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6 de mai. de 2011

Osama morreu e todos comemoraram

A morte de Osama Bin Laden não afastará do planeta a possibilidade de novos atentados terroristas, embora os Estados Unidos ‘pinte e borde’ a notícia como o fim do maior pesadelo vivido pelo país em tempos. É preciso, sob risco de engrossar um coro raso, cautela ao analisar os fatos, em especial o que representa, para o mundo, a derrocada do líder talibã. A vitória proclamada pelos americanos, arrisco, não é de todos. O alívio que sentimos, não é nosso, seu ou meu. É fabricado. Incutido no nosso imaginário, pela força descomunal que os yankes têm sobre o resto do globo. Odiamos por tabela. E o ódio é quase um parceiro da intolerância, maior causador de males e atrocidades de toda história.

Quando as torres gêmeas 'vieram abaixo', em 11 de setembro de 2001, matando centenas de pessoas, os EUA obtiveram argumento suficiente (ou, justificável) para decretar guerra ao terrorismo e ao grupo liderado por Bin Laden. Este por sua vez, foi dado como inimigo público número um do país de Homer Simpson, do fast-food e de 99,9% das tendências seguidas por praticamente todo o planeta. Entre as raras exceções, óbvio, os países islâmicos, de onde emergiu Bin Laden. Um homem frio, calculista, de origem milionária que aprendeu desde o berço a nutrir pelos EUA um ódio mortal. O homem, que em tese ousou entrar na casa dos americanos e urinar no tapete da sala de estar.

As imagens das aeronaves colidindo com as torres de concreto disseminadas a exaustão e a bisonha publicidade panfletária pós-atentado, vide, filmes (todos horríveis, diga-se), documentários, e a mais complexa ordem de teorias acerca do que ou quem teria provocado o atentado fizeram com que o mundo elegesse Bin Laden e seus conterrâneos como inimigos mortais. Em resumo: ao pisar no calcanhar dos americanos, o barbudo saudita, pisou no calcanhar de todos. Foi o que se pintou. Foi o que se bordou.

O ódio, como bem queriam os filhos da ‘terra dos bravos’, se alastrou. Com o orgulho ferido, os americanos não pouparam recursos para impor suas vontades nos países de origem islâmica. Mantiveram em atividade a campanha de revitalização do Iraque, muito embora nunca tenham encontrado as armas de destruição em massa que motivaram a invasão e a morte de Sadam, e continuaram a caça ao homem responsabilizado pelos ataques ao World Trade Center. A bandeira levantada pelos EUA para fazer valer sua implacável força, bélica e política, no Iraque e na caça à Bin Laden, curiosamente, traduziu-se, na simples e perseguida, desde os tempos imemoriais, palavrinha quase mágica, mas tão longe de ser consenso entre os povos: PAZ. Em nome de uma camuflada ‘paz’ foi que os americanos agiram.

Travestidos de bons moços, os americanos fizeram e desfizeram sem que nada ou ninguém tivesse chance de questioná-los. Aliás, não tem. Os EUA são os donos do mundo. Ainda nos anos 80, no governo de Ronald Reagan, lapidaram o inimigo como artesões que esculpem diamante e financiaram, entre aspas, o terror que tanto lhes tirou o sono desde a manhã daquele fatídico 11 de setembro. No entanto, matar Bin Laden, dez anos depois, soa muito mais como um incremento à futura campanha de reeleição do presidente Barack Obama que propriamente com o fim de todo mal como se tem alardeado. Era questão de honra. Uma promessa que se cumpre.

A Al-Qaeda virou franquia, escreveu, acertadamente o jornalista Janer Cristaldo. Não se diluirá com a morte de seu mentor. Haverá retaliação. “A vendeta virá com força. Nas próximas semanas e meses, podemos esperar algumas dezenas ou talvez centenas de cadáveres na Europa. O terrorismo não vencerá as democracias ocidentais. Mas ainda matará muita gente”, continua Janer, em texto publicado em seu blog na manhã de terça-feira, 3 de maio, dois dias após o anúncio da morte de Osama. O mais triste é que mesmo com a possibilidade real de mais sangue inocente ser derramado, é provável que os EUA mantenham seu nariz empinado, dando aulas gratuitas de arrogância e prepotência. “A justiça foi feita”, disse Obama quando do anúncio oficial da morte do terrorista.

O mundo aplaudiu e como de praxe tende a se curvar ante a supremacia estadunidense. O bem e o mal são inseparáveis. Os EUA vendem os valores seguidos pela maioria. Em tese, são eles quem determinam o que é ou não bom. Comida, filmes, seriados, roupas, música, espetáculos, shows, idioma, e inimigos. E os inimigos deles, querendo, ou não, se tornam os nossos. Osama morreu e todos comemoraram.

16 de mai. de 2010

Obrigado, Ronnie James Dio

O baixinho se foi. Aos 67 anos, Ronnie James Dio morreu na manhã de hoje no hospital onde se tratava de um câncer no estômago. A música pesada está de luto. Uma de suas figuras mais emblemáticas partiu. Pediu licença para descansar, para sempre.

Há um ano tive o prazer de assistir o mestre em ação com a banda Heaven and Hell (ou como, de fato, o Black Sabbath que gravou Heaven and Hell (1980), Mob Rules (1981) e Dehumanizer (1992) ) no Ginásio Nilson Nelson em Brasília. 13 de maio de 2009 pra ser mais exato. Recordo que enquanto me aproximava dos portões e ouvia a música que saia das entranhas do ginásio me questionava se aquilo era uma gravação ou era a banda passando o som. Perguntei para um ou dois fãs que circulavam pelo local.

- É o Dio cantando?

Pois era. O sexagenário Dio cantava, com exímia maestria os estrofes de “Mob Rules” e “Fear”, do seu – infelizmente – último registro de estúdio (The Devil You Know, 2009) como se estivesse brincando de cantar. Não acreditei. Ouvi aquela passagem com o sorriso nos lábios, o brilho nos olhos e uma cerveja gelada na mão. Estava prestes a realizar um sonho. Ver o baixinho ao vivo.

Quando acabou o show e Dio se despediu do público acenei, como todos os demais 7 mil fãs, em agradecimento pela noite maravilhosa. Guardei no lado esquerdo do peito o sorriso e o carisma daquele nanico horroroso como se um presente e voltei a vida normal. A partir daquele dia poderia dizer para todos:

- Eu vi Dio porra.

E é verdade. Eu vi e jamais vou esquecer. Porque a voz de Dio fez parte da minha adolescência. Discos como Heaven and Hell, Dehumanizer, Holy Diver e Rising me acompanharam por anos e anos me fazendo acreditar que se eu seguisse em frente, de cabeça erguida e sangue nos olhos, poderia conquistar tudo que quisesse.

Não me resta dúvidas que a tristeza que sinto nesse domingo vai, mais cedo ou mais tarde, se amainar. As lembranças estão ai para todo sempre. Os discos, os LPs, os CDs, os DVD´s, a memória daquela quarta-feira, 13 de maio. Isso jamais se apagará. Dio cumpriu com sua missão. Descanse em paz e obrigado baixinho.

“If you listen to fools, the mob rules”


[Lamentavelmente, como estampado no site oficial do baixinho: "Ronnie James Dio perdeu sua batalha final contra o dragão em 16 de maio de 2010"]