30 de nov. de 2010

Desde cedo

[Aprendendo a lidar com os aparatos digitais desde cedo. Foto: @antonroos79, Setembro/09, Curitiba/PR]

Igualdade, intolerância, Huxley, Orwell...

Se fôssemos todos iguais, o mundo
seria uma chatice só

Levante os braços e agradeça por sermos diferentes uns dos outros. Imagine se fossemos todos iguais. Não haveria diversidade e, logo, combustível para a engrenagem que faz a carruagem seguir em frente manter o prumo. 

O mundo seria bestialmente chato

Se todos fossem tímidos, não haveria, praticamente, interação social. Cada qual em seu mundo, confabulando, teorizando e nada fazendo. Se fosse o contrário, as orgias, é bem possível, seriam infinitas, regadas a um falatório insuportável. Brigas, discussões, bacanais de toda ordem, um completo esculhambo. A junção destes e outros tipos fazem do viver uma arte, às vezes, bela, às vezes, triste. Pena sermos tão intolerantes. Depois tratamos disso.

O planeta precisa dos chatos, tanto quanto precisa dos nerds, dos extravagantes, dos reclusos. Faz parte de uma ordem natural, talvez, aquém nosso – sempre restrito – conhecimento. Mais: se houvesse igualdade em tudo e todo lugar, adeus clubes de futebol. Jogos na quarta e no domingo. Cerveja gelada, churrasco e flauta com o adversário. Ora, pois, que razão haveria para alguém torcer para um time em vez de outro? Nenhuma. Seriam todos iguais. O esporte, por si, não faria sentido. Nenhum deles. Música e artes e política. Idem. O mundo como o conhecemos não existiria. Por enes motivos. Uns bons outros maus. Seria, apenas, diferente e difícil de imaginá-lo.

Aldous Huxley, no longevo ano de 1932, ousou tratar de um mundo sem diferenças no clássico literário “Admirável Mundo Novo”. George Orwell, no também clássico e não menos atemporal, “1984, foi outro que se predispôs a imaginar um mundo diferente deste como conhecemos e vivemos. Em ambos, apesar de contextos díspares, os seres humanos são incentivados pela eficácia da repetição – desde bebês – a seguirem regras tidas como imutáveis. Como se fosse o único caminho e modo de pensar e agir. Os dois livros são indispensáveis e altamente recomendados. Leiam, releiam, e teçam suas próprias considerações ao final.

O clássico de Huxley é sempre uma
boa pedida de leitura
Na impossibilidade de se recriar um mundo, semelhante ao descrito nas páginas dos livros de Huxley e Orwell, a força e a imposição de determinada ideia, ainda que feita à base de gratuita violência, transformaram-se em alternativa para imposição de uma falsa igualdade. Guardadas as devidas dimensões de comparação, o que protagonizou Adolf Hitler com o massacre de milhões de judeus e sua tresloucada tentativa de fazer emergir a tal supremacia ariana, pode-se traduzir como exemplo para o que se discute. Aliás, existem outros exemplos talhados com sangue inocente em que se tentou transformar uma ideologia em regra de convívio universal ou de um conglomerado de gente. Ditaduras (ou princípios de) se espalham, ainda hoje pelo globo, vide os casos de Venezuela e Coreia do Norte, por exemplo. Em todos estes e outros mais, o triunfar da intolerância. A propósito, os males todos que somos obrigados a assistir diariamente são fruto da falta de tolerância entre os homens.

Pena.

Se, por um lado, as diferenças entre os seres humanos são motivo para arquear os braços em comemoração, por outro, a intolerância e mania de uns poucos em não aceitar a diversidade, tentando impor suas vontades goela a baixo dos discordantes é, e sempre será, motivo de repulsa. Os seres humanos não foram concebidos para serem iguais uns aos outros. Não há de ser um livro ou dois, ou mesmo a ilusão de um ou outro mentecapto como fora Hitler e o é Chavez que transformará para pior este mundo. Viva as diferenças, abaixo a repressão, a intolerância e o achismo de uma minoria em fazer do ambiente em que vivem seu parque de diversões particular.

A única igualdade que conseguiram incutir, infelizmente, no imaginário popular até hoje é que todos podem ser jornalistas, assim, com um estalar de dedos.



18 de nov. de 2010

João-de-barro

O piso ladrilhado brilhava. A aparência da capela transparecia um sentimento de paz que conquistava cada coração que lá se fazia presente. Eram pouco mais de 14h quando o canto do joão-de-barro ecoou de novo. Eu o vi e suponho ter entendido seus desígnios aquela tarde. Após uma semana acompanhando o sofrimento de mamãe no hospital ele viera se despedir. Isso se não estava ali cantarolando em sinal de chamado. Quem sabe.

Além de exímio cantor, o pequeno pássaro é também um arquiteto e tanto. Trabalhador incansável. Prefiro imaginar que ele laborou ininterruptamente durante os seis dias que mamãe permaneceu hospitalizada na construção de sua morada no pós vida. Imagino, claro, o ideal de paz para ela. O melhor depois de tanta angústia. O melhor. Tal qual fizera o pequeno Matheus.

O desenho de garotinho de seis anos e filho de minha prima Emanuella é a síntese daquilo que sentíamos. E a mim ninguém convence que o desenho seja uma representação do último transporte usado por mamãe. Pois o bondinho externado no papel é isso. E não cabe a razão, muito menos a emoção, desconsiderar o que a criança disse. O significado daqueles traços.

2009 vai ficar eternamente registrado como o ano que mamãe viajou com este bondinho por céus e terra, até seu destino final. Teve como companhia a paz e serenidade dos coqueiros de uma praia. E claro do joão-de-barro que nunca deixou de cantar. Fez sua última viagem na melhor companhia, pois cumpriu com sua missão entre os vivos. Aposto que está em um lugar muito melhor e menos tumultuado. Feliz o joão-de-barro e feliz os que tem a sorte de andar no bondinho. Pois, dizem: seu condutor é o próprio Deus.


***

Encontrei este texto após rápida varredura em arquivos antigos no meu notebook. Infelizmente não tive a mesma sorte em relação ao desenho. Achei que seria válido publicar o texto, afinal, as saudades são eternas, 1 ano e 8 meses depois.


11 de nov. de 2010

Ah, o mar

[Tem momentos em que estar fora de forma é tão somente um detalhe insignificante. Foto: @bruna_pires]

Ah, o mar


Verão chegando. 


Saudade da água salobra, da areia e dos marquinhas de biquini


Aguarde imenso azul, um dia irei para ficar.



A caçadora

Lembro de ela ter entrado no escritório vestindo uma saia minúscula. Daquelas feitas sob medida para deixar um homem com a pulga atrás da orelha, em estado de alerta e com o instinto animal atiçado. Ela remexia o quadril como se sussurrasse: “estou te provocando, não percebe”. Aliás, era isso que ela queria. Provocar um ataque desmedido, e, se consumado àquela hora da tarde, em pleno horário de expediente e sob risco de ser presenciado por quem quer que se atravesse a passar diante da única janela da minúscula sala comercial em que trabalhava, no mínimo me custaria o emprego.

Ela exalava malícia e sabia exatamente o que queria. Sentada a minha frente, fez questão de deixar as pernas torneadas e pinceladas com a cor do pecado, a mostra. Falou quase miando, como uma gata selvagem.

- Oi, estou sem calcinha hoje.

Aquela não fora a primeira, muito menos a última vez, em que ela demonstrou suas intenções carnais para comigo. Ela era uma caçadora. Felina, habilidosa e, principalmente, decidida. E justamente por isso, eu sabia que ela iria continuar e continuar e continuar. Foi assim durante meses. Saias minúsculas, telefonemas, até faxes com propostas indecentes. Ela usou de todas as ferramentas possíveis e, talvez, imagináveis para o período, uma vez, naqueles dias não termos nenhum, nem outro, e-mail ou celulares para mensagens instantâneas.

Até chorar ela chorou. Publicamente, diga-se.

No entanto, e por algum motivo, por mais que ela insistisse menos vontade em ceder eu tinha. Havia se tornando fácil demais. Eu simplesmente não queria. Estava decidido e nada nem ninguém seria capaz de me fazer mudar de ideia. Nem mesmo ela sentar diante de mim com uma micro saia miando estar despida das peças íntimas. Nem isso. Podia ser taxado de louco, de frouxo, o que fosse. Não importava. Ao perceber meu desinteresse, aos poucos as visitas no meio da tarde findaram os telefonemas também e as propostas recheadas de indecência idem. Por um tempo, ela sumiu. Aliás, demorou para nos vermos de novo. Alguns anos para ser mais preciso.

E quase não a vi. Tinha pressa. Foi ela quem chamou pelo nome. Estava diferente. Sem as saias minúsculas e as propostas descaradas. Havia se tornando mãe. O pequeno, inquieto, brincava perto dela. Conversamos durante horas. A caçadora, felina e decidida havia se tornando mamãe. Fiquei feliz. Rimos juntos de tudo que havia se passado, principalmente, do aprendizado de cada um em relação àquela história. Naquele dia ela me confessou que fui o único homem a dizer não para ela. A única presa que lhe fugiu por entre os dedos. Descobri, durante aquela conversa, que havia lhe feito mal. Ferido seu coração. De tanto negar suas investidas, acabei semeando um sentimento aquém o desejo e a paixão pura e simples. Ela queria algo mais que me provocar com insinuações picantes. Eu, pelo contrário, após ouvir sua tardia declaração, queria jamais ferir o coração de alguém novamente.

Depois deste reencontro, voltamos a conversar algumas vezes, mas sempre de maneira esporádica. Ela se tornou mamãe de novo e atualmente ataca de micro empresária. Encontrou a paz e parece ter desviado aquele perfil de caçadora voraz para outros fins. Continua sabendo o que quer, e o mais interessante, continua a ser uma mulher decidida. Fiquei, uma vez mais, feliz. No entanto, em uma de nossas últimas conversas, a ex-caçadora revelou ter vergonha de muitas atitudes que tivera no passado. Tentei apaziguar. Argumentei que aquilo fazia parte de uma fase de sua vida que, indiretamente, a teria auxiliado no seu crescimento e desenvolvimento como ser humano, uma espécie de ponte para a mulher que ela se tornou.

Não sei se ajudei.

Compreendo que ela tenha vontade de rasgar algumas páginas dos tempos em que tinha 18 ou 19 anos, mas sempre fui adepto da tese de que devemos aprender com os erros que cometemos e nunca nos resignarmos ao arrependimento. No fundo, todo ser humano passa por fases de provação na vida e são nestes períodos de instabilidade que construímos as bases daquilo que seremos quando, de fato, nos tornarmos adultos e maduros.

Por fim, fato é que a vida nos ensina algumas lições que só nos damos conta depois de um tempo. Particularmente, nunca saberei o que aconteceria se caso, uma única vez eu tivesse dito sim. Mulheres com o perfil de caçadoras, podem ser perigosas, mas não necessariamente devem ser subestimadas.

Nota de rodapé:
Hoje, passados mais de dez anos do dia em que ela entrou no meu, então, local de trabalho vestida com uma saia minúscula e cheia de segundas intenções, resta-me somente, aproveitar o espaço e oportunidade para enviar-lhe um singelo e cordial abraço pelo aniversário completado no domingo, 31 de outubro.

Sendo assim, feliz aniversário, caçadora!  


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Texto originalmente publicado na edição de nº 211 do Jornal Classe A e editado para postagem no blog


9 de nov. de 2010

O dia que vi o Rush – Parte 3 [enfim, o sonho realizado]

Reparem que meu ingresso contém o meu nome e RG. Para guardar mesmo.

Ingresso na mão, fomos eu e Tiago rumo ao portão de entrada. Lembrei do malfadado guarda-chuva que carregava na mochila. Passei pela primeira revista. Pela segunda. Subimos uma rampa antes da derradeira revista, esta sim, feita por policiais. Achei conveniente contar a verdade e dizer, de cara, que tinha um guarda-chuva na mochila e que pela manhã chovia em Porto Alegre.

O policial apenas pediu para ver o guarda-chuva. Disse-me que tudo bem e que somente guarda-chuvas com ponta não eram permitidos. Por fim, me desejou um bom show. Entrei no Morumbi. Nada poderia me impedir de realizar o sonho de ver os três patetas ao vivo. Nada.

Quando pisei na pista, olhei para cada canto do estádio e gritei. Levantei os braços e comemorei como se tivesse conquistado o título de um esporte que não prático. As 18h estava dentro do Morumbi, sem ter gasto exorbitâncias para chegar e com um único pensamento: aproveitar ao máximo. Em 2002, não pude assistir a primeira vinda do trio ao país e oito anos depois, prever uma terceira vinda era loucura. Além do mais, por mais que um dia eles voltem, a oportunidade de ver e ouvir a banda tocar o álbum Moving Pictures (1981) na íntegra é uma só. Outra colher de chá para os fãs como esta, sabe-se lá quando. A máquina do tempo, nesse caso, só trabalha uma vez.

A capa do álbum Moving Pictures (1981), tocado na íntegra na turnê

A meta então, passou a ser encontrar um bom lugar para assistir ao show. Depois da invenção da área premium, esta tarefa ficou mais difícil, pois além de ter de chegar com enorme antecedência aos locais dos shows, é preciso ter sorte para não ser esmagado pela multidão que vem de trás, torcer para que nenhum troglodita com dois metros de altura estanque a sua frente na pista premium, impedindo, desta maneira, que você enxergue o espetáculo e, também, que nenhum segurança resolva fazer o mesmo e atrapalhar ainda mais a visão do palco.

Não demorou para que os sintomas de todo o desgaste daquele dia aflorassem. Passar três horas e meia até o início do show em pé não é uma tarefa simples para quem já passou dos 30 anos. É tanto que resolvi não mais assistir shows da pista, depois que o show terminou. Se não tiver grana para bancar o “phodão” na área vip, ou vou para as arquibancadas ou me contento com vídeos no youtube e lançamentos em DVD.

Tentando não pensar na mochila que carregava nas costas, nem no desconforto que sentia nos pés, vi o coração disparar quando as luzes se apagaram e o vídeo de abertura do show começou a rodar no telão. A qualidade do vídeo, diga-se de passagem, torna a condição de fã da banda ainda mais natural. Aliás, como é bom ser fã do Rush. Você paga para ver um show, de brinde assiste a dois vídeos impagáveis e extremo bom gosto, dois sets e cerca de 24 músicas irretocavelmente tocadas.

E mesmo, depois da internet ter facilitado a vida de todo mundo, proporcionando vídeos quase que instantâneos de qualquer show das turnês dos nossos artistas preferidos e de todos sabermos o repertório que será tocado muito antes do show, vale cada centavo estar presente in loco, fazendo parte daquilo tudo. Na primeira parte do show, por exemplo, Geedy Lee cantou como se estivesse com o mesmo poder de fogo do final da década de 1970.

Feliz da vida, com uma cerveja gelada e o ingresso do memorável show
Canções como “Presto”, “Marathon”, “Freewill” e principalmente “Subdivisions”, fizeram daquela primeira parte do show um verdadeiro arregaço. Que banda extraordinária. Como tocam, Lee, Lifeson e Peart. O fim da primeira parte, foi também o reinício do meu martírio pessoal. O cansaço aos poucos estava se tornando iminente. Esperar por mais 20 minutos até o reinício do show foi das tarefas mais angustiantes de todo dia e noite de 8 de outubro.

Na segunda parte do espetáculo, o Moving Pictures inteirinho. A começar por “Tom Sawyer”, a música que no Brasil ficou famosa devido a abertura do seriado Profissão Perigo. Antes porém, outro vídeo, tão bom quando o reproduzido na abertura do show. A execução do clássico álbum de 1981, não foi perfeita por dois pontos: a voz de Lee falhou em alguns momentos, principalmente em “Red Barcheta” e o vento empurrava o som para tudo quanto é lugar, fazendo com que, em alguns momentos, se tivesse a impressão da banda estar tocando apenas com os retornos do palco. A música mais prejudicada pela ventania foi “Vital Signs”, infelizmente, já que se trata de uma música interessante no repertório arrebatador de Moving Pictures.

Impossível deixar passar em branco, também, as duas novas canções que farão parte do próximo disco de estúdio da banda, Clockwork Angels, previsto para o ano que vem. “BU2B”, tocada na primeira parte do set e “Caravan” são dois petardos, com baixo na cara e riffs de guitarra como a muito não se ouvia em discos da banda. Sinal que vem coisa boa por aí.

Neil Peart e seu kit de bateria. 
Não bastasse apresentar um dos seus mais emblemáticos discos, o trio canadense ainda tem fôlego para desfilar alguns clássicos da década de 1970, como as primeiras duas partes da sensacional 2112” e a belíssima “Closer to the heart”. Neil Peart, o polvo responsável pelas baquetas, como sempre, é capaz de fazer cair o queixo de todos os presentes com um solo de bateria irreprensível. Pena que, a essa altura, meus dois joelhos também tenham começado a enviar sinais para meu cérebro, como se fosse meu pobre e mortal corpo dizendo: Você não tem preparo físico para agüentar tanto tempo em pé.

De fato, a parte final do show foi uma luta para me manter de pé. O torpor era inevitável. Assistia a demonstração de preciosismo do trio em cima do palco, como que satisfeito por toda a maratona que tive de passar para vê-los, mas ciente que não tenho mais pique para suportar tanto desgaste para tentar ver um show. Vale a pena, pelo clima, por fazer parte de toda aquela história, e porque por pelo menos dois dias, os pés, as costas e o pescoço vão te lembrar que você resolveu ultrapassar os teus próprios limites para assistir a um show de rock.

Bom, possivelmente seja o único a considerar a escolha de La Vila Strangiatto para abertura do bis com um equívoco. A música é linda, e por ser instrumental, dá uma trégua pro gogó do Geedy, mas para quem teve o dia do cão que eu tive, ela não foi a melhor opção para aquele fim de show, diferente de “Working Man”, que embora tenha sido tocada numa versão diferente, sem o destruidor riff de abertura, mostrou para quem quer que fosse que no palco, dificilmente, uma banda é melhor e mais certeira que o Rush. Uma pena que, a esta altura, eu já estivesse tão destruído.

Antes do apagar geral das luzes, um terceiro vídeo foi apresentado nos telões. Pelo que soube, trata-se de um extra do filme “Eu te amo, cara”, o qual ainda não consegui assistir. Para fãs do Rush é essencial, para quem não conhece, vale como incentivo para tentar entender o porque do Rush ser a banda que é, com fãs tão especiais e diferenciados.


O dia que vi o Rush – Parte 2 [a odisséia]

Entre embarque e a decolagem, passava de 15h15min, quando enfim, a aeronave começou a sobrevoar Porto Alegre rumo à São Paulo. A boa notícia, pensando da forma mais otimista possível, é que na pior das hipóteses, antes das 17h, estaria em São Paulo, logo, na cidade em que os canadenses se apresentariam naquela noite. Ou seja, a probabilidade de perder o show, foi reduzido a zero. Ver o Rush era questão de horas.

Neófitos na maior cidade do Brasil, começamos, eu e Tiago, uma peregrinação em busca do método mais rápido e barato de chegar ao Morumbi: metrô. Para se ter uma ideia, o serviço de táxi do Aeroporto de Guarulhos até o Estádio do Morumbi custa R$ 141 reais, ou seja, para duas pessoas, de bermuda, camiseta, boné e um show para assistir (cujo ingresso já havia custado R$ 150 reais) estava fora de cogitação.


Para chegar até a estação de metrô mais próxima, no entanto, precisamos embarcar em um ônibus rumo a Tatuapé. A viagem, de cerca de meia hora, nos fez pensar nas possibilidades. Contando com a sorte, poderíamos chegar ao estádio antes das 18h. Não podíamos errar, muito menos, bancar os manés na grande metrópole. Era chegar na Estação Tatuapé e em poucos minutos já estar dentro do metrô e assim por diante. Sem falhas.

No meu caso, havia um outro problema. Comprei o ingresso com a opção de retirada na bilheteria, ou seja, precisava chegar ao estádio e encontrar a bilheteria que estava realizando este serviço. Depois de tudo que já se passara aquele dia, optei pela precaução.

Alex Lifeson (guitarra), Neil Peart (bateria) e Geedy Lee (baixo e vocal)
- Só acredito que vou ver o Rush quando estiver dentro do Morumbi, disse.

Na Estação Tatuapé, um susto. Centenas de pessoas caminhando sem parar como se estivessem sempre atrasadas. A alternativa lógica foi pedir informação para um guarda.

- Quero chegar no Morumbi. Como é que eu faço?, perguntei.

Depois de pensar por alguns segundos, o guarda me traçou um roteiro, que segundo ele, nos deixaria na porta do estádio.

- Pegue o metrô até Anhangabaú, desça e vá em direção a Rua (não lembro o nome da dita). Ai é só pegar um ônibus via Morumbi.

A orientação pareceu fácil. O porém é que antes mesmo de comprar o bilhete do metrô, já havia esquecido o nome da rua dita pelo guarda. Pensei que o mais lógico seria chegar até lá e partir para um novo recomeço. Em Anhangabaú decidiríamos como continuar o trajeto até o Morumbi.

Por instinto, tão logo descemos na estação, achei conveniente seguir a multidão. Não demorou para o Tiago me perguntar:

- Tu sabe pra onde a gente ta indo.

- Não, mas já vamos descobrir, respondi.

Quando chegamos à saída, a sorte pareceu, enfim, sorrir para nós. Avistamos uma camiseta do Rush. O ser que a vestia conversava com um taxista. Corremos para não perde-lo de vista. O homem da camiseta do Rush, aparentemente desistiu do táxi e começou a descer por outro caminho. Contornamos a saída o mais rápido possível e gritamos:

- Ei, ei, do RUSH.

O homem e a camiseta do Rush parou. Virou para nós e ao ver que eu também vestia uma camiseta da banda, se mostrou convidativo. Após um diálogo rápido, resolvemos os três tentar o táxi novamente. Por R$ 30 reais, em média, seria  possível chegar ao estádio. Sem hesitar, entramos no táxi e rumamos para, aquela que imaginamos ser, última parte da maratona.

Vinha do Pará o homem da camiseta do Rush. Disse que iria tentar comprar ingresso na hora, pois havia tomado à decisão de ver a banda na véspera. Aproveitou que estaria em São Paulo a trabalho para ver o show. O trajeto Anhangabaú até o Morumbi, demorou outros longos 30 minutos e serviu para uma reafirmação: São Paulo é muito maior do que se imagina.


O Estádio do Morumbi para quem o visita pela primeira vez transparece ser um colosso. Localizado em uma baixada, as bilheterias ficam localizadas em ruas íngremes nas duas laterais. Para meu azar, o lado em que ficamos não era onde deveria retirar meu ingresso. Tive de fazer todo o contorno.

Não consegui esconder a ansiedade. Havia esperado anos para ver o Rush ao vivo e mesmo assim, depois de todo o parto que fora chegar até ali, precisava colocar as mãos no ingresso e principalmente, adentrar na pista do estádio para enfim, respirar aliviado e poder aproveitar cada segundo deste que considerava o show de toda vida.