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19 de abr. de 2011

Salvo pelo bebezinho




Há quem defenda a tese de que um relacionamento precise de umas ‘briguinhas’ às vezes. Questão de sobrevivência. Para não cair no marasmo. No ostracismo. Pequenas discussões e desentendimentos fazem parte do jogo, do convívio. Da necessidade de se reconquistar a pessoa amada constantemente. Reforçar a confiança e etecetera e tal. 

Eram 19h. Domingo. A praça de alimentação do shopping se não estava lotada mantinha um fluxo de pessoas indo e vindo, e sentando e levantado, e comendo e bebendo. O chopp a minha frente não estava gelado, mas era um chopp, ora bolas. Podia não estar cremosinho como deviam ser todos os bons chopps deste mundo, mas ainda assim, satisfazia minha felicidade. Bebericava e resvalava a língua para limpar o bigodinho feito com a espuma branca do líquido abençoado. 

- Hummm. 

A minha esquerda uma jovem, não mais que 19 anos senta. Cara fechada. Braços cruzados. Poucos instantes depois um jovem, arrisco 21, passa apressado pela mesa onde eu e meu irmão bebíamos nossos chopps felizes. Carregava um casaco jeans e um livro. Muitas páginas, muito mais que 400. Não consegui identificar o título, apenas que se tratava de “história”, no sentido crasso da palavra. Sentou ao lado dela a espera do pedido. Estavam distantes. Ela irredutível. Cara fechada e braços cruzados. 

Meu chopp chegou a metade quando o pedido do casalzinho foi entregue. Ele começou a comer. Conversavam. Não ouvia chongas do que falavam mas conversavam. Discutiam. Ele parou de comer. Abandonou pela metade o salgado que comia e também cruzou os braços. Virou o rosto. Ela falava. Como falava. Falou tanto que ele juntou casaco, o livro e levantou. Ameaçou ir embora. Deixa-la para trás. 

Rápida e com sangue nos olhos a garota o segurou pelo braço. Com força. Ele voltou a sentar. Repetiu-se o roteiro. Braços cruzados, rosto virado, olhar distante. O sermão da jovem continuou. Meu chopp acabou. Pedi outro. Ri. Brindei com meu irmão, a essa altura mais interessado em saber o desfecho da briga ao lado que qualquer outra coisa a nossa volta. 

Ele voltou a se levantar. Ela mais uma vez o segurou pelo braço. O jovem mudou de estratégia. Tentou se aproximar. Recostou-se no ombro dela. Tentou um beijo apaziguador nas bochechas rosadinhas e lisas. Nada. Ela não queria saber de beijinhos e abracinhos. Naquele momento ela queria discutir a relação. Alguma coisa de muito grave, para ela, o namorado tinha feito e não podia ficar sem que ambos chegassem a um consenso. 

Era evidente. Ela queria atenção, ele não queria conversa, achava que ela estava exagerando ou, na pior das hipóteses, que aquele não era lugar para uma briga ou para resolver o “grave” problema. 

Aliás, ele não achava aquele um problema. Para ele não havia razão para uma discussão, principalmente em um local público e sob os olhares famintos de dezenas de estranhos, inclusive eu e meu chopp não muito gelado, mas ainda assim um chopp. 

Os homens não gostam de discutir relação. As mulheres sim. As mulheres querem atenção dobrada, talvez triplicada. Era o que a jovem de 19 aninhos queria. Atenção. Tanto foi que percebendo que sua tática não estava dando certo, ela resolveu se levantar e ir embora. Ele ficou sentado. Quase não se moveu. Apenas olhou para ela, levantou os braços e disse: 

- Não vá. Senta ai. 

Ela não queria ir. Levantou e ameaçou ir embora a espera de uma atitude do namorado. Queria, muito provavelmente, que ele se levantasse, a pegasse entre os braços. Queria ser domada. Não foi o que aconteceu. Ele apenas pediu para ela se sentar. E ela fez. Continuaram ali por mais alguns minutos. Braço cruzado pra cá, braço cruzado pra lá. Quando resolveram ir embora, saíram de mãos dadas. Até que o momento em que ele tentou cruzar o braço esquerdo por sobre os ombros dela. 

Pelo que aconteceu em sequência, aquilo foi um erro. Possivelmente ele tenha dito alguma coisa que não devia naquele momento ou tentado mordiscar a orelhinha dela. Não se faz isso em meio a uma briga. Mulher nenhuma quer ter a orelha mordiscada quando está xingando e reclamando e pedindo aos céus por atenção. Rapidamente, ela se desvencilhou do braço esquerdo do namorado e apertou o passo. Quase correu. Ele levantou os braços, como se pensasse: 

- Era só o que me faltava. 

Balançou a cabeça e seguiu, tentando encontrar a namorada fujona no meio de tanta gente. Foi interrompido por um bebezinho recém caminhante que trombou em suas pernas. Deu atenção ao bebê. Até brincou com ele. Trocou sorrisos com os pais do bebezinho e só então voltou o olhar a frente à procura da namorada. Ela estava de volta. Parada quase em frente dele. Novamente havia desistido de fugir. Trocaram um abraço um beijo. Ela sorriu. Deram-se as mãos e seguiram suas vidas. Acho que foi o bebezinho. 

O namorado foi salvo pelo bebezinho.




4 de abr. de 2011

Mulher-Maravilha

Suspeitei no olhar. Alguma coisa havia de diferente naquela mulher. Não podia ser uma simples filha de Eva. Olhando daquele jeito, definitivamente, não podia. Era uma mulher especial. Diferente. Embora no fundo eu soubesse, de início dei pouca importância a minha suspeita.

Era o olhar que me tirava do sério. Nunca tinha visto uma mulher com um olhar daqueles. Hipnotizante. Uma flechada invisível e certeira.

Ela falava pouco. Fazia o tipo observadora. Não caminhava. Desfilava. Um charme. Eu, bobo, Não parava de pensar.

Quem era ela afinal?

Os longos cabelos negros, o olhar, o jeito de se comportar. Fechei os olhos. O que vi ou imaginei ou sei lá o quê foi tal qual uma revelação. Entre tantas mulheres vestidas como a heroína dos quadrinhos, eu estava diante da verdadeira. Só podia ser. A verdadeira mulher maravilha estava comigo. Sem os trajes característicos, ou os braceletes, ou o laço e sem poder usar seus super poderes. Mas, era a mulher maravilha. Só podia ser a Mulher-Maravilha. Quem mais. Eu tinha descoberto a identidade secreta da Mulher-Maravilha.

Quando ela voltou, tentei conversar sobre a revelação.

- Eu sei quem você é.

- Quê?

- Sim, eu sei. Você é a Mulher-Maravilha. A verdadeira Mulher-Maravilha. Não precisa esconder isso de mim.

- Mulher o quê?

- Mulher-Maravilha. Você.

- Hmm..ai ai...só você mesmo.

Nesse instante, os olhos castanhos escuros [N.E: devia estar usando uma lente ou algum poder especial já que a dos quadrinhos tinha os olhos azuis] quase me fizeram congelar. Ela riu. Beijou-me os lábios encostou o rosto no meu peito e continuou sorrindo.

- Seu bobo. Adoro seu jeitinho.

Ainda assim mantinha a certeza. Era ela. De mãos dadas e caminhando pela avenida quase deserta eu ria e tentava controlar minha vontade de gritar para todos ouvirem.

- Eu estou com a Mulher-Maravilha, não é o máximo.

Rindo ela me pediu para não fazer escândalo. Falou com maciez

- Não consigo imaginar onde é que você tirou essa ideia de Mulher-Maravilha.

Continuamos o percurso. Eu estava escandalosamente obcecado com a minha revelação e a ideia e estar diante da verdadeira mulher maravilha. Quando a beijei pela última vez naquela noite, observei-a um pouco mais. Ela olhou para trás e riu. Eu acenei, coloquei mãos no bolso e recriminei o fato de nunca ter sido fã de histórias em quadrinhos.



10 de jan. de 2011

A fotografia da tatuagem nas costas

A imagem é meramente ilustrativa e a tatuagem retratada no texto abaixo bem menor

Não era pra ter visto, mas vi. Tinha acabado de rever o belíssimo filme argentino O segredo de seus olhos. Grande filme. A segunda vez apenas comprovou o que já tinha sacado ao deixar o cinema, quase um ano antes. Pensava alto. Ria. Estava levemente feliz. Matutava sobre o surpreendente desfecho da película. - Ele só queria conversar. O condenado assassino só queria conversar.

Abri a geladeira para pegar água. Passavam dois minutos das vinte e duas. Tinha outro filme pra ver. Não queria perder tempo. Olhei pela janela do apartamento. Algumas luzes, pouca movimentação. Voltei meus olhos para baixo, para o prédio ao lado, menor dois andares que o meu. Uma janela estava aberta e a luz acesa. O piso de madeira me lembrou o do meu próprio apartamento. A cama estava feita, lençóis claros, a fronha do travesseiro tinha o desenho de uma rosa. O guarda-roupa era branco. Mal o via.

Ela estava sentada na cama mexericando uma câmera digital. A posicionou no parapeito. Vestia um vestido escuro com desenhos menores, talvez flores, talvez borboletas. Da posição que me encontrava pareceu impossível identificar o que eram. Minha única certeza é que eram coloridos. Nada mais. Descalça com os joelhos lisos a mostra ela devia ter saído do banho a pouco. Talvez tenha passado um daqueles cremes que as mulheres costumam usar depois que se banham.

O cabelo loiro com mechas castanhas estava quase seco. Ela não devia ter mais de 19 anos. Após alguns instantes procurando a melhor posição para a máquina, ela apertou o botão. Deu as costas para a câmara. Com a mão direita afastou o cabelo úmido. O pescoço nu, a pele branca como leite e uma tatuagem. Disparou o flash. De um salto ela pegou a máquina a fim de ver o resultado. Insatisfeita repetiu a operação.

Tive dúvidas sobre o desenho da tatuagem. Pareceu-me um beija-flor, mas podia ser uma rosa e até ter uma estrela, ou duas. Era uma daquelas tatuagens que estampam o corpo de nove entre dez mulheres tatuadas.

Após a segunda tentativa ela desistiu de fotografar a si mesma. Deitou. De onde estava, só conseguia ver a metade esquerda do seu corpo. O vestido escondia pouco. Tive a impressão que ela estava vendo as fotos armazenadas na máquina. Achei melhor não fazer movimentos bruscos, sob risco de ela perceber a minha intromissão. Estava invadindo sua intimidade. Entrando em seu quarto. Era um intruso.

Fiquei com vontade de ver o resultado. Compartilhar a foto da tatuagem, afinal, fui cúmplice do clique. De qualquer sorte, teria de esperar que ela a postasse em algum dos seus perfis na internet. Orkut, facebook, twitpic. Sei lá. Mas como? Não sei o nome dela. Talvez ela não quisesse conversar, ou me revelar algo tão particular, assim, numa conversa entre janelas. Desconhecidos. Achei melhor deixar de lado e voltar para meu filme. O segundo da noite. Talvez ela volte a se fotografar novamente. E eu, caso insista em tentar assistir as escondidas, estarei me revelando um baita de um "canalha curioso".


3 de dez. de 2010

A pequena atrás do balcão

[Barros com Independência, quase lá. Foto: Adriano Comissoli]


Descia a rua de casa, na altura do Salão do Gomes, com duas sacolas plásticas de supermercado à mão, pão, papel higiênico, iogurte, presunto de peru, quando pensei que talvez devesse ter dito umas palavras a mais para ela. Afinal, ela havia sorrido. Coincidência como a que motivou o riso solto e convidativo, acho difícil voltar acontecer.

Já havia notado a presença dela. Pequena, pele morena, com poucos porém chamativos pelinhos nos braços, olhos escuros, porém profundos. A notei num domingo. Tão logo entrei no mercadinho, a vi passando ao meu lado. Percebi nos olhos dela algo diferente. Não soube o que. Depois daquele dia, a tinha visto, tão somente, uma vez. Deixei de lado.

Até esta tarde. Estava em dúvida sobre o que pedir. Ela quase desaparece por detrás do balcão. Uma graça. A touca esconde os cabelos escuros, os quais, ando enlouquecido para saber como são: livres, soltos, por sobre os ombros. Pedi quatro pãezinhos e, como acompanhamento, cento e cinqüenta gramas de presunto de peru. Nada mais.

Surpresa minha, quando as delicadas mãozinhas dela acertaram a medida e conseguiram retirar exatos cento e cinqüenta gramas de presunto de peru da prateleira. Não soube esconder a surpresa.

Disse:

- Uau, certeira!

Foi ai que ela riu. Foi ai que eu devia ter aproveitado. O sorriso era a deixa. Estava longe quando percebi que deixará passar a chance. Já no limiar da Cristóvão Colombo, por onde passa o Chácara das Pedras antes de subir pela Barros Cassal e pegar a Independência, atravessando a rua e assistindo o grupo de velhinhos que rotineiramente se empoleiram em caixas de madeira para conversar. Sempre assim, depois das dezoito horas.

Era tarde demais para mim. Perdi o sorriso. A chance.

Mas o que poderia ter feito. A chave já se contorcia na fechadura da porta do prédio. Já estava em casa. Refugiado. Com as duas sacolas de plástico e com doze reais a menos no bolso. Talvez, se tivesse dito algo a mais, ela entendesse de forma errada. Porém, é possível, que fosse justamente isso que ela esperava. Que eu falasse mais que “ual, certeira!”.

As chances de ela voltar a ser tão precisa nas cento e cinqüenta gramas de presunto de peru são mínimas. Não vou perder meu tempo com isso. Já estou no segundo copo de iogurte e ainda penso. Ela sorriu. Eu gostei do sorriso. Gostei dos olhos, do jeito e estou, quase em pânico de curiosidade, para saber como são os cabelos sem a bendita touca. Irei lá amanhã. Na primeira hora. Não. Talvez seja precipitado. Esperar para quê, ora pois? O que falar, meu deus.

O que sei, tão somente, é que preciso ser certeiro, tanto quanto ela.

18 de nov. de 2010

João-de-barro

O piso ladrilhado brilhava. A aparência da capela transparecia um sentimento de paz que conquistava cada coração que lá se fazia presente. Eram pouco mais de 14h quando o canto do joão-de-barro ecoou de novo. Eu o vi e suponho ter entendido seus desígnios aquela tarde. Após uma semana acompanhando o sofrimento de mamãe no hospital ele viera se despedir. Isso se não estava ali cantarolando em sinal de chamado. Quem sabe.

Além de exímio cantor, o pequeno pássaro é também um arquiteto e tanto. Trabalhador incansável. Prefiro imaginar que ele laborou ininterruptamente durante os seis dias que mamãe permaneceu hospitalizada na construção de sua morada no pós vida. Imagino, claro, o ideal de paz para ela. O melhor depois de tanta angústia. O melhor. Tal qual fizera o pequeno Matheus.

O desenho de garotinho de seis anos e filho de minha prima Emanuella é a síntese daquilo que sentíamos. E a mim ninguém convence que o desenho seja uma representação do último transporte usado por mamãe. Pois o bondinho externado no papel é isso. E não cabe a razão, muito menos a emoção, desconsiderar o que a criança disse. O significado daqueles traços.

2009 vai ficar eternamente registrado como o ano que mamãe viajou com este bondinho por céus e terra, até seu destino final. Teve como companhia a paz e serenidade dos coqueiros de uma praia. E claro do joão-de-barro que nunca deixou de cantar. Fez sua última viagem na melhor companhia, pois cumpriu com sua missão entre os vivos. Aposto que está em um lugar muito melhor e menos tumultuado. Feliz o joão-de-barro e feliz os que tem a sorte de andar no bondinho. Pois, dizem: seu condutor é o próprio Deus.


***

Encontrei este texto após rápida varredura em arquivos antigos no meu notebook. Infelizmente não tive a mesma sorte em relação ao desenho. Achei que seria válido publicar o texto, afinal, as saudades são eternas, 1 ano e 8 meses depois.


12 de set. de 2010

Chico não gosta de crônicas de amor


Para o Chico não existem crônicas, nem poemas de amor. Romances sim, mas quase todos de qualidade nula. É a opinião dele, prefiro não questionar. Chico, diz-se muito se admirar “do homem que se aproxima da mulher amada com uma folha amarfanhada de versos contidos, sem métrica ou ritmo, com rimas que unem sem nenhuma vergonha amor e dor”. Chico acredita ainda que poesia ruim se escreve em cinco minutos e uma crônica de má qualidade em pelo menos seis. As aspas utilizadas neste primeiro parágrafo fazem parte da abertura de uma crônica escrita pelo talentoso e quase graduado colega Francisco Marcos. Vasculhando meus arquivos reencontrei o por pouco esquecido texto que rechaça a existência de crônicas ou poemas de amor. Os argumentos são classudos, e ainda que questionáveis, merecem um tiquinho de atenção. Segue, entre aspas, o restante do texto escrito pelo Chico.

“O cronista geralmente tem algum conhecimento da língua maior do que os poetas. E não é discriminação não, porque eu mesmo já tentei uma que outra poesia de amor, que nem de amor é, como defenderei ainda. Também tem mais fôlego que o poeta, afinal, não é fácil escrever razoavelmente em prosa, fazendo das regras gramaticais, um mar caudaloso de simbioses entre poesia, literatura. A poesia hoje se faz de símbolos e de palavras soltas, sem nuances com a subjetividade real e terrena, pois boa parte tendenciam para uma realidade metafísica e planetária...e o que é mais importante: a poesia de hoje proíbe a conjunção”.

“Como eu dizia, não existem crônicas de amor. Conheço um amigo que escreve sempre a suas namoradas em forma de crônica, longas crônicas que falam desde um sorriso perdido no meio da sala até suas fantasias sexuais mais íntimas. É o modo que ele tem de lhe escrever cartas. Assim, pensa ele, vai manter viva duas coisas muito importantes na sua vida: a namorada (que ele perdeu recentemente, diga-se de passagem) e a literatura (que também não é das melhores)”.

“Por sinal, também não existem cartas de amor”.

“O que quero dizer com isso é que o amor, esta abstração de rara compreensão, inexaurível em toda a sua fonte de matéria-prima para as artes, não pode jamais ser reproduzido num estado de consciência minimamente necessário para se escrever qualquer coisa que preste. A frase é velha, o clichê mais do que repetido, mas aqui ele cabe: o amor embriaga; e não conheço ninguém que, embriagado, tenha escrito uma só linha que prestasse”.

“Mesmo Vinícius de Moraes, grande poeta e amante etílico, escreveu maus poemas quando bêbado; há uma teoria corrente entre os que o lêem sem a pretensão (ou diria estupidez) acadêmica de que Vinícius escrevia justamente sob (sob!!) este estado alterado em que se encontram as pessoas que se amam”.

“De resto, o amor não existe em literatura. As crônicas de Rubem Braga que falam de mulheres são, antes, crônicas de sedução. O amor não acontece; está para acontecer. O espaço de tempo entre uma e outra coisa pode ser ínfimo, mas é crucial para se compreender a inexistência do amor na literatura. O texto literário sobre o amor só existe antes e depois. A crônica de sedução é antes”.

“Outro tipo de crônica tida erroneamente como "de amor" e a do depois, ou seja, a crônica do ressentimento. Hoje este gênero perdeu muito de sua força – mas não toda – e é melhor explicada se se usar como exemplo as músicas sertanejas. Crônicas de ressentimento são ruins como músicas sertanejas, porque falam invariavelmente de uma traição sofrida, de um abandono repentino, de tapas e beijos”.

“O grande mestre Machado de Assis é um que jamais ousou escrever sobre o amor, pois bem compreendia a impossibilidade disso. Por outro lado, compôs obras-primas de ressentimento e sedução. Dom Casmurro é um romance de ressentimento; Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma mistura entre o ressentimento e a sedução. Nos contos de Machado encontra-se de tudo, menos amor. O que não quer dizer que quem escreva, e bem, sobre estes períodos anteriores ou posteriores ao amor sejam uns insensíveis. Joaquim Maria Machado de Assis amava Carolina; mas sabia que, para a literatura, este sentimento era uma afronta ao bom-senso”.

***

E então, amigo leitor (a): concorda?



30 de ago. de 2010

Batata frita

Votar para Presidente é tão importante quanto escolher às 22h30 de um sábado a noite que você vai se esbaldar comendo batatas, fritas por você mesmo




















Era um caso de desejo incontrolável por batata frita, afinal, entre descascar e cortar as batatas em palitinhos e mergulha-las na banha quente, pelo menos uma hora se perderia. Até fritar tudinho, hora e meia, quase duas. Uma loucura em prol da sandice de comer batata frita no conforto do lar e altas horas da noite. O pensamento era um só: batata, batata, batata.

E o cheiro. O aroma. Um pecado. Gula. Como somos fracos. Um simples aroma é capaz de destruir nossas defesas.

- Cadê as batatas? – grita um.

- Não vão ficar prontas nunca? – berra outro.

Brigas podem ocorrer no período entre a decisão de comer batatas fritas, de descascá-las e fritá-las. Famílias podem se dizimar. Amores podem acabar. Amizades podem morrer.

Existem histórias e batatas para todos os gostos. Batatas palito enormes. Quinze, vinte, trinta centímetros. Molho tártaro, molho disso, molho daquilo, com muito, com pouco sal. Ninguém liga para o filme, a novela, o futebol, a propaganda política, só para as batatas. O pensamento é um só: batatas, batatas e mais uma porção de batatas.

Voualá, Enfim prontas. Chega o momento tão esperado. Quase duas horas de relógio esperando por elas. Lá vem a bandeja. O “bandejão”. Mas e ai, elas estão murchas. Nem parece que foram fritas. Eu como, tu comes, ele come, enfim, nós comemos. Ninguém fala, ninguém ousa abrir a boca. É notório, o mesmo pensamento invade nossos cérebros consumidos pela obsessão em comer batata frita:

- Definitivamente, não são iguais as batatas do “méqui”.

De fato não são. Outra rodada, outra mão cheia de batatas. Não são crocantes, não estão durinhas, estão murchas, nati mortas. Mas, não há tempo para reclamar. Não há tempo para nada além de esvaziar o “bandejão”. O vício, a tara, a gula precisa ser exterminada, antes que extermine você.

Acabou. Não sobrou nada, pedra sobre pedra, batata sobre batata. Todas as batatas murchas foram devoradas. Ninguém falou, ninguém reclamou. O filme, esse sim, continuou. Silêncio. Um, dois, três minutos de gelo total e completo, até que, finalmente, alguém resolve se pronunciar:

- Porque elas ficaram tão diferentes das batatas do “méqui”?

Não há respostas. Ninguém quer constranger o fritador. A consciência fala mais alto. Se reclamar, saiba que precisas pelo menos fazer melhor. E se não sabes, fique quieto. Já comeu mesmo. Não são trocados olhares. São desnecessários. Inúteis. O momento pede uma saída pela tangente, mas qual, qual, pela mor do Senhor Ruffles, qual?

- Que filme foi esse mesmo?

Todos amam comer batata frita, independente, de credo, torcida ou região. O mais impressionante é que até quando a fritada falha é gostoso por demais comer batata frita. Se o filme for ruim ou não ser do nosso agrado, não há nada mais convincente que uma generosa porção de batata frita para deixar a projeção menos maçante. No entanto, para o filme que esta prestes a começar é preciso alguns cuidados adicionais antes de iniciar o processo de descasque das batatas.

Lembrem-se: escolhas equivocadas podem fazer com que nos queimemos na banha quente. E mais: Votar para Presidente da República é tão importante quanto escolher às 22h30 de um sábado a noite que você vai se esbaldar comendo batatas, fritas por você mesmo. Outra: há sempre o risco de se escolher um (a) presidente (a) murcho e gorduroso. E mais uma outra: você pode nunca mais querer comer batata frita.



3 de ago. de 2010

Depois dos 30

Agora a pouco, em rápida conversa com minha prima, lembrei de um fato ocorrido recentemente, mas que tem me deixado com a pulga atrás da orelha. Recordava-me ela, que seu primogênito completa, hoje, oito anos de idade. Falou sobre o passar do tempo o crescimento da família e o “depois dos 30”.

Chegar às três décadas de vida tem seus prós e seus contras. Isso é fato. Não farei deste post uma lista do que é bom e nem tão bom em se ter 30 anos. Os que já chegaram lá, sabem muito bem o que é e o que não é. Ponto. Os que não tiveram o "prazer" ainda, aguardem, pois seu momento vai chegar.

No entanto, há um ponto que todo ser humano quando passa dos 30 deve se atentar. Melhor: um verbo que todo trintão precisa conjugar com maestria para não incorrer em momentos de queda, às vezes brusca, da auto-estima.

Escolher.

Exatamente. O homem ou mulher quando chega aos 30 precisa escolher melhor o que faz. Precisa ter cuidado redobrado, afinal, toda escolha é decisiva e praticamente não há brecha para erros. É preciso máxima atenção ao escolher entre comer um bolo de chocolate e um sanduíche natural, entre gastar com o ingresso para assistir um show do Rush na área vip ou usar o dinheiro para arcar com parte das compras do mês.

E ainda mais importante, é imprescindível se pensar muito bem antes de escolher o lugar dos seus happy hours ou de suas noitadas Todo cuidado é pouco, caso contrário, é possível que você entre de gaiato e acabe com o troféu tiozão (ou tiazona) da festa.

Ah, é possível que “depois dos 30”, você já tenha compromissos familiares, filhos e etc. Nesse caso, o verbo escolher é ainda mais determinante. Por ora, não é meu caso.


***


[Segue um trecho do hilário episódio de Friends em que a Rachel completa 30 anos e alguns personagems rememoram o dia em que também completaram 30 anos. A cena da embriaguez de Mônica é impagávelmente ainda mais engraçada com as legendas em espanhol. Confira abaixo.]





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5 de jul. de 2010

O dia que visitei os velhinhos - I

Foto: Anton Roos/agosto de 2007
Tenho total admiração para com os idosos. Uma vez, alguns anos atrás, tive a oportunidade de visitar-lhes, in loco, em local que dizem propício e chamado de lar. Na chegada fui recepcionado por uma simpática funcionária da casa e por dois velhinhos sentados no hall de entrada. Receptivos, ambos conversaram comigo e outra colega por alguns minutos. Um deles sofria com problemas visuais. Foram eles que nos convidaram a conhecer as dependências da casa.

Fundado em outubro de 1976, o Lar dos Idosos é mantido pela diocese de Barreiras e por contribuições feitas por benfeitores, principalmente europeus. A obra divide-se em dois blocos com dormitórios para os velhinhos. De um lado homens, de outro, mulheres. São quatro quartos em cada bloco de alojamentos com capacidade para três pessoas cada. A casa ainda possui sala de reuniões e enfermaria, na ala masculina, capela e quarto para descanso de funcionários e/ou visitantes na ala feminina. No centro encontra-se o hall de entrada para os visitantes, sala de televisão, refeitório e cozinha. Nos fundos, uma cobertura serve para os encontros entre os velhinhos e visitantes e para comemorações ocasionais: aniversários, festas juninas, Natal, etc. Arejado, o local, em dias de intenso calor, é um dos lugares mais refrescantes do terreno.

Ali nos deparamos com três senhoras. Elas cantavam. Paramos para ouvir. A mais gorda era também a mais dinâmica. Vaidosa, mantém o uso de brincos, anéis, pulseiras e diadema. Sã, ela reclamou da secura do clima, da queda das folhas secas das árvores e da falta de saúde para realização de algumas atividades básicas. “Ah, se tivesse força e saúde como esses jovens” comenta a vózinha vendo as folhas da mangueira espalhadas pelo chão. As outras duas eram irmãs. A mais franzina acabara de sofrer um derrame e precisava de cuidados especiais. A alimentação se dá pelo uso de sonda. Sem condições de, sozinha, cuidar da irmã enferma, a mais lúcida, mas também com problemas de saúde, teve de recorrer ao lar dos idosos.

Elas entoavam cânticos cristãos. Nossa presença no primeiro instante, pareceu não importunar o trio, que terminou a cantiga, antes de se pronunciar pela primeira vez. A irmã da velhinha que sofrera o derrame foi a primeira. “Ela adora cantar, estou tentando ensinar a ela algumas canções da igreja, mas ela prefere canções do mundo” disse. “Se deixar, ela passa horas cantarolando velhas marchinhas de carnaval”, continuou. Nostálgica, afirmou que sente falta do lirismo daquelas canções. Concordamos e o trio voltou a cantar.

Enquanto ouvíamos atentos ao segundo ato das “jovens” senhoras, a irmã Luciene, responsável pela manutenção da casa, apareceu. Passado os cumprimentos de praxe, começamos nossa conversa a respeito do trabalho desenvolvido no Lar. O papo durou aproximados 20 minutos. Tempo suficiente para descobrirmos algumas peculiaridades do trabalho desenvolvido e suplantado pela diocese, especificamente por Dom Ricardo.
 
Irmã Luciene, é técnica de enfermagem, e a época de nossa vista estava a sete anos a frente da administração da casa. Passou pela fase de transição até a reforma em 2003. Paciente e prestativa, irmã Luciene conta que a casa tem capacidade para 30 velhinhos, e que hoje atende pouco mais da metade desse número, devido algumas normas instituídas pela administração do Lar em conjunto com a Caritas Diocesanas a fim de evitar abusos quanto ao acolhimento de idosos pelo lar.

Tamanha foi nossa surpresa ao conhecer alguns procedimentos da casa. Ignorantes, chegamos lá cheios de pré-conceitos. Normalmente se conceitua um “asilo” como um local onde as pessoas deixam seus familiares idosos e muitas vezes não prestam assistência sequer para eles.

Segundo irmã Luciene, os velhinhos que moram no lar, atualmente estão lá justamente por não terem família. Percebe-se que parte dos idosos está lá por não ter onde ficar ou porque envelheceu distante dos familiares, ou ainda, por abandono. Em todos os casos, são raros os contatos com familiares.

Assim sendo, os velhinhos que dispõe dos benefícios da aposentadoria tem 30% dos seus vencimentos creditados para o Lar dos Idosos. Irmã Luciene nos confidenciou que muitos são os casos de idosos que chegam no lar repletos de dívidas. “Não temos condições de arcar com esses débitos, mas certamente que nenhum deles morrerá de fome aqui”, salientou.

O dia que visitei os velhinhos - II

Segue a segunda parte da história  que retrata uma visita que fiz com uma colega, hoje também jornalista, ao Lar dos Idosos de Barreiras alguns anos atrás, as vésperas do Natal. Recordo de à época termos nos perguntado: Como são as datas comemorativas no lar? Interessante que parte da bagagem de suposições que carregamos para dentro das paredes daquele recinto naquela tarde foi por terra. Uma delas dizia respeito exatamente a isso. Primeiro, porque imaginávamos encontrar muitos velhinhos tristes e arredios. Segundo, imaginávamos que o fato deles estarem passando essa parte de suas vidas em um “asilo”, poderia representar algo degradante ou pelo qual eles não se orgulhassem. Engano total.

Um dos pontos que pôs em cheque nossas vagas suposições é o carinho e o respeito com que os funcionários da casa tratam aqueles idosos. Fato consumado. A irmã foi contundente ao afirmar que boa parte daqueles velhinhos não quer deixar o Lar, mesmo em condições para tal. Em suma, eles vêem no Lar o seu “lar”, conseguem viver seus últimos anos com dignidade. Aliás, esse foi um dos pontos cruciais da conversa com Irmã Luciene que ainda tratou do respeito à diversidade cultural existente. “Cada um traz sua cultura, nós temos de respeitar”. De acordo com a irmã, os funcionários são orientados a não interferir nessas questões. Pode-se dizer então que se consuma a velha máxima do: respeite para ser respeitado.
 
Enquanto os pássaros alegravam a tarde quente e um vento suave se espalhava pelo local, éramos recepcionados por outros dois velhinhos. Dona Alfreda, tida como louca antes da entrada no lar e Seu Manoel, vítima de três derrames, mas que realiza caminhadas regulares, inclusive fora da casa. Ambos, sem interferir, ficaram nas imediações de onde conversávamos com a irmã Luciene. Sentados e pensativos.

O relato continuava e com ele novas afirmações. Apesar de a manutenção ser feita quase que exclusivamente pela Caritas Diocesana e pelos “amigos dos idosos” que contribuem mensalmente através do pagamento de um carnê, o lar não detém qualquer auxílio dos governos municipal e estadual. Algumas carências especificas, por vezes são supridas através do voluntariado. Médicos prestam atendimento gratuito, o clube da melhor idade faz visitas regulares à casa, oportunidade que promovem festas, e especialmente em épocas festivas, há uma enxurrada de grupos voluntários valendo-se da máxima da solidariedade. Irmã Luciene, disse que muitas vezes, os velhinhos não gostam desses excessos de Páscoa e Fim de Ano.
 
Esses graduais aumentos de solidariedade por parte da população, segundo ela, exigiram que o Lar criasse algumas regras e fosse mais rígido na hora de aceitar certas contribuições. “Tem pessoas que ligam pra gente pedindo para que confirmemos que elas prestaram atividades filantrópicas no lar” disse a irmã, que foi além dizendo que boa parte desses contatos são de pessoas que nunca estiveram na casa, ou prestaram qualquer tipo de ajuda para o Lar.
 
Pelo tempo que tivemos com Irmã Luciene pode-se notar que realmente, o trabalho que realiza é feito com amor. Pelas poucas conversas que testemunhamos entra ela e os velhinhos, percebe-se que há uma cumplicidade e um tom de afeto presentes. Nossa visita terminou com uma tour pelas dependências da casa. Na saída, a constatação: os velhinhos que vivem no Lar dos Idosos gostam de receber visitas e sentem prazer em recepcionar seus visitantes.
 
Já no hall de entrada e prestes a sairmos da casa, presenciamos uma cena que exemplifica o quão dignificante a vida no Lar dos Idosos é para esses velhinhos. O mesmo senhor com problemas visuais (ver parte I) levantou-se e próximo de onde eu e minha colega estávamos, pediu que chamássemos, supostamente uma das funcionárias. De pé, aquele senhor aguardou por uns instantes com a bengala levantada cerca de vinte centímetros do chão. Enquanto nossos olhares procuravam pela funcionária solicitada, Manoel, aquele que sofrera três derrames e que todas as tardes sai para caminhadas pelas redondezas da casa, prontamente se aproximou do companheiro e pegando a ponta levantada da bengala, orientou o amigo até seu quarto. Não precisou de funcionária, não precisou de muito tempo. Embora os passos de ambos estejam descompassados em vista do avançar dos anos e dos suscetíveis problemas de saúde, em poucos minutos, Manoel levava o amigo para o quarto, e nós boquiabertos nos questionávamos:

- Que mundo é esse lá fora?

Vale ressaltar que a história registrada nestes dois textos foi escrita em meados de 2007, e por isso não temos como comprovar a situação atual do Lar dos Idosos.

15 de abr. de 2010

A mendicância se profissionaliza

Mendigar, pedir e esmolar. Três verbozinhos. Conjugados diariamente por milhares de pessoas: no Brasil, no mundo, e, claro, em Luís Eduardo Magalhães. Homens e mulheres. Jovens e adultos. A meia tarde de domingo, Brasília em pouco se parece com a movimentada capital de todos nós brasileiros. A política, observada neste horário, parece ingrediente para, quando muito, os dias úteis. O ônibus lotação apressa-se pelo final da asa sul. Uns entram outros saem. Entre eles, um jovem de pele escura, aparentemente bem afeiçoado. Tão logo passa pela roleta do cobrador começa a conjugação da trinca verbal.

- Moço, me dá dez centavos.

Assim o faz com todos passageiros.

Adiante o jovem negro desce do ônibus e estanca em outra parada. Até o acelerar do ônibus o pedinte permanece imóvel, sem ação, no aguardo sabe se lá de que ou de quem. Não tive tempo de perguntar. Confesso. Preferi, na reflexão silenciosa do trajeto, imaginar que razão faz com que uma pessoa entre em um ônibus lotação arque com o valor devido (uma modela de um e outra de cinqüenta) e comece a pedir miseráveis dez centavos de cada um dos passageiros.

Não faz sentido. Esforço-me para entender. Em vão.

Dez centavos é moeda de pouco apreço. Pouco contato. Não é popular, senão em mercados, padarias e bancos. As pessoas preferem as de vinte e cinco, cinquenta e um real. São maiores e mais significativas. Mas mesmo assim, a mendicância do rapaz candango é clara: “Me dá dez centavos”. Não ganha somente os dez pedidos, ganha os vinte e cinco, cinquenta e um real. É inteligente. Cara de pau. Pede com a cara limpa. Sem vergonha. Fácil.

À noite, é a vez de uma mulher, também de cor escura, pedir auxílio financeiro sob o pretexto de alimentar os filhos. A rodoferroviária da capital federal, a propósito, é um conluio de atrocidades sociais. De todos os gêneros. A moça não carrega os rebentos a tira colo. Tem tão somente boa lábia. Ganha algumas moedas. Vai-se.

Outro chega. Conduzindo uma bicicleta adaptada a necessidade especial, um senhor oferece pequeninos saches de mel. Não mendiga, pede ou esmola. Vende. As moedas se foram. Digo: não, obrigado. Ele se ofende. Questiona. Diz ser trabalhador. Acusa a mulher de pedir dinheiro para se drogar. Nada mais posso fazer. Sou a vítima. Sinto-me culpado. Prometo não dar mais moeda sequer para qualquer que seja o pedinte sob qualquer que seja o argumento. Ponto. Exclamo.

Despeço-me da capital federal. Triste. A constatação é inevitável. Os verbetes da primeira linha, são hoje, conjugados de todas as formas possíveis. Não há gramática que resista. Impossível passar incólume. Absorto. Mendiga-se em todas as esquinas. Em todas as valas, em todas as ocasiões. Mente-se a mentira perfeita. Engana-se com talento. Mendigos profissionais é o que são. Brasileiros. Crias de um país de Arrudas, mensalões, CPI´s. Um país que se prepara timidamente para novas eleições. A definir quem serão os nomes. As chapas. Um país que disfarça suas feridas. Varre para debaixo do tapete toda sujeira. Empurra para depois. Bem depois. “Ficha limpa” é carta fora do baralho. Há sujeira em todo lugar. O ônibus para novamente, a roleta gira, o cobrador recebe o um e cinquenta, o passageiro entra, é o mesmo de sempre, é verdade, a mendicância se profissionaliza:

- Moço, me dá dez centavos.

9 de mar. de 2010

O nome na lista

Acordar cedo, ligar o notebook, acessar a caixa de e-mails. Nada. Aguardar um pouco. Telefonar em busca de informações. Nada. Só a tarde, foi o que me disseram. Sem alternativa, tive de conjugar esforçadamente o verbo esperar, esperar e esperar. Via twitter, enfim, li que a informação que precisava só seria divulgada a noite. Nova espera. Nada que fazer.

De novo, esperar, agora pelo retorno.

À tarde, aeroporto, check in, procedimentos de decolagem, duas horas de voo, livro nas mãos, ler, ler e ler. Beber dois copos de suco de laranja industrializado. Descobrir que o inglês da comissária é horrível e viajar de avião a noite é muito melhor que durante o dia. E ainda ter a chance de observar a capital Brasília do alto. Belíssima.

Em solo, táxi para a rodo ferroviária. Jogo rápido. Quarenta pratas e quinze minutos. Ganhei uma hora. O planejado, a exceção da crucial informação que fui buscar na província de Porto Alegre tinha saído melhor que a encomenda. Liguei o MP3, Artic Monkeys no prelo. Relaxar e – tentar – aproveitar a viajem. Desconfortável, consegui com muita sorte intercalar cochilos. A verdade era uma só: eu precisavam ver a lista.

Cinco da manhã.

Ligar o notebook, acessar a caixa de e-mails. Nada. Digitar na caixa de endereços, o único que poderia ter a informação que tanto ansiava ler. Enfim, a confirmação. Meu nome está na lista. Sou um dos 25 aprovados para a pós-graduação em jornalismo digital. Ufa. Mais leve, deitei para descansar. Nada. Tenho novos desafios pela frente.

2 de mar. de 2010

A velha máquina de costura

[Foto: Anton Roos, dez/08 - A título de exemplificação, embora, a imagem não seja de uma velha máquina de costura, serve como ilustração para o post]


Avós costumam ter máquinas de costura. Minha avó tinha uma. Mesmo que nos dias de hoje as máquinas de costura estejam mais para peça de museu, a casa de uma vovó normalmente tem lugar para uma máquina de costura.

A de minha avó era intocável, ai do neto que se aproximasse sem autorização. O quartinho onde a máquina de costura ficava era vigiado a sete chaves. Como se guardasse um tesouro. A exceção do barulho da máquina ligada, e das raras oportunidades que conseguíamos burlar a vigia, quase não víamos a máquina de costura.

Nem eu, nem ninguém com menos de cento de vinte centímetros de altura.

Aliás, como eu gostava do barulho que a máquina de costura de minha vó fazia quando ligada. Era bom ver minha vózinha sentadinha trabalhando para remendar minhas calças surradas. Um trabalho sincronizado que exigia paciência. Ainda me lembro dos cachos grisalhos e dos óculos fixados a ponta do nariz.

Concentração total.

A mesma despendida para os biscoitos de manteiga e para o pão caseiro. Jamais ousei interromper minha avó enquanto ela remendava minhas roupas ou fazia os biscoitos ou o pão. Jamais. Isso seria uma afronta. Uma injúria.

A propósito, meu miniaurélio diz que injúria e ofensa e insulto são sinônimos. Já minha educação diz que injuriar, ofender ou insultar os mais velhos é errado. Absurdamente errado. Uma das razões de jamais quebrar a regra imposta em relação ao quartinho da máquina de costura. Respeito. Era isso. Simples como assinar o nome no contracheque.

Usava e abusava das calças remendadas com aquela máquina de costura, comia os biscoitos de manteiga e fatias do pão caseiro, sempre sabedor que em primeiro lugar precisava respeitar minha avó. Não só ela, como todos mais velhos que eu.

Aprendi desde cedo o jargão: “respeito é bom e eu gosto”. Minha mãe não se cansava de repeti-lo. É mais ou menos como o respeite para ser respeitado. Todavia, parafraseando o ditado: toda regra tem sua exceção. Vejam só o caso do circo de pulgas que se tornou a politicagem feita na capital federal. Dá uma saudade da máquina, dos biscoitos e do pão caseiro da minha querida vó, como dá.

17 de fev. de 2010

O cabeleireiro que merece amarelo

Como faço todo ano, assisti a apuração dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. É a única coisa que vejo do carnaval. Pela televisão e in loco. Não gosto da festa de momo.

Durante a apuração, entre a leitura de uma e outra nota, resolvi que precisava cortar o cabelo. Não que tenha muito que cortar, mas, embora mais calvo que cabeludo preciso manter a aparência.

Obrigações da vida adulta.

Assim, fui até o cabeleireiro. No salão que frequento são três os responsáveis pelo corte de cabelo. Para minha sorte, cheguei e logo fui atendido. Sentei confortavelmente na cadeira, vesti o avental e relaxei. Meu corte não durou mais que vinte minutos. Há tempos suspeito que os cabeleireiros que cortam meu cabelo, penteiam e cortam demais. Sem necessidade. Enrolam.

Fazem cera.

Igual o goleiro que vai bater o tiro de meta na final do campeonato com o placar de 1x0 favorável. A diferença é que o cabeleireiro não é punido com cartão.

A história é mais ou menos a seguinte: um corte que poderia ser feito em dez minutos, eles fazem em vinte. Sinto-me menor. Olho para o lado e todos tem mais cabelo que eu. Seus cortes demoram trinta minutos. O meu, com muito custo, vinte minutos. O olhar do cabeleireiro não mente. Ele não esconde o descontentamento em cortar um cabelo tão ralo. Faz o serviço como se dissesse, lá no fundo do seu âmago:

- Esse eu corto até de olhos vendados.

No fim das contas, não posso fazer nada. Nem chiar. Nem reclamar. Não tenho cabelo para tanto e o preço é o mesmo para calvos e cabeludos. Quando se chega nos trinta é preciso fazer com que algumas escolhas se perpetuem. Entre elas, escolher o cara que vai te cortar o cabelo periodicamente.

15 de jan. de 2010

Joyce não me devolveu a internet

Joyce era o nome da pessoa do outro lado da linha. Conversei com ela por mais de trinta minutos. Quarenta talvez. Gastei o ouvido. Fiquei com as cartilagens da orelha vermelhinhas de tanto ficar com o aparelho de telefone colado ao meu escutador direito. Tenho convicção que não voltarei a conversar com Joyce. Ouvir a voz, as frases enjoativamente decoradas, o gerundismo ou a educação fabricada. Não mais. A conversa que tivemos foi única mas infelizmente não definitiva. Joyce representava a esperança de uma solução, de uma resposta para meus suplícios. No entanto, coloquei o telefone no gancho sem ver meu problema resolvido e passados quarenta e oito horas, sinto que poderia ter sido mais insistente com ela. Exigir um posicionamento, ou mesmo uma mandinga que fizesse ressuscitar meu nauseabundo modem.
Resumo da ópera: Joyce não me devolveu a internet. Estou sem conexão. Meu modem não funciona. A moça bem que tentou. Foi paciente comigo. Eu também, diga-se. Tive de manter a linha para não esbravejar contra a pobre atendente da operadora de telefonia. Nada disso adiantou. Por ora, uno meu grito desesperado ao de outros tantos luiseduardenses que padecem sem acesso a grande rede de computadores. Digo: falta-nos qualidade, infraestrutura de ponta. Banda larga, como preferirem. Aquela conexão, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) com velocidade superior a 64 kbps. Pois, abaixo disso a conexão é considerada de banda estreita ou discada. Leonardo Spinelli, em artigo publicado pelo Jornal do Commercio de Pernambuco em 27 de dezembro último, diz que “o indicador da Anatel pode ser considerado antiquado” se comparado com outros índices aceitos mundo afora. Uma balbúrdia. Penso na Joyce. Penso no Ministério das Comunicações (Minicom).

Pois o Minicom, por intermédio do Plano Nacional para Banda Larga (PNBL) quer dar uma definição para o serviço, o que segundo o texto de Spinelli, hoje não é consenso. “A ideia é tentar abrir seu significado para que ele não fique preso ao conceito de velocidade e traga, por inércia, a experiência do usuário como foco definidor”, confere o artigo. Adiante e de acordo com o PNBL, as definições disponíveis atualmente sempre são expressas em termos de capacidade de acesso, na medida de bits por segundo, e não chegam a um consenso. Olha a palavrinha mágica de novo. Liguei para minha operadora atrás de um consenso sobre a inoperância do meu modem, e agora, descubro que o conceito de “banda larga” no país padece de um consenso. O documento diz o seguinte, a título de exemplificação: "Isso pode ser explicado pela dificuldade de se estabelecer padrões de tráfego que espelhem a diversidade de expectativas, comportamentos e padrões de uso dos consumidores finais pelo explosivo crescimento do tráfego, o qual torna obsoleta qualquer definição que se baseie apenas na largura de banda do acesso à internet".

Portanto, para o Minicom, a melhor definição para o serviço seria "um acesso com escoamento de tráfego que permita aos consumidores finais, individuais ou corporativos, fixos ou móveis, usufruírem, com qualidade, de uma cesta de serviços e aplicações baseadas em voz, dados e vídeo". Bingo. Pensei em Joyce novamente. Em ligar para ela e contar a novidade. Talvez assim, cheguemos a um consenso. Talvez eu deva contar a boa nova para meu modem rubro-negro. Se ele entender pode me colocar novamente no mundo virtal. Opa, meu celular está tocando.

- Alô, pois não.

- Senhor Anton, recebemos uma reclamação que o senhor não está conseguindo conectar a internet. O problema persiste?

- Sim meu caro. Continuo as escuras com minha conexão.

- Senhor Anton, eu vou estar passando o problema para...

Desisto.

Como era mesmo a voz de Joyce? Há quanto tempo mesmo estou sem internet? Em blog de colega jornalista aqui dos gerais está escrito que “dados divulgados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) apontam que 2.772 municípios brasileiros possuem estrutura para a instalação de internet banda larga”. No final da nota e perfeitamente colocado: “vamos ver se com essa notícia, Luís Eduardo, que está praticamente ilhado em termos de internet, ganhe logo a sua banda larga”. Coloque meu nome nos reclamantes colega.

Joyce, perdão querida, mas cansei de esperar.