27 de set. de 2010

Tributo a estação das flores

Aproveitando a chegada da primavera, segue uma sequência de fotos em homenagem a estação das flores e uma versão arrebatadora de "Primavera" na voz do síndico do Brasil, Tim Maia.

[No início de uma manhã qualquer em Paranavaí/PR (Foto: Anton Roos)]

[Em Paranavaí/PR, cidade do melhor rodízio de pizza do Brasil (Foto: Anton Roos)]

[É primavera]

[Na minha terra Natal, Três Passos/RS (Foto: Anton Roos / @antonroos79)]

E agora sim, Tim Maia:

A trinca da mesmice


São três os assuntos para os quais, dizem: não haver consenso: política, futebol e religião. Debater esses temas, de acordo com esta linha de entendimento, é, portanto, jamais encontrar um denominador comum. Nunca. Em hipótese alguma. Não adianta insistir.

Política, futebol e religião são temas subjetivos. Todos têm – ou acham ter – uma opinião formada sobre eles e, por mais absurdo que pareça, são capazes de defender seus posicionamentos a ferro e fogo.

Um militante de esquerda, por exemplo, vai votar no partido e nos candidatos que defendem esta ideologia, mesmo que este partido ou bandeira após oito anos no poder tenha demonstrado um perfil muito menos radical do que aquele que o fez iniciar a militância. Dialogar, num caso como este, é como tentar convencer alguém que o céu não é azul, mas, sim vermelho.

Talvez pior, seja fazer com que um debate entre um torcedor xiita do Grêmio e outro do Internacional tenha um vencedor. Por mais que existam argumentos que possam qualificar um perante o outro, nunca haverá consenso. Para os gremistas o tricolor continuará imortal e para os colorados o Inter, gigante, multi-campeão e por isso superior. O mesmo pode ser aplicado para o caso de um debate entre torcedores de Palmeiras e Corinthians ou Vasco e Flamengo. Haverá argumentos para engrandecerem tanto um lado como outro, consenso, porém, jamais.

Em se tratando de assuntos ligados ao divino também. Imagine um católico convicto, um pastor evangélico, um espírita e um adepto do candomblé tentando convencer um ao outro que sua teoria é a correta. Impossível. Ainda que os quatro empreendam um debate pela eternidade afora, nunca vão conseguir tornar um assunto tão complexo em unanimidade.

Política, Futebol e Religião além da falta de consenso, padecem de outro mal. O discurso de seus protagonistas é sempre o mesmo. Os candidatos a presidência da república participaram de vários debates, sempre com os mesmos discursos de sempre. As mesmas frases de efeito e as mesmas tentativas de convencimento furadas. Jogadores de futebol, falam a mesma coisa sempre que terminam uma partida e fanáticos religiosos dizem sempre a mesma coisa para convencer os fraquejados de espírito. 

Três temas que, no fim das contas, caem sempre na mesmice e só enganam os bobos.


16 de set. de 2010

O amor precisa voltar

É comum se dizer que sem amor o ser humano não vive. Essa palavrinha de quatro letras acompanha o homem desde sua concepção, tanto, que somos em grande parte, frutos dele: o amor. Na edição passada [na coluna semanal que assino para o jornal Classe A de Luís Eduardo Magalhães/BA], republiquei texto de um talentoso amigo e quase graduado nas artes do jornalismo, em que ele rechaça por completo as crônicas e poemas que versam sobre o amor.

Desta feita, que fique claro, não pretendo estender a discussão proposta pelo colega, pois, considero que o confronto de ideias, quando feito de maneira civilizada, é a melhor forma para se encontrar um denominador comum. A questão que levanto é, digamos que, mais simples: falta-nos amor. Isso mesmo. Está faltando amor na vida das pessoas. Compartilhar este sentimento tão natural e essencial para a continuidade da vida. Conjugar o verbo. Amar.

Há alguns anos assisti uma cena, no mínimo, intrigante e que de certa forma pode ajudar na compreensão daquilo que proponho esta semana. Tratava-se de uma cena que simboliza o quão complexo o amor pode se apresentar para as pessoas. O quão importante são os pequenos detalhes e talecoisa. As miudezas subjetivas, que em dado momento da história da humanidade foram alvo de deturpações. De um momento em que se tentou igualar a todos a números objetivos e sem emoção. A tal racionalidade de Descartes e outros tantos.

Na tela, um pesquisador mostrava seu trabalho para um programa de televisão especializado na mãe natureza. Explicava os mínimos detalhes e aprendizados absorvidos ao longo de anos de pesquisa e observação. Estudava um pássaro raro. Em miúdos, o tal pesquisador delegou anos preciosos de sua existência a seguir os rumos daquela pequena ave. Criou, inconscientemente, um vínculo afetivo exclusivo com aquela espécie e com o trabalho que realizava.

No decorrer da apresentação, tanto o pesquisador quanto a emissora foram pegas de surpresa. Presenciaram o nascimento de uma nova vida, de um novo pássaro daquela rara espécie. As câmeras atentas captaram todos os momentos daquele nascimento. O homem, no alto de sua subjetividade e incapaz de equilibrar o racional com o afetivo, simplesmente desabou em lágrimas. Chorou copiosamente e não escondeu a emoção ao ver o pequeno pássaro ganhar a vida. Era como se fosse um filho, um presente após tantos anos de dedicação e pesquisa. Aquele homem protagonizou uma das cenas de amor mais belas e ao mesmo tempo inquietantes que já assisti e, com o perdão da assertiva, muito mais honesta, por exemplo, que muitas vis tentativas do cinema e da teledramaturgia.

É bom que fique claro que não importa nesse texto encontrar as razões que fizeram aquele homem, dedicar toda uma vida a pesquisa dos hábitos de vida de um pássaro raro. Seria injusto procurar motivações para isso. Meus vieses poderiam deturpar qualquer análise. No entanto, julgo necessário dizer que é provável que aquele homem tenha encontrado no trabalho a motivação necessária para viver. Talvez, os desencontros amorosos daquele homem o frearam e serviram de estímulo para que se distanciasse de novos “encontros”. Como fazem muitos corações partidos nesse mundo, aquele pesquisador procurou o foco para sua felicidade em outra realidade.

Quando se estão em jogo dois universos distintos, duas cabeças pensantes e cheias de “verdades”, o amor pode acontecer, como pode “desacontecer”. Pode se tornar uma ferida enorme. Incurável. Como pode se tornar uma necessidade mútua de presença, de carinho, de afeto, de vida. O acúmulo de “desacontecimentos” pode levar uma pessoa a tomar decisões parecidas com a do pesquisador ou, ascender para o lado negro da força, e cometer, por exemplo, assaltos primários com um capacete na cabeça e escapulindo com uma motocicleta. O ser humano precisa aprender a lidar com as novas rotinas da vida neste século, adaptar-se e deixar que o amor volte a acontecer em suas vidas, senão, seremos cada dia mais vítimas de bandidos covardes que pensam ser vilões de uma história em quadrinhos, escondidos atrás do visor de um capacete.




12 de set. de 2010

Chico não gosta de crônicas de amor


Para o Chico não existem crônicas, nem poemas de amor. Romances sim, mas quase todos de qualidade nula. É a opinião dele, prefiro não questionar. Chico, diz-se muito se admirar “do homem que se aproxima da mulher amada com uma folha amarfanhada de versos contidos, sem métrica ou ritmo, com rimas que unem sem nenhuma vergonha amor e dor”. Chico acredita ainda que poesia ruim se escreve em cinco minutos e uma crônica de má qualidade em pelo menos seis. As aspas utilizadas neste primeiro parágrafo fazem parte da abertura de uma crônica escrita pelo talentoso e quase graduado colega Francisco Marcos. Vasculhando meus arquivos reencontrei o por pouco esquecido texto que rechaça a existência de crônicas ou poemas de amor. Os argumentos são classudos, e ainda que questionáveis, merecem um tiquinho de atenção. Segue, entre aspas, o restante do texto escrito pelo Chico.

“O cronista geralmente tem algum conhecimento da língua maior do que os poetas. E não é discriminação não, porque eu mesmo já tentei uma que outra poesia de amor, que nem de amor é, como defenderei ainda. Também tem mais fôlego que o poeta, afinal, não é fácil escrever razoavelmente em prosa, fazendo das regras gramaticais, um mar caudaloso de simbioses entre poesia, literatura. A poesia hoje se faz de símbolos e de palavras soltas, sem nuances com a subjetividade real e terrena, pois boa parte tendenciam para uma realidade metafísica e planetária...e o que é mais importante: a poesia de hoje proíbe a conjunção”.

“Como eu dizia, não existem crônicas de amor. Conheço um amigo que escreve sempre a suas namoradas em forma de crônica, longas crônicas que falam desde um sorriso perdido no meio da sala até suas fantasias sexuais mais íntimas. É o modo que ele tem de lhe escrever cartas. Assim, pensa ele, vai manter viva duas coisas muito importantes na sua vida: a namorada (que ele perdeu recentemente, diga-se de passagem) e a literatura (que também não é das melhores)”.

“Por sinal, também não existem cartas de amor”.

“O que quero dizer com isso é que o amor, esta abstração de rara compreensão, inexaurível em toda a sua fonte de matéria-prima para as artes, não pode jamais ser reproduzido num estado de consciência minimamente necessário para se escrever qualquer coisa que preste. A frase é velha, o clichê mais do que repetido, mas aqui ele cabe: o amor embriaga; e não conheço ninguém que, embriagado, tenha escrito uma só linha que prestasse”.

“Mesmo Vinícius de Moraes, grande poeta e amante etílico, escreveu maus poemas quando bêbado; há uma teoria corrente entre os que o lêem sem a pretensão (ou diria estupidez) acadêmica de que Vinícius escrevia justamente sob (sob!!) este estado alterado em que se encontram as pessoas que se amam”.

“De resto, o amor não existe em literatura. As crônicas de Rubem Braga que falam de mulheres são, antes, crônicas de sedução. O amor não acontece; está para acontecer. O espaço de tempo entre uma e outra coisa pode ser ínfimo, mas é crucial para se compreender a inexistência do amor na literatura. O texto literário sobre o amor só existe antes e depois. A crônica de sedução é antes”.

“Outro tipo de crônica tida erroneamente como "de amor" e a do depois, ou seja, a crônica do ressentimento. Hoje este gênero perdeu muito de sua força – mas não toda – e é melhor explicada se se usar como exemplo as músicas sertanejas. Crônicas de ressentimento são ruins como músicas sertanejas, porque falam invariavelmente de uma traição sofrida, de um abandono repentino, de tapas e beijos”.

“O grande mestre Machado de Assis é um que jamais ousou escrever sobre o amor, pois bem compreendia a impossibilidade disso. Por outro lado, compôs obras-primas de ressentimento e sedução. Dom Casmurro é um romance de ressentimento; Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma mistura entre o ressentimento e a sedução. Nos contos de Machado encontra-se de tudo, menos amor. O que não quer dizer que quem escreva, e bem, sobre estes períodos anteriores ou posteriores ao amor sejam uns insensíveis. Joaquim Maria Machado de Assis amava Carolina; mas sabia que, para a literatura, este sentimento era uma afronta ao bom-senso”.

***

E então, amigo leitor (a): concorda?



3 de set. de 2010

Coincidência

Nada de sorte ou azar, apenas COINCIDÊNCIA
O taxista disse que não existe sorte ou azar mas, sim, coincidência. Em geral, gosto de taxistas, ainda que existam uns que ao tentar ser cordiais com seus passageiros se tornam chatos em demasia.

Não era o caso.

O senhor “coincidência” era/é apenas um prestador de serviço tentando proporcionar um bom atendimento para seus clientes. 

Nada demais nem de menos. Apenas uma tentativa de ser gentil, ainda que não se tenha talento algum para tal.

Ademais, chovia grosseiramente em Porto Alegre e passava de onze da noite. Era o dia seguinte do roubo da motocicleta do meu irmão e da sua quase que instantânea recuperação. O dia que, na indefinição se sorte ou azar, preferimos a tese retumbante do motorista de táxi: coincidência.

A moto foi e voltou por coincidência

30 de ago. de 2010

Quando eu crescer

De rachar de tanto rir. Gru lendo para as meninas.


Descobri que sou fã de filmes de animação. Na sala quase vazia de um cinema qualquer em Porto Alegre, peguei-me gargalhando alto e rindo de orelha a orelha com Meu Malvado Favorito”. Não sei se contagiado pela inocência das três meninas órfãs ou pelo sotaque de alemão falsificado do vilão Gru. Não sei, principalmente por se tratar de um filme tão inconstante.

Aliás, a exceção da trilha sonora com “Sweet Home Alabama” do Lynyrd Skynyrd, o desenho não começa bem. Gru é um personagem difícil de assimilar e a trama custa a desenvolver. No entanto, existem cenas no filme que valem o ingresso e a empolgação em relação a obras do genêro. A primeira vez que Gru lê para as meninas dormirem é tão genial quanto a impagável cena da “bola de pêlos” no primeiro Shrek.

[ A cena da aparição do Gato de Botas no primeiro Shrek e a sensacional cena da "bola de pêlos" em espanhol. De cansar as bochechas ]


“Meu Malvado Favorito” pode estar muito aquém à franquias como a do próprio Shrek, Toy Story ou Era do Gelo, mas assim como Up, Altas Aventuras e Wall-E ajuda a fazer do gênero um sucesso de público e crítica e a empregar nerds nos setores de criação de empresas como a Pixar.

Ah, também descobri após deixar a sala de projeção que nunca mais vou dar ouvidos para pessoas amigas que, simplesmente, por preconceito te convencem a não assistir uma animação no cinema. Se o padrão de qualidade se mantiver do jeito que está, podem reservar a pipoca e o refrigerante tamanho família. Não só irei ao cinema, como – quando crescer – vou colecionar essas pequenas jóias do entretenimento pós-moderno



Batata frita

Votar para Presidente é tão importante quanto escolher às 22h30 de um sábado a noite que você vai se esbaldar comendo batatas, fritas por você mesmo




















Era um caso de desejo incontrolável por batata frita, afinal, entre descascar e cortar as batatas em palitinhos e mergulha-las na banha quente, pelo menos uma hora se perderia. Até fritar tudinho, hora e meia, quase duas. Uma loucura em prol da sandice de comer batata frita no conforto do lar e altas horas da noite. O pensamento era um só: batata, batata, batata.

E o cheiro. O aroma. Um pecado. Gula. Como somos fracos. Um simples aroma é capaz de destruir nossas defesas.

- Cadê as batatas? – grita um.

- Não vão ficar prontas nunca? – berra outro.

Brigas podem ocorrer no período entre a decisão de comer batatas fritas, de descascá-las e fritá-las. Famílias podem se dizimar. Amores podem acabar. Amizades podem morrer.

Existem histórias e batatas para todos os gostos. Batatas palito enormes. Quinze, vinte, trinta centímetros. Molho tártaro, molho disso, molho daquilo, com muito, com pouco sal. Ninguém liga para o filme, a novela, o futebol, a propaganda política, só para as batatas. O pensamento é um só: batatas, batatas e mais uma porção de batatas.

Voualá, Enfim prontas. Chega o momento tão esperado. Quase duas horas de relógio esperando por elas. Lá vem a bandeja. O “bandejão”. Mas e ai, elas estão murchas. Nem parece que foram fritas. Eu como, tu comes, ele come, enfim, nós comemos. Ninguém fala, ninguém ousa abrir a boca. É notório, o mesmo pensamento invade nossos cérebros consumidos pela obsessão em comer batata frita:

- Definitivamente, não são iguais as batatas do “méqui”.

De fato não são. Outra rodada, outra mão cheia de batatas. Não são crocantes, não estão durinhas, estão murchas, nati mortas. Mas, não há tempo para reclamar. Não há tempo para nada além de esvaziar o “bandejão”. O vício, a tara, a gula precisa ser exterminada, antes que extermine você.

Acabou. Não sobrou nada, pedra sobre pedra, batata sobre batata. Todas as batatas murchas foram devoradas. Ninguém falou, ninguém reclamou. O filme, esse sim, continuou. Silêncio. Um, dois, três minutos de gelo total e completo, até que, finalmente, alguém resolve se pronunciar:

- Porque elas ficaram tão diferentes das batatas do “méqui”?

Não há respostas. Ninguém quer constranger o fritador. A consciência fala mais alto. Se reclamar, saiba que precisas pelo menos fazer melhor. E se não sabes, fique quieto. Já comeu mesmo. Não são trocados olhares. São desnecessários. Inúteis. O momento pede uma saída pela tangente, mas qual, qual, pela mor do Senhor Ruffles, qual?

- Que filme foi esse mesmo?

Todos amam comer batata frita, independente, de credo, torcida ou região. O mais impressionante é que até quando a fritada falha é gostoso por demais comer batata frita. Se o filme for ruim ou não ser do nosso agrado, não há nada mais convincente que uma generosa porção de batata frita para deixar a projeção menos maçante. No entanto, para o filme que esta prestes a começar é preciso alguns cuidados adicionais antes de iniciar o processo de descasque das batatas.

Lembrem-se: escolhas equivocadas podem fazer com que nos queimemos na banha quente. E mais: Votar para Presidente da República é tão importante quanto escolher às 22h30 de um sábado a noite que você vai se esbaldar comendo batatas, fritas por você mesmo. Outra: há sempre o risco de se escolher um (a) presidente (a) murcho e gorduroso. E mais uma outra: você pode nunca mais querer comer batata frita.