15 de jun. de 2009

As barbas do profeta

Fazer a barba é uma das tarefas mais chatas que existe. Se obrigado fosse, a tirar a minha todo santo dia, bateria o pé. A se bateria. Irrita a pele, deixa o rosto coberto com manchas vermelhas, exige paciência de Jó, gasta água e tempo, aparelho de barbear e como se não bastasse, deixa a pele lisinha tal qual bundinha de nenê. Em suma, uma tremenda de uma chatice. Porém, manter uma barba enorme, também tem das suas desvantagens. É preciso lavá-la quase que diariamente; quando coça, coça mesmo; assusta criancinhas, a maioria esmagadora das mulheres e por fim, todos te olham atravessado como se tu fosses um ser abominável e terrivelmente mal.

Malvados ou não, recentemente em Brasília, a Associação dos carregadores de bagagem da rodoviária, determinou que seus funcionários homens, deveriam trabalhar de cara limpa, sem barba ou bigode. Em suma, para ser funcionário da empresa era preciso ter e manter a cara peladinha, peladinha. Uma medida no mínimo curiosa, para não dizer intransigente e autoritário. Ora, como ficam aqueles homens que mantém o bigode há décadas? Assim, como que de repente, terão de raspá-lo e passar a viver seus dias sem o parceiro de anos? Pior, sem sua marca, sua identificação.

Existem os que defendem a teoria de barba e bigode serem marca registrada de determinada pessoa. Particularmente, a única vez que resolvi deixar o bigode, quase fui linchado. Desaprovação total. O bendito durou uma semana e a muito custo. Em contrapartida, em relação à barba a aceitação é maior. É possível associar a pessoa à barba, e vice-versa. Semelhante ao que acontece com o presidente Lula. Fato: barba e Lula, Lula e barba são como samba e carnaval. Marca. Identidade. Registro.

Além do presidente Lula, muitos são os barbudos com marca e patente em cartório: Jô Soares, Machado de Assis, Charles Darwin, Papai Noel. Isso, sem contar os profetas e também os magos. Detentores de barbas tamanho família. Todos eles. Barbas que batiam no umbigo e mesmo assim, não eram motivo de reclamação, de parte nenhuma. Eram respeitadas. Talvez, muito mais as barbas que os caras por trás delas. Os caras eram simplesmente os caras, faziam e desfaziam, independente do que os outros pensassem sobre suas barbas. Uma vez mais, eram respeitados pela marca, pela identidade.

Em Luis Eduardo, o agronegócio é, digamos que a marca registrada do município. Assim se fez desde os primeiros indícios e tramites para fazer desta uma cidade. Nos tempos que o Posto Mimoso era referência para a região. Quando o espírito desbravador ainda mexia com o imaginário de dezenas e centenas de produtores que viam neste, um cenário potencial para construir sua história. Vinte, talvez trinta anos atrás.

Em pouco mais de nove anos de emancipação, o município foi protagonista de um crescimento desordenado. Desenvolveu suas potencialidades, investiu em propaganda para transformar esta terra em sinônimo de progresso. Aproveitou da marca, do conceito de capital do agronegócio para chamar investidores, e por consequencia atrair mais e mais pessoas. Hoje sofre com o inchaço.

O município não tem barba, muito menos um castelo, um mago ou profeta para prever o que irá acontecer nos próximos meses ou anos. Luis Eduardo tem, sim, história e potencial para enriquecer ainda mais as páginas do livro de sua criação, progresso e desenvolvimento. Para isso, convenhamos, não será preciso um profeta com uma barba enorme batendo no umbigo. Isto não condiz com a marca e com a identidade do município de Luis Eduardo Magalhães. Não condiz.

Calda de chocolate





Troquei o “u” pelo “l”. Fazem duas semanas. Mais precisamente no artigo “Dias, e dias” (publicado na edição nº 134 do Jornal Classe A). Está lá. Um erro aparentemente banal, movido, muito mais por uma desatenção de momento. Calda ao invés de cauda. Piano de calda, escrevi. Errei. O correto seria “piano de cauda”. Caldas são aquelas que mamãe fazia para a cobertura dos seus, sempre deliciosos bolos de chocolate. E pianos, cá entre nós, não têm cacoete para caldas de chocolate.


Resolvi iniciar o texto desta semana falando deste episódio, justamente por respeito aos leitores desta coluna. Nada mais óbvio, afinal detenho de um espaço em um importante jornal de nossa cidade e por isso responsabilidades com tudo que escrevo. O leitor merece. Não me considero um ás na arte de escrever. Se faço, é por paixão, dedicação e claro, por acreditar que a leitura é o melhor exercício para os momentos de ócio e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.


Leitura e educação, a propósito, são – ou deveriam ser – como gêmeos siameses. Um não deveria viver sem o outro. O ato de educar diretamente ligado à leitura. E o hábito da leitura a educação. Essa semana tive o prazer de conversar com a responsável por esta importante pasta no município de Luis Eduardo. Quinze minutos. Um contato quase casual, mas deveras produtivo. Alias, sou fã de educadores compromissados com o saber. E ela, demonstra justamente isso: compromisso.


Esta palavrinha anda em desuso. Pouco ou nada utilizada. São poucos aqueles que nos rotineiros exames de consciência, se perguntam a cerca dos seus compromissos para com a sociedade. Para com o próximo, para com o planeta, para consigo mesmo. Quando escrevi “calda” ao invés de “cauda” não o fiz por maldade ou burrice. Se assim fosse não estaria me valendo deste espaço. Errar é da natureza do ser humano. Ter compromisso uma meta, um objetivo. Incorrem em falta gravíssima aqueles que acreditam na perfeição. A perfeição não existe. A insistência de sua procura seja talvez, um dos grandes erros do ser humano. Já escrevi sobre isto em outras oportunidades, e talvez, não seja oportuno rememorar o óbvio. Como diria um amigo advogado: a maior riqueza que o ser humano pode ter é o conhecimento. Infelizmente nem todos pensam assim. A secretária por sua vez, acredita na educação e faz por ela sua razão de viver. Saí do gabinete contente. “O educador precisa ter conhecimento que sua profissão só se justifica porque existe uma pessoa para ser educada”.


Nos últimos meses tenho sido motivado a acreditar na gratuidade inerente ao ser humano como forma de beneficiar o coletivo. Uma espécie de fuga da obviedade egoísta que move a todos nós. Este quase narcisismo que nos condiciona a agir e pensar o “eu” e não o “nós”, uma vez laborarmos pela simples manutenção de nossas necessidades básicas em detrimento do bem estar coletivo.


A história não mente. O manifesto é responsável pelas mudanças mais significativas da sociedade. Isto quando fundamentado. Organizado. As grandes revoluções tiveram início na organização e fundamentação de uma ideologia diferente da em vigência. Um piano de cauda necessita de muito espaço. Talento é verdade. Para os que tocam e os que o carregam. Afinal, seria muito mais fácil se o piano carregado pela Secretária de Educação e, em contrapartida, por cada um de nós fosse de calda, de chocolate.

14 de jun. de 2009

Trinta




Chegar aos trinta não é mais um problema. Cheguei. Recordo ter dito a uma amiga à época que ela completava suas três décadas de existência. “30 anos só se faz uma vez querida”. Dito e feito. Assim foi pra ela e assim está sendo comigo. Uma única vez. O fato é que terei trinta pelos próximos trezentos e sessenta e cinco dias. Não posso, não devo e não vou fugir desta verdade, mesmo sendo réu confesso que por muito tempo tenha tido receio em chegar aos trinta. Os meus trinta. Tudo por um medo tolo em se achar que chegar a esta idade é como uma mensagem que a vida nos dá. Do tipo: “meu chapa, estas ficando velho”.


Entretanto descobri que chegar aos trinta não é sinal de envelhecimento. Pelo contrário. Completar três décadas de vida seja para um homem ou mulher deve ser encarado como um sinal de amadurecimento. E entre um “ento” e outro existe uma diferença gigantesca. Por isso e somente por isso, chego aos 30 anos de cabeça erguida, com menos cabelo que nos vinte, mas sabedor que existe um longo caminho para se trilhar. Um caminho, na certa, feito por vitórias, tropeços, conquistas e alguns escorregões. Nada mais natural. Como disse, não há como fugir desta realidade. Afinal, haverá de chegar o dia dos quarenta, dos cinquenta, dos sessenta e de outros tantos “enta”.


Descobri meio que por osmose, que o número trinta não passa de um tabu. A seleção brasileira de futebol demorou trinta anos para vencer a celeste olímpica na capital uruguaia. Um tempo considerado longo para os padrões futebolísticos e do esporte de modo geral. Os recordes na natação e no atletismo, por exemplo, perduravam imbatíveis por anos e anos e anos. Foram e estão sendo quebrados. Um a um.


Um tempo. Uma marca. Um tabu. Completar 30 anos de vida, embora possa ser avaliado, também, como um tempo, uma marca e um tabu é, resguardando-se a pieguice da afirmação, um momento único. Ora pois, quando se é criança se quer a todo custo chegar à adolescência e a tão sonhada maioridade. O tal dos 18 anos. Na há de demorar para se constatar que essa não passou de um fase bacana da vida. Uma fase de descobertas, novidades e uma suposta e ilusória liberdade.


Porque a partir dos dezoito, o tempo começa a passar mais rápido e as obrigações da vida se tornam empecilhos. O tempo voa e não disponibiliza mais tempo suficiente para que os 18 sejam curtidos por completo e como se deve. Vinte, trinta e assim por diante. A areia que cai da ampulheta passa a cair mais rapidamente. A verdade é que pelo resto da vida o camarada vai suspeitar desse fenômeno. Vai continuar a empilhar algarismos na idade e a reclamar que a vida está passando rápido demais. Um dia vai se esperar a chegada de um filho como se a espera fosse durar a eternidade e no outro restarão lembranças dos tempos que o filho era só um bebezinho, uma criança e precisava de cuidado dos pais.


Quando se fizer vinte, o camarada vai reclamar. “Ah, estou ficando velho”. Nessa idade parece ser inconcebível beijar a face dos 25 sem que se tenha realizado tudo. Ou quase tudo. Como se o ser humano tivesse um prazo para realizar e conquistar esse “tudo” na vida, devendo a partir deste ponto, somente usufruir dessas conquistas. Desse “tudo”. Porque depois simplesmente fica-se velho. Depois, não se tem mais tempo. Depois, o antes se torna uma vaga lembrança que se prefere trancafiar e recordar de tempos em tempos, como se nada mais fosse possível de conquistar. Porque o tudo já não existe mais. O tudo já foi.


Nos saudosos tempos de músico de rock escrevi um refrão que dizia: “nunca é tarde para recomeçar”. Vinte, trinta, quarenta anos. Fases. Ciclos que precisamos enfrentar, e enfrentar de cabeça erguida. Pela simples razão de estarmos em constante crescimento. Porque é um tolo aquele que acredita que chegar aos 30 é como se fora chegado o fim do caminho, o fim da linha. A esses eu digo: chegar aos trinta, meus amigos, é só o começo.

1 de jun. de 2009

Shakespeare e o verbo


O poeta e dramaturgo inglês William Shakeaspeare nasceu e morreu no mesmo dia, mas em anos diferentes: 23 de abril. Coincidência. Destino. Sabe-se lá. Existem pessoas que não acreditam em destino ou mesmo em coincidências. Preferem acreditar que cada ser humano é dono do seu próprio futuro e nariz. E que este depende diretamente das escolhas feitas ao longo da vida. Eis o verbo que acompanha o poeta no título. Escolher.

A tragédia narrada em Romeu e Julieta é também fruto das escolhas feitas por ambos os personagens. Entre as escolhas que uma pessoa faz durante a vida, algumas obviamente são acertadas, outras nem tanto. Algum tempo atrás conheci um camarada que insistia dizer que o ato de se arrepender é um erro. Segundo ele, o arrependimento quando acumulado acarreta em estagnação e comodismo. Concordo em partes. Fazer escolhas erradas é natural e todo ser humano está fadado a isto, mais dia menos dia. Reconhecer um erro, arrepender-se dele, e procurar corrigi-lo talvez seja o segredo da grandeza de um homem ou mulher. Entretanto, nem todos pensam e agem assim. Romeu e Julieta que o digam. Não tiveram tempo para tal.

O comodismo e a estagnação são como vermes que impedem um ser humano de crescer. Às vezes contribuem, até mesmo, para que uma pessoa regrida. Um dos mais excêntricos políticos deste país, segundo colocado nas eleições para prefeitura do Rio de Janeiro e deputado federal, Fernando Gabeira, recentemente assumiu o erro em relação ao uso das cotas de passagens aéreas. Não só assumiu como veio a público. “Minha decisão é para me permitir dignidade para exigir da Câmara um ajuste de conduta. Eu estou plenamente integrado a esse ajuste de conduta. Se não conseguir, abandono a política. Termino meu mandato e não volto mais”. Se cumpridor ou não das palavras ditas, importa que no restante, paira entre os deputados e senadores brasileiros um estado inerte de comodismo e estagnação, no que diz respeito às cotas de passagens aéreas. É possível inclusive, que ajam casos de retrocesso.

O maior jornal deste país também teve seu momento particular para assumir que errou. Em editorial publicado no dia 17 de fevereiro, o jornal demonstrou inconformismo pelo fato do presidente Venezuelano ter vencido o referendo que lhe dá o direito a reeleições seguidas. Diz o editorial que uma vez vitorioso, Cháves não estaria disposto a reapresentar a consulta popular. Na sequência diz que se as chamadas “ditabrandas – caso do Brasil entre 1964 e 1985 – partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça -, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso.

Tratar os anos de ditadura no país como “ditabranda” causou furor. Entre protestos, ofensas e criticas o chefe da Folha, Otávio Frias Filho teve de se pronunciar admitindo o erro do tablóide. ''O uso da expressão ´ditabranda´ em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.” Escolhas, para bem e para mal. De grandes proporções, mas que tiveram de ser reavaliadas. A de se lamentar o fato de muitos indivíduos não serem suficientemente capazes do mesmo.

É de Shakespeare a frase que diz que “depois de algum tempo se descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destrui-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida”. Infelizmente, o tempo muitas vezes não concede uma segunda ou terceira chance, para que pessoas ou instituições possam corrigir um erro, uma fala mal colocada, uma atitude impensada. Não. Simplesmente, na maioria das vezes, não há volta. O feito está feito e ponto. Uma história, como que de repente, chega ao fim.

1 de mai. de 2009

Política é arte

O título desta semana é uma afirmação. O tema, embora, delicado e por vezes, enfadonho, estritamente necessário sob a ótica da harmoniosa convivência em sociedade. Todos fazem política. Indiretamente. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Todos. Para o francês Maurrice Barrés “política é a arte de tirar o melhor proveito possível de determinada situação”.

Quem dera fosse regra. Não é.

Para o cidadão comum, fazer política é algo que não se conjuga. Infelizmente, pouco se entende e por isso, pouco se cobra. Toda sociedade perde. O eleitorado de modo geral, parece ter dificuldade em assimilar o verdadeiro significado do dito dever cívico. Pior ainda, quando este passa batido pelos pleiteantes e eleitos a cargos públicos Brasil a fora. A propósito, não há nada mais destoante, que um vereador, prefeito, governador, presidente incapaz de compreender – e por em prática – as razões que o levaram e que o mantém no cargo que ocupam.

O interesse público em primeiro lugar. Esta deveria ser a regra e o fundamento de todo e qualquer ato político. Porém, em algumas ocasiões, a impressão que se tem é de despreparo. Como bem delata o ditado: de boas intenções o inferno está cheio. Nos tempos de presidente, Fernando Henrique Cardoso, chamou o povo brasileiro de caipira. Pegou mal. Por mais bem intencionado que o sociólogo intelectual presidente fosse, a afirmação foi um desastre. E olha que ele passava longe de ser/estar despreparado para ocupar o cargo maior da política deste país. Talvez tenha lhe faltado um pouco de cuidado com a “arte de tirar o melhor proveito” explícito no primeiro parágrafo.

Em cidades do interior, o ato de fazer política como a arte em se tirar o melhor proveito de determinada situação, parece mais evidente. Em tempos eleitorais, a gama de propensos vereadores, por exemplo, assombra pela variedade de interesses, propostas, grau de empatia com a população de determinado bairro, etc. É como se não houvesse distinções entre o ser popular e o ser político. Todos podem. Todos querem. O porém é que no Brasil o voto na maioria das vezes é conquistado de maneira subversiva aos reais ditames da democracia. O que, aliás, é lamentável.

Entretanto, valendo-se do cenário local, após quatro meses de governo, já é possível dimensionar as potencialidades de cada um dos nove vereadores de nossa cidade. Avaliar o que cada um tem a mostrar e fazer em prol do bem comum. Tal avaliação fica ainda mais cômoda, se levarmos em conta o fato das sessões estarem sendo transmitidas pela Rádio Cultura FM, em tempo real. A quem interessar, portanto, basta sintonizar a frequência da emissora e tirar suas próprias conclusões.

Com isso o trabalho da imprensa local fica mais transparente. O dito pelo não dito fica claro ao ouvinte. O mais precioso bem dos meios de comunicação ganha em pujança e apego. A informação vai à periferia. Vai ao bairro, à comunidade, ao eleitor. A frase do francês Maurice, estreita ainda mais os laços entre o político e o eleitorado. Afinal, sobram momentos em que é necessário se tirar o melhor proveito de cada situação. Exemplos não faltam. Basta um pouco de atenção, leitura e senso crítico.

Parafraseando trecho da entrevista concedida pelo presidente do TSE, Ayres Britto, à Revista Carta Capital nº 536, de 11 de março de 2009, “o político vai parar um dia e dizer: “Ou eu mudo ou não tenho futuro”. A era da informação é uma realidade. Privar-se disto, e ainda, tencionar privar os demais do pleno conhecimento do que se pretende enquanto homem público é um pouco contraditório. A opinião pública não nasce pronta, é sim, formada a partir da soma de informações das mais diversas fontes. Como dito no título, política é arte.

20 de abr. de 2009

Depois do 6x1

Foto: Stringer, EFE
Meu dia preferido para escrever é o domingo pela manhã. Gosto de acordar cedo, dar uma espreguiçada do lado de fora de casa, assistir um tiquinho do Globo Rural, encher uma xícara, tamanho família, com café e só então, colocar os neurônios para funcionar. Sinto como se nesse horário o ato de produzir flua com mais naturalidade. Sei lá. Pode ser engano ou, na pior das hipóteses, uma reles suposição. Quando não cumpro esse ritual, parece que me é tolhida a criatividade. Nesse ponto, não há como negar: sou um cara metódico.

Não sou de todo fá de pessoas metódicas. Quiçá as demasiado previsíveis. Aquelas, as quais, é possível saber com razoável antecedência que atitudes irão tomar e até mesmo que respostas irão dar quando questionadas. Dia desses, fui acusado de ser uma pessoa previsível. Suspeito que minha acusadora, desconheça o significado da palavra ou não tenha espelho em casa. Das duas uma embora isso não venha ao caso agora. A afirmação a seguir reacende o contraditório, mas parece fato: todo ser humano é um pouco previsível.

Os presidentes dos paises latinos tornaram-se mestres em previsibilidade. Incrível. Veja o caso de Evo. O líder boliviano. Resolveu fazer greve de fome em sinal de protesto à decisão da bancada oposicionista do governo no Congresso de não aprovar uma nova lei eleitoral, que prevê a realização de eleições antecipadas para presidente, vice-presidente e legisladores no início de dezembro deste ano.

Não que Morales seja o melhor exemplo de pessoa previsível, mas o paradigma de liderança política na América do Sul, moldado nas bases de Fidel e Che e configurado com Chaves, transformou esses governantes em cegos seguidores de interesses pseudo socialistas. São líderes teimosos. Birrentos. Conversadores de língua afiada e balizados por questões irrefutavelmente particulares. Defensores de um nacionalismo exacerbado e incrustado em regimes que namoram com a ditadura. Evo quer vida longa no poder. Tal qual o irmão bolivariano Hugo Chavez.

A propósito, chega ser constrangedor, e talvez, faça com que os bolivianos sintam vergonha do jejum de seu presidente. Ao menos deveriam. Onde já se viu um chefe de estado fazer greve de fome como exigência para a aprovação de leis favoráveis ao seu governo no Congresso. Ainda mais se pensarmos no quantitativo de populares daquele país que não dispõe de condições mínimas de sobrevivência e, claro, de alimentação. Que o jejum prolongado de Morales sirva como referência para um auto-exame de consciência, embora, dificilmente vá mudar seus planos em se perpetuar no poder.

Não bastasse o ridículo da situação, o índio presidente, concedeu entrevista ao canal estatal de televisão boliviana no domingo de páscoa, dizendo que caso aconteça algo com ele ou com o vice, a culpa é da embaixada dos Estados Unidos e da “direita fascista” do seu país. “Possivelmente tenho os dias contados. Que o povo boliviano saiba que se algo acontecer com Evo, com Álvaro, com os ministros, será obra da direita fascista que está se organizando com apoio da embaixada dos EUA", disse Morales.

O previsível do sensacionalismo para auto-promoção de Evo e Hugo só não é maior que domingo de páscoa ser regado a ovos de chocolate. Hoje não é domingo, tenho quinze minutos para fechar esse texto e possivelmente, a atitude pouco ética de Evo Morales tenha chegado ao fim até que esta edição ganhe vida. Vejamos, porém, se para bem, para mal, ou para os anais história dos atos mais bizarros protagonizados por um presidente da república. Depois do 6x1, tudo é possível na Bolívia.


[ Pareceu mentira mas não foi: 1º de Abril de 2009 - Argentina de Maradona cai de 6 ante Bolívia de Evo ]
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Artigo publicado para a coluna "Ponto de Vista" do Jornal Classe A de Luis Eduardo Magalhães/BA, Edição nº132 de 18 de abril

13 de abr. de 2009

Novela das oito

Foto: Anton Roos
Assistir novelas nunca foi meu forte. Talvez pelo tempo escasso que disponho, e muito por não simpatizar com o modelo de dramaturgia da televisão brasileira. Algo irrestritamente pessoal. Particular. Assim, seria uma incongruência opinar ou comentar sobre os feitos de personagem A em dada telenovela. Eis o motivo de manter-me o máximo afastado desses temas. O foco é outro, embora o título deste artigo sugira associações.
Então, vejamos. Conversas de botequim são sempre ricas em pautas e temas. É como se lá lhe fosse conferida uma chance de mergulhar no imaginário popular e principalmente naquilo que aflige o populacho. Há bem poucos dias, numa dessas conversas, um tema me foi proposto. Confesso ter ficado tentado a escrever sobre, embora uma avalanche de eventos de natureza particular, por hora, impediram-me de dar vida aquele tema. Garanto: esta na lista.

Via de regra, observar é verbo dos mais conjugados por qualquer articulista que se preze. Muitas vezes, as entrelinhas ou mesmo as miudezas daquilo vivo ante nossos olhos é mais que suficiente para uma coluna e posteriormente para discussão e reflexão. Valendo-se do verbo em questão, deparei-me – novamente – com uma dessas oportunidades.

Toda vez que vejo um cidadão ou cidadã folhear as páginas deste jornal – e claro, de outros periódicos da região – sinto um fio de esperança me farfalhar o espírito. Por mais inocente que pareça, é como se ali houvesse leitores e propensos mantenedores da instituição jornal em atividade. A título de curiosidade em 2005 a edição impressa do jornal The Times era comprada por cerca de 700 mil pessoas, enquanto, 3,5 milhões de leitores já se debruçavam em frente a um computador para acessar a versão on line do tablóide. No mínimo, assustador, para não adentrar – na escassez destas linhas – em vias totalmente apocalípticas e pessimistas.

Porém, outra razão me aguçava a curiosidade naquela manhã de terça-feira. Em segundos poderia ver constatado o que de fato interessa a quem se propõe a folhear um jornal impresso em Luis Eduardo. A resposta: novelas. Claro, a dedução cá exposta é passível de discussão, e principalmente, cabível de comprovação científica. Entretanto, não vejo razão para não deflagrar o aparentemente óbvio. Dentre os assuntos que mais interessam e mexem com o imaginário das pessoas estão as telenovelas. Fato.
Independente de linha editorial, peguei alguns jornais em circulação na cidade e os li. Da primeira a última palavrinha. Constatei por A mais B que a leitura integral de um jornal da região dura em média 30 minutos. Meia hora. Pouco se comparado aos jornalões das grandes cidades. Então, não ler ou priorizar a página de entretenimento de um jornal dá vazão para outros pressupostos, espinhados em “achismos” e por isso pouco convincentes. Seria preciso um estudo de caso abrangente para que se obtivesse um resultado com mais consistência. No momento, não é o caso.
Entretanto, desconsiderar o poder das telenovelas, no sentido de infiltração no imaginário das pessoas é uma sandice. As tramas, a atuação dos atores, os cenários, tudo se completa de maneira a transportar os telespectadores para lugares nunca antes vistos ou imaginados. Projeta-se a si mesmo naquilo que é visto na televisão. Foge-se das amarras do laboro frenético do dia a dia. Deste mundo onde o tempo já não é mais tão facilmente controlado. Onde, a simples possibilidade do ócio criativo – proposto pelo italiano Domenico De Masi – transforma-se em uma utopia vaga e distante. “É no tempo livre que passamos a maior parte de nossos dias e é nele que devemos concentrar nossas potencialidades”. Nada contra a novela das oito, mas os jornais, revistas e livros agradeceriam – se pudessem – o esforço e o mínimo de tempo despendido para suas leituras.
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Artigo publicado para a coluna "Ponto de Vista" do Jornal Classe A de Luis Eduardo Magalhães/BA, Edição nº131 de 11 de abril