21 de jul. de 2011

A loja de sapatos e a Copa do Mundo de 2014

E o coice na bola de Elano foi só o começo. Foto: EFE


O centro da capital fervilha. No vai e vem da multidão, frases de efeito tentam convencer os que passam da compra ou venda de produtos de segunda linha. Numa grande cidade, não é permitido vislumbres ou o andar descompromissado de quem não sabe exatamente o que quer ou para onde vai. Caminha-se com pressa. A meia tarde, o ritmo tresloucado chega ao ápice e inicia o descenso, até a calmaria da noite e a tensão da madrugada. Logo adiante, no interior de um estabelecimento comercial, o conglomerado de pessoas anuncia o evento do dia, ou da tarde, como queiram: “alguma coisa aconteceu”.

Como que num passe de mágica, a pressa esvai-se. A atenção se volta para o que estaria acontecendo dentro da pequena loja de calçados. Como um rebanho de gado marcado, sem ter noção alguma do que se passa ou, mesmo, das razões que as fizeram parar nas imediações do ocorrido, a maioria dos passantes para. Observa com o semblante curioso de quem mais se preocupa com o fim da jornada de trabalho e com o início da novela das oito, que por preocupação ou interesse no que se sucede de fato. A possibilidade de ser uma briga aflora os ânimos. Entusiasma. Por pouco, não se cria uma central improvisada de apostas.

A discussão, por mais acalorada que transpareça, não é suficiente para se tornar pública. Não se ouve o que falam os brigões do lado de dentro. Alguma coisa aconteceu e isso é o que importa. Um homem de estatura mediana, de pouco cabelo e franzino, em vão, argumenta com uma mulher, pouco mais de 30, e municiada por outras duas ou três pessoas, talvez, amigos, familiares. Amanhã, fato semelhante chamará a atenção de um novo rebanho de passantes e assim sucessivamente, depois e depois e depois. A quebra, às vezes brusca, da rotina é a condicionante da manutenção da normalidade. À pressa sempre haverá um limite. O patrão, os afazeres, o mundo podem esperar até que a cena seja encerrada.  

A necessidade em se acompanhar in loco a discussão no interior da pequena loja de calçados, traveste-se de uma curiosidade embrionária e particular dos seres vivos – pensantes ou não. Somos tentados ao espetáculo. Ao sensacional. Ao fora do comum. Das arenas medievais, onde homens e animais digladiavam-se até a morte aos auditórios de programas dominicais de televisão, no fundo, queremos o show, a contemplação, o que diverte e passa tempo.

No noticiário, o sério ganha novos contornos. Espectadores natos, por vezes, acabamos subservientes aos mandos, desmandos e caprichos de uma minoria. Embora pareça óbvio e irrevogável, a possibilidade de um fracasso dantesco em 2014, é suplantada pelo sonho do hexa e da confirmação da geração de Neymar e Ganso. Em curta passagem pelo aeroporto de Congonhas, na sexta-feira, 15, entre um embarque e outro, apenas constatei o que venho martelando há tempos, inclusive nessa coluna: não temos um pingo de condição para sediar uma Copa do Mundo. O rebanho a espera do embarque, nesse caso, é passivo ante a demora, a falta de informação, e a prestação deficitária de serviços básicos, como alimentação. O mesmo se repete em qualquer aeroporto de médio ou grande porte, das cidades sedes do mundial.

Não bastasse o caos nas salas de embarque, o mandatário da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é arrogante e ditador. É um personagem pastelão que chama atenção dos que passam mais pelo que não faz ou pelos comentários e atitudes individualistas e para seu próprio benefício. E assim, embora saibamos que a Copa e a Seleção sejam dele e não de toda nação brasileira, quando passamos diante da televisão, paramos, como parte do enorme rebanho que representamos. Ávidos pelo espetáculo, pelos gols, dribles e vitórias. No entanto, como no caso da loja de sapatos, houve pouco show e diversão da última vez que a seleção do Sr. Teixeira entrou em campo. Amanhã, como depois e depois, nossa atenção estará voltada para outra discussão no interior de uma loja de sapatos, talvez, com Ganso e Neymar como protagonistas.


17 de jun. de 2011

A espera do capitão

O xerife da zaga canarinho após marcar um gol pela seleção


Por alguma inexplicável razão, sempre achei o Lúcio, zagueiro da Inter de Milão e da Seleção Brasileira parecido com um tio (ou será ex-tio) meu, ex-marido de minha tia, irmã de minha saudosa mãe. No sábado pela manhã, 11 de junho, recém-chegado ao Aeroporto Internacional de Brasília, procurava um assento para a espera pelo voo até Porto Alegre, remarcado do dia anterior, então cancelado devido às cinzas do furacão chileno que pairava no Rio Grande do Sul. O tempo cinza mantinha uma camada densa de névoa nos céus da capital federal. Não havia como voar. Cheia, a sala de espera, comportava desde remanescentes de outros voos cancelados de dias antes, até passageiros com passagens marcadas para a véspera do dia dos namorados. Muitos destes, casais em busca de um final de semana romântico.

Havia dado quase uma volta completa no saguão, quando, enfim, encontrei onde sentar. Coloquei a mochila sobre as pernas, a fim de guardar as duas revistas que me fariam companhia durante o voo. Ao meu lado um solitário rapaz também aguardava o chamado para embarque e a sua direita, com uma criança no colo, o zagueiro da seleção. A primeira vista, Lúcio me pareceu bem ‘menor’ do que transparece pela televisão. Menos implacável, digamos. Até, custei a reconhecê-lo. A filha – ainda que o fluxo de pessoas indo e vindo gerasse um barulho impróprio para o descanso – dormia como se nada pudesse ser suficientemente capaz de importuná-la. A direita do capitão, o filho, um garoto de cerca de 10 anos, manuseava o celular com rapidez, distraindo-se com um jogo eletrônico qualquer. Lúcio permanecia quieto, como se preferisse não ser incomodado. Por ninguém.

“Olha ali, não é o Lúcio, o zagueiro?”, cochichou uma mulher, sentada no banco em frente, para o marido distraído, em pé, e angustiado com a demora do embarque. A quase notícia animou o homem. Com um sorriso, ele confirmou para a mulher se tratar do famoso jogador e inquieto, aproximou-se, estendeu a mão e por pouco não acordou a pequena no colo do pai campeão. “E aí Lúcio, vai pra Porto Alegre também?", perguntou, dizendo que estava preso em Brasília desde quinta-feira a espera de liberação para retornar para casa. “Não, vou pra Salvador”, respondeu o capitão, reforçando não estar muito disposto a enfrentar, por agora, o frio da capital gaúcha. 

Chamado para o embarque o solitário rapaz a minha direita e esquerda do futebolista famoso, antes de se retirar, aproveitou para cumprimentar o jogador e desejar boa sorte. Com a poltrona vaga, o outrora distraído gaúcho sentou e voltou a carga. “Volta quando pro Beira-Rio, tá difícil continuar com o Bolivar”, disse, como se esperando uma declaração bombástica ou então, que o jogador jurasse amor pelo Sport Club Internacional, clube que praticamente o revelou para o mundo. Nada disso. A simpatia do capitão ainda que longe de ser forçada, parece fruto dos anos de contato com fãs, imprensa e o mainstream do futebol. A conversa entre os dois terminou assim que a mulher do jogador e a filha mais velha retornaram.

“Nosso voo foi cancelado”, contou a mulher ao zagueiro. Com um pouco de sorte, segundo ela, seria possível um encaixe para um voo até Porto Seguro, às 11h. Aquela altura passava pouco das 8h30. O portoalegrense curioso ficou sem saber se Lúcio, um dia, voltaria a compor a zaga do Inter e o jogador, em segundos, desfez o sorriso do rosto

A notícia deixou o camisa 3 ainda menos disposto a conversas superficiais, como a que manteve com o fã colorado. A cara de poucos amigos, a filha no colo, e o transtorno do atraso na viagem, na certa, inibiam outros passageiros a se aproximarem e ‘tietar’ o beque, com nítidos sinais de querer tão somente confirmar o embarque para o litoral e a retomada do descanso antes de se reintegrar ao grupo da seleção que em julho disputa a Copa América na Argentina. Até a esposa tentou.  “Vai buscar um suco e um pão de queijo pro seu pai, vai”, disse para o garoto que jogava no celular. “Não quero nada não”, respondeu o jogador, antecipando-se ao filho.

Com um beijo no rosto da pequena que descansava em seu colo, Lúcio fixou o olhar em algum ponto qualquer do saguão, e segundos depois, voltou-se para a mulher e pedindo que providenciasse a mudança no voo. Agora com a filha mais velha sentada a sua esquerda, o zagueiro pediu aos filhos que encontrassem no GPS do celular, algum lugar que pudessem ir enquanto aguardavam o embarque. Enquanto conversava com os filhos, o capitão voltou a sorrir. A espera de Lúcio me fez ter mais certeza sobre minha descrença na realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Pena que não perguntei a opinião do capitão, que sim, lembra vagamente meu tio ou ex-tio, ex de minha tia, irmã de minha mãe.


PS: Este post é especial, pois, trata-se da ducentésima publicação do blog



7 de jun. de 2011

E tenta-se minimizar o erro

Imagem retirada do blog Futbosta

O novamente barbado governador da Bahia teve passagem meteórica por Luís Eduardo Magalhães. Entre o pouso, translado até o complexo Bahia Farm Show, discurso, recebimento de uma homenagem pelos serviços prestados em prol do fomento agrícola da região, atendimento à imprensa, visita ao estande de agricultura familiar da prefeitura, retorno ao aeroporto velho e decolagem para Brasília, talvez, se muito, três horas de relógio. 

À tarde (do dia 31 de maio, diga-se), conforme dito no palanque montando para os ritos inaugurais da sétima edição da feira, Wagner se reuniria com a presidente Dilma Rousseff, com outros colegas governadores e ministros de governo. Em pauta, as obras para a Copa do Mundo 2014.

Dilma, além de primeira mulher a governar o país, recebeu das mãos imperfeitas do ex-presidente Luís Inácio, dois senhores pepinos – ou abacaxis, como queiram – para descascar. Afinal, cabe a ela colocar em prática o apertado cronograma de obras exigidas pela Fifa e pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e assim, dar condições mínimas ao país de sediar tais eventos

No encontro com os governadores, prefeitos e ministros, foi anunciada a concessão de alguns aeroportos à iniciativa privada. A saber: Guarulhos (SP), Viracopos (SP) e Brasília (DF). Afora isto, é sabido não haver infraestrutura suficiente para suportar a chegada das centenas de turistas estrangeiros que virão ao país durante os jogos, e terão de se instalar e se locomover em território nacional.

Mais: a três anos do início do maior torneio de futebol do mundo os estádios que deverão sediar os jogos, ou estão com obras atrasadas, ou com seu cronograma apertado. Qualquer novo atraso pode incorrer em vexames colossais, tão previsíveis quando os subliminarmente estampados nas reportagens dos jornalões do centro do país, que, ou alertam para as previsões nada otimistas de conclusão das obras; ou reforçam o fato da maior cidade do país ainda não ter um plano concreto de um estádio para sediar a copa; ou ainda, descrevem o óbvio: os aeroportos das capitais sedes beiram o caos. A medida anunciada na tarde do último dia de maio, parece apenas amainar o vespeiro.

Entre o risco iminente de lotearmos o país com vários elefantes brancos, no final de abril, o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio de Janeiro (CREA-RJ), Agostinho Guerreiro, advertia publicamente que o atraso na execução das obras para a Copa de 2014 pode levar o país aos mesmos erros cometidos durante a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, leia-se, com encarecimento no custo final e falta de qualidade dos projetos. 

A contar pela patacoada na implosão do Estádio Mané Garrincha em Brasília, as chances de adentrarmos o ano dos jogos tendo de correr contra o tempo são grandes. Afora isto, basta uma passada por qualquer um dos aeroportos das cidades sedes da Copa para comprovar a deficiência, o despreparo e o inchaço destes locais.

A declaração de Guerreiro é pontual. O exemplo ruim do Pan do Rio quatro anos atrás deveria ser usado para a feitura de um trabalho, no mínimo, melhor planejado. “A obra do Pan ficou num ritmo muito lento e depois tudo foi feito de afogadilho na última hora. Essa tradição temos que romper. As coisas ficam prontas, mas não ficam boas. Ainda há tempo para termos excelentes equipamentos esportivos para a Copa do Mundo”, afirmou o presidente do CREA fluminense, notadamente otimista que, no final das contas, vai dar tempo e o país não vai passar vergonha.

O otimismo, aliás, em se tratando de políticos e outros tantos corresponsáveis pela realização da Copa chega a ser comovente. A ilusão de um evento megalomaníaco como este cega as pessoas. Quando a Copa chegar, faremos mutirão para encobrir as deficiências que não fomos competentes para minimizar. A maioria do brasileiro não terá acesso aos jogos ou ao ambiente da Copa

Uma minoria irá se beneficiar e ao apito final do derradeiro jogo da copa, tentará se encobrir os escândalos, as mazelas e o prejuízo. Se pesar os prós e os contras, a balança não vai mentir. 

A Copa do Mundo no Brasil é um erro

A Bahia quer o jogo inaugural, avisou Wagner na reunião com a presidenta e demais políticos de grife do país, o oeste quer a emancipação e os quase mil quilômetros entre Salvador e a região do cerrado baiano, para a maioria dos que moram do lado esquerdo ro rio, continuará a ser feita em 15 horas dentro de um ônibus nada confortável, bem diferente da horinha de voo restrita à poucos privilegiados.

14 de mai. de 2011

Seu Könemann ficaria orgulhoso

Willian Tanase, bisneto do "seu Könemann" ao piano. Foto: Daniel Tanase (o papai)

O motivo de aquela foto ficar guardada dentro do armário de louças, eu nunca soube. Em preto e branco, era o registro de uma orquestra que não mais existia. Os músicos vestidos com smoking empunhavam cada qual, seus respectivos instrumentos. Havia a turma do sopro – a maioria – o baterista ao centro, e meu avô, barba feita de maneira impecável e goma no cabelo, a direita do grupo com o contrabaixo (ou como ele mesmo preferia, o rabecão), instrumento no qual era especialista. Aquela imagem era o registro do que foram as grandes bandas (ou, big bands), as quais hoje em dia as novas gerações têm conhecimento apenas pelos filmes de época, que retratam as décadas de 1940 ou 1950.

Meu avô sempre foi um homem honesto, limitado pela falta de estudos, mas inteligente o suficiente para bem educar os filhos e deixar para os netos herança semelhante. Foi o maior músico que conheci. Não o melhor, o maior. Era um sujeito simples, conservador, mas de uma sabedoria gigantesca. Nunca o vi tocar nesta (da foto), nem em outra orquestra. Como músico, lembro dele pela gaita de boca e pelo baixo elétrico. Era dono de um vozeirão grave, o que, a primeira vista, poderia dar a falsa impressão se tratar de um homem rígido e até um pouco cruel. Daqueles que assustam criancinhas travessas. No caso dele, bastava um único sorriso para esta impressão ser dizimada. As bochechas rosadas como duas enormes maçãs, o olhar pequeno e a inseparável boina que usava para proteger a calvície o transformava no mais acolhedor e afetivo dos seres.

Em qualquer ambiente e com qualquer público, quando pegava na gaita de boca era sinônimo de animação. Com o passar dos anos, esses momentos se tornaram escassos, devido ao fôlego esguio que o impedia de tocar o instrumento por muito tempo. Com o arqueado contrabaixo amarelo e sem trastes, após ter conhecimento do desejo, meu e de meu irmão, de fazer música, tentou nos ensinar algumas lições básicas sobre tempo e compasso. Certa vez, para desespero de minha saudosa mãe, emprestou o dito cujo para que eu e meu irmão iniciássemos um projeto musical. Foi um desastre. Uma das cordas do arcaico instrumento arrebentou no primeiro toque. Tivemos de trocar a corda, aguentar uma das maiores broncas de todos os tempos e ainda contar o acontecido para ele.

Por todo sempre, vou repetir e repetir: "o melhor músico que conheci". Foto: Arquivo de Família
Para nossa surpresa não fomos reprimidos. Embora, vez ou outra, ele tenha se queixado que o baixo nunca mais foi o mesmo, é fato que as cordas nunca, até então, haviam sido trocadas. Estavam velhas, desgastadas e ainda assim emitindo um som único, estranho, mas que agradava os ouvidos dele. Meu avô fez o que considerou certo. Por amor. Por saber, no seu íntimo, que não conseguiria negar um pedido destes vindo de seus netos. Ele estava contente pelo interesse que desenvolvíamos pela música. Nossa paixão continuou. Tanto eu quanto meu irmão mantivemos projetos musicais, embora nenhum deles tenha agradado de um todo meu avô, que sempre sonhou ver os netos seguindo o mesmo caminho que ele, tocando em bandas de baile.

Hoje em dia, apenas meu irmão faz da música uma prioridade, uma vez ter se formado bacharel em música e ainda manter projetos musicais ativos. Entre os demais netos, a de se registrar o que sonha se tornar o sucessor de Luan Santana e as que emprestam a voz angelical para cantar nas igrejas que frequentam. O que talvez meu avô não suspeitasse, à época em que emprestou o baixo e tentou ensinar a mim e meu irmão, breves, mas pontuais lições sobre tempo e compasso, é que um de seus bisnetos, ainda que de maneira precoce, também se enveredasse com a música.

Quando o pequeno William cumprimentou a plateia e sentou em frente ao piano, trouxe novamente a lembrança do avô carinhoso e de bom coração. Os pequenos dedos do projeto de pianista aliado a sua já sagaz percepção fizeram com que ele, o pequeno, exigisse mudar o final da canção que haveria de interpretar na noite do sábado, 7 de maio. Ainda que tenha revelado, após a apresentação, ter cometido um erro, William, que também carrega o nome do bisavô, Arthur, encantou a todos, igualmente fazia o bisavô quando tocava a gaita de boca. Seu Könemann ficaria orgulhoso, disso não tenho dúvida. O traje da velha foto guardada no armário das louças e do pequeno pianista em sua primeira apresentação se assemelham, o que não é uma simples coincidência. Seu Arthur, meu avô, e bisavô de William, partiu em 21 de maio de 2005, vitimado por problemas cardíacos.

O pequeno pianista em ação. Foto: Daniel Tanase (o papai)

PS: Infelizmente, não tenho a foto citada no primeiro parágrafo digitalizada. Fico devendo essa.

10 de mai. de 2011

Uma decisão acertada


O diálogo com a vendedora de ingressos no cinema era para ser mais rápido do que acabou sendo. Demorei um pouco mais em frente à moça, pois o filme que fui assistir só tinha exibição em 3D. Para minha sorte não havia fila. Apenas eu, ela e uma decisão a tomar.


Olhei para a lista de filmes em cartaz e fiz uma nova escolha. Tinha consciência que estava arriscando meu tempo e dinheiro, mas nada me faria dispensar quase o dobro por duas horas usando um óculos desconfortável para praticamente nada.

Quando entrei na sala de projeção, não mais que 30 pessoas aguardavam o início do filme. A maioria mulheres. Senhoras. Logo a minha frente duas delas. Riam, conversavam alto e comiam pipoca doce. Uma delas arriscou contar o que sabia sobre o filme para outra. Por pouco não pedi que se calasse. Se fosse para me decepcionar preferia que acontecesse pelos meus próprios olhos.

Hal Holbrook
Água para Elefantes é um filme belíssimo. Robert Pattinson, famoso após encarnar o vampiro teen Edward Collen, em pouco tempo de atuação põe por terra qualquer preconceito que se possa carregar sobre ele.

No entanto são três outros personagens que fazem do longa-metragem tão especial. O primeiro deles, é Hal Holbrook. Este é o segundo filme que lembro com ele no elenco. O outro é o ótimo Na Natureza Selvagem. Em ambos fiquei com vontade de tê-lo como avô. Que simpatia. O segundo é Christoph Waltz, ganhador do Oscar pela atuação magnânima em Bastardos Inglórios e que, mais uma vez, atua com brilhantismo. Por fim, mas não menos importante, é a elefoa (ou elefanta) Rosie.

A história que permeia o longa vai muito além dos clichês dos filmes de romance. Baseado no livro de Sara Guen, Água Para Elefantes é uma história cativante sobre as durezas da vida circense nas primeiras décadas do século passado e uma lição para quem for assisti-lo despido de preconceitos ou com a mente aberta.

Altamente recomendável, ainda mais se no mesmo horário tiver passando um filme em 3D. 

Assista.


9 de mai. de 2011

E no fim das contas, 'só sei que nada sei'

A imagem é meramente ilustrativa e foi criada para uma campanha francesa
de combate à exclusão social


À primeira vista, tive vontade de rir. A cena, inusitada, era também engraçada, embora seja reflexo de uma realidade caótica que, indiretamente, afeta a todos nós. Sentada no meio fio da frente de um estabelecimento comercial qualquer, quase no meio do trecho de rua entre duas movimentadas avenidas e em pleno meio dia de um domingo cinzento, uma pessoa, a qual a princípio me pareceu ser uma mulher, cortava o próprio cabelo, curto e pintado numa tonalidade que pode ser traduzida como um vermelho candente.

As roupas que vestia aparentavam estar desgastadas de tanto uso. Algumas bijuterias, nas mãos, pescoço e no cabelo, ajudavam na suspeita de se tratar de uma mulher. Ao lado, um carrinho de supermercado continha o que, aparentemente, eram todos seus pertences, algumas peças de roupa, cobertores velhos e papelão. Pelo trejeito, embora não tenha tido chance de comprovar, o auto corte de cabelo pareceu contar com auxílio de um espelho, além, obviamente de uma tesoura, daquelas pequenas que as escolas exigem como parte do material escolar das crianças.

Avesso às dificuldades e circunstâncias, e ainda que não saiba bulhufas sobre qualquer procedimento profissional de um cabeleireiro, arrisco dizer que o morador (ou moradora) de rua saia-se muitíssimo bem com seu corte. Envolto em uma repentina vontade de gargalhar do que via, em segundos, fui inundado por um mar de sentimentos. De maus a bons. O primeiro deles foi pena. O número de moradores de rua, não só em Porto Alegre, mas em outras capitais brasileiras e até mesmo cidades interioranas, aumenta vertiginosamente. São pessoas esquecidas. Nada respeitadas e que vagueiam pedindo esmolas e revirando lixo. Desiludidas e sem esperança. Um problema social grave e que parece estar longe de solução.

Embora se discuta a implantação de programas de assistência para erradicação da pobreza, confesso preferir o ceticismo, pois, de boas intenções, como diz o velho ditado, o inferno está cheio. Justifico: a política é uma seara inconteste de tentativas frustradas ou mal intencionadas de se promover mudanças significativas e para o bem coletivo. Basta olhar em volta para se ter a prova. Os investimentos em qualquer área são feitos em escala muito inferior ao crescimento e desenvolvimento da população, isto, quando não acontecem crivados de escândalos, desvios de recursos e abusos de toda ordem, seja nos grandes centros urbanos, seja nas pequenas cidades do interior, onde, em partes, ainda persiste a medonha política da concentração de poder e do coronelismo.

O morador ou moradora de rua de cabelos avermelhados, se por um lado, pode ser considerado exceção, em meio a uma infinidade de outros que não se dão ao luxo de manter os cabelos alinhados, faz parte de um cenário que envergonha, ou, no mínimo, deveria envergonhar. A mim, a você, a todos nós. A razão é muito simples: não sabemos lidar com o problema. Ninguém. Da Presidente da República ao gari ou a garota de programa que bate ponto na esquina de onde o morador de rua cortava o próprio cabelo.

O brasileiro pode ser o rei do “migué”, mas é indeciso, acomodado e como a maioria dos seres humanos, individualista. Só há comoção e ondas de solidariedade em casos extraordinários como tragédias naturais, ou que envolvam um forte apelo popular e emotivo. Em relação à mendicância, pouco ou nada é feito. Em partes, devido ao fato de muitas vezes os moradores de rua viveram da forma como vivem por opção e não por falta de oportunidades como, a primeira vista, pode-se suspeitar. Em outras, porque a mudança necessária para tirar das ruas pessoas em condições sobre-humanas é muito maior que a boa vontade e os interesses daqueles que respondem pelas fatias do bolo que são distribuídas todo ano no país. Talvez, até 2014 alguma atitude emergencial seja tomada, nem que seja para varrer os moradores de rua para debaixo do tapete até que os gringos de esbaldem e o brasileiro grite a plenos pulmões: “é hexa, é hexa”.

Em questão de meia hora, passei pelo morador de rua duas vezes. Na segunda, pude tirar a prova sobre o sexo do bendito e para minha surpresa, não era uma mulher, mas sim um homem que cortava os próprios cabelos. Àquela altura o morador de rua cantava, como se ferido, apunhalado no coração. Uma melodia sertaneja que de tão medonha esqueci já quando atravessava a Avenida Farrapos. Lembrei somente de Sócrates, o filósofo e sua famosa frase: “Só sei que nada sei”. E talvez, ninguém mais saiba.

6 de mai. de 2011

Osama morreu e todos comemoraram

A morte de Osama Bin Laden não afastará do planeta a possibilidade de novos atentados terroristas, embora os Estados Unidos ‘pinte e borde’ a notícia como o fim do maior pesadelo vivido pelo país em tempos. É preciso, sob risco de engrossar um coro raso, cautela ao analisar os fatos, em especial o que representa, para o mundo, a derrocada do líder talibã. A vitória proclamada pelos americanos, arrisco, não é de todos. O alívio que sentimos, não é nosso, seu ou meu. É fabricado. Incutido no nosso imaginário, pela força descomunal que os yankes têm sobre o resto do globo. Odiamos por tabela. E o ódio é quase um parceiro da intolerância, maior causador de males e atrocidades de toda história.

Quando as torres gêmeas 'vieram abaixo', em 11 de setembro de 2001, matando centenas de pessoas, os EUA obtiveram argumento suficiente (ou, justificável) para decretar guerra ao terrorismo e ao grupo liderado por Bin Laden. Este por sua vez, foi dado como inimigo público número um do país de Homer Simpson, do fast-food e de 99,9% das tendências seguidas por praticamente todo o planeta. Entre as raras exceções, óbvio, os países islâmicos, de onde emergiu Bin Laden. Um homem frio, calculista, de origem milionária que aprendeu desde o berço a nutrir pelos EUA um ódio mortal. O homem, que em tese ousou entrar na casa dos americanos e urinar no tapete da sala de estar.

As imagens das aeronaves colidindo com as torres de concreto disseminadas a exaustão e a bisonha publicidade panfletária pós-atentado, vide, filmes (todos horríveis, diga-se), documentários, e a mais complexa ordem de teorias acerca do que ou quem teria provocado o atentado fizeram com que o mundo elegesse Bin Laden e seus conterrâneos como inimigos mortais. Em resumo: ao pisar no calcanhar dos americanos, o barbudo saudita, pisou no calcanhar de todos. Foi o que se pintou. Foi o que se bordou.

O ódio, como bem queriam os filhos da ‘terra dos bravos’, se alastrou. Com o orgulho ferido, os americanos não pouparam recursos para impor suas vontades nos países de origem islâmica. Mantiveram em atividade a campanha de revitalização do Iraque, muito embora nunca tenham encontrado as armas de destruição em massa que motivaram a invasão e a morte de Sadam, e continuaram a caça ao homem responsabilizado pelos ataques ao World Trade Center. A bandeira levantada pelos EUA para fazer valer sua implacável força, bélica e política, no Iraque e na caça à Bin Laden, curiosamente, traduziu-se, na simples e perseguida, desde os tempos imemoriais, palavrinha quase mágica, mas tão longe de ser consenso entre os povos: PAZ. Em nome de uma camuflada ‘paz’ foi que os americanos agiram.

Travestidos de bons moços, os americanos fizeram e desfizeram sem que nada ou ninguém tivesse chance de questioná-los. Aliás, não tem. Os EUA são os donos do mundo. Ainda nos anos 80, no governo de Ronald Reagan, lapidaram o inimigo como artesões que esculpem diamante e financiaram, entre aspas, o terror que tanto lhes tirou o sono desde a manhã daquele fatídico 11 de setembro. No entanto, matar Bin Laden, dez anos depois, soa muito mais como um incremento à futura campanha de reeleição do presidente Barack Obama que propriamente com o fim de todo mal como se tem alardeado. Era questão de honra. Uma promessa que se cumpre.

A Al-Qaeda virou franquia, escreveu, acertadamente o jornalista Janer Cristaldo. Não se diluirá com a morte de seu mentor. Haverá retaliação. “A vendeta virá com força. Nas próximas semanas e meses, podemos esperar algumas dezenas ou talvez centenas de cadáveres na Europa. O terrorismo não vencerá as democracias ocidentais. Mas ainda matará muita gente”, continua Janer, em texto publicado em seu blog na manhã de terça-feira, 3 de maio, dois dias após o anúncio da morte de Osama. O mais triste é que mesmo com a possibilidade real de mais sangue inocente ser derramado, é provável que os EUA mantenham seu nariz empinado, dando aulas gratuitas de arrogância e prepotência. “A justiça foi feita”, disse Obama quando do anúncio oficial da morte do terrorista.

O mundo aplaudiu e como de praxe tende a se curvar ante a supremacia estadunidense. O bem e o mal são inseparáveis. Os EUA vendem os valores seguidos pela maioria. Em tese, são eles quem determinam o que é ou não bom. Comida, filmes, seriados, roupas, música, espetáculos, shows, idioma, e inimigos. E os inimigos deles, querendo, ou não, se tornam os nossos. Osama morreu e todos comemoraram.