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14 de jan. de 2011

Tragédia de igual roteiro


Foto: Wilton Junior / Agência Estado (mais fotos aqui)

Chega a parecer mentira e até difícil de acreditar. No entanto e talvez como se camuflada nas vestes de uma brincadeira de extremo mau gosto, as tragédias que se noticiaram ao longo desta semana em decorrência da intensidade das chuvas, em especial no Rio de Janeiro (300 milímetros em 24h na terça-feira, 11), não são/eram mais novidade. Para ninguém. Repetem-se. Ano após ano, talvez, com a sutileza ou perversidade de serem a cada nova enxurrada um pouco mais graves. Com mais vítimas a se registrar e incluir nome e RG nas piores e mais desumanas estatísticas possíveis. No Rio passou de 500 o número de mortos; quanto aos desabrigadas chegou aos milhares.

A culpa, seria de uma leviandade desproporcional dizer que é exclusiva dos governos municipais, estaduais ou federal. Não é. Pelo menos destes governos. Eles têm sua parcela, mas não são de um todo culpados. A chuva cai por outras e inúmeras razões. É inevitável. E necessária, claro, quando vinda com menos agressividade a esta dos últimos verões. Em contrapartida, está chovendo mais, hoje em dia, do que há 20 ou 30 anos. Há mais calor também e a quentura, como todos sabem, ajuda na formação das nuvens carregadas com vapor de água. O aquecimento global, segundo dizem, não seria o motivo para tanta água vinda dos céus. O fenômeno “El Nino”, este sim, exerce forte influência na quantidade de chuva que vem castigando, praticamente, o Brasil todo, verão após verão.

Prefeitos, Governadores ou mesmo o (a) Presidente (a) da República não são dotados de poderes especiais capazes de impedir que a chuva despenque dos céus. Não podem negociar uma trégua com São Pedro, por exemplo. São, isto sim, cúmplices e coniventes, por realizarem pouco para evitar que novas tragédias ocorram e outras vidas sejam ceifadas de modo tão prematuro. São responsáveis pela “herança maldita” (não simpatizo do termo, mas não encontrei nada melhor) de governos lerdos e incompetentes de outrora. O que se colhe hoje, neste caso especificamente, é fruto de um plantio equivocado realizado no passado. Loteamentos em locais de risco. Crescimento exagerado dos grandes centros urbanos, entre outros.

Acontece, isto é fato, que quando uma tragédia como esta da região serrana do Rio de Janeiro ou aquela de Santa Catarina, no ano anterior, ocorrem, são acompanhadas por medidas meramente contemplativas. Não se ataca a raiz do problema. Talvez, possam alegar os mais incautos, não haver como se erradicar determinadas regiões do risco de alagamentos, deslizamentos, desabamentos e outros tantos “entos” de representatividade trágica. Faltaria recurso e local para colocar tanta gente. É um mal que vem de décadas atrás. Em muito, devido às vistas grossas e pouco planejamento em longo prazo de alguns governantes e empreiteiros do passado. Em São Paulo e outras capitais e cidades de maior envergadura, sempre que chove, há inundações, enchentes, acúmulo de lixo e entupimento de bueiros. É a mesma história sempre. Pessoas desesperadas tentando salvar mobília e a própria vida, igualmente ao que fizeram um ano ou dois anos antes.

Infelizmente, o início de um novo ano, o verão e todo oba-oba que envolve o momento estão se tornando sinônimo de uma rotina bizarra: de um lado; fortes chuvas, temporais, deslizamentos de terra, inundações, dezenas, até centenas de mortos; de outro: índices elevadíssimos de solidariedade, reforço no significado das máximas “ter esperança” e “recomeçar de novo”, ações isoladas e provisórias, por parte do poder público, para tampar os buracos causados pelos desastres. Há quem confie ainda que sejam sinais do fim dos tempos. 

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O texto acima foi escrito na tarde de quarta-feira, 12 de janeiro, para a coluna que assino semanalmente no Jornal Classe A, de Luís Eduardo Magalhães. Com leves alterações ao original.

6 de jan. de 2011

A hora da inédita e original

Dilma Roussef é a dona da faixa presidencial. Foto: Agência Brasil

Agora é oficial: Dilma é presidente. Assinou o termo de posse e discursou como tal. Não tem mais volta. Foi escolhida pela maioria do eleitorado brasileiro de maneira democrática, sem chances para contestações e, de agora em diante, terá a difícil missão de substituir o carismático e ultra popular Luís Inácio. Lula, a propósito, deixou o cargo com status de astro pop. Chorou nos braços daqueles que acompanhavam a cerimônia de passagem da faixa presidencial in loco na capital federal e deve, dado os altos índices de popularidade que conquistou (impressionantes 87%), galgar muitos outros “15 minutos” de fama nos próximos anos. Dizem até que pode voltar. Tomou gosto, sabem como é. Caso se confirme as especulações, pode, portanto, escrever mais um capítulo destes que alguns de seus mais fiéis seguidores tem insistido em talhar como “inéditos” e “originais”, e com isto, ser o primeiro a governar o país por três vezes, eleito pela vontade da maioria.

Ineditismo e originalidade, aliás, tornaram-se verbetes dos mais repetidos desde que as urnas confirmaram a vitória de Dilma em outubro último. “A primeira mulher a governar uma grande nação”, repetem aos gritos, alguns mais entusiastas do fenômeno Lula. O porém é que Dilma não é Lula. Nunca o será. Igual o torneiro mecânico, dificilmente haverá outro (a). Em relação a isto a contumaz frase proferida a exaustão pelo sindicalista que chegou à presidência, “nunca antes na história deste país”, serve com perfeição semelhante à camisa 10 se ajustava em gênios da bola como Pelé, Maradona ou Zico.  O feito de Dilma obviamente que merece aplausos e reconhecimento. Será lembrado por todo o sempre e, certamente, é motivo de orgulho para milhares de mulheres Brasil a fora. Porém e com todo respeito que o inédito feito e as mulheres deste país varonil fazem jus, basta. Ninguém precisa, muito menos merece, outro filme oportunista e pomposo como “Lula, o filho do Brasil”.

Dilma e seus eleitos têm trabalho a fazer. Muito, diga-se de passagem. O tempo urge como diria o velho e atemporal ditado. Nos dois meses que se passaram depois de eleita, a presidente firmou compromissos dos mais variados, com destaque iminente para a erradicação da pobreza no país, o que por si, basta como motivo para que se trabalhe ininterruptamente e sem chances a tolices como uma descartável obra cinematográfica sobre sua trajetória. É cedo para isso, e tomara, nunca chegue o momento de arriscar o projeto. Ser a presidente de todos os brasileiros, indistintamente, é o que se espera e anseia. A própria fez promessas sobre. Cobremos, em tempo oportuno.

No protocolar discurso de mais de 40 minutos feito durante a posse, a presidente preferiu não arriscar por demais, com frases de muito efeito ou que num breve futuro possam ser usadas contra ela pelos seus desafetos. Reverenciou aquele que lhe conferiu a chance de ser presidente, falou às mulheres, aos mais carentes. No mais emblemático momento do primeiro pronunciamento oficial, conclamou todas as classes sociais para um esforço coletivo em nome do progresso brasileiro. “O Brasil do futuro será do tamanho do que, juntos, fizermos por ele. Quero convocar todos a um esforço de transformação”, disse ela.


Sonhos. É sobre isto que se referia Dilma quando disse a tal frase no sábado, primeiro do ano. Não pode ser por outra razão. Ela mesma repetiu e repetirá tantas vezes lhe permitirem que, seu antecessor e “mestre”, Luís Inácio, devolveu o sonho para o “sofrido povo brasileiro”. Claro, não será ela, a primeira mulher, inédita e original a ter sobre os ombros a faixa presidencial, que vai desmentir os fatos e contradizer os mais de 55 milhões de brasileiros que lhe confiaram o voto. Ela sabe perfeitamente a importância em se dançar conforme a música toca nos gramofones, afinal, é inédita e original, não é mesmo.

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Artigo escrito e publicado na edição de nº 218 do Jornal Classe A.



11 de nov. de 2010

A caçadora

Lembro de ela ter entrado no escritório vestindo uma saia minúscula. Daquelas feitas sob medida para deixar um homem com a pulga atrás da orelha, em estado de alerta e com o instinto animal atiçado. Ela remexia o quadril como se sussurrasse: “estou te provocando, não percebe”. Aliás, era isso que ela queria. Provocar um ataque desmedido, e, se consumado àquela hora da tarde, em pleno horário de expediente e sob risco de ser presenciado por quem quer que se atravesse a passar diante da única janela da minúscula sala comercial em que trabalhava, no mínimo me custaria o emprego.

Ela exalava malícia e sabia exatamente o que queria. Sentada a minha frente, fez questão de deixar as pernas torneadas e pinceladas com a cor do pecado, a mostra. Falou quase miando, como uma gata selvagem.

- Oi, estou sem calcinha hoje.

Aquela não fora a primeira, muito menos a última vez, em que ela demonstrou suas intenções carnais para comigo. Ela era uma caçadora. Felina, habilidosa e, principalmente, decidida. E justamente por isso, eu sabia que ela iria continuar e continuar e continuar. Foi assim durante meses. Saias minúsculas, telefonemas, até faxes com propostas indecentes. Ela usou de todas as ferramentas possíveis e, talvez, imagináveis para o período, uma vez, naqueles dias não termos nenhum, nem outro, e-mail ou celulares para mensagens instantâneas.

Até chorar ela chorou. Publicamente, diga-se.

No entanto, e por algum motivo, por mais que ela insistisse menos vontade em ceder eu tinha. Havia se tornando fácil demais. Eu simplesmente não queria. Estava decidido e nada nem ninguém seria capaz de me fazer mudar de ideia. Nem mesmo ela sentar diante de mim com uma micro saia miando estar despida das peças íntimas. Nem isso. Podia ser taxado de louco, de frouxo, o que fosse. Não importava. Ao perceber meu desinteresse, aos poucos as visitas no meio da tarde findaram os telefonemas também e as propostas recheadas de indecência idem. Por um tempo, ela sumiu. Aliás, demorou para nos vermos de novo. Alguns anos para ser mais preciso.

E quase não a vi. Tinha pressa. Foi ela quem chamou pelo nome. Estava diferente. Sem as saias minúsculas e as propostas descaradas. Havia se tornando mãe. O pequeno, inquieto, brincava perto dela. Conversamos durante horas. A caçadora, felina e decidida havia se tornando mamãe. Fiquei feliz. Rimos juntos de tudo que havia se passado, principalmente, do aprendizado de cada um em relação àquela história. Naquele dia ela me confessou que fui o único homem a dizer não para ela. A única presa que lhe fugiu por entre os dedos. Descobri, durante aquela conversa, que havia lhe feito mal. Ferido seu coração. De tanto negar suas investidas, acabei semeando um sentimento aquém o desejo e a paixão pura e simples. Ela queria algo mais que me provocar com insinuações picantes. Eu, pelo contrário, após ouvir sua tardia declaração, queria jamais ferir o coração de alguém novamente.

Depois deste reencontro, voltamos a conversar algumas vezes, mas sempre de maneira esporádica. Ela se tornou mamãe de novo e atualmente ataca de micro empresária. Encontrou a paz e parece ter desviado aquele perfil de caçadora voraz para outros fins. Continua sabendo o que quer, e o mais interessante, continua a ser uma mulher decidida. Fiquei, uma vez mais, feliz. No entanto, em uma de nossas últimas conversas, a ex-caçadora revelou ter vergonha de muitas atitudes que tivera no passado. Tentei apaziguar. Argumentei que aquilo fazia parte de uma fase de sua vida que, indiretamente, a teria auxiliado no seu crescimento e desenvolvimento como ser humano, uma espécie de ponte para a mulher que ela se tornou.

Não sei se ajudei.

Compreendo que ela tenha vontade de rasgar algumas páginas dos tempos em que tinha 18 ou 19 anos, mas sempre fui adepto da tese de que devemos aprender com os erros que cometemos e nunca nos resignarmos ao arrependimento. No fundo, todo ser humano passa por fases de provação na vida e são nestes períodos de instabilidade que construímos as bases daquilo que seremos quando, de fato, nos tornarmos adultos e maduros.

Por fim, fato é que a vida nos ensina algumas lições que só nos damos conta depois de um tempo. Particularmente, nunca saberei o que aconteceria se caso, uma única vez eu tivesse dito sim. Mulheres com o perfil de caçadoras, podem ser perigosas, mas não necessariamente devem ser subestimadas.

Nota de rodapé:
Hoje, passados mais de dez anos do dia em que ela entrou no meu, então, local de trabalho vestida com uma saia minúscula e cheia de segundas intenções, resta-me somente, aproveitar o espaço e oportunidade para enviar-lhe um singelo e cordial abraço pelo aniversário completado no domingo, 31 de outubro.

Sendo assim, feliz aniversário, caçadora!  


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Texto originalmente publicado na edição de nº 211 do Jornal Classe A e editado para postagem no blog


7 de out. de 2010

O Brasil não se leva a sério



Ainda no domingo, 3 de outubro, um comentarista da Rede Bandeirantes de Televisão dizia que a campanha para as eleições deste ano foram insossas, tendo nos principais candidatos ao Planalto uma demasiada cautela em relação a apresentar propostas que façam jus as necessidades deste país varonil. 

De fato, a exceção de Plínio, o que se viu no fajuto período de propaganda, em especial na dos dois principais nomes para suceder Lula, foi uma quase que total imersão na mediocridade. Um mergulho profundo na falta de bom senso, tanto de políticos quanto de eleitores como um todo. Os primeiros, movidos pelo desespero de encontrar – ou reencontrar – o poder. Os demais, pela descrença ou mesmo pela falta de discernimento para operar mudanças significativas nos âmbitos municipal, estadual ou federal.

A política no país é um verdadeiro circo. Em linhas gerais, o Brasil não se leva a sério. A esmagadora eleição de um palhaço para representar São Paulo no congresso nacional se assemelha as caricatas bobagens que, nos seus primórdios o programa global Casseta e Planeta fazia em época de eleição (e talvez ainda o faça, embora com bem menos qualidade e originalidade) e é um exemplo crasso de como o brasileiro encara a política. A bem da verdade, Tiririca é uma mentira. Um tipo de piada que se conta no horário considerado nobre da televisão brasileira para manter o povo à margem e pregado na rotina estafante de trabalho – muitas vezes, quase escravo –, feijão com arroz, novela e cama. Um horário em que, infelizmente, impera a espetacularização do ridículo com apresentadores que se travestem de mongóis. Empurra-se, literalmente, com a barriga. 24h por dia. E assim seguimos.

O candidato é o personagem Tiririca ou o cidadão que atende por Francisco Everardo Oliveira Silva?

Tiririca, que na verdade é um personagem criado e mantido pelo humorista Francisco Everardo Oliveira Silva, fez 1.353.820 votos, representando um partido em ascensão, o Partido da República (PR) e que, curiosamente é detentor de correligionários em centenas de prefeituras em todo país, Luís Eduardo e Barreiras entre eles. No entanto, o que intriga é como um partido que se diz em prol da república aceita a filiação de um palhaço? Também este não se leva a sério? Apostou na dúvida entre o fracasso e o sucesso de uma candidatura dúbia para pensar nas consequencias somente após as eleições? Ou, está simplesmente esperando o momento certo para esclarecer a todos que tudo não passou de uma brincadeira?

De acordo com reportagem do jornal Correio Braziliense, publicada na quarta-feira, 6 de outubro, Tiririca tem uma semana, até 13 de outubro para provar que é o dono da caligrafia escrita no documento que pede o registro de candidatura protocolado no Tribunal Regional Eleitoral paulista (TRE-SP). Em miúdos, se for provado que o documento foi manuscrito por terceiros, o palhaço terá a candidatura impugnada e não será diplomado. Será? Na mesma reportagem, curiosamente, uma educadora avalia a situação sob outra ótica, a dos direitos políticos. “Nós lutamos anos para que os analfabetos pudessem votar. Por que eles não podem também ser eleitos?”, indaga. Boa pergunta e que merece cuidadosa reflexão.

Em contrapartida, na sempre bem humorada coluna que mantém no jornal O Estado de São Paulo, o jornalista Tutty Vasques coloca mais lenha na fogueira. “Não é justo que se cobrem bons antecedentes do Maluf e se mantenha impune o sujeito que votou, por exemplo, no Tiririca. Fosse ele penalizado quando elegeu o Enéas, o Pitta, o Collor ou o Jânio, já teria parado com essa palhaçada”, escreve Vasques. O colunista faz ainda uma analogia com o famigerado projeto de lei “Ficha Limpa” (praticamente estancado na incoerência dos magistrados do supremo), taxando os eleitores deste tipo de candidato (“tiriricas, “mulher-melão”, “casal roriz” e outros) como “eleitor ficha suja”. “O gaiato analfabeto que agora estão mandando para o Congresso pode até ser cassado, mas outros virão em seu lugar se a brincadeira de mau gosto não for cortada pela raiz”. E mais: “O bafômetro em boca de urna também ajudaria a evitar novos desastres provocados pelo voto-bêbado que elegeu uns e outros país afora”. Reflitam, reflitam.

Por fim e quase que ciente que não há mais esperança, reproduzo parte de um e-mail recebido esta semana e que, grosso modo, ajuda a entender os tantos porquês de eleição após eleição continuarmos reclamando das mesmas coisas e ainda assim nada mudar. O brasileiro saqueia cargas de veículos acidentados nas estradas; estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas; suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração; troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, e até dentadura; fala no celular enquanto dirige; dirige após consumir bebida alcoólica; fura filas  nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas; espalha mesas, churrasqueira nas calçadas; faz  " gato "  de luz, de água e de tv a cabo, Compra produtos pirata com a plena consciência de que são pirata e ainda quer que algo mude na política que ele mesmo ajuda a construir.

Eu avisei. Ta lá no segundo parágrafo: o Brasil não se leva a sério.




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Texto escrito para a coluna Ponto de Vista do Jornal Classe A de Luís Eduardo Magalhães/BA

16 de set. de 2010

O amor precisa voltar

É comum se dizer que sem amor o ser humano não vive. Essa palavrinha de quatro letras acompanha o homem desde sua concepção, tanto, que somos em grande parte, frutos dele: o amor. Na edição passada [na coluna semanal que assino para o jornal Classe A de Luís Eduardo Magalhães/BA], republiquei texto de um talentoso amigo e quase graduado nas artes do jornalismo, em que ele rechaça por completo as crônicas e poemas que versam sobre o amor.

Desta feita, que fique claro, não pretendo estender a discussão proposta pelo colega, pois, considero que o confronto de ideias, quando feito de maneira civilizada, é a melhor forma para se encontrar um denominador comum. A questão que levanto é, digamos que, mais simples: falta-nos amor. Isso mesmo. Está faltando amor na vida das pessoas. Compartilhar este sentimento tão natural e essencial para a continuidade da vida. Conjugar o verbo. Amar.

Há alguns anos assisti uma cena, no mínimo, intrigante e que de certa forma pode ajudar na compreensão daquilo que proponho esta semana. Tratava-se de uma cena que simboliza o quão complexo o amor pode se apresentar para as pessoas. O quão importante são os pequenos detalhes e talecoisa. As miudezas subjetivas, que em dado momento da história da humanidade foram alvo de deturpações. De um momento em que se tentou igualar a todos a números objetivos e sem emoção. A tal racionalidade de Descartes e outros tantos.

Na tela, um pesquisador mostrava seu trabalho para um programa de televisão especializado na mãe natureza. Explicava os mínimos detalhes e aprendizados absorvidos ao longo de anos de pesquisa e observação. Estudava um pássaro raro. Em miúdos, o tal pesquisador delegou anos preciosos de sua existência a seguir os rumos daquela pequena ave. Criou, inconscientemente, um vínculo afetivo exclusivo com aquela espécie e com o trabalho que realizava.

No decorrer da apresentação, tanto o pesquisador quanto a emissora foram pegas de surpresa. Presenciaram o nascimento de uma nova vida, de um novo pássaro daquela rara espécie. As câmeras atentas captaram todos os momentos daquele nascimento. O homem, no alto de sua subjetividade e incapaz de equilibrar o racional com o afetivo, simplesmente desabou em lágrimas. Chorou copiosamente e não escondeu a emoção ao ver o pequeno pássaro ganhar a vida. Era como se fosse um filho, um presente após tantos anos de dedicação e pesquisa. Aquele homem protagonizou uma das cenas de amor mais belas e ao mesmo tempo inquietantes que já assisti e, com o perdão da assertiva, muito mais honesta, por exemplo, que muitas vis tentativas do cinema e da teledramaturgia.

É bom que fique claro que não importa nesse texto encontrar as razões que fizeram aquele homem, dedicar toda uma vida a pesquisa dos hábitos de vida de um pássaro raro. Seria injusto procurar motivações para isso. Meus vieses poderiam deturpar qualquer análise. No entanto, julgo necessário dizer que é provável que aquele homem tenha encontrado no trabalho a motivação necessária para viver. Talvez, os desencontros amorosos daquele homem o frearam e serviram de estímulo para que se distanciasse de novos “encontros”. Como fazem muitos corações partidos nesse mundo, aquele pesquisador procurou o foco para sua felicidade em outra realidade.

Quando se estão em jogo dois universos distintos, duas cabeças pensantes e cheias de “verdades”, o amor pode acontecer, como pode “desacontecer”. Pode se tornar uma ferida enorme. Incurável. Como pode se tornar uma necessidade mútua de presença, de carinho, de afeto, de vida. O acúmulo de “desacontecimentos” pode levar uma pessoa a tomar decisões parecidas com a do pesquisador ou, ascender para o lado negro da força, e cometer, por exemplo, assaltos primários com um capacete na cabeça e escapulindo com uma motocicleta. O ser humano precisa aprender a lidar com as novas rotinas da vida neste século, adaptar-se e deixar que o amor volte a acontecer em suas vidas, senão, seremos cada dia mais vítimas de bandidos covardes que pensam ser vilões de uma história em quadrinhos, escondidos atrás do visor de um capacete.




17 de ago. de 2010

O fim do JB e a "invenção da leitura"

Para não deixar o blog sem novidades, segue abaixo artigo escrito para a edição nº 198 do Jornal Classe A


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A imprensa de papel como um todo, em especial a dos jornais, há muito anda em polvorosa com a perda de leitores. As grandes corporações digladiam-se em busca de uma solução frente o expressivo avanço da comunicação via internet. Na EUA e Europa, nomes consagrados como New York Times e Le Monde investem em projetos alternativos e novos planos de negócios para manter na ativa as redações de papel. O fraco rendimento nas bancas aliado aos desencontros legislativos em relação a – pseudo – liberdade promovida na web, são apenas alguns dos nós que a velha imprensa tenta desatar.

Em meio a este cenário, migrar para o universo cibernético virou regra, sob risco de extinção. No Brasil o mais recente caso, envolvendo grandes jornais e o dilema do universo online, deu-se com o Jornal do Brasil, popularmente conhecido como JB. No último dia 14 de julho um anúncio de página dupla anunciou, de forma oficial, que a partir de 1º de setembro, o JB só seria encontrado em versão online. “O JB vai sair do papel. E entrar na modernidade”, dizia a manchete. E mais: o formato do jornal será compatível com e-readers como iPad e Kindle e a assinatura mensal será de R$ 9,90.

Kindle
Um rápido parêntese. (A discussão e tentativa de popularização de leitores virtuais (e-readers) é constante nos grandes centros e claro, nos países desenvolvidos e onde a tecnologia de informação consegue se desenvolver melhor, em muito, devido a qualidade de acesso a internet, o que por ora, não é o caso da região oeste. O mesmo pode ser dito em relação aos aparelhos do tipo iPad e Kindle, este último, inclusive, já foi testado pelo jornal Zero Hora de Porto Alegre, sem muito sucesso).

De acordo com dados da Associação Nacional de Jornais (ANJ), em 2009, circulação diária de jornais pagos no país foi de 8,193 milhões, recuo de 3,46% em relação a 2008, quando a circulação crescera 5%. No blog do jornalista Ricardo Noblat, em artigo publicado na véspera do anúncio do fim da versão impressa do JB, o Diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, lamentou o fim formato papel do jornal. Em contra partida, Pedreira fez questão de frisar que este é um caso isolado e que aposta no crescimento da circulação dos jornais no país este ano. Em suma, o representante da ANJ mantém vivas as esperanças em um aumento no número de leitores, pois só assim para sua previsão se concretizar.

Enquanto isso, talvez o artigo publicado no Observatório de Imprensa na última terça-feira, 3, sirva como alerta para que outros jornalões brasileiros não sigam o mesmo caminho do JB. Na França, uma editora está conseguindo refrescar o mercado de jornais de papel com títulos dirigidos a crianças e jovens. Em cinco anos, a editora La Play Bac emplacou três títulos de diários entre a molecada. As publicações mantém uma média estável de 150 mil assinantes em toda a França. Le Petit Quotidien (O Pequeno Diário), dirigido a crianças de até dez anos, Mon Quotidien (Meu Diário), para crianças e adolescentes entre dez e 14 anos, e L´Actu (derivativo de "últimas notícias"), com público-alvo entre 14 e 18, são jornais compactos, de quatro a oito páginas, com muitas imagens coloridas e assuntos de interesse de seus públicos específicos.



O que mais intriga? Os donos da editora consideram que o segredo do sucesso tem sido publicar notícias para crianças e adolescentes, em vez de tentar explicar o noticiário de adultos para crianças. Além disso, os jornais para os pimpolhos são feitos para serem lidos em dez minutos e funcionam como parte do esforço de educação das famílias. Cada assinatura custa o equivalente a 20 por mês, a empresa fatura 18 milhões de euros por ano e 10% dos lucros vêm dos anúncios. Se comparados aos suplementos infantis e juvenis dos jornais brasileiros, os diários para meninos e adolescentes na França oferecem muito mais do que as reportagens sobre comportamento, jogos eletrônicos e bandas de música que enchem o Estadinho, Folhinha e Globinho. Quando perguntado se os leitores infantis vão migrar para os jornais de adultos quando crescerem, o diretor da editora francesa foi direto. "Não, se os jornais de adultos não derem a eles o mesmo prazer de leitura".

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15 de abr. de 2010

A mendicância se profissionaliza

Mendigar, pedir e esmolar. Três verbozinhos. Conjugados diariamente por milhares de pessoas: no Brasil, no mundo, e, claro, em Luís Eduardo Magalhães. Homens e mulheres. Jovens e adultos. A meia tarde de domingo, Brasília em pouco se parece com a movimentada capital de todos nós brasileiros. A política, observada neste horário, parece ingrediente para, quando muito, os dias úteis. O ônibus lotação apressa-se pelo final da asa sul. Uns entram outros saem. Entre eles, um jovem de pele escura, aparentemente bem afeiçoado. Tão logo passa pela roleta do cobrador começa a conjugação da trinca verbal.

- Moço, me dá dez centavos.

Assim o faz com todos passageiros.

Adiante o jovem negro desce do ônibus e estanca em outra parada. Até o acelerar do ônibus o pedinte permanece imóvel, sem ação, no aguardo sabe se lá de que ou de quem. Não tive tempo de perguntar. Confesso. Preferi, na reflexão silenciosa do trajeto, imaginar que razão faz com que uma pessoa entre em um ônibus lotação arque com o valor devido (uma modela de um e outra de cinqüenta) e comece a pedir miseráveis dez centavos de cada um dos passageiros.

Não faz sentido. Esforço-me para entender. Em vão.

Dez centavos é moeda de pouco apreço. Pouco contato. Não é popular, senão em mercados, padarias e bancos. As pessoas preferem as de vinte e cinco, cinquenta e um real. São maiores e mais significativas. Mas mesmo assim, a mendicância do rapaz candango é clara: “Me dá dez centavos”. Não ganha somente os dez pedidos, ganha os vinte e cinco, cinquenta e um real. É inteligente. Cara de pau. Pede com a cara limpa. Sem vergonha. Fácil.

À noite, é a vez de uma mulher, também de cor escura, pedir auxílio financeiro sob o pretexto de alimentar os filhos. A rodoferroviária da capital federal, a propósito, é um conluio de atrocidades sociais. De todos os gêneros. A moça não carrega os rebentos a tira colo. Tem tão somente boa lábia. Ganha algumas moedas. Vai-se.

Outro chega. Conduzindo uma bicicleta adaptada a necessidade especial, um senhor oferece pequeninos saches de mel. Não mendiga, pede ou esmola. Vende. As moedas se foram. Digo: não, obrigado. Ele se ofende. Questiona. Diz ser trabalhador. Acusa a mulher de pedir dinheiro para se drogar. Nada mais posso fazer. Sou a vítima. Sinto-me culpado. Prometo não dar mais moeda sequer para qualquer que seja o pedinte sob qualquer que seja o argumento. Ponto. Exclamo.

Despeço-me da capital federal. Triste. A constatação é inevitável. Os verbetes da primeira linha, são hoje, conjugados de todas as formas possíveis. Não há gramática que resista. Impossível passar incólume. Absorto. Mendiga-se em todas as esquinas. Em todas as valas, em todas as ocasiões. Mente-se a mentira perfeita. Engana-se com talento. Mendigos profissionais é o que são. Brasileiros. Crias de um país de Arrudas, mensalões, CPI´s. Um país que se prepara timidamente para novas eleições. A definir quem serão os nomes. As chapas. Um país que disfarça suas feridas. Varre para debaixo do tapete toda sujeira. Empurra para depois. Bem depois. “Ficha limpa” é carta fora do baralho. Há sujeira em todo lugar. O ônibus para novamente, a roleta gira, o cobrador recebe o um e cinquenta, o passageiro entra, é o mesmo de sempre, é verdade, a mendicância se profissionaliza:

- Moço, me dá dez centavos.

2 de abr. de 2010

Calcinha, preta e com rendinhas?

Um show para milhares em Luís Eduardo
Na primeira apresentação depois de receber o prêmio de “Melhor Música do Ano” no Domingão do Faustão da Rede Globo, consagrada banda de forró leva fãs ao delírio na capital do agronegócio
Foto: Anton Roos

A atração mais esperada nas comemorações pelo décimo aniversário de Luís Eduardo Magalhães, por pouco não se apresentou. Impossibilitado de pousar no Aeroporto de Barreiras, em decorrência das fortes chuvas que caiam na cidade mãe no final da tarde de segunda-feira, 29, a aeronave que trazia os quatro vocalistas da banda Calcinha Preta para o oeste da Bahia acabou pousando hora e meia depois, por volta de 19h e 30 min no Aeroporto Internacional de Brasília, distante 560 km do município aniversariante, também sob forte chuva.

A notícia chegou ao conhecimento da organização do evento em Luís Eduardo, e consequentemente do prefeito Humberto Santa Cruz, pouco antes do por do sol e quando as nuvens cinzentas ainda eram tão somente uma ameaça. Uma decisão precisava ser tomada rapidamente, sob pena da não realização do evento. Sentado numa das muretas da praça matriz Humberto procurava a melhor alternativa para, em tempo, realizar o show. E assim o fez. Devido a imprevisibilidade do clima na região, um novo voo foi descartado. Restava uma única alternativa: locar dois automóveis para trazer os cantores.

Era noite. A brisa que pairava na praça matriz, ainda vazia, indicava que a chuva que pouco antes impedira o pouso dos quatro protagonistas da noite, estava próxima. A timidez dos primeiros pingos d’água logo se transformaram numa pancada de chuva. O transporte dos artistas estava garantido, o show ainda não. Será que a chuva seria um empecilho para a realização do evento? A pergunta que por alguns minutos martelou na cabeça do prefeito municipal, por sorte, foi respondida com a manutenção do show. Aos poucos a chuva foi amainando e a sensação de mormaço se dissipando. Por completo.

Contagem regressiva - Às 22h, não havia qualquer indício que um grande show se realizaria no entroncamento das Ruas Paraná e Rui Barbosa. Não havia público e não havia som nos PA´s. O primeiro, ainda desconfiado com a possibilidade de a chuva voltar, e o segundo, pelo risco de estragos no equipamento de som. Ambos só deram o ar da graça meia-hora depois. O que se viu daí em diante serviu como contagem regressiva. Enquanto instrumentistas e dançarinos aguardavam no hotel, a frente do palco era tomada pelo público enquanto que a dupla local, New e Júnior tocava sucessos da música sertaneja.

A meia-noite uma pausa. Com a participação do prefeito Humberto Santa Cruz e secretários de governo, a banda que acompanha a dupla tocou uma improvisada versão de “Parabéns pra você”, seguida por parte dos presentes que a essa altura já tomavam boa parte das imediações do palco, em referência ao décimo aniversário do município comemorado dia 30. Aos parabéns se sucederam fogos de artifício. Ao show pirotécnico a continuidade do show da dupla que por duas horas aqueceu os presentes que timidamente pediam pela atração principal.

Foto: Hélio Lima

O show - Quinze minutes antes da apresentação da dupla terminar, roadies, seguranças, músicos e dançarinos da Calcinha Preta chegavam ao camarim. Restava o mais importante, os quatro cantores, que no dia anterior estavam no Rio de Janeiro onde receberam das mãos do apresentador global Fausto Silva o prêmio de “Melhor Música do Ano”, pela canção “Você não vale nada”, tema da novela Caminho das Índias da Rede Globo de Televisão. Duas da manhã. Um mar de gente aguarda pelo início do show. Cortinas fechadas. Os quatro cantores, enfim, chegam a Luís Eduardo. Falta pouco. No camarim, os cantores Marlos e Bel contam que o grupo já está a três dias praticamente sem dormir, cumprindo os compromissos da agenda. Sorridentes eles falam do prêmio e do reconhecimento. Agradecem ao prefeito pela oportunidade. O show vai começar.

Logo no primeiro ato, a canção vitoriosa põe o público estimado em 15 mil pessoas para cantar e dançar. Ao final, Bel mostra o troféu recebido no dia anterior e diz que a banda não poderia fazer o primeiro show depois da premiação em outro lugar que não numa cidade do nordeste. O público vai ao delírio. Na sequencia, a vocalista Paulinha chama para frente do palco o prefeito Humberto Santa Cruz que brevemente anuncia que a festa é do povo e feita para o povo. O show continua. O balé dos dançarinos em cima do palco é tão perfeitamente sincronizado quanto a disposição dos três casais em trocar de figurino nos camarins. O mesmo acontece com os cantores que, mesmo cansados, atendem aos fãs com fotos e autógrafos. O grupo enfileira sucessos, um após o outro, mantém o público na mão e transforma o show dos dez anos de emancipação num evento histórico para não se esquecer.

Quando as cortinas se fecham e o show termina, ainda há tempo para atender uma última fã. Aos prantos ao lado da van que levaria o grupo para seu próximo compromisso, uma menina implora por uma foto com os ídolos. A pequena fã ganha sua foto, seu autógrafo e ainda chorando segue ao lado da mãe. Já a cidade menina Luís Eduardo Magalhães, quando os galos já se preparavam para anunciar a chegada da manhã, eternizava em sua história o espetáculo que acabara de presenciar.

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Publicado na edição nº 180 do Jornal Classe A

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[Juntar trabalho com diversão, pq não? Olha eu e Paulinha, vocalista da Calcinha Preta]

15 de jan. de 2010

Joyce não me devolveu a internet

Joyce era o nome da pessoa do outro lado da linha. Conversei com ela por mais de trinta minutos. Quarenta talvez. Gastei o ouvido. Fiquei com as cartilagens da orelha vermelhinhas de tanto ficar com o aparelho de telefone colado ao meu escutador direito. Tenho convicção que não voltarei a conversar com Joyce. Ouvir a voz, as frases enjoativamente decoradas, o gerundismo ou a educação fabricada. Não mais. A conversa que tivemos foi única mas infelizmente não definitiva. Joyce representava a esperança de uma solução, de uma resposta para meus suplícios. No entanto, coloquei o telefone no gancho sem ver meu problema resolvido e passados quarenta e oito horas, sinto que poderia ter sido mais insistente com ela. Exigir um posicionamento, ou mesmo uma mandinga que fizesse ressuscitar meu nauseabundo modem.
Resumo da ópera: Joyce não me devolveu a internet. Estou sem conexão. Meu modem não funciona. A moça bem que tentou. Foi paciente comigo. Eu também, diga-se. Tive de manter a linha para não esbravejar contra a pobre atendente da operadora de telefonia. Nada disso adiantou. Por ora, uno meu grito desesperado ao de outros tantos luiseduardenses que padecem sem acesso a grande rede de computadores. Digo: falta-nos qualidade, infraestrutura de ponta. Banda larga, como preferirem. Aquela conexão, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) com velocidade superior a 64 kbps. Pois, abaixo disso a conexão é considerada de banda estreita ou discada. Leonardo Spinelli, em artigo publicado pelo Jornal do Commercio de Pernambuco em 27 de dezembro último, diz que “o indicador da Anatel pode ser considerado antiquado” se comparado com outros índices aceitos mundo afora. Uma balbúrdia. Penso na Joyce. Penso no Ministério das Comunicações (Minicom).

Pois o Minicom, por intermédio do Plano Nacional para Banda Larga (PNBL) quer dar uma definição para o serviço, o que segundo o texto de Spinelli, hoje não é consenso. “A ideia é tentar abrir seu significado para que ele não fique preso ao conceito de velocidade e traga, por inércia, a experiência do usuário como foco definidor”, confere o artigo. Adiante e de acordo com o PNBL, as definições disponíveis atualmente sempre são expressas em termos de capacidade de acesso, na medida de bits por segundo, e não chegam a um consenso. Olha a palavrinha mágica de novo. Liguei para minha operadora atrás de um consenso sobre a inoperância do meu modem, e agora, descubro que o conceito de “banda larga” no país padece de um consenso. O documento diz o seguinte, a título de exemplificação: "Isso pode ser explicado pela dificuldade de se estabelecer padrões de tráfego que espelhem a diversidade de expectativas, comportamentos e padrões de uso dos consumidores finais pelo explosivo crescimento do tráfego, o qual torna obsoleta qualquer definição que se baseie apenas na largura de banda do acesso à internet".

Portanto, para o Minicom, a melhor definição para o serviço seria "um acesso com escoamento de tráfego que permita aos consumidores finais, individuais ou corporativos, fixos ou móveis, usufruírem, com qualidade, de uma cesta de serviços e aplicações baseadas em voz, dados e vídeo". Bingo. Pensei em Joyce novamente. Em ligar para ela e contar a novidade. Talvez assim, cheguemos a um consenso. Talvez eu deva contar a boa nova para meu modem rubro-negro. Se ele entender pode me colocar novamente no mundo virtal. Opa, meu celular está tocando.

- Alô, pois não.

- Senhor Anton, recebemos uma reclamação que o senhor não está conseguindo conectar a internet. O problema persiste?

- Sim meu caro. Continuo as escuras com minha conexão.

- Senhor Anton, eu vou estar passando o problema para...

Desisto.

Como era mesmo a voz de Joyce? Há quanto tempo mesmo estou sem internet? Em blog de colega jornalista aqui dos gerais está escrito que “dados divulgados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) apontam que 2.772 municípios brasileiros possuem estrutura para a instalação de internet banda larga”. No final da nota e perfeitamente colocado: “vamos ver se com essa notícia, Luís Eduardo, que está praticamente ilhado em termos de internet, ganhe logo a sua banda larga”. Coloque meu nome nos reclamantes colega.

Joyce, perdão querida, mas cansei de esperar.

17 de ago. de 2009

Pedrinhas no lago


As crônicas de Veríssimo não são exclusividade dos gaúchos. Baianos, paulistas e internautas podem ler os textos do filho do Érico, o Luís Fernando. Uma ode a erva mate por isso. Limitar um único povo as leituras dos textos daquele que criou o Analista de Bagé seria como retroceder anos luz no tempo e na história. Luís Fernando é colorado e odeia dar entrevistas. Fato. Nada de novo. Mais do mesmo. Todos devem saber dessas miudezas do escritor, afinal, novidade não é.

Veríssimo é, por fim, produto da globalização. Essa que nos confere a falsa impressão de estarmos em todo lugar a hora que quisermos. Em sua coluna do Jornal A TARDE de domingo, 19 de julho, o escritor de bombacha e alpargata relembra 1964. O ano que teve início a ditadura militar no Brasil. Esmiúça aqueles dias com o talento que lhe é peculiar. Faz um contraponto entre os brasis de hoje e de 45 anos atrás. As mudanças, as diferenças. O fato de não se andar mais de bondinho e do mundo possuir, hoje, outras divisões. Velhos tempos.

O título não esconde o apego nostálgico: Aqueles dias. A propósito, lembrar de dias que já se foram é das maiores dádivas que pode existir na vida, muito embora, 1964 seja sinônimo de más lembranças. Pena, que a cada dia menos tempo se tem para isso. Lembrar. É um viver descontrolado. Descompassado. Um atropelar de horas e horas em busca de algo que muitas vezes não se sabe o que é. Amanhã, talvez não haja o que relembrar sobre hoje. Triste, realmente triste.

Se um dia fores testemunha de um relato, seja ele qual for, e seu interlocutor tiver a íris brilhando como jóia rara, simplesmente ouça. Ali existe uma história que implora para não morrer sem que encontre ouvintes. Não importa, se histórias como as de 1964 e que remontem as duas décadas de ditadura. Não. Veríssimo sim é um contador de histórias. Usa e abusa de seu talento como escritor para contar histórias e encantar quem as lê. Como ele, milhares de pessoas aguardam ansiosas por uma oportunidade para serem ouvidas. Não precisam ter talento para rabiscar suas linhas em jornalões do Rio Grande, de São Paulo, da Bahia, ou até para perpetuarem-se pela internet. Querem atenção.

Eis ai a maior diferença deste e daqueles dias: a cumplicidade. O sentar em um banco de praça, jogar conversa pro ar e rir. A dois, a três, em um grupo de amigos. Os dias de hoje são feitos de uma artificialidade maior que namoro a distância. É mais cômodo gastar horas e horas diante de um computador que fazer uma visita inesperada a um amigo, por exemplo. Com isso esvaem-se os pequenos prazeres. Andar de bicicleta, jogar pedrinhas em um lago, brincar de esconde-esconde, jogar futebol de botão, pular amarelinha, colecionar figurinhas da copa do mundo de 1986, ler um livro de Veríssimo sob a sombra de uma macieira e tantos e tantos outros.

Conversar se torna complicado. Tarefa quase agendada. Nada que se justifique. O escritor gaúcho é uma exceção. Prefere escrever. Sente-se mais espontâneo e em condições de transmitir aquilo que realmente deseja quando escreve. Para os demais o verbo conversar é e deveria continuar sendo conjugado. Repensado até. Eu converso, Tu conversas, ele conversa. Nós conversamos. Logo, todos conversam. Há comunhão. Extinguem-se as chances de trapaças, rasteiras e puxões de tapete. O triunfo do diálogo. Nada de falácias às escuras. Mentiras. Se o homem pisou ou não na lua é problema dos protagonistas desta história. Caras como Veríssimo escrevem com o coração. Conversas assim, com o coração talvez façam falta nos dias de hoje. Camaradagem, confiança e integridade. Uma trinca capaz de merecer um convite para jogar pedrinhas no lago.
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Este é o centésimo posto do blog. Mil vivas a isso. Um ano depois de sua criação.

24 de jul. de 2009

Um freio a banalização

Foto: Manu Dias / AGECOM
[Jaques Wagner discursa durante Conferência Estadual de Segurança Pública, realizada entre os dias 09 e 10 de julho em Salvador]


Quando o diálogo por si não surte o efeito desejado é preciso mudar o modus operandi. Deixar de lado conversas e promessas e partir para uma ação mais consistente centrada em medidas severas e de efeito imediato. Planejamento e programação nem sempre são a melhor e única saída, fato que ganha pujança quando o assunto são políticas públicas.

Político que é político deve saber que a grande parte da população é imediatista em relação a assuntos cruciais como violência e segurança pública. Esta máxima não se restringe a federação ou estado. Faz parte também do dia a dia do município de Luis Eduardo Magalhães e de seus mandatários. Por isso, a urgência de uma atitude por parte dos governantes desta terra se torna tão iminente.

Raras vezes se viu tanta descrença em relação ao estado como nos dias de hoje. A rajada de acontecimentos negativos das últimas semanas no município parece ter tirado qualquer pingo de esperança ou empatia da população luiseduardense em relação ao governador Jaques Wagner. A propósito, esta antipatia tende a se reverter para o executivo e legislativo municipal caso as mudanças não aconteçam e uma atitude extremista seja tomada.

Os temas são pares e difusos. Violência e segurança pública. Necessidades básicas e constantemente repetidas pela imprensa e opinião pública. Assuntos por vezes banalizados pela ignorância, pelo medo, e consequentemente pela falta de uma informação uniforme e que supra a leva de apelos de uma comunidade como a de Luis Eduardo Magalhães. A raiz deste problema é muito mais profunda do que se imagina.

19 de jul. de 2009

Mágico de Oz


A inocência não mais existe. A pequenina estrada de tijolos de ouro de Mágico de Oz deve ter sido responsável por conduzi-la para longe de nosso convívio. Os poucos que permanecem imbuídos de pureza em seus corações, nos dias de hoje, são esmagados. Transportados para uma terra onde não há piedade ou misericórdia, e lá, amassados pelo punho de aço de um pugilista peso pesado. Há sarcasmo e mentira em todo canto e todo lugar. A constatação chega a parecer óbvia e inevitável: o latido de Totó já não mais ecoa como sinal de esperança. E pior, para nenhum de nós.

Meu avô costumava dizer, igual dez em cada doze brasileiros:
- O mundo é dos espertos meu filho.
E além do mais, os que não são, estão sempre à margem do rio a choromingar o fato de não saberem nadar, ou na pior das hipóteses, fingirem-se de lobos, mesmo que não saibam fazer outra coisa senão serem e parecerem ovelhas desgarradas de seu pastor. A estes parece não haver solução. Talvez três tapinhas cordiais nas costas, mesmo depois de um abraço desencontrado e no qual o melhor é não dizer uma palavra sequer.
Alias, devia ser proibido uma pessoa nascer no Brasil sem que tivesse no seu DNA a fórmula mágica da malandragem. Afinal, o que este iluminado ser fará para sobreviver? Dia desses engasguei com um gole de café. Descobri que pelos quatro cantos penta campeão se compra diploma. Para tudo.
Sempre senti ojeriza em saber o número de concluintes no ensino superior maquiando trabalhos e principalmente projetos monográficos, teses, dissertações, etecetera. Eu, tão inocente, achava que estudar e estudar fosse o caminho correto a seguir. Pena não ter como comprar diploma para jogador de futebol, artilheiro e fazedor de fortuna no melhor futebol do mundo.
O talento em si é pouco consistente se o camarada não for um cara-de-pau nato. Um mínimo de talento acrescido de lábia é a representação fidedigna de sucesso, ou quase isso. Basicamente, o que faltar será consequencia.
O sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer, cantarolava Renato Russo nos idos anos oitenta em Brasília. Em casa de enforcado não se fala em corda, brada o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pouco antes da homenagem a debutante do ano, o Plano Real, ironicamente, também em Brasília, dias atrás. Parafraseando o velho alpendre filosófico de Nietzsche, “toda vez que nos aproximamos por demais do monstro que queremos combater, corremos o risco de nos tornarmos iguais a ele”.
A pérola de FHC tem ligação com a crise do senado federal. Pobrezinhos deles. O retumbante povo brasileiro assiste e nada mais. Assiste aquilo que lhes é oferecido sem contestar mesmo já não sendo necessário um diploma – de novo ele – para ser jornalista. E na mesma proporção que assiste, opina, toma partido e assim por diante. No entanto, nada muda. A inocência foi se embora sem deixar e-mail ou número celular. Sem rastro ou indício algum de onde tenha ido. Inocente o povo brasileiro não é. Mesmo que viva a reclamar de seus governantes e a manter firme o discurso do “daqui a quatro anos”.
Infelizmente a esperteza tão vivaz na alma do povo verde amarelo é homogênea a ponto de fazer vitimas até mesmo entre os que se dizem tão espertos. Em primeiro lugar, claro: a defesa a todo custo de tudo quando for aprazível para o próprio ego. Depois, atacar e atacar o “inimigo” na esfuziante luta para sobressair-se doa a quem doer. O ditado é velho, mas sincero. Todo povo tem o governo que merece. Ainda mais engraçado é ter a certeza que o mesmo ditado ao avesso faz tanto sentido quanto. Ora, pois: todo governo tem o povo que merece. Parece matemática.
Não faço ideia de quanto tijolos dourados haviam no caminho de Dorothy, Totó e companhia. Importa que a inocência, caso tenha seguido pela mesma estrada, como sugerido no primeiro parágrafo, em algum ponto do percurso acabou se perdendo, ou encontrado um lugar melhor para fazer morada. Pois, a inocência não se importa se existem pessoas, brasileiros ou luiseduardenses que ainda acreditem nela. Para esses a esperança é tão somente a repetição infernal do surrado discurso. “Daqui a quatro anos...”. Pois é, eu disse exatamente isso quatro anos atrás e agora terei um diploma que nem mesmo o Mágico de Oz em pessoa poderá salvar. Nessas horas, talvez e bem talvez, só o talento poderá surgir como suprimento para a salvação.

10 de jul. de 2009

Jackson, Sarney e o acaso


Michael Jackson se foi. Depois de quase duas semanas de homenagens, lembranças e indefinições quanto ao funeral e sepultamento, enfim, o rei do pop pode descansar. O mesmo não se pode afirmar sobre o literário José Sarney, ex-presidente da república e pela terceira vez presidindo o senado federal. A crise vivida pelo senado, diga-se, é digna de repulsa. O político maranhense está desgastado. Sua figura pública escrachada e sem respeitabilidade.

O astro da música pop, em vida, passava situação semelhante. As constantes acusações de pedofilia, os escândalos envolvendo o destino de parte de sua fortuna, entre outros, fazia de Michael uma estrela em decadência. A morte o fez ressurgir. Brilhar novamente como nos tempos que cantava “nós somos o mundo, nós somos as crianças”.

Uma canção não fará com que Sarney recupere o prestígio. O descrédito do senado junto à população é algo que se prolonga por décadas. O atual presidente e aqueles que o cercam são e estão onde estão por influência do povo brasileiro. Porque somos munidos de um direito universal, muitas vezes despercebido: o direito da escolha.

O mundo escolheu Michael Jackson como um dos maiores nomes da música em todos os tempos e o povo brasileiro escolheu Sarney, tantas e tantas vezes para estar a frente do destino de milhares de pessoas. E mais: a população de Luis Eduardo escolheu fazer desta uma das cidades mais pujantes da federação. O título de capital do agronegócio não é obra do acaso. É escolha.

15 de jun. de 2009

As barbas do profeta

Fazer a barba é uma das tarefas mais chatas que existe. Se obrigado fosse, a tirar a minha todo santo dia, bateria o pé. A se bateria. Irrita a pele, deixa o rosto coberto com manchas vermelhas, exige paciência de Jó, gasta água e tempo, aparelho de barbear e como se não bastasse, deixa a pele lisinha tal qual bundinha de nenê. Em suma, uma tremenda de uma chatice. Porém, manter uma barba enorme, também tem das suas desvantagens. É preciso lavá-la quase que diariamente; quando coça, coça mesmo; assusta criancinhas, a maioria esmagadora das mulheres e por fim, todos te olham atravessado como se tu fosses um ser abominável e terrivelmente mal.

Malvados ou não, recentemente em Brasília, a Associação dos carregadores de bagagem da rodoviária, determinou que seus funcionários homens, deveriam trabalhar de cara limpa, sem barba ou bigode. Em suma, para ser funcionário da empresa era preciso ter e manter a cara peladinha, peladinha. Uma medida no mínimo curiosa, para não dizer intransigente e autoritário. Ora, como ficam aqueles homens que mantém o bigode há décadas? Assim, como que de repente, terão de raspá-lo e passar a viver seus dias sem o parceiro de anos? Pior, sem sua marca, sua identificação.

Existem os que defendem a teoria de barba e bigode serem marca registrada de determinada pessoa. Particularmente, a única vez que resolvi deixar o bigode, quase fui linchado. Desaprovação total. O bendito durou uma semana e a muito custo. Em contrapartida, em relação à barba a aceitação é maior. É possível associar a pessoa à barba, e vice-versa. Semelhante ao que acontece com o presidente Lula. Fato: barba e Lula, Lula e barba são como samba e carnaval. Marca. Identidade. Registro.

Além do presidente Lula, muitos são os barbudos com marca e patente em cartório: Jô Soares, Machado de Assis, Charles Darwin, Papai Noel. Isso, sem contar os profetas e também os magos. Detentores de barbas tamanho família. Todos eles. Barbas que batiam no umbigo e mesmo assim, não eram motivo de reclamação, de parte nenhuma. Eram respeitadas. Talvez, muito mais as barbas que os caras por trás delas. Os caras eram simplesmente os caras, faziam e desfaziam, independente do que os outros pensassem sobre suas barbas. Uma vez mais, eram respeitados pela marca, pela identidade.

Em Luis Eduardo, o agronegócio é, digamos que a marca registrada do município. Assim se fez desde os primeiros indícios e tramites para fazer desta uma cidade. Nos tempos que o Posto Mimoso era referência para a região. Quando o espírito desbravador ainda mexia com o imaginário de dezenas e centenas de produtores que viam neste, um cenário potencial para construir sua história. Vinte, talvez trinta anos atrás.

Em pouco mais de nove anos de emancipação, o município foi protagonista de um crescimento desordenado. Desenvolveu suas potencialidades, investiu em propaganda para transformar esta terra em sinônimo de progresso. Aproveitou da marca, do conceito de capital do agronegócio para chamar investidores, e por consequencia atrair mais e mais pessoas. Hoje sofre com o inchaço.

O município não tem barba, muito menos um castelo, um mago ou profeta para prever o que irá acontecer nos próximos meses ou anos. Luis Eduardo tem, sim, história e potencial para enriquecer ainda mais as páginas do livro de sua criação, progresso e desenvolvimento. Para isso, convenhamos, não será preciso um profeta com uma barba enorme batendo no umbigo. Isto não condiz com a marca e com a identidade do município de Luis Eduardo Magalhães. Não condiz.

Calda de chocolate





Troquei o “u” pelo “l”. Fazem duas semanas. Mais precisamente no artigo “Dias, e dias” (publicado na edição nº 134 do Jornal Classe A). Está lá. Um erro aparentemente banal, movido, muito mais por uma desatenção de momento. Calda ao invés de cauda. Piano de calda, escrevi. Errei. O correto seria “piano de cauda”. Caldas são aquelas que mamãe fazia para a cobertura dos seus, sempre deliciosos bolos de chocolate. E pianos, cá entre nós, não têm cacoete para caldas de chocolate.


Resolvi iniciar o texto desta semana falando deste episódio, justamente por respeito aos leitores desta coluna. Nada mais óbvio, afinal detenho de um espaço em um importante jornal de nossa cidade e por isso responsabilidades com tudo que escrevo. O leitor merece. Não me considero um ás na arte de escrever. Se faço, é por paixão, dedicação e claro, por acreditar que a leitura é o melhor exercício para os momentos de ócio e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.


Leitura e educação, a propósito, são – ou deveriam ser – como gêmeos siameses. Um não deveria viver sem o outro. O ato de educar diretamente ligado à leitura. E o hábito da leitura a educação. Essa semana tive o prazer de conversar com a responsável por esta importante pasta no município de Luis Eduardo. Quinze minutos. Um contato quase casual, mas deveras produtivo. Alias, sou fã de educadores compromissados com o saber. E ela, demonstra justamente isso: compromisso.


Esta palavrinha anda em desuso. Pouco ou nada utilizada. São poucos aqueles que nos rotineiros exames de consciência, se perguntam a cerca dos seus compromissos para com a sociedade. Para com o próximo, para com o planeta, para consigo mesmo. Quando escrevi “calda” ao invés de “cauda” não o fiz por maldade ou burrice. Se assim fosse não estaria me valendo deste espaço. Errar é da natureza do ser humano. Ter compromisso uma meta, um objetivo. Incorrem em falta gravíssima aqueles que acreditam na perfeição. A perfeição não existe. A insistência de sua procura seja talvez, um dos grandes erros do ser humano. Já escrevi sobre isto em outras oportunidades, e talvez, não seja oportuno rememorar o óbvio. Como diria um amigo advogado: a maior riqueza que o ser humano pode ter é o conhecimento. Infelizmente nem todos pensam assim. A secretária por sua vez, acredita na educação e faz por ela sua razão de viver. Saí do gabinete contente. “O educador precisa ter conhecimento que sua profissão só se justifica porque existe uma pessoa para ser educada”.


Nos últimos meses tenho sido motivado a acreditar na gratuidade inerente ao ser humano como forma de beneficiar o coletivo. Uma espécie de fuga da obviedade egoísta que move a todos nós. Este quase narcisismo que nos condiciona a agir e pensar o “eu” e não o “nós”, uma vez laborarmos pela simples manutenção de nossas necessidades básicas em detrimento do bem estar coletivo.


A história não mente. O manifesto é responsável pelas mudanças mais significativas da sociedade. Isto quando fundamentado. Organizado. As grandes revoluções tiveram início na organização e fundamentação de uma ideologia diferente da em vigência. Um piano de cauda necessita de muito espaço. Talento é verdade. Para os que tocam e os que o carregam. Afinal, seria muito mais fácil se o piano carregado pela Secretária de Educação e, em contrapartida, por cada um de nós fosse de calda, de chocolate.