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21 de jul. de 2011

A loja de sapatos e a Copa do Mundo de 2014

E o coice na bola de Elano foi só o começo. Foto: EFE


O centro da capital fervilha. No vai e vem da multidão, frases de efeito tentam convencer os que passam da compra ou venda de produtos de segunda linha. Numa grande cidade, não é permitido vislumbres ou o andar descompromissado de quem não sabe exatamente o que quer ou para onde vai. Caminha-se com pressa. A meia tarde, o ritmo tresloucado chega ao ápice e inicia o descenso, até a calmaria da noite e a tensão da madrugada. Logo adiante, no interior de um estabelecimento comercial, o conglomerado de pessoas anuncia o evento do dia, ou da tarde, como queiram: “alguma coisa aconteceu”.

Como que num passe de mágica, a pressa esvai-se. A atenção se volta para o que estaria acontecendo dentro da pequena loja de calçados. Como um rebanho de gado marcado, sem ter noção alguma do que se passa ou, mesmo, das razões que as fizeram parar nas imediações do ocorrido, a maioria dos passantes para. Observa com o semblante curioso de quem mais se preocupa com o fim da jornada de trabalho e com o início da novela das oito, que por preocupação ou interesse no que se sucede de fato. A possibilidade de ser uma briga aflora os ânimos. Entusiasma. Por pouco, não se cria uma central improvisada de apostas.

A discussão, por mais acalorada que transpareça, não é suficiente para se tornar pública. Não se ouve o que falam os brigões do lado de dentro. Alguma coisa aconteceu e isso é o que importa. Um homem de estatura mediana, de pouco cabelo e franzino, em vão, argumenta com uma mulher, pouco mais de 30, e municiada por outras duas ou três pessoas, talvez, amigos, familiares. Amanhã, fato semelhante chamará a atenção de um novo rebanho de passantes e assim sucessivamente, depois e depois e depois. A quebra, às vezes brusca, da rotina é a condicionante da manutenção da normalidade. À pressa sempre haverá um limite. O patrão, os afazeres, o mundo podem esperar até que a cena seja encerrada.  

A necessidade em se acompanhar in loco a discussão no interior da pequena loja de calçados, traveste-se de uma curiosidade embrionária e particular dos seres vivos – pensantes ou não. Somos tentados ao espetáculo. Ao sensacional. Ao fora do comum. Das arenas medievais, onde homens e animais digladiavam-se até a morte aos auditórios de programas dominicais de televisão, no fundo, queremos o show, a contemplação, o que diverte e passa tempo.

No noticiário, o sério ganha novos contornos. Espectadores natos, por vezes, acabamos subservientes aos mandos, desmandos e caprichos de uma minoria. Embora pareça óbvio e irrevogável, a possibilidade de um fracasso dantesco em 2014, é suplantada pelo sonho do hexa e da confirmação da geração de Neymar e Ganso. Em curta passagem pelo aeroporto de Congonhas, na sexta-feira, 15, entre um embarque e outro, apenas constatei o que venho martelando há tempos, inclusive nessa coluna: não temos um pingo de condição para sediar uma Copa do Mundo. O rebanho a espera do embarque, nesse caso, é passivo ante a demora, a falta de informação, e a prestação deficitária de serviços básicos, como alimentação. O mesmo se repete em qualquer aeroporto de médio ou grande porte, das cidades sedes do mundial.

Não bastasse o caos nas salas de embarque, o mandatário da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é arrogante e ditador. É um personagem pastelão que chama atenção dos que passam mais pelo que não faz ou pelos comentários e atitudes individualistas e para seu próprio benefício. E assim, embora saibamos que a Copa e a Seleção sejam dele e não de toda nação brasileira, quando passamos diante da televisão, paramos, como parte do enorme rebanho que representamos. Ávidos pelo espetáculo, pelos gols, dribles e vitórias. No entanto, como no caso da loja de sapatos, houve pouco show e diversão da última vez que a seleção do Sr. Teixeira entrou em campo. Amanhã, como depois e depois, nossa atenção estará voltada para outra discussão no interior de uma loja de sapatos, talvez, com Ganso e Neymar como protagonistas.


7 de jun. de 2011

E tenta-se minimizar o erro

Imagem retirada do blog Futbosta

O novamente barbado governador da Bahia teve passagem meteórica por Luís Eduardo Magalhães. Entre o pouso, translado até o complexo Bahia Farm Show, discurso, recebimento de uma homenagem pelos serviços prestados em prol do fomento agrícola da região, atendimento à imprensa, visita ao estande de agricultura familiar da prefeitura, retorno ao aeroporto velho e decolagem para Brasília, talvez, se muito, três horas de relógio. 

À tarde (do dia 31 de maio, diga-se), conforme dito no palanque montando para os ritos inaugurais da sétima edição da feira, Wagner se reuniria com a presidente Dilma Rousseff, com outros colegas governadores e ministros de governo. Em pauta, as obras para a Copa do Mundo 2014.

Dilma, além de primeira mulher a governar o país, recebeu das mãos imperfeitas do ex-presidente Luís Inácio, dois senhores pepinos – ou abacaxis, como queiram – para descascar. Afinal, cabe a ela colocar em prática o apertado cronograma de obras exigidas pela Fifa e pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e assim, dar condições mínimas ao país de sediar tais eventos. 

No encontro com os governadores, prefeitos e ministros, foi anunciada a concessão de alguns aeroportos à iniciativa privada. A saber: Guarulhos (SP), Viracopos (SP) e Brasília (DF). Afora isto, é sabido não haver infraestrutura suficiente para suportar a chegada das centenas de turistas estrangeiros que virão ao país durante os jogos, e terão de se instalar e se locomover em território nacional.

Mais: a três anos do início do maior torneio de futebol do mundo os estádios que deverão sediar os jogos, ou estão com obras atrasadas, ou com seu cronograma apertado. Qualquer novo atraso pode incorrer em vexames colossais, tão previsíveis quando os subliminarmente estampados nas reportagens dos jornalões do centro do país, que, ou alertam para as previsões nada otimistas de conclusão das obras; ou reforçam o fato da maior cidade do país ainda não ter um plano concreto de um estádio para sediar a copa; ou ainda, descrevem o óbvio: os aeroportos das capitais sedes beiram o caos. A medida anunciada na tarde do último dia de maio, parece apenas amainar o vespeiro.

Entre o risco iminente de lotearmos o país com vários elefantes brancos, no final de abril, o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio de Janeiro (CREA-RJ), Agostinho Guerreiro, advertia publicamente que o atraso na execução das obras para a Copa de 2014 pode levar o país aos mesmos erros cometidos durante a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, leia-se, com encarecimento no custo final e falta de qualidade dos projetos. 

A contar pela patacoada na implosão do Estádio Mané Garrincha em Brasília, as chances de adentrarmos o ano dos jogos tendo de correr contra o tempo são grandes. Afora isto, basta uma passada por qualquer um dos aeroportos das cidades sedes da Copa para comprovar a deficiência, o despreparo e o inchaço destes locais.

A declaração de Guerreiro é pontual. O exemplo ruim do Pan do Rio quatro anos atrás deveria ser usado para a feitura de um trabalho, no mínimo, melhor planejado. “A obra do Pan ficou num ritmo muito lento e depois tudo foi feito de afogadilho na última hora. Essa tradição temos que romper. As coisas ficam prontas, mas não ficam boas. Ainda há tempo para termos excelentes equipamentos esportivos para a Copa do Mundo”, afirmou o presidente do CREA fluminense, notadamente otimista que, no final das contas, vai dar tempo e o país não vai passar vergonha.

O otimismo, aliás, em se tratando de políticos e outros tantos corresponsáveis pela realização da Copa chega a ser comovente. A ilusão de um evento megalomaníaco como este cega as pessoas. Quando a Copa chegar, faremos mutirão para encobrir as deficiências que não fomos competentes para minimizar. A maioria do brasileiro não terá acesso aos jogos ou ao ambiente da Copa. 

Uma minoria irá se beneficiar e ao apito final do derradeiro jogo da copa, tentará se encobrir os escândalos, as mazelas e o prejuízo. Se pesar os prós e os contras, a balança não vai mentir. 

A Copa do Mundo no Brasil é um erro. 

A Bahia quer o jogo inaugural, avisou Wagner na reunião com a presidenta e demais políticos de grife do país, o oeste quer a emancipação e os quase mil quilômetros entre Salvador e a região do cerrado baiano, para a maioria dos que moram do lado esquerdo ro rio, continuará a ser feita em 15 horas dentro de um ônibus nada confortável, bem diferente da horinha de voo restrita à poucos privilegiados.

9 de mai. de 2011

E no fim das contas, 'só sei que nada sei'

A imagem é meramente ilustrativa e foi criada para uma campanha francesa
de combate à exclusão social


À primeira vista, tive vontade de rir. A cena, inusitada, era também engraçada, embora seja reflexo de uma realidade caótica que, indiretamente, afeta a todos nós. Sentada no meio fio da frente de um estabelecimento comercial qualquer, quase no meio do trecho de rua entre duas movimentadas avenidas e em pleno meio dia de um domingo cinzento, uma pessoa, a qual a princípio me pareceu ser uma mulher, cortava o próprio cabelo, curto e pintado numa tonalidade que pode ser traduzida como um vermelho candente.

As roupas que vestia aparentavam estar desgastadas de tanto uso. Algumas bijuterias, nas mãos, pescoço e no cabelo, ajudavam na suspeita de se tratar de uma mulher. Ao lado, um carrinho de supermercado continha o que, aparentemente, eram todos seus pertences, algumas peças de roupa, cobertores velhos e papelão. Pelo trejeito, embora não tenha tido chance de comprovar, o auto corte de cabelo pareceu contar com auxílio de um espelho, além, obviamente de uma tesoura, daquelas pequenas que as escolas exigem como parte do material escolar das crianças.

Avesso às dificuldades e circunstâncias, e ainda que não saiba bulhufas sobre qualquer procedimento profissional de um cabeleireiro, arrisco dizer que o morador (ou moradora) de rua saia-se muitíssimo bem com seu corte. Envolto em uma repentina vontade de gargalhar do que via, em segundos, fui inundado por um mar de sentimentos. De maus a bons. O primeiro deles foi pena. O número de moradores de rua, não só em Porto Alegre, mas em outras capitais brasileiras e até mesmo cidades interioranas, aumenta vertiginosamente. São pessoas esquecidas. Nada respeitadas e que vagueiam pedindo esmolas e revirando lixo. Desiludidas e sem esperança. Um problema social grave e que parece estar longe de solução.

Embora se discuta a implantação de programas de assistência para erradicação da pobreza, confesso preferir o ceticismo, pois, de boas intenções, como diz o velho ditado, o inferno está cheio. Justifico: a política é uma seara inconteste de tentativas frustradas ou mal intencionadas de se promover mudanças significativas e para o bem coletivo. Basta olhar em volta para se ter a prova. Os investimentos em qualquer área são feitos em escala muito inferior ao crescimento e desenvolvimento da população, isto, quando não acontecem crivados de escândalos, desvios de recursos e abusos de toda ordem, seja nos grandes centros urbanos, seja nas pequenas cidades do interior, onde, em partes, ainda persiste a medonha política da concentração de poder e do coronelismo.

O morador ou moradora de rua de cabelos avermelhados, se por um lado, pode ser considerado exceção, em meio a uma infinidade de outros que não se dão ao luxo de manter os cabelos alinhados, faz parte de um cenário que envergonha, ou, no mínimo, deveria envergonhar. A mim, a você, a todos nós. A razão é muito simples: não sabemos lidar com o problema. Ninguém. Da Presidente da República ao gari ou a garota de programa que bate ponto na esquina de onde o morador de rua cortava o próprio cabelo.

O brasileiro pode ser o rei do “migué”, mas é indeciso, acomodado e como a maioria dos seres humanos, individualista. Só há comoção e ondas de solidariedade em casos extraordinários como tragédias naturais, ou que envolvam um forte apelo popular e emotivo. Em relação à mendicância, pouco ou nada é feito. Em partes, devido ao fato de muitas vezes os moradores de rua viveram da forma como vivem por opção e não por falta de oportunidades como, a primeira vista, pode-se suspeitar. Em outras, porque a mudança necessária para tirar das ruas pessoas em condições sobre-humanas é muito maior que a boa vontade e os interesses daqueles que respondem pelas fatias do bolo que são distribuídas todo ano no país. Talvez, até 2014 alguma atitude emergencial seja tomada, nem que seja para varrer os moradores de rua para debaixo do tapete até que os gringos de esbaldem e o brasileiro grite a plenos pulmões: “é hexa, é hexa”.

Em questão de meia hora, passei pelo morador de rua duas vezes. Na segunda, pude tirar a prova sobre o sexo do bendito e para minha surpresa, não era uma mulher, mas sim um homem que cortava os próprios cabelos. Àquela altura o morador de rua cantava, como se ferido, apunhalado no coração. Uma melodia sertaneja que de tão medonha esqueci já quando atravessava a Avenida Farrapos. Lembrei somente de Sócrates, o filósofo e sua famosa frase: “Só sei que nada sei”. E talvez, ninguém mais saiba.

6 de mai. de 2011

Osama morreu e todos comemoraram

A morte de Osama Bin Laden não afastará do planeta a possibilidade de novos atentados terroristas, embora os Estados Unidos ‘pinte e borde’ a notícia como o fim do maior pesadelo vivido pelo país em tempos. É preciso, sob risco de engrossar um coro raso, cautela ao analisar os fatos, em especial o que representa, para o mundo, a derrocada do líder talibã. A vitória proclamada pelos americanos, arrisco, não é de todos. O alívio que sentimos, não é nosso, seu ou meu. É fabricado. Incutido no nosso imaginário, pela força descomunal que os yankes têm sobre o resto do globo. Odiamos por tabela. E o ódio é quase um parceiro da intolerância, maior causador de males e atrocidades de toda história.

Quando as torres gêmeas 'vieram abaixo', em 11 de setembro de 2001, matando centenas de pessoas, os EUA obtiveram argumento suficiente (ou, justificável) para decretar guerra ao terrorismo e ao grupo liderado por Bin Laden. Este por sua vez, foi dado como inimigo público número um do país de Homer Simpson, do fast-food e de 99,9% das tendências seguidas por praticamente todo o planeta. Entre as raras exceções, óbvio, os países islâmicos, de onde emergiu Bin Laden. Um homem frio, calculista, de origem milionária que aprendeu desde o berço a nutrir pelos EUA um ódio mortal. O homem, que em tese ousou entrar na casa dos americanos e urinar no tapete da sala de estar.

As imagens das aeronaves colidindo com as torres de concreto disseminadas a exaustão e a bisonha publicidade panfletária pós-atentado, vide, filmes (todos horríveis, diga-se), documentários, e a mais complexa ordem de teorias acerca do que ou quem teria provocado o atentado fizeram com que o mundo elegesse Bin Laden e seus conterrâneos como inimigos mortais. Em resumo: ao pisar no calcanhar dos americanos, o barbudo saudita, pisou no calcanhar de todos. Foi o que se pintou. Foi o que se bordou.

O ódio, como bem queriam os filhos da ‘terra dos bravos’, se alastrou. Com o orgulho ferido, os americanos não pouparam recursos para impor suas vontades nos países de origem islâmica. Mantiveram em atividade a campanha de revitalização do Iraque, muito embora nunca tenham encontrado as armas de destruição em massa que motivaram a invasão e a morte de Sadam, e continuaram a caça ao homem responsabilizado pelos ataques ao World Trade Center. A bandeira levantada pelos EUA para fazer valer sua implacável força, bélica e política, no Iraque e na caça à Bin Laden, curiosamente, traduziu-se, na simples e perseguida, desde os tempos imemoriais, palavrinha quase mágica, mas tão longe de ser consenso entre os povos: PAZ. Em nome de uma camuflada ‘paz’ foi que os americanos agiram.

Travestidos de bons moços, os americanos fizeram e desfizeram sem que nada ou ninguém tivesse chance de questioná-los. Aliás, não tem. Os EUA são os donos do mundo. Ainda nos anos 80, no governo de Ronald Reagan, lapidaram o inimigo como artesões que esculpem diamante e financiaram, entre aspas, o terror que tanto lhes tirou o sono desde a manhã daquele fatídico 11 de setembro. No entanto, matar Bin Laden, dez anos depois, soa muito mais como um incremento à futura campanha de reeleição do presidente Barack Obama que propriamente com o fim de todo mal como se tem alardeado. Era questão de honra. Uma promessa que se cumpre.

A Al-Qaeda virou franquia, escreveu, acertadamente o jornalista Janer Cristaldo. Não se diluirá com a morte de seu mentor. Haverá retaliação. “A vendeta virá com força. Nas próximas semanas e meses, podemos esperar algumas dezenas ou talvez centenas de cadáveres na Europa. O terrorismo não vencerá as democracias ocidentais. Mas ainda matará muita gente”, continua Janer, em texto publicado em seu blog na manhã de terça-feira, 3 de maio, dois dias após o anúncio da morte de Osama. O mais triste é que mesmo com a possibilidade real de mais sangue inocente ser derramado, é provável que os EUA mantenham seu nariz empinado, dando aulas gratuitas de arrogância e prepotência. “A justiça foi feita”, disse Obama quando do anúncio oficial da morte do terrorista.

O mundo aplaudiu e como de praxe tende a se curvar ante a supremacia estadunidense. O bem e o mal são inseparáveis. Os EUA vendem os valores seguidos pela maioria. Em tese, são eles quem determinam o que é ou não bom. Comida, filmes, seriados, roupas, música, espetáculos, shows, idioma, e inimigos. E os inimigos deles, querendo, ou não, se tornam os nossos. Osama morreu e todos comemoraram.

14 de abr. de 2011

Vexame em azul, preto e branco

Atuação deplorável do Grêmio na Bolívia e humilhantes 3 a 0 na conta.
Foto: Aizar Raldes / AFP / CP
Já disse em outras oportunidades que não me apetece escrever sobre futebol. O tema é deveras passional. Mexe com sentimentos que transcendem a racionalidade e faz, muitas vezes, com que o ser humano regrida e tome atitudes imbecis. Embora tenha escolhido graduar-me em jornalismo, prefiro não discorrer sobre o tema. Opção pessoal. Já arrisquei algumas observações. Aqui e ali e acolá mas, em geral, a exceção de algumas digressões sobre meu time do coração, prefiro o silêncio.

A jornada do Grêmio na noite passada na Bolívia foi desastrosa. Uma das piores atuações do tricolor em anos. O que assusta, no entanto, é que alguns erros cometidos à exaustão na partida frente o fraquíssimo Oriente Petrolero vem se repetindo ao longo do ano. A mais alarmante é a falta de finalização de média distância. O Grêmio não chuta em gol. Existem momentos no decorrer das partidas que a impressão é que há uma proibição por parte da comissão técnica: “Vocês estão proibidos de chutar em gol”. Talvez haja alguma punição para quem ousar infringir tal determinação durante as partidas. Tenho sérias suspeitas quanto a isso.

No geral, passado o baque pela goleada sofrida em Santa Cruz de La Sierra. O Grêmio é um time que não inspira confiança no seu torcedor. Chega a ser aterrorizante. Troca-se passes de um lado para outro, sem objetividade alguma.  Afunilam-se as jogadas com uma previsibilidade de dar dó. Há um camisa 9 que não faz jus ao posto de centroavante. Está sempre mal posicionado. Não sabe fazer o pivô com os jogadores que vem detrás. Erra um gol atrás do outro e pior, não sabe jogar de outra maneira. E para deixar as coisas ainda mais preocupantes, não tem um companheiro no ataque. Hoje, aposta-se todas as fichas no Olímpico em um garoto de 17 anos. Se este não der certo, acabou-se a folia. O sonho. A esperança. O argentino é esforçado, mas “pisar” em bola é demais.

Há quem tente explicar a tragédia anunciada. Transbordam justificativas para o futebol tenebroso praticado pelo Grêmio. “Não deu nada certo”, disse o presidente. “Foi uma jornada desastrosa”, declarou o dirigente de futebol. O, porém, é que o time repete as mesmas deficiências jogo após jogo. O sistema defensivo comete falhas imperdoáveis, embora sejam jogadores profissionais e recebam altos salários para dar uma resposta, no mínimo, menos vexatória. Não praticam o futebol em campos de chão batido ou somente nos fins de semana com os colegas de trabalho. Não. Estes cabeças de bagre que hoje vestem a camisa do tricolor vivem EXCLUSIVAMENTE para isso. Treinam todos os dias. Como pode, então, baterem tanta cabeça como batem? Bola na área tricolor é meio gol. Também não há definição na lateral esquerda do Grêmio. O episódio envolvendo o preferido do treinador em Caxias, duas semanas atrás, é motivo para demissão por justa causa. 

Inadmissível. 

Perder como se perdeu na Bolívia e na serra gaúcha contra o Juventude é vergonhoso. Uma piada pronta, como dizem os torcedores do rival. O pior é que estão certos os colorados. O Grêmio não se ajuda. Não tem sequência. O Grêmio não tem alternativa para os momentos de adversidade ou de pouca inspiração técnica. É dependente de um ou dois, que nem sempre jogam. Às vezes até entram em campo, mas com tanta má vontade que o time parece estar com um a menos em campo. O que assisti na noite passada me preocupou por demais. A propósito,  não pode haver torcedor do Grêmio que consiga acreditar que este time possa se sagrar TRI da América. Aliás, acho que esta conquista, se já não foi, está indo pelo ralo. Como todo respeito, mas não vou me assustar se amanhã ou depois Celso Roth não for anunciado como novo treinador.



21 de mar. de 2011

Nunca chame uma mulher de abobalhada

Okay, confesso: não tinha imagem para ilustrar esse post. Gostei da caneca, da frase.
 Por fim, acho que casa com a ideia do texto, se não, paciência


Tenho uma amiga que volta e meia me pede conselhos. Quando não o faz, abre o coração e reclama de nós homens. Diz-se uma total incompreendida. Dia desses andava tão jururu, que chegou a me perguntar se ela era mulher para casar. Pergunta difícil, resposta mais ainda. Como é que você responde uma pergunta dessa sem que uma mulher se chateie. É capaz de você dizer: sim, tu és perfeita para casar, e mesmo assim, ela não gostar, achar que você está mentindo, não quer o bem dela e por ai em diante. Elas exigem que tu sejas sincero, mas no fundo, a última coisa que querem ouvir é uma resposta sincera. Vai entender.
           
Pouco depois nessa mesma conversa ela me encheu de desaforos por nunca ter apresentando um primo que tenho. Paulista, jornalista, solteiro, trinta e poucos, metrosexual, daqueles que passa mais tempo na academia que qualquer outra coisa. Como elas dizem, um Apolo.

- Isso que é homem lindo – disse ela como que tomada por um estranho feitiço. Fazendo beiço me questionou sobre porque cargas d’água eu nunca apresentava homens lindos como meu primo paulista.  Embevecido de paciência de Jó, respondi o mais claramente possível:

- Primeiro, não tenho amigos “lindos” como esse meu primo paulista para te apresentar; Segundo, porque você fica abobalhada perto de um homem bonito e que te interessa muito e, terceiro, ele mora em São Paulo, logo não tem como te apresentar pessoalmente.

Em resposta, veio uma onda furiosa. Devastadora.

- O quêêêê?

- Eu fico abobalhada?

Podia imaginar a raiva concentrada nas bochechas rosadas. O sangue lhe subindo à cabeça. Ela podia me bater se estivesse diante de mim. Aposto que tenha batido na mesa, ou quebrado um lápis, ou gritado com algum colega de trabalho. O que eu tinha acabado de dizer era uma afronta. Como eu, aquele que ela considera um amigo, conselheiro e talecoisa, podia chamá-la de “abobalhada”. Algo estava errado.

Quando me preparava para ler os maiores desaforos possíveis na tela do computador, ela mudou o tom da conversa e novamente, demonstrou estar absolutamente em frangalhos. Aturdida. Desmantelada. Quase sem chão para pisar.

- Eu nem sei pra que eu tenho namorado. Se eu fico sempre sozinha mesmo. Vou tomar sorvete sozinha, vejo filme sozinha, melhor ser solteira.

E continuou:

- Amigo, eu mal vejo meu namorado. Ele sempre arruma uma desculpa. Já me acostumei a namorar, mas ser sozinha.

Pelo tempo de convivência e amizade, sabia o que se passava com ela e logo disse:

- Você desaprendeu a ficar sozinha e tem medo de, caso terminar com ele, não achar ninguém para amar.

Ela não mais respondeu. Sumiu. Ficou offline. Deu o ar da graça somente no dia seguinte. Disse ter passado a noite em claro a pensar no que havia dito pra ela. Só fez confirmar minha teoria.

- Você está certo – escreveu.

Ela havia desaprendido a ficar sozinha e tinha medo de não encontrar ninguém caso terminasse o namoro. É uma mulher. Mulheres precisam de atenção. Dão valor para isso. Coisas as quais nós homens damos pouca ou nenhuma atenção. Um elogio, um lembrancinha por mais boba que seja, um recado desejando “bom dia e bom trabalho” as 7 e meia da manhã. Elas querem atenção. Só. Dêem mais atenção para as mulheres e verão a diferença. O porém é que muitas vezes queremos dar atenção para muitas mulheres ao mesmo tempo e aí só damos com os burros n’água.

O que ela não se deu conta é que os homens em sua maioria são trouxas e ainda mais abobalhados quando se trata de um rabo de saia. Querem todas e ao mesmo tempo. As mulheres têm um poder incrível e parece não terem se dado conta disso. Aos poucos, começam a descobrir a força que possuem.. Gradativamente. Afinal, não são elas que estão se tornando protagonistas deste século XXI. Quanto mais atenção elas receberem mais elas se tornarão grandes. Imponentes. Mulheres. Donas do mundo.

18 de jan. de 2011

Cinema 3D: enganação

O maldito óculos fica desconfortável até no Scrat

Todas as sessões de cinema em 3D que assisti foram decepcionantes. Todas. Sem exceção. Não sou um cinéfilo inveterado, daqueles que assistem tudo que chega às salas de cinema do shopping mais perto de casa. Não. Vou, esporadicamente, pois, muito me agrada a combinação: telona, pipoca e refri.

É só.

Cinema é sinônimo de diversão. Lazer. Entretenimento. É isso que procuro, e acredito ser o mesmo que procura a maioria das pessoas que vão ao cinema todos os dias. Pago por isso. Quero conforto e não chateação.

O que me irrita e não consigo crer que seja o único insatisfeito, é esta tentativa em tornar a tecnologia 3D a quintessência da sétima arte neste século XXI. Não é. Aliás, está longe disso. Repito: todas as sessões de cinema em 3D que assisti foram decepcionantes. A começar pelo tenebroso Fúria de Titãs, talvez o pior remake de todos os tempos.

E Alice no País das Maravilhas? Obscuro, embaçado, confuso. Cansativo. Em várias oportunidades durante a projeção tive de tirar os óculos para dar um pouco de descanso para os olhos. [Que fique claro: minha revolta é para com a tecnologia 3D e não para com o filme de Tim Burton, ok] A propósito, os óculos ofertados nas salas de cinema para assistir à filmes 3D são tão ruins quanto a recente versão da história de Perseu. 

E mais: são desconfortáveis. Irritantes. Embaçados. Em alguns filmes, os óculos só se justificam para ler as legendas. Pergunto: e se o filme for dublado. Sim, essa famigerada forma de distribuição de filmes ainda existe e parece que é adorada por milhares de pessoas. No cinema mais próximo de casa, por exemplo, 80% das sessões são dubladas.

Minha mais recente experiência com cinema 3D, espero que seja a última, foi com As Viagens de Gulliver. Sai da sessão me perguntando por que razão tinham me dado o maldito óculos. Para ler as legendas? Não, o filme era dublado. Confesso ter ficado sem entender. Talvez, até, o problema esta comigo. Não seja descolado o suficiente para sacar qual é da tecnologia 3D no cinema. Se alguém puder me explicar, ficaria mil vezes agradecido.

Em todas sessões 3D que assisti deixei a sala de projeção com a sensação que fui roubado
Cinema em 3D, na minha humilde opinião é enganação. São três, cinco ou dez reais a mais no valor do ingresso que fazem a diferença e no fundo nada de especial acontece enquanto tu ficas – na companhia de outras dezenas de pessoas – feito um paspalho, vestido de um óculos barato e ultra desconfortável achando que está abalando geral por estar em uma sessão 3D.

Onde está o descompasso dessa equação ainda não descobri. O que parece claro é que existe uma conivência entre a indústria cinematográfica, os responsáveis pela tecnologia e os prestadores de serviço e distribuidores dos filmes para a plebe em geral, ou, como queiram, os cinemas. Estou a suspeitar que a produção de óculos tenha sido exagerada e hoje o que essa turma toda está fazendo é nos fazendo engolir filmes quaisquer com o duvidoso selo 3D.

Isso chega a assustar. Todos os trailers de futuros lançamentos estampam orgulhosamente a insígnia, 3D, como se fosse a maior de todas as realizações humanas. A cinebiografia do precoce Justin Bieber será lançada em 3D. Alguma coisa está muito errada. Não pode ser verdade.

Pra fechar este desabafo isolado, compartilho o pensamento do editor do Delfos, Carlos Eduardo Corrales, responsável por um dos sites mais bacanas que conheço e que versa com maestria sobre cinema, música e games. Na resenha do já citado As Viagens de Gulliver, eis o que escreveu Corrales:

“O 3D segue os sempre populares ensinamentos do Fúria de Titãs: cobre mais caro pelo ingresso, mas o filme pode ser assistido sem óculos. E não falo por falar, os óculos desse cinema eram tão desconfortáveis que eu de fato tirei os dito-cujos em vários momentos. E dava até para ler as legendas, ao contrário de Fúria de Titãs”.

Pois é. Vou pedir reembolso por ter sido enganado tantas vezes.

Leia mais:

8 de jan. de 2011

Fez-se a vontade da maioria

Adriano Galiani, vice do Milan: Ronaldinho é 99,9% do Flamengo.
Depois dessa, alguém dúvida do destino do jogador?


Não fosse o auxílio de um ventilador ligado em sua máxima potência, estaria suando em bicas. O calor em Porto Alegre é coisa fora do comum. Parece um forno a capital gaúcha. O clima de euforia de ontem, principalmente nos arredores do Estádio Olímpico já não existe mais. Ronaldo deve mesmo jogar no Flamengo. O vice-presidente do Milan prefere assim. Anunciou a pouco, ao vivo via Rede Globo de Televisão: Ronaldinho é 99,9% do Flamengo.

A diretoria do Grêmio vai se pronunciar oficialmente as 15h de hoje. Porém, independente do que for dito pelo alto escalão gremista, não me resta dúvidas, e olha, que não é deliro em circunstância do calor estafante: a cúpula tricolor errou durante todo o processo/novela desta malfadada tentativa de repatriar o jogador.

Falou demais quando não podia. Agarrou-se em palavras ditas entre quatro paredes ou em conversas por celular e não conteve sua própria língua, enchendo de esperanças seu torcedor. O pior de tudo, na minha miserável opinião, foi a declaração de seu presidente dizendo que o clube pagaria o Milan. Mentira. Assumir um compromisso de cifras estratosféricas como este depois do jogador ter deixado o clube a ver navios 10 anos atrás, seria uma das maiores burrices, senão a maior já cometida no Olímpico. Um risco desnecessário e quase infantil.

No entanto, parece-me claro o que motivou esta e outras desencontradas declarações dos dirigentes gremistas: paixão. Esperança. Esperança de ver o menino projetado na Azenha voltar para fazer as pazes com o clube e com a torcida. Esperança de vê-lo voltar a jogar parte do seu melhor futebol disputando uma Libertadores de América (PS: Não acredito que Ronaldinho voltará a jogar como em seus melhores dias de Barcelona). Foi isso que fez a diretoria tricolor insuflar o noticiário com mensagens otimistas fazendo com que seu torcedor se enchesse de esperanças para o ano.


Camisa do Grêmio nunca mais
Na quinta-feira fomos todos obrigados a assistir a paupérrima coletiva de imprensa de Assis, Ronaldinho, Galliani e a pobre intérprete do vice do Milan. Uma bizarrice. Exposição gratuita e desnecessária. Assis, o empresário “sabe-tudo” bradou que os clubes brasileiros teriam conquistado independência para negociar, inclusive com altos valores envolvidos. A pergunta que não se faz, é: Ronaldinho Gaúcho, a beira dos 31 anos, há tempos sem jogar nem 25% do seu melhor futebol, vale tanto quanto está se pedinho e mais: vale o que está sendo proposto. Onde já se viu se pagar R$ 1 milhão e 800 mil reais por mês para um jogador de futebol.

Como torcedor gremista, lamento profundamente a balburdia que se anunciava ontem, inclusive com equipamentos de som sendo instalados no gramado do Monumental no meio da manhã sob alegação da festa pela volta do jogador, sem haver naquele instante certeza alguma sobre nada. Vou além: cá com meus botões, tenho minhas dúvidas se a ordem de retirada por parte do presidente gremista foi feita mesmo com toda irritação que se anunciou ou, se, percebendo que estavam bancando os bobos da corte, acharam (o alto escalão gremista) de comum acordo retirar os equipamentos.

Agora, 14h40, por mais que possa se acusar Assis ou Ronaldinho ou Galiani (isto irá acontecer), acredito - volto a repetir - que a culpa pelo fracasso do negócio é em grande parte da direção do Grêmio. Por fim, fez-se a vontade da maioria. Assunto – espero muito – ao menos em Porto Alegre, encerrado.


Atualização às 14h42: Como se deu a reviravolta no caso Ronaldinho, por David Coimbra, Zero Hora

23 de dez. de 2010

Uma boa lição para sempre lembrar

Para quebrar a cara basta ter uma

Uma das grandes lições que aprendi nesta vida é não esperar demais das outras pessoas. Confesso não lembrar como se deu o aprendizado, sem em livro, filme, um amigo ou um amor que se foi. Não lembro. Apenas sei e repito sempre que tenho oportunidade que não é saudável tampouco inteligente depositar em outra pessoa uma expectativa aquém àquela que verdadeiramente ela (ou ele) pode oferecer.

Mais: é um erro e dos mais graves esperar que alguém seja aquilo que você queira que seja. Isso nunca irá acontecer, tenham sempre isto em mente. O que há e quando há, são pessoas que cedem quando sentem ser necessário e/ou são tolerantes, e na pior das hipóteses com razão e emoção devidamente equiparadas. Entendem o quão destemperado é depositar em outra pessoa expectativas particulares. 

Segue dois clichês de presente de Natal:

1º A perfeição de um não é a de outro. 

2º Criar uma ilusão é mais fácil do que se pensa.

Particularmente, tive experiências em ambos os lados da moeda. Primeiro depositei cegamente as mais absurdas expectativas em alguém, que apenas tempos depois fui descobrir que nunca as satisfariam. Que tudo tinha sido uma mera fachada. Um sentimento quase irracional falou mais alto e fez com que não percebesse que estava dando um passo muito maior que minhas duas pernas. Errei. Cai e tive de me reerguer, por conta própria.

Depois, quis o destino – ou seja lá o que for – que eu passasse por situação semelhante, desta feita do outro lado. Uma pessoa a qual admiro por demais depositou em mim expectativas às quais não tinha e não tenho como satisfazer. Hoje, confio que ela também esteja se refazendo de um tombo, infelizmente ocasionado pela minha instabilidade. Aprendi com ambas e por isso digo e repito, quantas vezes forem necessário:

Não depositem expectativas particulares em outras pessoas, esperando que elas ou eles correspondam de modo integral. Para quebrar a cara basta ter uma. Tudo bem, esse último e derradeiro clichezinho é brinde, um bônus pela ocasião festiva. 



22 de dez. de 2010

Gabriel acredita em Papai Noel


Gabriel tem só 4 anos. Ainda toma mamadeira antes de dormir e quando acorda pela manhã gosta dela morninha. Não pode ser muito quente, nem muito fria. Como toda criança dessa idade, começa o dia assistindo desenhos animados. Só depois que vai brincar com seus carrinhos ou com sua bola de futebol. Chorominga a noite como forma de pedir carinho e atenção para mãe.  Perdeu o pai faz pouco e é possível que não vá recordar suas feições quando chegar à adolescência.

Gabriel não foi programado. Foi um acidente. Nem o pai, nem a mãe previram sua chegada. Eram jovens, cheios de aspirações para o futuro, e claro, muito amor para compartilhar, tanto, que geraram Gabriel. Tiveram de aprender a conviver com o preconceito e a árdua missão de educar o filho pequeno. Não se casaram de papel passado. Optaram por conviver no mesmo lar de forma não oficial. Foram felizes por um tempo, os três: papai, mamãe e Gabriel.

Todavia, as brigas e discussões se tornaram freqüentes. A paixão descabida dos primeiros tempos foi murchando. Evaporou. Os sonhos já não eram os mesmos. Entre as diferenças do pai e da mãe estava Gabriel, dando seus primeiros passos e palavras. O menino deixou as fraldas, ganhou tios e tias e viu sua mãe lhe apresentar muitos dos amigos dela. Alguns dormiam na mesma cama que ela. Gabriel não entendia. Porque é que o pai não estava lá com a mãe e sim aquele outro tio que ele nem conhecia direito?

Papai e mamãe passaram a brigar com frequência. A separação foi inevitável. Gabriel passou a entender menos ainda o que se passava. Foi cúmplice de discussões e agressões. Chorou, incapaz de impedir que seus pais trocassem farpas diante de seus pequenos olhos. Aprendeu sem mesmo ter aprendido a conjugar o verbo sonhar, que isso não era pra ele. Seu mundo não lhe dava oportunidades para tal. Mesmo que sonhasse pouco, ter seu pai e sua mãe juntos e felizes com ele, aprendeu na marra que sua vida se encaminhava para um caminho chato e que não condizia com os momentos felizes que tinha enquanto brincava com os amiguinhos na creche, jogava futebol, tomava sua mamadeira morninha, sua mãe ia lhe buscar na escolinha, ou passava o final de semana com o vovô e a vovó. Nada disso.

Sem entender o mundo que o cercava, Gabriel perdeu o pai. Disseram para ele que o pai não voltaria. Disseram que o pai havia se enforcado. Tirado a própria vida. Mas porque o pai faria isso, se ele o amava tanto e queria que ele estivesse ao seu lado para lhe dar dicas sobre as garotas quando chegasse a hora? Os sonhos de Gabriel esvaíram-se. Teve de reconhecer na mãe a figura de um ídolo. Alguém que preza por ele mais que tudo e por quem ele deve total consideração, amor e respeito. Mesmo assim, Gabriel tornara-se um menino sem fantasia.

Não acreditava em Papai Noel e não entendia porque todo mundo ao seu redor insistia nessa história tola. Via a cidade se enfeitar, dezenas de velhinhos barbudos e com roupas vermelhas pelas ruas, presentes e mais presentes. Nada desse sonho encantado lhe dizia respeito. Entretanto, Gabriel teve uma revelação. Em um das muitos jantares que presenciara ao lado da mãe em sua casa, viu algo que lhe intrigou. No meio dos convidados da mamãe, um deles, embora não usasse as indumentárias vermelhas do Papai Noel se assemelhava e muito com aquele cara. Ele sabia que a barba do papai noel era feita de algodão. A daquele cara que ele observava com o canto do olho era real. Não podia ser. Será que Gabriel estava diante do verdadeiro Papai Noel?

Não resistiu a tentação e perguntou a mãe: Mãe, quem é aquele tio ali. A mãe, sem pestanejar, respondeu: Gabi, aquele tio trabalha com o papai noel. Gabriel se espantou. Os olhos brilharam. Um sorriso quis escapar do seu rosto. Mas restava a dúvida. Será mesmo que aquele cara barbudo conhecia o verdadeiro papai noel. Era sua chance. Precisava tomar coragem e falar com ele. Tinha vergonha. Procurava uma oportunidade de se aproximar. Sua mãe percebendo a inquietação do filho, o instigou a ir até ele.

Acho que tá explicado o porque de Gabriel ter ficado cismado
- Vai filho, pergunta pra ele. Pergunta se ele não trabalha com o papai noel. E lá foi Gabriel. Coração em disparada, correu e estancou diante do homem a sua frente e perguntou: - É verdade que você trabalha com o papai noel? O susto mudou de lugar. Quando vi aquele garotinho e percebi o brilho nos seus olhos, não titubiei e respondi que não só trabalhava com o papai noel, como o conhecia e que era seu amigo. O rosto daquele menino se iluminou. Um riso alto tomou conta do lugar. Gabriel correu para os braços da mãe para contar a novidade. O sonho voltara aquele pequeno coração. Gabriel acreditava em papai noel.



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PS: O texto acima foi escrito faz algum tempo, mas, tendo em vista a proximidade de mais um Natal, vem a calhar

21 de dez. de 2010

Uma aposta arriscada

Caricatura por Juarez Ricci


Não gosto de escrever sobre futebol no blog. Tanto é, que foram raras as vezes que publiquei textos sobre o tema. As exceções estão aqui e também aqui. A principal razão para me esquivar de falar sobre o esporte bretão é simples: sei que, de forma ou outra, serei tendencioso. Em miúdos: puxarei sardinha para minha brasa, e isso, não acho justo.

Porém, nos últimos dias, um assunto em especial tem inflamado as manchetes da imprensa especializada e, claro, do Rio Grande do Sul: o possível retorno de Ronaldinho Gaúcho para o Grêmio de Futebol Portoalegrense. Não pude evitar. A possibilidade é real, o tema delicado. Hora de separar razão e emoção. Eis o que penso.

Já ouvi de torcedores opiniões distintas. Uns favoráveis outros contra a volta de Ronaldo ao Olímpico. Cada qual com suas razões. Respeito-os. A relação da torcida tricolor com o antigo ídolo é, por natureza, complexa. Parte da nação azul o ama e outra o detesta, o considera um traidor, um mercenário. Quando deixou o clube em 2001, a impressão que ficou não foi das melhores. Como dizem alguns, saiu pela porta dos fundos. Em suma, a birra da torcida tem justificativa, mas é, de certo ponto, exagerada.

Os tempos são outros e isso é o que preocupa.

Possível retorno de Ronaldinho Gaúcho ao Grêmio.
O que esperar?
Se por um lado, Ronaldo se tornou o melhor do mundo. Pentacampeão com a seleção, ídolo no Barcelona, responsável por momentos mágicos e de raro entendimento entre um homem e uma bola de futebol; por outro, de uns três anos para cá vem jogando tão somente para o gasto. Já não é o mesmo craque inconteste, ainda que tenha dado indicativos de que, ao menos, esteja focado em retornar a seleção e jogar um bom futebol.

Bom futebol. É preciso ter em mente que Gaúcho não voltará a ser o craque que foi no passado. Pode ser muito útil, se compromissado e engajado com clube, diretoria e torcedores. Em forma e focado em objetivos claros e, preferencialmente, coletivos, pode fazer a diferença dentro das quatro linhas. Não jogará como em seus melhores dias, mas tem consideráveis chances de encher os olhos dos amantes do futebol. Talento não lhe falta.

No entanto, a contratação de Ronaldinho representa um investimento excessivo para os padrões de um clube como o Grêmio e somente possível com parcerias oriundas da iniciativa privada. Fato: o Grêmio não tem dinheiro para trazer o jogador. Sonha, aposta no carinho da família e do jogador pelo clube e arrisca. Exatamente. Arrisca. A tentativa tricolor em repatriar Ronaldinho Gaúcho é tida como a mais alta cartada da nova diretoria para a disputa da Libertadores de 2011. Daquelas, como dizem em Porto Alegre, de encher aeroporto. Um risco alto. Oito ou oitenta. Sem meio termo. Ou dará certo e as conquistas virão ou será um fracasso o qual prefiro não tecer qualquer previsão.

O possível retorno do craque ao Olímpico é também a tacada inicial da nova direção, novamente nas mãos de Paulo Odone e que tem como meta, também, a inauguração da Arena em 2012. A empolgação pelo bom futebol apresentado na reta final do Campeonato Brasileiro serve como incentivo. Existe uma espinha dorsal dentre os – possíveis – onze titulares e algumas peças de reposição. Existe um treinador identificado com o clube, ídolo eterno e que conta com apoio incondicional de todos que torcem pelo mosqueteiro gaúcho.

O que não pode é fazer da negociação pela volta de Ronaldo ao clube a pedra fundamental e com isso se esquecer de outras carências do time. O tombo pode ser grande. O Grêmio precisa de planejamento para conquistar os títulos que necessita. Odone e Renato parecem estar em sintonia. Ronaldo é bem vindo, mas não pode, de jeito algum, se tornar em um investimento surreal de uma quantia que o clube não terá condições de pagar, em caso de insucesso. Há um velho ditado que diz que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes. Ronaldo Fenômeno se pagou na volta ao Brasil. O mesmo pode não acontecer com Gaúcho.

Leia mais, notícias publicadas pela imprensa esportiva e gaúcha sobre o caso:

19 de dez. de 2010

Motive-se

Todo ser humano precisa de razões para se manter motivado. Clichê sim. Piegas também, mas fato. Sem estar motivado não consegue nada. Não se arrisca não se conquista. Nada.

Manter-se motivado, por si só, é algo impossível. Ninguém faz das tripas coração para chegar a um objetivo se não houver uma razão por trás de todo empenho e dedicação.

E este empurrão pode vir de diversas variáveis. Boas e nem tão boas.


Tradução livre: "Estou desesperadamente tentando achar a motivação para ficar motivado".


Um amigo, um amor, pai, mãe, irmãos, avós, tios e tias. Um ídolo, uma história, um livro, um filme, uma música. Todos parte de única engrenagem. Um influenciando, direta e indiretamente, as atitudes dos outros. Servindo de motivação mútua.

Por outro lado, a motivação também pode nascer na adversidade. Às vezes, é preciso encontrar forças quando se está no fundo do poço. A sensação de perda, em alguns casos, pode servir como incentivo.

Normalmente, isso acontece quando há comodismo. O ser humano volta e meia se acomoda. É natural. Não há como se manter 100% focado, de bom humor e com motivação total. É a lógica: altos e baixos. Todos o têm.

Motivar-se a esmo, sem uma razão ou motivo não é do feitio do ser humano. Em tudo que fazemos existem segundas intenções. Motivos, razões. Há sempre algo por trás das investidas de qualquer ser humano no mundo. Você não está onde está por acaso. Poderia ter feito mais, se tivesse tido o incentivo certo na hora certa e blá blá. Ou o contrário. Se não arriscou, possivelmente tenha sido por falta de quem o incentivasse.

De novo: não existe acaso. Sorte é recompensa. Motive-se. Inspiração existe em todo lugar.

5 de dez. de 2010

Chocantes suecos

Os suecos do Hellsongs, reconstrução de clássicos do metal em suaves canções,
num mix entre Pato Fu e Alanis Morissete


Enquanto não tomo vergonha na cara e crio um local no ciberspaço – leia-se, um blog – para tratar exclusivamente de música, esporadicamente, dedico um post ou outro cá no impressões para tratar deste tão inspirador assunto.

O motivo desta rápida aparição dominical é uma banda sueca chamada Hellsongs.

A dica, é bom lembrar, é especial para aqueles que como eu passou a maior parte da adolescência ouvindo discos de bandas como Megadeth, AC/DC, Judas Priest, Metallica e Iron Maiden e depois de um tempo, apesar de continuar simpatizando com as bandas em questão, já não tem tanta paciência para “pancadaria” em excesso.

Os suecos parecem ter se especializado em desconstruir alguns hinos metálicos, para então transformá-los em pequenas preciosidades, e, sem dúvidas, é um dos achados mais bacanas dos últimos tempos. Estão no seu quarto álbum, todos com versões pra lá de diferentes de músicas que fizeram – e a ainda fazem a alegria de adolescentes (ou não) “camisetas pretas” –, como, “Seek and Destroy”, “Thunderstruck”, “Breaking the Law” entre outras.

O impacto, caso você – que lê estas linhas – tenha se acostumado e ainda lembra algumas das letras das versões originais é maior, caso você nunca tenha sido chegado a metal pesado e de repente tem o prazer de conhecer o trabalho destes suecos.


O que eles fizeram com “Symphony of Destruction”, gravada originalmente pelo Megadeth de Dave Mustaine no álbum Countdown to Extinction (1992) é digna de músicos dotados de raro talento. Merece aplausos. É chocante.


Ouça as duas versões e tire suas próprias conclusões. Eu gostei e recomendo.



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