13 de nov. de 2009

Blogueirando

Meus dias, melhor noites, tem sido exclusivos à conclusão de minha monografia. Por esta razão, o blog anda esquecido. Lamento. Gostaria de estar mais presente, ter tempo para atualiza-lo. Ideias não faltam, aglomeram-se, acumulam-se e se tornam uma grande nuvem.

No entanto, a boa notícia é que consegui, passados meses de sumiço, atualizar minha coluna para o portal LEMBahia.com aqui de Luís Eduardo Magalhães. Ah, se tivesse mais tempo. Abaixo, o link do texto, para saciar a sede daqueles que volta e meia, visitam o Impressões. Em breve, novidades:

3 de nov. de 2009

Suco de caju

Estava cansado. Passara horas em claro, divagando comigo mesmo dentro de um ônibus. Limitado ao meu próprio silêncio. Os demais passageiros daquela viagem precisavam descansar. Tinha uma missão àquela sexta-feira em Brasília. Outros dependiam do meu sucesso. Um fracasso seria imperdoável. Sem dormir, atravessei a manhã munido de uma generosa xícara de café com leite. Antecipei meu almoço em vista do tempo escasso, e assim mesmo, entorpecido de um estafe mental e corporal, parti para meus compromissos.

Um mundo se passava a minha volta. Acompanhava com comedido interesse a correria das pessoas a e o tráfego intenso dos veículos. Como a vida é interessante, pensei, em certa altura de minha jornada vespertina. Esbocei um sorriso antes de sentar e aguardar minha vez para encaminhamento do passaporte. Enfim, sossego, paz, e alguns minutos de tranqüilidade. Preferi me concentrar no outro compromisso: a entrevista. Remoer-me pelas incertezas da minha vida particular era um ultraje. Aguardei minha vez, e de lá, sai incrédulo com tamanha facilidade.

Na caderneta mental de compromissos para aquele 18 de abril, acabara de riscar um deles. Passaporte, ok. Passei os olhos no relógio e percebi que tinha tempo a favor. Optei por uma caminhada. A sensação de quentura era imensa. Comprei água. E continuei a caminhar, pensando na pauta, na entrevista e nos seus resultados. Encontrei meu destino antes do esperado, tive tempo para me refrescar á sombra de uma velha e imensa árvore. Do momento que resolvi bater a porta da minha entrevistada até a despedida, foram duas horas e meia. Tempo suficiente para inúmeras lições.

A mulher que me recebeu na sua sala de estar tinha 90 anos. Um largo sorriso foi seu cartão de visitas. A voz grave e implacável contrastava com a baixa estatura. Fragilidade? Nem pensar. Aracy foi voluntária da Força Expedicionária Brasileira durante a 2ª Guerra Mundial. Passou oito meses na Itália, enfrentou o mundo por uma causa. Um ideal, fomentado no berço da família e enquanto cursou Ciências Econômicas na década de 1930. A mulher de cabeços grisalhos a minha frente, descendia do patrono da infantaria brasileira durante a Guerra do Paraguai, Antônio de Sampaio.

Um exemplo. Enquanto ouvia seu relato percebi que havia brilho naqueles olhos. Orgulhoso por ter feito parte de uma história fascinante da humanidade, ter contribuído para o bem estar de muitos. A vontade de enfrentar o mundo sem se abster de ter lutado pelo que acreditava e principalmente pelo país que amava. Senti-me brasileiro. E enquanto sentia os pelos de meu braço ouriçarem-se tive um sobressalto de consciência. Um lapso de vergonha de um país mal governado e miserável politicamente. Que não tem educação e não preserva sua história, sua cultura, sua essência.

Acompanhei aquela senhora numa viagem no tempo. Entre fotografias e prêmios. Lembranças. Não mais que isso. Pensei se possuía lembranças dignas de contar para meus netos. Pensei no que sou e no que tenho feito. “Eu faria tudo de novo”, disse ela, enquanto me servia um copo de suco de caju e um pedaço de torta de nozes. E eu, será que faria tudo de novo? Voltei a correria do mundo moderno. Das grandes cidades. Não se tem mais tempo pra nada, e no fundo, nada se faz. Será que existe felicidade hoje em dia? Ah, como eu queria outro copo de suco de caju.

Audiência envelhecida

No domingo, 1° de novembro, assisti o show do vocalista Tim Ripper Owens em Brasília. O cantor ganhou fama após substituir o lendário Rob Halford no Judas Priest, entre 1997 e 2002, período em que gravou dois álbuns de estúdio com o grupo e outros dois “ao vivo”, um deles com versão em DVD e altamente recomendado (Live in London).

No show realizado na capital federal, Ripper apresentou um repertório recheado de clássicos do conjunto britânico e outras releituras de canções de bandas como Iron Maiden, Deep Purple, Yngwie Malmsteen e Black Sabbath. Acompanhado pelos músicos da banda paulistana Tempestt, Ripper fez um show correto, provando ser um dos grandes vocalistas do estilo em atividade.

No entanto, foi a platéia que mais chamou atenção. Apesar do público reduzido, não mais que 250 pessoas, e do fato do transporte público em Brasília ser caótico, a constatação é inevitável: o público metal está ficando velho.

Nos anos 70, o rock pesado era novidade, os músicos jovens rebeldes e drogados, logo, sua audiência também. Nos, 80, embora mais amadurecidos, o estilo criado na década passada ganhou forma e ramificações. O estilo cresceu, e logo absorveu ainda mais público. Na década de 90, mesmo com o grunge de Kurt Cobain quase aniquilando o estilo, a situação pouco mudou.

Agora, em pleno século XXI, não se vende mais discos, a digitalização oferece quase em tempo real, os shows e as músicas dos artistas do gênero (e de todos outros, claro). A novidade inexiste. Os fãs envelheceram. Os músicos das grandes bandas são cinquentões. A molecada sumiu dos shows de metal, a pergunta que me assombrou na adolescência parece que aos poucos vai ganhando uma resposta e, sim, o heavy metal pode sim acabar.

6 de out. de 2009

Reverso Revolver: o som que vem do sul


Madrugada em Porto Alegre. A capital gaúcha vive mais uma noite de temperatura abaixo dos 10º. O frio, no entanto, não impede que a banda Reverso Revólver, formada pelos músicos Saymond Roos (voz e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), Marcelo Mendes (bateria) e João Augusto, o Jojó (baixo) realize mais um ensaio preparativo para a maratona de compromissos das semanas seguintes. Já no apartamento de um dos integrantes, o grupo acerta as últimas questões antes do show de lançamento do primeiro vídeo clipe (realizado no último dia 28 de setembro na capital gaúcha), e a breve turnê longe de casa, com shows em Brasília, 08, e Luís Eduardo Magalhães, 09 de outubro.

Ainda em promoção ao EP “Setembro”, os quatro músicos comemoram a gravação do primeiro registro audiovisual do conjunto, curiosamente para a música que dá nome ao mini disco. “Tudo começou numa conversa descontraída com alguns amigos em um bar aqui de Porto Alegre. Entre uma cerveja e outra surgiu à idéia de gravar um clipe”, conta Felipe Zancanaro, guitarrista do grupo. Pela descrição do músico, a sorte parecia mesmo estar ao lado dos rapazes. Entre os amigos presentes na conversa de boteco, Zancanaro conta que alguns deles eram membros da Baixada Nacional Filmes, uma produtora de vídeo da capital, Porto Alegre.

O passo seguinte, diz Felipe, foi trabalhar na escolha, produção e roteiro do vídeo clipe de “Setembro”. “Depois de algumas reuniões quase intermináveis falando sobre lutas de espada, jogatina e explosões para ilustrar o clipe, achamos coerente trocar isso tudo por um registro da banda tocando mesmo, em um espaço que fosse bem amplo” pontua o guitarrista. O clipe, conforme relata Zancanaro, foi gravado num sábado gelado em Porto Alegre e contou com a participação de 20 pessoas que trabalharam por quase 12 horas, tudo para no final subtrair os cerca de três minutos e meio do vídeo completo.

Ecléticos por natureza - Quando perguntando sobre a ideia da banda para divulgação e promoção do vídeo, depois de finalizado, Felipe é taxativo. “O objetivo agora é mostrar um pouco mais da cara e das características musicais da banda para um público mais abrangente”, encerra. A musicalidade do quarteto é outro assunto que merece destaque. Embora mergulhados no universo do rock n´roll, os quatro não escondem o gosto pela música eletrônica e principalmente pela música brasileira. “Transitamos naturalmente por bandas que mexem com nossa criatividade”, diz o vocalista e também guitarrista, Saymond Roos. Essas influências passeiam de Radiohead, Blur e The Strokes à Cartola, Chico Buarque e Frank Sinatra.

Com um leque de influências tão abrangente, nada melhor que perguntar como eles próprios descreveriam a musicalidade da banda. O vocalista não precisa mais que 30 segundos para dar a resposta certeira. “O som da banda é algo entre o lirico-brasileiro e o bronco som distorcido, com algumas pitadas de experimentalismos aqui e ali”, pondera o músico.

Próximos passos - Embora em processo de divulgação do vídeo clipe, os quatro músicos já sabem o que querem fazer para o futuro próximo. Saymond conta que a banda pretende gravar um novo EP ainda em 2009. Segundo ele, o grupo não acha pertinente lançar um disco completo, visto que a maioria dos fãs do conjunto conheceu a banda pela internet. “Temos algumas músicas prontas para o próximo EP. Algumas delas já estão no nosso repertório e o pessoal de Brasília e Luís Eduardo vão poder conferir em primeira mão nos shows que fizermos por aí em outubro, como “Val”, “E disse que sabia demais”, “Veneza” e “Strato”, observa.

Antes que os primeiros raios de sol abençoem a capital gaúcha e o chimarrão esfrie na cuia, sinto-me na obrigação de fazer uma última pergunta. O nome da banda é passível de várias interpretações, qual seria o significado real do nome “reverso revólver”? A resposta, simples e direta, parece resumir o que o espírito do conjunto: um palíndromo sonoro. Pois bem, para uma banda única que aos poucos vem galgando seu lugar no cenário indie rock brasileiro, realmente, o sentido é o mesmo se lido da esquerda para direita ou da direita para esquerda. O que importa mesmo é que a Reverso Revólver vem aí, e pra ficar.


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A banda Reverso Revólver se apresenta na Avenida Lounge em Luís Eduardo Magalhães na próxima sexta-feira, 09 de outubro, a partir das 23h.


Assista o video clipe de “Setembro”

21 de ago. de 2009

Raul vive


Sou total sabedor que Raul merece uma homenagem mais sisuda. Arrojada até. Faço parte dos muitos ao redor deste país que viveu em sua adolescência a explosão do rock n´roll. Talvez por isso falar de Raul seja complicado. Ainda mais hoje, dia 21 de agosto, exatos 20 anos de sua partida.

Por essas e outras não há como negar: Raul é o pai do rock brasuca.

Fiz coro em shows e festas mequetrefes mundão afora: Toca Raul!. Um dos jargões mais clichês, bregas e ao mesmo tempo, incomparáveis da cultura brasileira. Raul Seixas é cultura. O baiano de salvador ainda vive.

Não esquecerei jamais os tempos que toquei seus clássicos. Pois todo roqueiro que se preze neste país, já tocou Raul algum dia. Viva o pai do rock deste país. Pela eternidade, Raul Vive.



“Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que já não é mais primavera, oh baby, oh baby...a gente ainda nem começou...”
Raul Seixas – Cachorro Urubu

17 de ago. de 2009

Pedrinhas no lago


As crônicas de Veríssimo não são exclusividade dos gaúchos. Baianos, paulistas e internautas podem ler os textos do filho do Érico, o Luís Fernando. Uma ode a erva mate por isso. Limitar um único povo as leituras dos textos daquele que criou o Analista de Bagé seria como retroceder anos luz no tempo e na história. Luís Fernando é colorado e odeia dar entrevistas. Fato. Nada de novo. Mais do mesmo. Todos devem saber dessas miudezas do escritor, afinal, novidade não é.

Veríssimo é, por fim, produto da globalização. Essa que nos confere a falsa impressão de estarmos em todo lugar a hora que quisermos. Em sua coluna do Jornal A TARDE de domingo, 19 de julho, o escritor de bombacha e alpargata relembra 1964. O ano que teve início a ditadura militar no Brasil. Esmiúça aqueles dias com o talento que lhe é peculiar. Faz um contraponto entre os brasis de hoje e de 45 anos atrás. As mudanças, as diferenças. O fato de não se andar mais de bondinho e do mundo possuir, hoje, outras divisões. Velhos tempos.

O título não esconde o apego nostálgico: Aqueles dias. A propósito, lembrar de dias que já se foram é das maiores dádivas que pode existir na vida, muito embora, 1964 seja sinônimo de más lembranças. Pena, que a cada dia menos tempo se tem para isso. Lembrar. É um viver descontrolado. Descompassado. Um atropelar de horas e horas em busca de algo que muitas vezes não se sabe o que é. Amanhã, talvez não haja o que relembrar sobre hoje. Triste, realmente triste.

Se um dia fores testemunha de um relato, seja ele qual for, e seu interlocutor tiver a íris brilhando como jóia rara, simplesmente ouça. Ali existe uma história que implora para não morrer sem que encontre ouvintes. Não importa, se histórias como as de 1964 e que remontem as duas décadas de ditadura. Não. Veríssimo sim é um contador de histórias. Usa e abusa de seu talento como escritor para contar histórias e encantar quem as lê. Como ele, milhares de pessoas aguardam ansiosas por uma oportunidade para serem ouvidas. Não precisam ter talento para rabiscar suas linhas em jornalões do Rio Grande, de São Paulo, da Bahia, ou até para perpetuarem-se pela internet. Querem atenção.

Eis ai a maior diferença deste e daqueles dias: a cumplicidade. O sentar em um banco de praça, jogar conversa pro ar e rir. A dois, a três, em um grupo de amigos. Os dias de hoje são feitos de uma artificialidade maior que namoro a distância. É mais cômodo gastar horas e horas diante de um computador que fazer uma visita inesperada a um amigo, por exemplo. Com isso esvaem-se os pequenos prazeres. Andar de bicicleta, jogar pedrinhas em um lago, brincar de esconde-esconde, jogar futebol de botão, pular amarelinha, colecionar figurinhas da copa do mundo de 1986, ler um livro de Veríssimo sob a sombra de uma macieira e tantos e tantos outros.

Conversar se torna complicado. Tarefa quase agendada. Nada que se justifique. O escritor gaúcho é uma exceção. Prefere escrever. Sente-se mais espontâneo e em condições de transmitir aquilo que realmente deseja quando escreve. Para os demais o verbo conversar é e deveria continuar sendo conjugado. Repensado até. Eu converso, Tu conversas, ele conversa. Nós conversamos. Logo, todos conversam. Há comunhão. Extinguem-se as chances de trapaças, rasteiras e puxões de tapete. O triunfo do diálogo. Nada de falácias às escuras. Mentiras. Se o homem pisou ou não na lua é problema dos protagonistas desta história. Caras como Veríssimo escrevem com o coração. Conversas assim, com o coração talvez façam falta nos dias de hoje. Camaradagem, confiança e integridade. Uma trinca capaz de merecer um convite para jogar pedrinhas no lago.
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Este é o centésimo posto do blog. Mil vivas a isso. Um ano depois de sua criação.