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3 de nov. de 2009

Suco de caju

Estava cansado. Passara horas em claro, divagando comigo mesmo dentro de um ônibus. Limitado ao meu próprio silêncio. Os demais passageiros daquela viagem precisavam descansar. Tinha uma missão àquela sexta-feira em Brasília. Outros dependiam do meu sucesso. Um fracasso seria imperdoável. Sem dormir, atravessei a manhã munido de uma generosa xícara de café com leite. Antecipei meu almoço em vista do tempo escasso, e assim mesmo, entorpecido de um estafe mental e corporal, parti para meus compromissos.

Um mundo se passava a minha volta. Acompanhava com comedido interesse a correria das pessoas a e o tráfego intenso dos veículos. Como a vida é interessante, pensei, em certa altura de minha jornada vespertina. Esbocei um sorriso antes de sentar e aguardar minha vez para encaminhamento do passaporte. Enfim, sossego, paz, e alguns minutos de tranqüilidade. Preferi me concentrar no outro compromisso: a entrevista. Remoer-me pelas incertezas da minha vida particular era um ultraje. Aguardei minha vez, e de lá, sai incrédulo com tamanha facilidade.

Na caderneta mental de compromissos para aquele 18 de abril, acabara de riscar um deles. Passaporte, ok. Passei os olhos no relógio e percebi que tinha tempo a favor. Optei por uma caminhada. A sensação de quentura era imensa. Comprei água. E continuei a caminhar, pensando na pauta, na entrevista e nos seus resultados. Encontrei meu destino antes do esperado, tive tempo para me refrescar á sombra de uma velha e imensa árvore. Do momento que resolvi bater a porta da minha entrevistada até a despedida, foram duas horas e meia. Tempo suficiente para inúmeras lições.

A mulher que me recebeu na sua sala de estar tinha 90 anos. Um largo sorriso foi seu cartão de visitas. A voz grave e implacável contrastava com a baixa estatura. Fragilidade? Nem pensar. Aracy foi voluntária da Força Expedicionária Brasileira durante a 2ª Guerra Mundial. Passou oito meses na Itália, enfrentou o mundo por uma causa. Um ideal, fomentado no berço da família e enquanto cursou Ciências Econômicas na década de 1930. A mulher de cabeços grisalhos a minha frente, descendia do patrono da infantaria brasileira durante a Guerra do Paraguai, Antônio de Sampaio.

Um exemplo. Enquanto ouvia seu relato percebi que havia brilho naqueles olhos. Orgulhoso por ter feito parte de uma história fascinante da humanidade, ter contribuído para o bem estar de muitos. A vontade de enfrentar o mundo sem se abster de ter lutado pelo que acreditava e principalmente pelo país que amava. Senti-me brasileiro. E enquanto sentia os pelos de meu braço ouriçarem-se tive um sobressalto de consciência. Um lapso de vergonha de um país mal governado e miserável politicamente. Que não tem educação e não preserva sua história, sua cultura, sua essência.

Acompanhei aquela senhora numa viagem no tempo. Entre fotografias e prêmios. Lembranças. Não mais que isso. Pensei se possuía lembranças dignas de contar para meus netos. Pensei no que sou e no que tenho feito. “Eu faria tudo de novo”, disse ela, enquanto me servia um copo de suco de caju e um pedaço de torta de nozes. E eu, será que faria tudo de novo? Voltei a correria do mundo moderno. Das grandes cidades. Não se tem mais tempo pra nada, e no fundo, nada se faz. Será que existe felicidade hoje em dia? Ah, como eu queria outro copo de suco de caju.

15 de jun. de 2009

As barbas do profeta

Fazer a barba é uma das tarefas mais chatas que existe. Se obrigado fosse, a tirar a minha todo santo dia, bateria o pé. A se bateria. Irrita a pele, deixa o rosto coberto com manchas vermelhas, exige paciência de Jó, gasta água e tempo, aparelho de barbear e como se não bastasse, deixa a pele lisinha tal qual bundinha de nenê. Em suma, uma tremenda de uma chatice. Porém, manter uma barba enorme, também tem das suas desvantagens. É preciso lavá-la quase que diariamente; quando coça, coça mesmo; assusta criancinhas, a maioria esmagadora das mulheres e por fim, todos te olham atravessado como se tu fosses um ser abominável e terrivelmente mal.

Malvados ou não, recentemente em Brasília, a Associação dos carregadores de bagagem da rodoviária, determinou que seus funcionários homens, deveriam trabalhar de cara limpa, sem barba ou bigode. Em suma, para ser funcionário da empresa era preciso ter e manter a cara peladinha, peladinha. Uma medida no mínimo curiosa, para não dizer intransigente e autoritário. Ora, como ficam aqueles homens que mantém o bigode há décadas? Assim, como que de repente, terão de raspá-lo e passar a viver seus dias sem o parceiro de anos? Pior, sem sua marca, sua identificação.

Existem os que defendem a teoria de barba e bigode serem marca registrada de determinada pessoa. Particularmente, a única vez que resolvi deixar o bigode, quase fui linchado. Desaprovação total. O bendito durou uma semana e a muito custo. Em contrapartida, em relação à barba a aceitação é maior. É possível associar a pessoa à barba, e vice-versa. Semelhante ao que acontece com o presidente Lula. Fato: barba e Lula, Lula e barba são como samba e carnaval. Marca. Identidade. Registro.

Além do presidente Lula, muitos são os barbudos com marca e patente em cartório: Jô Soares, Machado de Assis, Charles Darwin, Papai Noel. Isso, sem contar os profetas e também os magos. Detentores de barbas tamanho família. Todos eles. Barbas que batiam no umbigo e mesmo assim, não eram motivo de reclamação, de parte nenhuma. Eram respeitadas. Talvez, muito mais as barbas que os caras por trás delas. Os caras eram simplesmente os caras, faziam e desfaziam, independente do que os outros pensassem sobre suas barbas. Uma vez mais, eram respeitados pela marca, pela identidade.

Em Luis Eduardo, o agronegócio é, digamos que a marca registrada do município. Assim se fez desde os primeiros indícios e tramites para fazer desta uma cidade. Nos tempos que o Posto Mimoso era referência para a região. Quando o espírito desbravador ainda mexia com o imaginário de dezenas e centenas de produtores que viam neste, um cenário potencial para construir sua história. Vinte, talvez trinta anos atrás.

Em pouco mais de nove anos de emancipação, o município foi protagonista de um crescimento desordenado. Desenvolveu suas potencialidades, investiu em propaganda para transformar esta terra em sinônimo de progresso. Aproveitou da marca, do conceito de capital do agronegócio para chamar investidores, e por consequencia atrair mais e mais pessoas. Hoje sofre com o inchaço.

O município não tem barba, muito menos um castelo, um mago ou profeta para prever o que irá acontecer nos próximos meses ou anos. Luis Eduardo tem, sim, história e potencial para enriquecer ainda mais as páginas do livro de sua criação, progresso e desenvolvimento. Para isso, convenhamos, não será preciso um profeta com uma barba enorme batendo no umbigo. Isto não condiz com a marca e com a identidade do município de Luis Eduardo Magalhães. Não condiz.

22 de set. de 2008

Ir ou ficar, eis a questão.

Não faz muito tempo passei por gringo na rodoviária de Brasília. O acusador em tom autoritário por pouco não partiu para a agressão sem que ao menos soubesse minha real procedência. Em nenhum momento culpei aquele homem. Não conheço a história de vida dele, muito menos o que os gringos possam ter feito para que ele tivesse tanta ojeriza para com estrangeiros.

Recentemente, tive duas novas experiências, embora sem a conotação agressiva da primeira, bem semelhantes entre si. Passei por estrangeiro no calçadão da praia de Ponta Negra em Natal/RN. E posteriormente, fui confundido com um holandês na mesma capital potiguar. Não bastasse possuir um nome nada usual em se tratando de terra brasilis, carrego traços na pele e na aparência que de fato, podem confundir ou fazer com que seja confundido com um cidadão estrangeiro.

Debandar em busca de novas experiências e principalmente melhores condições de vida fora do país se tornou algo comum nos dias de hoje. Cresce a procura e a esperança de brasileiros em conquistar independência financeira vivendo na Europa, nos EUA, no Japão ou seja lá onde. Entretanto, parece-me claro que somos – nós, brasileiros – tratados segundo um regime quase escravocrata quando lá chegamos.

Quem possui qualificação profissional e graduação nem sempre consegue oportunidades condizentes no mercado de trabalho deles. Acaba se enveredando e tendo de aceitar trabalhos muito aquém suas qualificações. Por outro lado, os aventureiros, e na maioria das vezes ainda jovens entre 18 e 23 anos, quando vão, acabam por entrar numa espiral sem saída.

Inconscientemente, não se dão conta do que estão fazendo e em poucos meses já não sabem as razões daquilo que estão fazendo. Ficam e sem que percebam permanecem, muitas vezes infelizes e sem que consigam voltar. Em contrapartida, aqueles que ficam mantém uma relação de quase adoração para com esses desbravadores de “terras inimigas”, como se esperassem oportunidade semelhante para ganhar a vida e deixar o país.

Assim, quem está lá se reconhece o maior dos patriotas. Jura amores ao país de origem e promete um dia voltar, nem que seja para passeio. Os de cá, pelo contrário, rogam pragas ao país verde amarelo, como se o paraíso estivesse nas Londres, Parises, Nova Yorkes da vida. É apenas uma das provas cabais que atesta: brasileiro não sabe – e nuca vai saber – o que realmente quer.