6 de out. de 2009

Reverso Revolver: o som que vem do sul


Madrugada em Porto Alegre. A capital gaúcha vive mais uma noite de temperatura abaixo dos 10º. O frio, no entanto, não impede que a banda Reverso Revólver, formada pelos músicos Saymond Roos (voz e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), Marcelo Mendes (bateria) e João Augusto, o Jojó (baixo) realize mais um ensaio preparativo para a maratona de compromissos das semanas seguintes. Já no apartamento de um dos integrantes, o grupo acerta as últimas questões antes do show de lançamento do primeiro vídeo clipe (realizado no último dia 28 de setembro na capital gaúcha), e a breve turnê longe de casa, com shows em Brasília, 08, e Luís Eduardo Magalhães, 09 de outubro.

Ainda em promoção ao EP “Setembro”, os quatro músicos comemoram a gravação do primeiro registro audiovisual do conjunto, curiosamente para a música que dá nome ao mini disco. “Tudo começou numa conversa descontraída com alguns amigos em um bar aqui de Porto Alegre. Entre uma cerveja e outra surgiu à idéia de gravar um clipe”, conta Felipe Zancanaro, guitarrista do grupo. Pela descrição do músico, a sorte parecia mesmo estar ao lado dos rapazes. Entre os amigos presentes na conversa de boteco, Zancanaro conta que alguns deles eram membros da Baixada Nacional Filmes, uma produtora de vídeo da capital, Porto Alegre.

O passo seguinte, diz Felipe, foi trabalhar na escolha, produção e roteiro do vídeo clipe de “Setembro”. “Depois de algumas reuniões quase intermináveis falando sobre lutas de espada, jogatina e explosões para ilustrar o clipe, achamos coerente trocar isso tudo por um registro da banda tocando mesmo, em um espaço que fosse bem amplo” pontua o guitarrista. O clipe, conforme relata Zancanaro, foi gravado num sábado gelado em Porto Alegre e contou com a participação de 20 pessoas que trabalharam por quase 12 horas, tudo para no final subtrair os cerca de três minutos e meio do vídeo completo.

Ecléticos por natureza - Quando perguntando sobre a ideia da banda para divulgação e promoção do vídeo, depois de finalizado, Felipe é taxativo. “O objetivo agora é mostrar um pouco mais da cara e das características musicais da banda para um público mais abrangente”, encerra. A musicalidade do quarteto é outro assunto que merece destaque. Embora mergulhados no universo do rock n´roll, os quatro não escondem o gosto pela música eletrônica e principalmente pela música brasileira. “Transitamos naturalmente por bandas que mexem com nossa criatividade”, diz o vocalista e também guitarrista, Saymond Roos. Essas influências passeiam de Radiohead, Blur e The Strokes à Cartola, Chico Buarque e Frank Sinatra.

Com um leque de influências tão abrangente, nada melhor que perguntar como eles próprios descreveriam a musicalidade da banda. O vocalista não precisa mais que 30 segundos para dar a resposta certeira. “O som da banda é algo entre o lirico-brasileiro e o bronco som distorcido, com algumas pitadas de experimentalismos aqui e ali”, pondera o músico.

Próximos passos - Embora em processo de divulgação do vídeo clipe, os quatro músicos já sabem o que querem fazer para o futuro próximo. Saymond conta que a banda pretende gravar um novo EP ainda em 2009. Segundo ele, o grupo não acha pertinente lançar um disco completo, visto que a maioria dos fãs do conjunto conheceu a banda pela internet. “Temos algumas músicas prontas para o próximo EP. Algumas delas já estão no nosso repertório e o pessoal de Brasília e Luís Eduardo vão poder conferir em primeira mão nos shows que fizermos por aí em outubro, como “Val”, “E disse que sabia demais”, “Veneza” e “Strato”, observa.

Antes que os primeiros raios de sol abençoem a capital gaúcha e o chimarrão esfrie na cuia, sinto-me na obrigação de fazer uma última pergunta. O nome da banda é passível de várias interpretações, qual seria o significado real do nome “reverso revólver”? A resposta, simples e direta, parece resumir o que o espírito do conjunto: um palíndromo sonoro. Pois bem, para uma banda única que aos poucos vem galgando seu lugar no cenário indie rock brasileiro, realmente, o sentido é o mesmo se lido da esquerda para direita ou da direita para esquerda. O que importa mesmo é que a Reverso Revólver vem aí, e pra ficar.


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A banda Reverso Revólver se apresenta na Avenida Lounge em Luís Eduardo Magalhães na próxima sexta-feira, 09 de outubro, a partir das 23h.


Assista o video clipe de “Setembro”

21 de ago. de 2009

Raul vive


Sou total sabedor que Raul merece uma homenagem mais sisuda. Arrojada até. Faço parte dos muitos ao redor deste país que viveu em sua adolescência a explosão do rock n´roll. Talvez por isso falar de Raul seja complicado. Ainda mais hoje, dia 21 de agosto, exatos 20 anos de sua partida.

Por essas e outras não há como negar: Raul é o pai do rock brasuca.

Fiz coro em shows e festas mequetrefes mundão afora: Toca Raul!. Um dos jargões mais clichês, bregas e ao mesmo tempo, incomparáveis da cultura brasileira. Raul Seixas é cultura. O baiano de salvador ainda vive.

Não esquecerei jamais os tempos que toquei seus clássicos. Pois todo roqueiro que se preze neste país, já tocou Raul algum dia. Viva o pai do rock deste país. Pela eternidade, Raul Vive.



“Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que já não é mais primavera, oh baby, oh baby...a gente ainda nem começou...”
Raul Seixas – Cachorro Urubu

17 de ago. de 2009

Pedrinhas no lago


As crônicas de Veríssimo não são exclusividade dos gaúchos. Baianos, paulistas e internautas podem ler os textos do filho do Érico, o Luís Fernando. Uma ode a erva mate por isso. Limitar um único povo as leituras dos textos daquele que criou o Analista de Bagé seria como retroceder anos luz no tempo e na história. Luís Fernando é colorado e odeia dar entrevistas. Fato. Nada de novo. Mais do mesmo. Todos devem saber dessas miudezas do escritor, afinal, novidade não é.

Veríssimo é, por fim, produto da globalização. Essa que nos confere a falsa impressão de estarmos em todo lugar a hora que quisermos. Em sua coluna do Jornal A TARDE de domingo, 19 de julho, o escritor de bombacha e alpargata relembra 1964. O ano que teve início a ditadura militar no Brasil. Esmiúça aqueles dias com o talento que lhe é peculiar. Faz um contraponto entre os brasis de hoje e de 45 anos atrás. As mudanças, as diferenças. O fato de não se andar mais de bondinho e do mundo possuir, hoje, outras divisões. Velhos tempos.

O título não esconde o apego nostálgico: Aqueles dias. A propósito, lembrar de dias que já se foram é das maiores dádivas que pode existir na vida, muito embora, 1964 seja sinônimo de más lembranças. Pena, que a cada dia menos tempo se tem para isso. Lembrar. É um viver descontrolado. Descompassado. Um atropelar de horas e horas em busca de algo que muitas vezes não se sabe o que é. Amanhã, talvez não haja o que relembrar sobre hoje. Triste, realmente triste.

Se um dia fores testemunha de um relato, seja ele qual for, e seu interlocutor tiver a íris brilhando como jóia rara, simplesmente ouça. Ali existe uma história que implora para não morrer sem que encontre ouvintes. Não importa, se histórias como as de 1964 e que remontem as duas décadas de ditadura. Não. Veríssimo sim é um contador de histórias. Usa e abusa de seu talento como escritor para contar histórias e encantar quem as lê. Como ele, milhares de pessoas aguardam ansiosas por uma oportunidade para serem ouvidas. Não precisam ter talento para rabiscar suas linhas em jornalões do Rio Grande, de São Paulo, da Bahia, ou até para perpetuarem-se pela internet. Querem atenção.

Eis ai a maior diferença deste e daqueles dias: a cumplicidade. O sentar em um banco de praça, jogar conversa pro ar e rir. A dois, a três, em um grupo de amigos. Os dias de hoje são feitos de uma artificialidade maior que namoro a distância. É mais cômodo gastar horas e horas diante de um computador que fazer uma visita inesperada a um amigo, por exemplo. Com isso esvaem-se os pequenos prazeres. Andar de bicicleta, jogar pedrinhas em um lago, brincar de esconde-esconde, jogar futebol de botão, pular amarelinha, colecionar figurinhas da copa do mundo de 1986, ler um livro de Veríssimo sob a sombra de uma macieira e tantos e tantos outros.

Conversar se torna complicado. Tarefa quase agendada. Nada que se justifique. O escritor gaúcho é uma exceção. Prefere escrever. Sente-se mais espontâneo e em condições de transmitir aquilo que realmente deseja quando escreve. Para os demais o verbo conversar é e deveria continuar sendo conjugado. Repensado até. Eu converso, Tu conversas, ele conversa. Nós conversamos. Logo, todos conversam. Há comunhão. Extinguem-se as chances de trapaças, rasteiras e puxões de tapete. O triunfo do diálogo. Nada de falácias às escuras. Mentiras. Se o homem pisou ou não na lua é problema dos protagonistas desta história. Caras como Veríssimo escrevem com o coração. Conversas assim, com o coração talvez façam falta nos dias de hoje. Camaradagem, confiança e integridade. Uma trinca capaz de merecer um convite para jogar pedrinhas no lago.
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Este é o centésimo posto do blog. Mil vivas a isso. Um ano depois de sua criação.

8 de ago. de 2009

Ainda famintos

[ Reprodução da capa do clássico Stay Hungry (1984) do Twister Sister ]

Esse post é uma homenagem aos velhos tempos. Escola, casa do Jader, música alta, filmes de terror e putaria e claro, brigadeiro em lata. Coisa de 15 anos atrás. De tempos que tínhamos cabelos compridos e achávamos isso o máximo. Tempos de moleques sem obrigações.

Fazia anos que não colocava o Stay Hungry do Twisted Sister para tocar no meu cd player. Foi como uma volta no tempo e espaço. De imediato recordei a tarde gasta para tirar o solo de “We´re not gonna take it”. Por mais que disséssemos: Conseguimos, vamos tocar. Nunca fizemos direito. E parece que só hoje somos sinceros o suficiente para admitir.

Semana passada o Jader, hoje advogado e ainda grande amigo disse: “Até hoje não sei tocar o solo desta música”. Rimos. Um em cada extremo do Brasil, em frente à tela de um computador. No entanto, Stay Hungry continua intacto e fazendo estragos. Ouvi-o de cabo a rabo, imaginando-me na pele de Dee Snider. Pena não poder faze-lo em conjunto com toda aquela turma.

Somos trintões. Ainda famintos* e cientes que sempre que os acordes de “I Wanna Rock” tocar, as lembranças viajaram até 1995, 96 ou 97. Alguns dos melhores anos de nossas vidas.
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*Referência ao título do relançamento do álbum (Still Hungry)

24 de jul. de 2009

Um freio a banalização

Foto: Manu Dias / AGECOM
[Jaques Wagner discursa durante Conferência Estadual de Segurança Pública, realizada entre os dias 09 e 10 de julho em Salvador]


Quando o diálogo por si não surte o efeito desejado é preciso mudar o modus operandi. Deixar de lado conversas e promessas e partir para uma ação mais consistente centrada em medidas severas e de efeito imediato. Planejamento e programação nem sempre são a melhor e única saída, fato que ganha pujança quando o assunto são políticas públicas.

Político que é político deve saber que a grande parte da população é imediatista em relação a assuntos cruciais como violência e segurança pública. Esta máxima não se restringe a federação ou estado. Faz parte também do dia a dia do município de Luis Eduardo Magalhães e de seus mandatários. Por isso, a urgência de uma atitude por parte dos governantes desta terra se torna tão iminente.

Raras vezes se viu tanta descrença em relação ao estado como nos dias de hoje. A rajada de acontecimentos negativos das últimas semanas no município parece ter tirado qualquer pingo de esperança ou empatia da população luiseduardense em relação ao governador Jaques Wagner. A propósito, esta antipatia tende a se reverter para o executivo e legislativo municipal caso as mudanças não aconteçam e uma atitude extremista seja tomada.

Os temas são pares e difusos. Violência e segurança pública. Necessidades básicas e constantemente repetidas pela imprensa e opinião pública. Assuntos por vezes banalizados pela ignorância, pelo medo, e consequentemente pela falta de uma informação uniforme e que supra a leva de apelos de uma comunidade como a de Luis Eduardo Magalhães. A raiz deste problema é muito mais profunda do que se imagina.

19 de jul. de 2009

Mágico de Oz


A inocência não mais existe. A pequenina estrada de tijolos de ouro de Mágico de Oz deve ter sido responsável por conduzi-la para longe de nosso convívio. Os poucos que permanecem imbuídos de pureza em seus corações, nos dias de hoje, são esmagados. Transportados para uma terra onde não há piedade ou misericórdia, e lá, amassados pelo punho de aço de um pugilista peso pesado. Há sarcasmo e mentira em todo canto e todo lugar. A constatação chega a parecer óbvia e inevitável: o latido de Totó já não mais ecoa como sinal de esperança. E pior, para nenhum de nós.

Meu avô costumava dizer, igual dez em cada doze brasileiros:
- O mundo é dos espertos meu filho.
E além do mais, os que não são, estão sempre à margem do rio a choromingar o fato de não saberem nadar, ou na pior das hipóteses, fingirem-se de lobos, mesmo que não saibam fazer outra coisa senão serem e parecerem ovelhas desgarradas de seu pastor. A estes parece não haver solução. Talvez três tapinhas cordiais nas costas, mesmo depois de um abraço desencontrado e no qual o melhor é não dizer uma palavra sequer.
Alias, devia ser proibido uma pessoa nascer no Brasil sem que tivesse no seu DNA a fórmula mágica da malandragem. Afinal, o que este iluminado ser fará para sobreviver? Dia desses engasguei com um gole de café. Descobri que pelos quatro cantos penta campeão se compra diploma. Para tudo.
Sempre senti ojeriza em saber o número de concluintes no ensino superior maquiando trabalhos e principalmente projetos monográficos, teses, dissertações, etecetera. Eu, tão inocente, achava que estudar e estudar fosse o caminho correto a seguir. Pena não ter como comprar diploma para jogador de futebol, artilheiro e fazedor de fortuna no melhor futebol do mundo.
O talento em si é pouco consistente se o camarada não for um cara-de-pau nato. Um mínimo de talento acrescido de lábia é a representação fidedigna de sucesso, ou quase isso. Basicamente, o que faltar será consequencia.
O sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer, cantarolava Renato Russo nos idos anos oitenta em Brasília. Em casa de enforcado não se fala em corda, brada o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pouco antes da homenagem a debutante do ano, o Plano Real, ironicamente, também em Brasília, dias atrás. Parafraseando o velho alpendre filosófico de Nietzsche, “toda vez que nos aproximamos por demais do monstro que queremos combater, corremos o risco de nos tornarmos iguais a ele”.
A pérola de FHC tem ligação com a crise do senado federal. Pobrezinhos deles. O retumbante povo brasileiro assiste e nada mais. Assiste aquilo que lhes é oferecido sem contestar mesmo já não sendo necessário um diploma – de novo ele – para ser jornalista. E na mesma proporção que assiste, opina, toma partido e assim por diante. No entanto, nada muda. A inocência foi se embora sem deixar e-mail ou número celular. Sem rastro ou indício algum de onde tenha ido. Inocente o povo brasileiro não é. Mesmo que viva a reclamar de seus governantes e a manter firme o discurso do “daqui a quatro anos”.
Infelizmente a esperteza tão vivaz na alma do povo verde amarelo é homogênea a ponto de fazer vitimas até mesmo entre os que se dizem tão espertos. Em primeiro lugar, claro: a defesa a todo custo de tudo quando for aprazível para o próprio ego. Depois, atacar e atacar o “inimigo” na esfuziante luta para sobressair-se doa a quem doer. O ditado é velho, mas sincero. Todo povo tem o governo que merece. Ainda mais engraçado é ter a certeza que o mesmo ditado ao avesso faz tanto sentido quanto. Ora, pois: todo governo tem o povo que merece. Parece matemática.
Não faço ideia de quanto tijolos dourados haviam no caminho de Dorothy, Totó e companhia. Importa que a inocência, caso tenha seguido pela mesma estrada, como sugerido no primeiro parágrafo, em algum ponto do percurso acabou se perdendo, ou encontrado um lugar melhor para fazer morada. Pois, a inocência não se importa se existem pessoas, brasileiros ou luiseduardenses que ainda acreditem nela. Para esses a esperança é tão somente a repetição infernal do surrado discurso. “Daqui a quatro anos...”. Pois é, eu disse exatamente isso quatro anos atrás e agora terei um diploma que nem mesmo o Mágico de Oz em pessoa poderá salvar. Nessas horas, talvez e bem talvez, só o talento poderá surgir como suprimento para a salvação.