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13 de ago. de 2010

A invasão das máquinas

Nas primeiras décadas do século passado calçar um bom sapato para um homem no auge dos 20 ou 30 anos era sinônimo de status e razão para chiliques femininos. Um homem usando um sapato minuciosamente engraxado era um partido e tanto. O cabelo engomadinho, o terno bem passado e um trabalho honesto nas indústrias da época, o algo mais para as moçoilas deixarem a vida de solteiras e encalhadas. A vida nos primevos dias do século XX podia ser resumida da seguinte forma: um homem precisava de um bom sapato; as mulheres, de um homem calçado com um bom sapato.

Os tempos mudaram. E muito.

Henry Ford e o Modelo T  em 1921
Naqueles dias o americano Henry Ford inventou a produção em série. Pras coxias se Ford usava um bom sapato. Ford pensava a frente do seu tempo. Certa vez, eternizou: “economia, freqüentemente não tem relação com o total de dinheiro gasto, mas com a sabedoria empregada ao gastá-lo”. Era um visionário. Inteligente, esperto e fugaz. Percebeu que era mais barato e rápido produzir um modelo de automóvel padronizado. 

Foi o que fez. 

Acertou na mosca. 

Criou o fordismo e em contrapartida tudo que conhecemos hoje em termos de produção automobilística. De acordo com o sistema fordiano de produção, o automóvel passava por uma esteira de montagem em movimento e os operários colocavam as peças. A montagem de um carro durava em média 98 minutos. Ford fez escola. Outros o imitaram. Produzir em larga escala se tornou obsessão. Ter um automóvel também. Os sapatos bem engraxados ficaram em segundo plano. Ter um carro não.

Dizer que Henry Ford, portanto, é co-responsável pelo caos que temos hoje no trânsito no gentílico Mimoso e também lá nos grandes centros urbanos como São Paulo e Brasília não é uma blasfêmia. Não fosse seu brilhante espírito empreendedor, talvez, não teríamos tantos carros trafegando por aí, abarrotando nossas ruas e transformando seus condutores em ilhotas irracionais e agressivas pensando ser piloto de Fórmula Um. Culpar o pobre Ford, a propósito, é cavar a própria sepultura. Ford não é culpado, afinal, não lhe competia trabalhar para melhorar as condições de trafego das estradas ou mesmo construí-las para que seus carros pudessem ganhar o mundo. Também não competia a ele determinar as regras para que os automóveis fossem vendidos. Ford queria vendê-los. E isto conseguiu.

O trânsito é um problema dos nossos tempos. Não dos tempos de Ford. Portanto, cabe a nós, e tão somente a nós, encontrar alternativas para amenizar o impacto de tantos automóveis trafegando ao mesmo tempo e nos mesmos horários. Se existem culpados para o caos e a desordem instauradas no trânsito daqui e de lá, estes culpados somos eu, você, o caminhoneiro, o motociclista, o vereador, o prefeito, o governador e assim por diante. Seres humanos, falhos, ditos racionais, capitalistas e individualistas. Sim, pois dentro de um automóvel, o homo sapiens como alertava já nos anos oitenta a letra dos Titãs se transforma e aí é “cada um por si e Deus contra todos”.

Certa vez escrevi que um homem bem calçado pode tudo. Poderá muito mais se dirigir um carro e este for seu. Esta é a máxima do pós modernismo. Ser proprietário de um carro veloz e moderno. Um par de sapatos simboliza (va) a emancipação masculina. Independência, poder, dinheiro e claro, mulheres. É para isso que os homens trabalham tanto. Para ter independência, poder, dinheiro e mulheres, muitas mulheres, quanto mais melhor. Mas para que essa combinação seja alcançada precisa-se irrefutavelmente de um automóvel. Se Ford estivesse entre nós, quiçá, não repetisse uma de suas frases: "obstáculos são aqueles perigos que você vê quando tira os olhos de seu objetivo." 

Pois hoje, sobram obstáculos e faltam objetivos para solucionar a problemática do trânsito. A relação homem e automóvel continuará tão caliente quanto a paixão do brasileiro por futebol, pois,  a vida depois da primeira década do século XXI pode ser resumida assim: um homem precisa de um carro; a mulher, bom, a mulher também.



22 de nov. de 2008

Para reforçar o pânico



Não gosto de dirigir. Ponto. Não acho legal escancarar de vez e sair conjugando o verbo odiar. Não gostar é mais simpático. Mais educado. E convenhamos, odiar algo, alguma coisa ou alguém é feio. Mas o fato é que evito o quanto puder sentar na direção de um carro. Saber que pedal serve para que e onde se encaixa cada marcha ainda é um exercício decorado. Ultrajantemente chato.

Na última semana, dois momentos ajudaram a endossar minha ojeriza em dirigir veículos automotores. Primeiro, estive envolvido em um pequeno acidente. Graças a Maomé, nada sério, embora o parabrisa do ônibus tenha virado pó e chovia cascalhos na hora. Segundo, assisti uma cena dantesca envolvendo o motorista de uma caminhoneta e um ciclista. Ai vai.

Caminhava descompromissadamente pensando o que me esperava para o almoço. A barriga fazia aquelas barulhos estranhos de quando se está com muita fome. Assim, do nada, vi-me tentando atravessar uma rua. Coisa simples. Umas quinze passadas e estaria do outro lado. Mas ai foi carro pra lá, moto pra cá. Não consegui atravessar.

Optei, por descer até a esquina de baixo, e tentar por lá, atravessar a bendita rua. Um caminhão enorme encontrava-se estacionando. Nos poucos segundos que tive para raciocinar e tomar uma decisão, resolvi pegar o sentido do meio da rua. Seguir meu caminho lado a lado com o caminhão e o fluxo de veículos. Assoviava. Fiu-fiu-fiu. Mãos no bolso.

Cheguei próximo a um quebra-mola. Então, aconteceu. Um ato selvagem. Uma caminhoneta e uma bicicleta vinham em minha direção. De repente, o motorista da caminhoneta, simplesmente, jogou o veículo pra cima do ciclista. Para complicar, o cara da bicicleta trazia outro cara na carona. Foi instantâneo. Paralizei. O cara da bicicleta bambeou para um lado e outro.

Incrivelmente, ambos: o cara da bicicleta e o motorista da caminhoneta conseguiram trocar ofensas. E pior, usando apenas uma das mãos para controlar seus veículos. Passaram por mim como se nada tivesse acontecido. E eu paralizado. Voltei a caminhar por insinto, pensando e pensando:

E se o cara da bicicleta tivesse perdido o controle da mesma e se chocado contra o caminhão? Pior: e se tivesse no descontrole do momento vindo em minha direção? E se o condutor da caminhoneta não tivesse conseguindo voltar o voltante a tempo e tivesse batido no caminhão, na bicicleta e em mim. Cruz credo.

Tive medo de encarar o trânsito. Meu pai vive reclamando dos outros motoristas enquanto dirige. A impressão que se tem é que todos tem razão. Todos sabem o que estão fazendo e mais, é o certo. São os donos do asfalto e irredutivelmente intocáveis. Depois reclamam ou riem baixinho, quando extravaso minha antipatia em dirigir. Respeito é bom em todo lugar. No trânsito, em casa, no trabalho e com aqueles que detestam (ops, um sinônimo de odiar) dirigir.
Obrigado.