Uma decisão precisava ser tomada rapidamente, sob pena da não realização do evento. Sentado numa das muretas da praça matriz Humberto procurava a melhor alternativa para, em tempo, realizar o show. E assim o fez. Devido a imprevisibilidade do clima na região, um novo voo foi descartado. Restava uma única alternativa: locar dois automóveis para trazer os cantores.

Era noite. A brisa que pairava na praça matriz, ainda vazia, indicava que a chuva que pouco antes impedira o pouso dos quatro protagonistas da noite, estava próxima. A timidez dos primeiros pingos d’água logo se transformaram numa pancada de chuva. O transporte dos artistas estava garantido, o show ainda não. Será que a chuva seria um empecilho para a realização do evento? A pergunta que por alguns minutos martelou na cabeça do prefeito municipal, por sorte, foi respondida com a manutenção do show. Aos poucos a chuva foi amainando e a sensação de mormaço se dissipando. Por completo.

Contagem regressiva - Às 22h, não havia qualquer indício que um grande show se realizaria no entroncamento das Ruas Paraná e Rui Barbosa. Não havia público e não havia som nos PA´s. O primeiro, ainda desconfiado com a possibilidade de a chuva voltar, e o segundo, pelo risco de estragos no equipamento de som. Ambos só deram o ar da graça meia-hora depois. O que se viu daí em diante serviu como contagem regressiva. Enquanto instrumentistas e dançarinos aguardavam no hotel, a frente do palco era tomada pelo público enquanto que a dupla local, New e Júnior tocava sucessos da música sertaneja.

A meia-noite uma pausa. Com a participação do prefeito Humberto Santa Cruz e secretários de governo, a banda que acompanha a dupla tocou uma improvisada versão de “Parabéns pra você”, seguida por parte dos presentes que a essa altura já tomavam boa parte das imediações do palco, em referência ao décimo aniversário do município comemorado dia 30. Aos parabéns se sucederam fogos de artifício. Ao show pirotécnico a continuidade do show da dupla que por duas horas aqueceu os presentes que timidamente pediam pela atração principal.

Foto: Hélio Lima

O show - Quinze minutes antes da apresentação da dupla terminar, roadies, seguranças, músicos e dançarinos da Calcinha Preta chegavam ao camarim. Restava o mais importante, os quatro cantores, que no dia anterior estavam no Rio de Janeiro onde receberam das mãos do apresentador global Fausto Silva o prêmio de “Melhor Música do Ano”, pela canção “Você não vale nada”, tema da novela Caminho das Índias da Rede Globo de Televisão. Duas da manhã. Um mar de gente aguarda pelo início do show. Cortinas fechadas. Os quatro cantores, enfim, chegam a Luís Eduardo. Falta pouco. No camarim, os cantores Marlos e Bel contam que o grupo já está a três dias praticamente sem dormir, cumprindo os compromissos da agenda. Sorridentes eles falam do prêmio e do reconhecimento. Agradecem ao prefeito pela oportunidade. O show vai começar.

Logo no primeiro ato, a canção vitoriosa põe o público estimado em 15 mil pessoas para cantar e dançar. Ao final, Bel mostra o troféu recebido no dia anterior e diz que a banda não poderia fazer o primeiro show depois da premiação em outro lugar que não numa cidade do nordeste. O público vai ao delírio. Na sequencia, a vocalista Paulinha chama para frente do palco o prefeito Humberto Santa Cruz que brevemente anuncia que a festa é do povo e feita para o povo. O show continua. O balé dos dançarinos em cima do palco é tão perfeitamente sincronizado quanto a disposição dos três casais em trocar de figurino nos camarins. O mesmo acontece com os cantores que, mesmo cansados, atendem aos fãs com fotos e autógrafos. O grupo enfileira sucessos, um após o outro, mantém o público na mão e transforma o show dos dez anos de emancipação num evento histórico para não se esquecer.

Quando as cortinas se fecham e o show termina, ainda há tempo para atender uma última fã. Aos prantos ao lado da van que levaria o grupo para seu próximo compromisso, uma menina implora por uma foto com os ídolos. A pequena fã ganha sua foto, seu autógrafo e ainda chorando segue ao lado da mãe. Já a cidade menina Luís Eduardo Magalhães, quando os galos já se preparavam para anunciar a chegada da manhã, eternizava em sua história o espetáculo que acabara de presenciar.

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Publicado na edição nº 180 do Jornal Classe A

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[Juntar trabalho com diversão, pq não? Olha eu e Paulinha, vocalista da Calcinha Preta]

9 de mar. de 2009

Acabou-se a surpresa

Foto: Fafá Sanches/VC no G1
A internet matou a surpresa dos shows e espetáculos. Não existe mais isso. O esperar angustiado pelo dia do show do artista preferido, a expectativa em saber que canções serão tocadas. Acabou-se. Esvaiu-se. Basta o último acorde do primeiro show de uma nova turnê, seja ele feito em alguma cidade do leste europeu ou no meio do Canadá. Então, tudo se sabe de cor e salteado, de trás pra frente, de frente pra trás.

Não obstante, em fração de segundos vídeos são postados na grande rede, ficando a exposição direta do todo e qualquer cidadão do planeta. A cada novo show de uma turnê, a mesmíssima lista de músicas, os mesmíssimos discursos entre uma canção e outra, e o também mesmíssimo figurino dos artistas. Surpresa que é bom, nada.

Assisti-se ao show porventura tocado em terra brasilis muito antes de ele acontecer. Sem nenhuma ressalva. E por preços absurdos. Não se podem culpar os artistas. O mundo é positivista. É o trabalho que está em jogo e não a satisfação dos fãs em ver algo diferente do que foi visto pelos australianos um mês antes.

Infelizmente, acabou-se a surpresa. Salvo, o show ser o primeiro de uma turnê.

6 de nov. de 2008

Quanto mais melhor


Tornara-se regra. Sexta-feira chovesse ou não, o destino era um só: assistir o show dos guris. Já fazia um tempo que aquelas noitadas, não eram somente movidas pelo show. Haviam se tornado uma verdadeira celebração. A casa estava sempre cheia, era uma disputa acirrada pela preferência do garçom e por um lugar na fila do banheiro.

A pressão sobre os guris era grande, afinal, como tocavam todo fim de semana, precisavam variar o repertório, o que nunca foi tarefa fácil. A velha historinha de agradar a gregos e troianos. Todavia, aquela sexta-feira foi especial. O semblante dos músicos estava sério e compenetrado. Os indícios apontavam para um show como todos que eles vinham fazendo nos últimos meses. Não havia reclamações. Alias, seria um desfrute de quem reclamasse, uma vez que não havia outras opções. Ou era o show dos guris, ou Globo Repórter.

Música após música a noite corria. As celebrações de sexta-feira eram divididas em duas partes. Quase no fim da primeira, um homem moreno e corpulento se aproximou do guitarrista e disse: Posso tocar uma música com vocês? Sem entender direito, o guitarrista fez sinal de positivo, crendo que aquele não passava de mais um propenso músico aquela altura do campeonato com mais álcool no sangue que toda fábrica da Pirassununga.

Não demorou e o cara voltou com seu instrumento. A atenção dos músicos se voltou para ele. O que tinha dentro daquela caixa? Triunfante, o corpulento rapaz tirou um trompete de dentro dela, brilhante e dourado. No intervalo entre uma música e outra, os guris, boquiabertos trocaram algumas palavras com o moreno trompetista. A impressão era uma: será que esse cara sabe mesmo tocar esse trompete.

Logo na primeira música, era impossível não perceber a sensação de prazer no rosto dos guris. As pessoas que até bem pouco estavam mais interessadas em beber, foram fisgadas pelo que acontecia no palco improvisado. Foi um massacre, uma ode a boa música, tendo naquele trompetista desconhecido seu toque de mágica, a cereja do bolo. Uma noite inesquecível feita na base do quanto mais, melhor. Anos se passaram, e os guris lembram daquele show com carinho especial. A adição de um instrumentista trouxe qualidade a apresentação.

Uma das lições que trago da infância faz jus exatamente a isso. A qualidade em detrimento da quantidade. Em tempos que se tem de tudo a toda hora e lugar, um pouco de cuidado em relação a qualidade é indispensável.

Entre o final de março e meados de maio, a imprensa nacional adotou Isabela como queridinha do Brasil. Não se fez matéria sobre outra coisa nos grandes centros. O mesmo aconteceu no seqüestro de Santo André. A poeira aos poucos parece estar baixando. Em contra partida, 2008 viu nascer novos jornalecos na cidade. Outros ressurgiram das cinzas no pós eleição. Conteúdo parco e visivelmente interesseiro.

Um assombro. Uma propagação de informação que assusta. Ajam olhos para ler tanta coisa. O pior está justamente na qualidade. Não existe. As raras exceções mantêm-se sob os trilhos torcendo para que os pára-quedistas não atrapalhem sua jornada. Pois aqui, se agradece de joelhos aqueles que governam e se publicam jornais na mesma proporção que se vai ao banheiro depois de um desarranjo estomacal. Quanto mais...melhor

14 de ago. de 2008

5x no Porão


Na manhã de domingo a sensação de secura nos lábios era lancinante. Culpa do clima da capital federal. Humidade muito baixa, capaz de espantar o verde dos gramados do planalto e trazer uma sensação de desconforto única.

Diferente de anos anteriores era início de agosto, e passava pouco das 2h da manhã, quando os ingleses do Muse fecharam a 11ª edição do Porão do Rock em Brasília. Daqueles shows de encher os olhos e fazer valer o ingresso, bem diferente da baiana Pitty que se apresentara pouco antes.

Não fora um final de semana frio como em outras vezes. A temperatura se manteve amena na maior parte do tempo, diferente da qualidade da cerveja vendida no estacionamento do Mane Garrincha e local do festival e do jeitão “underground” que, a exceção de 2004, parece ter virado história de velhos e surrados fanzines. E olha que até isso teve. Fanzine. Bem nostálgico.

O saldo, além dos ingleses, foi salvo pelos americanos “old school” do Suicidal Tendencies, os cariocas do Matanza, e talvez por algumas excentricidades como o Papier Tigre (FRA) e o Sapatos Bicolores (DF). Não fosse por isso, as duas verdinhas investidas no ingresso teriam ficado amargas.

A propósito, começo a suspeitar se não foram elas as culpadas pela secura do domingo?


Mais infos sobre a 11º Edição do Festival, basta clicar neste link.