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19 de abr. de 2011

Salvo pelo bebezinho




Há quem defenda a tese de que um relacionamento precise de umas ‘briguinhas’ às vezes. Questão de sobrevivência. Para não cair no marasmo. No ostracismo. Pequenas discussões e desentendimentos fazem parte do jogo, do convívio. Da necessidade de se reconquistar a pessoa amada constantemente. Reforçar a confiança e etecetera e tal. 

Eram 19h. Domingo. A praça de alimentação do shopping se não estava lotada mantinha um fluxo de pessoas indo e vindo, e sentando e levantado, e comendo e bebendo. O chopp a minha frente não estava gelado, mas era um chopp, ora bolas. Podia não estar cremosinho como deviam ser todos os bons chopps deste mundo, mas ainda assim, satisfazia minha felicidade. Bebericava e resvalava a língua para limpar o bigodinho feito com a espuma branca do líquido abençoado. 

- Hummm. 

A minha esquerda uma jovem, não mais que 19 anos senta. Cara fechada. Braços cruzados. Poucos instantes depois um jovem, arrisco 21, passa apressado pela mesa onde eu e meu irmão bebíamos nossos chopps felizes. Carregava um casaco jeans e um livro. Muitas páginas, muito mais que 400. Não consegui identificar o título, apenas que se tratava de “história”, no sentido crasso da palavra. Sentou ao lado dela a espera do pedido. Estavam distantes. Ela irredutível. Cara fechada e braços cruzados. 

Meu chopp chegou a metade quando o pedido do casalzinho foi entregue. Ele começou a comer. Conversavam. Não ouvia chongas do que falavam mas conversavam. Discutiam. Ele parou de comer. Abandonou pela metade o salgado que comia e também cruzou os braços. Virou o rosto. Ela falava. Como falava. Falou tanto que ele juntou casaco, o livro e levantou. Ameaçou ir embora. Deixa-la para trás. 

Rápida e com sangue nos olhos a garota o segurou pelo braço. Com força. Ele voltou a sentar. Repetiu-se o roteiro. Braços cruzados, rosto virado, olhar distante. O sermão da jovem continuou. Meu chopp acabou. Pedi outro. Ri. Brindei com meu irmão, a essa altura mais interessado em saber o desfecho da briga ao lado que qualquer outra coisa a nossa volta. 

Ele voltou a se levantar. Ela mais uma vez o segurou pelo braço. O jovem mudou de estratégia. Tentou se aproximar. Recostou-se no ombro dela. Tentou um beijo apaziguador nas bochechas rosadinhas e lisas. Nada. Ela não queria saber de beijinhos e abracinhos. Naquele momento ela queria discutir a relação. Alguma coisa de muito grave, para ela, o namorado tinha feito e não podia ficar sem que ambos chegassem a um consenso. 

Era evidente. Ela queria atenção, ele não queria conversa, achava que ela estava exagerando ou, na pior das hipóteses, que aquele não era lugar para uma briga ou para resolver o “grave” problema. 

Aliás, ele não achava aquele um problema. Para ele não havia razão para uma discussão, principalmente em um local público e sob os olhares famintos de dezenas de estranhos, inclusive eu e meu chopp não muito gelado, mas ainda assim um chopp. 

Os homens não gostam de discutir relação. As mulheres sim. As mulheres querem atenção dobrada, talvez triplicada. Era o que a jovem de 19 aninhos queria. Atenção. Tanto foi que percebendo que sua tática não estava dando certo, ela resolveu se levantar e ir embora. Ele ficou sentado. Quase não se moveu. Apenas olhou para ela, levantou os braços e disse: 

- Não vá. Senta ai. 

Ela não queria ir. Levantou e ameaçou ir embora a espera de uma atitude do namorado. Queria, muito provavelmente, que ele se levantasse, a pegasse entre os braços. Queria ser domada. Não foi o que aconteceu. Ele apenas pediu para ela se sentar. E ela fez. Continuaram ali por mais alguns minutos. Braço cruzado pra cá, braço cruzado pra lá. Quando resolveram ir embora, saíram de mãos dadas. Até que o momento em que ele tentou cruzar o braço esquerdo por sobre os ombros dela. 

Pelo que aconteceu em sequência, aquilo foi um erro. Possivelmente ele tenha dito alguma coisa que não devia naquele momento ou tentado mordiscar a orelhinha dela. Não se faz isso em meio a uma briga. Mulher nenhuma quer ter a orelha mordiscada quando está xingando e reclamando e pedindo aos céus por atenção. Rapidamente, ela se desvencilhou do braço esquerdo do namorado e apertou o passo. Quase correu. Ele levantou os braços, como se pensasse: 

- Era só o que me faltava. 

Balançou a cabeça e seguiu, tentando encontrar a namorada fujona no meio de tanta gente. Foi interrompido por um bebezinho recém caminhante que trombou em suas pernas. Deu atenção ao bebê. Até brincou com ele. Trocou sorrisos com os pais do bebezinho e só então voltou o olhar a frente à procura da namorada. Ela estava de volta. Parada quase em frente dele. Novamente havia desistido de fugir. Trocaram um abraço um beijo. Ela sorriu. Deram-se as mãos e seguiram suas vidas. Acho que foi o bebezinho. 

O namorado foi salvo pelo bebezinho.




21 de mar. de 2011

Nunca chame uma mulher de abobalhada

Okay, confesso: não tinha imagem para ilustrar esse post. Gostei da caneca, da frase.
 Por fim, acho que casa com a ideia do texto, se não, paciência


Tenho uma amiga que volta e meia me pede conselhos. Quando não o faz, abre o coração e reclama de nós homens. Diz-se uma total incompreendida. Dia desses andava tão jururu, que chegou a me perguntar se ela era mulher para casar. Pergunta difícil, resposta mais ainda. Como é que você responde uma pergunta dessa sem que uma mulher se chateie. É capaz de você dizer: sim, tu és perfeita para casar, e mesmo assim, ela não gostar, achar que você está mentindo, não quer o bem dela e por ai em diante. Elas exigem que tu sejas sincero, mas no fundo, a última coisa que querem ouvir é uma resposta sincera. Vai entender.
           
Pouco depois nessa mesma conversa ela me encheu de desaforos por nunca ter apresentando um primo que tenho. Paulista, jornalista, solteiro, trinta e poucos, metrosexual, daqueles que passa mais tempo na academia que qualquer outra coisa. Como elas dizem, um Apolo.

- Isso que é homem lindo – disse ela como que tomada por um estranho feitiço. Fazendo beiço me questionou sobre porque cargas d’água eu nunca apresentava homens lindos como meu primo paulista.  Embevecido de paciência de Jó, respondi o mais claramente possível:

- Primeiro, não tenho amigos “lindos” como esse meu primo paulista para te apresentar; Segundo, porque você fica abobalhada perto de um homem bonito e que te interessa muito e, terceiro, ele mora em São Paulo, logo não tem como te apresentar pessoalmente.

Em resposta, veio uma onda furiosa. Devastadora.

- O quêêêê?

- Eu fico abobalhada?

Podia imaginar a raiva concentrada nas bochechas rosadas. O sangue lhe subindo à cabeça. Ela podia me bater se estivesse diante de mim. Aposto que tenha batido na mesa, ou quebrado um lápis, ou gritado com algum colega de trabalho. O que eu tinha acabado de dizer era uma afronta. Como eu, aquele que ela considera um amigo, conselheiro e talecoisa, podia chamá-la de “abobalhada”. Algo estava errado.

Quando me preparava para ler os maiores desaforos possíveis na tela do computador, ela mudou o tom da conversa e novamente, demonstrou estar absolutamente em frangalhos. Aturdida. Desmantelada. Quase sem chão para pisar.

- Eu nem sei pra que eu tenho namorado. Se eu fico sempre sozinha mesmo. Vou tomar sorvete sozinha, vejo filme sozinha, melhor ser solteira.

E continuou:

- Amigo, eu mal vejo meu namorado. Ele sempre arruma uma desculpa. Já me acostumei a namorar, mas ser sozinha.

Pelo tempo de convivência e amizade, sabia o que se passava com ela e logo disse:

- Você desaprendeu a ficar sozinha e tem medo de, caso terminar com ele, não achar ninguém para amar.

Ela não mais respondeu. Sumiu. Ficou offline. Deu o ar da graça somente no dia seguinte. Disse ter passado a noite em claro a pensar no que havia dito pra ela. Só fez confirmar minha teoria.

- Você está certo – escreveu.

Ela havia desaprendido a ficar sozinha e tinha medo de não encontrar ninguém caso terminasse o namoro. É uma mulher. Mulheres precisam de atenção. Dão valor para isso. Coisas as quais nós homens damos pouca ou nenhuma atenção. Um elogio, um lembrancinha por mais boba que seja, um recado desejando “bom dia e bom trabalho” as 7 e meia da manhã. Elas querem atenção. Só. Dêem mais atenção para as mulheres e verão a diferença. O porém é que muitas vezes queremos dar atenção para muitas mulheres ao mesmo tempo e aí só damos com os burros n’água.

O que ela não se deu conta é que os homens em sua maioria são trouxas e ainda mais abobalhados quando se trata de um rabo de saia. Querem todas e ao mesmo tempo. As mulheres têm um poder incrível e parece não terem se dado conta disso. Aos poucos, começam a descobrir a força que possuem.. Gradativamente. Afinal, não são elas que estão se tornando protagonistas deste século XXI. Quanto mais atenção elas receberem mais elas se tornarão grandes. Imponentes. Mulheres. Donas do mundo.