16 de dez. de 2012

Ah, os meus dentes separados na frente

Frejat já cantou sobre eles. “O que mais me encanta em você, é a tua capacidade de me enlouquecer, é a tua sensualidade ardente, teus dentes separados na frente”. Eu tenho dentes separados na frente. A música, claro, não foi escrita para mim. Frejat não era Cazuza, ó pá e por mais bem intencionado que pudesse soar, não ficaria bem o pai do “barão vermelho” cantarolar uns versos em minha homenagem, ainda mais assim tão íntimos. De jeito nenhum, grito e repito em voz alta. Se fosse a Madeleine Stowe sussurrando esses mesmos versos no meu ouvido, ai sim, ai sim. O que importa é que até a manhã da última quinta-feira, achava os meus dentes separados na frente totalmente sem graça. Até demais.



Quando eu era moleque não gostava deles. Porque eu haveria de ter dentes separados se todos meus amiguinhos não tinham? Ensaiei ir ao dentista para corrigir o hiato entre um dente e outro, mas para minha completa felicidade, não fiz, nem minha mãe me obrigou e nem meu pai deixou um cheque para 30 dias no consultório da minha dentista. Sim, eu tinha uma dentista. Era mulher, era loira, mas não lembro o nome dela. Infelizmente. Acostumei-me com a separação, tanto que não consigo me imaginar sem o buraquinho no meio dos dentes.

Eu e meus dentes separados na frente
- Dentes separados é um charme e está na moda – me disse uma amiga na manhã em que meus dentes separados deixaram de ser sem graça. Aliás, ela foi a culpada por isso. Nunca antes uma pessoa tinha me falado algo parecido sobre meus dentes separados. Nem minha mãe.

Levantei a sobrancelha, senti a bochecha corar, ri e por fim, deixei que eles me escapassem da boca: meus dentes separados na frente. Meus e de mais ninguém. Com todo charme que só eles possuem, ainda mais agora que estão na moda. A propósito, não sei como podem estar na moda. Não espero e não consigo imaginar uma pessoa indo até um consultório dentário pedir para separar os dentes. Não tem cabimento. O charme é de quem os tem de nascença, como eu, a Madonna, a Laura Pausini, a Brigite Bardot. Uma vez mais, obrigado mãe, obrigado pai.

No linguajar dos consultórios dentários, meus dentes separados na frente são conhecidos como diastemas, que nada mais são que um espaço extra entre dois ou mais dentes. É mais freqüente eles serem observados nos dois dentes frontais da arcada superior. Vejam só o que descobri. “Muitas crianças têm diastema como resultado da queda dos dentes de leite, mas, na maior parte dos casos, os espaços se fecham quando os dentes permanentes nascem”. Não foi meu caso.

Continua: “O diastema pode ser causado pela diferença de tamanho dos dentes, pela falta de dente ou anormalidade do freio labial, que é o tecido que se estende do lábio à gengiva até o ponto em que se localizam os dois dentes frontais superiores. As causas secundárias do diastema envolvem problemas de alinhamento bucal, como o grau de overjet ou protrusão dentária”. Hummmm. Bom, o que importa é que continuo sendo “portador” de diastema e desde a última quinta-feira, acho isso o máximo. Ponto.

Madaleine Stowe, claro, não poderia faltar, em ação no inesquecível "O Último dos Moicanos"

Também descobri, lendo sobre o tema que entre as opções de tratamento está – pasmem – “manter o diastema”. Perfeito. Para que, ora, pois, haveria eu de ceifar o meu charme? Juntar meus dentes frontais, separados há mais de 32 anos. Não há motivo nenhum para isso. Prefiro continuar a rir feito um bobo toda vez que o CD player do carro tocar a música do Frejat. É divertido. “...teus dentes separados na frente”. Sim, os meus. Minha amiga me ajudou a gostar um pouco mais dos meus dentes separados na frente. Obrigado. Agora, posso dizer para quem quiser ouvir: tenho dentes separados na frente, uso alpargatas, gosto de iogurte de morango e mulheres de óculos. Só me falta um caderno de caligrafia, só. Meus dentes separados na frente são um charme, um charme.

8 de dez. de 2012

Quando é preciso desacelerar um pouco




A vida é cheia de truques e adora nos pregar algumas peças. Quando menos esperamos, diga-se. Às vezes, até quando não estamos preparados. Os truques e as peças simplesmente acontecem. Como num piscar de olhos. De um segundo para outro, a mudança pode ser definitiva. O amanhã pode não mais existir. 

Saí do carro ainda trêmulo, afinal, foi tudo muito rápido. Estava com o pensamento longe, com pressa, não passava pela minha cabeça que aquela curva tão inocente poderia ser o que foi. Não me machuquei. Meu carro não virou uma lata velha. Nada disso. Errei no acelerador, o carro derrapou na área, ziguezagueei de um lado a outro e invadi o meio fio como um touro bravo que avança na direção do pobre toureiro. Sem ninguém por perto e nenhum veículo à frente ou às costas. Apenas eu e meu carro.

Desliguei a chave, abri a porta, olhei para os céus e pensei:

- Meu Deus, podia ter capotado.

Sim, podia ter capotado. Dado piruetas pelos ares e neste momento estar internado em algum hospital, sabe-se lá em que estado de saúde. Quiçá tivesse tamanha sorte. Enquanto aguardava o guincho, tentava reconstruir os momentos que antecederam meu quase acidente. Isso mesmo, não considero o que aconteceu como um acidente. Foi um erro, um deslize, uma bobagem, um apagão. Sei lá. Prefiro acreditar que tenha sido um aviso. Como se alguém, do alto de sua sabedoria, tivesse colocado suas mãos nos meus ombros e dito:

- Tenha mais calma meu filho!

Nunca nos damos conta de que precisamos dar uma pisada no freio. Maneirar um pouco. Estamos sempre correndo, vivendo no limite. Okay, escrevi sobre isso, ou quase isso na coluna passada, mas é o que é. Por alguma razão sempre nos damos conta dos erros ou excessos quando estamos diante do acontecido, imóveis, estáticos, perdidos. Quando, infelizmente, já é tarde demais para mudar os rumos da nossa própria história. Talvez se eu tivesse um pouco menos “chutado” e com pressa, nada do que me aconteceu teria acontecido, e, fatalmente, continuaria a correr e correr e a andar no limite. É por isso e somente por isso que penso no ocorrido como um aviso.

A saber, não restrinjo este aviso aos cuidados que devemos ter no trânsito. Estes são óbvios. É questão de inteligência, de bom senso. O que mais me deixou intrigado e fez com que escrevesse esse artigo são as coisas que guardamos sempre a espera do amanhã, da semana seguinte, do próximo mês, ano ou década. Como rabisquei no primeiro parágrafo, o amanhã pode não mais existir, antes mesmo que você tenha se dado conta disso. Resumindo: você pode não ter uma segunda ou terceira chance de fazer diferente, por exemplo. Pode ser a areia na pista, o excesso de velocidade. Não sei.

Raul Seixas
Engraçado que pouco antes do meu quase acidente estava ouvindo Raul Seixas no carro. A faixa de abertura do seminal ‘Há dez mil anos atrás’, de 1976, “Canto para minha morte”, uma mistura de poesia com tango e de uma genialidade ímpar. Eis um trecho da malfadada e imprópria canção: “Qual será a forma da minha morte? Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida. Existem tantas... Um acidente de carro. O coração que se recusa a bater no próximo minuto, A anestesia mal aplicada, A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe, um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio”.

Simples. Direto. Genial. Intrigante.

Enquanto comunicava amigos e familiares do acontecido, soube que um velho amigo dos tempos da faculdade capotou o carro no retorno de Palmas para Barreiras. Embora não tenha sofrido maiores escoriações, seus pais faleceram. Imagine o trauma, a dor, a perda, o sentimento de culpa. Um filme passou pela minha cabeça tão logo desci do meu carro e percebi que por muito pouco poderia ter sido muito pior. Agora imagine pra ele. O vazio, a desesperança, a impotência de voltar alguns segundos antes do acidente e fazer tudo diferente.

Pra encerrar, são raras as vezes que temos uma segunda chance na vida, então: se está muito rápido, desacelere; se tem vontade de ligar para alguém que está com saudades, ligue; se está pensando em mudar de vida, mas tem medo que possa não dar certo, respire fundo, messe as consequências, os prós e os contras e faça, arrisque, quem não arrisca nunca saberá se teria ou não dado certo. A vida é cheia de truques e adora nos pregar peças, quando menos se espera.

Menos se espera.


24 de ago. de 2012

Cinco segundos


Por mais absurdo que possa parecer, cinco segundos são suficientes para se dizimar o que virá a acontecer na sequência de uma vida. Essa fração mínima e quase desprezível de tempo é, sim, capaz de interromper sonhos, projetos e uma história a dois, fato que aconteceu comigo alguns anos atrás. Em cinco segundos, tomado pela mais estúpida das imbecilidades, praticamente dei fim àquilo que mais prezei até hoje e que nunca quis que terminasse. Errei e, tempos depois, paguei o preço por não ter escolhido as palavras certas num momento de fraqueza. Infelizmente, por não ser perfeito como talvez a pessoa do outro lado da linha acreditasse que fosse, deixei a pressão do meu dia a dia falar mais alto e acabei por jogar no lixo o que mais amei no mundo.
As palavras, quando mal colocadas, infelizmente tem esse poder. São capazes de mudar vidas num piscar de olhos e nos levam por caminhos diferentes àqueles que gostaríamos de ter trilhado. Quando me dei conta já era tarde e já havia falado aquela que possivelmente será a maior bobagem já dita por mim à outra pessoa. Tanto, que o arrependimento que me socou o estômago cinco segundos depois de ter o telefone desligado de nada valeu. Não tive chance para reverter os cinco segundos de imbecilidade de pouco antes. Simplesmente tive de engolir em seco e aprender com as asperezas da vida a ser mais comedido na hora de administrar as palavras, principalmente com relação a quem mais se ama. 

Também não sei o que teria acontecido caso não tivesse respondido da maneira grosseira com que respondi naquele início de noite. Isso, a bem da verdade, pouco importa passados alguns anos daquele fatídico telefonema. O que vale é o aprendizado que se seguiu, e quanto a isso, não me restam dúvidas: foram muitos para ambas as partes. É como diz o ditado: a única certeza que temos – além, óbvio, da morte – é que o futuro é incerto. Não teria graça nenhuma se soubéssemos o que aconteceria com nossas vidas e tudo que sonhamos se tornasse real sem um pingo sequer de dificuldade ou barreiras para superar.

Os meus cinco segundos de apagão me levaram para outros caminhos.  Aliás, qualquer pessoa que venha a ter os seus cinco segundos de apagão verá sua vida mudar. É inevitável. O que me resta é admitir e ter sempre em mente, que tudo que fazemos, mesmo nos casos em que admitimos erros, são importantes para determinar o que nos acontecerá nos dias, meses e anos seguintes. Eu por exemplo, sei que errei e talvez vá conviver com esse fantasma pelo resto da vida. O que não quero é repetir um novo cinco segundos de imbecilidade, pois existem casos em que não nós é permitido uma segunda ou terceira chance para fazer melhor e não cometer erros infantis como o que cometi.

Charles Bukowski
Mas afinal, qual a lição disso tudo? Simples. A vida é curta demais para deixarmos que um fantasma do passado ou as consequências daqueles malditos cinco segundos de bobagem te ceifem o direito de ser feliz. O mundo dá voltas e depois de cada dia existe outro, com novas oportunidades e chances para recomeçar, seja onde ou com quem for. Parafraseando o mais safado dos gênios da literatura americana, Charles Bukowski. "O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece". É uma lógica que por ser assim tão lógica, muitas vezes não nos permite fazer o óbvio: viver sem culpa e conhecer algumas dessas dez mil pessoas, ainda que, uma só já fosse suficiente.

Por ora, talvez o que eu mais quero e anseio é ter a chance de saber se caso não tivesse sido tão imbecil naqueles cinco segundos, não teria tido mesmo oportunidade de ser feliz com quem mais amei nessa vida. Eu não sei e justamente por não saber é que fico mais tentado a não jogar a tolha mesmo que todos, inclusive o velho Buk, me cuspam na cara que aqueles cinco segundos de imbecilidade foram suficientes para mudar o foco. Repito: não sei. O que mais quero e aconselho é viver cada dia sem ter certeza do que a vida irá me proporcionar. O que é meu ou seu, ninguém tira, a não ser você mesmo, ou até que as perguntas tenham resposta, pessoas diferentes apareçam ou simplesmente o tempo passe.



19 de ago. de 2012

Nunca quis ser como Aurélio Miguel


O judoca Aurélio Miguel, único ouro nos jogos de Seoul,
em foto de Gil Pineiro/Manchete

Nunca em todos os anos de colegial tive qualquer aspiração em disputar uma Olímpiadas. Também, nunca houve qualquer tipo de incentivo na escola ou dentro de casa pra isso. Ainda não há. As crianças em idade escolar e em tempo de serem iniciadas esportivamente não recebem nenhum incentivo para tal. A culpa, arrisco afirmar, não é das aulas de educação física. É da falta de estrutura, afinal,não temos uma política adequada de incentivo à prática esportiva dentro do ambiente escolar.

Em 1988, era um meninote de nove anos quando Aurélio Miguel sagrou-se campeão olímpico no judô. Mesmo assim, nunca tive chance de conhecer o esporte e tentar, impulsionado pela febre dourada do judoca brasileiro, praticá-lo. Minha maior lembrança dos jogos de Seoul, embora tenha visto o momento do ippon consagrador de Miguel, foi a derrota do time brasileiro de futebol para a extinta União Soviética na final olímpica.

Lembro como se fosse hoje: a primeira coisa que fiz ao final da prorrogação que nos valeu a prata foi sair à rua com minha bola debaixo do braço e me imaginar um craque do esporte bretão tabelando com as paredes de casa para depois usar o portão da garagem como gol. O fato é que nunca quis ser como Aurélio Miguel. A escola que estudei, mesmo sendo particular, jamais proporcionou a qualquer um de seus alunos suporte para a prática de esportes que não os coletivos. O máximo de recordação que tenho de outras experiências esportivas nas duas horinhas semanais de educação física são esporádicas manhãs tentando saltar por sobre uma fita elástica amarrada em duas hastes de ferro, em simulação ao salto em altura, e parcas corridas em simulações de salto em distância e salto triplo.

O detalhe é que mesmo assim, sem um mínimo de estrutura. Saltávamos sem vestimentas adequadas. Sem tempo para um aquecimento mínimo e sem nenhuma condição de almejar dar seguimento a uma carreira no atletismo. Óbvio que o fato de estarmos em uma cidadezinha do interior, distante mais de 500 km da capital gaúcha exercia um peso negativo ante a vil possibilidade de um de nós sonhar praticar um esporte alternativo de maneira profissional. Aliás, isso praticamente inexiste no país.

As aulas de educação física sempre foram vistas com desdém. Não era preciso esforço para obter uma nota que nos garantisse aprovação no final do ano. Responder a chamada, correr em volta da quadra coberta por duas ou três vezes e estar presente, mesmo que inutilmente, as atividades propostas pelo saudoso professor Cléver, eram o bastante. Não éramos incentivados a gostar do esporte. A levar o esporte a sério. Era tudo brincadeira. Sempre foi assim. (Nota deste colunista (blogueiro vez ou outra): Nosso mestre, eterno em nossos corações, é bom que se diga, jamais teve culpa nisso. Era um batalhador. Lutava com as armas que tinha, com os mínimos recursos que possuía e nós – os meninos – o tínhamos como um ídolo*).

O esporte no Brasil é levado na brincadeira. A cada ciclo olímpico renovam-se esperanças do país se tornar uma potência no quadro de medalhas, mas sempre, o número de ouros, pratas e bronzes é inexpressivo e muito pouco diante das dimensões continentais que possuímos. A maioria dos atletas que vão aos jogos, mesmo os anônimos, são heróis pelo simples fato de estarem lá. Sem estrutura, incentivo, material e em muitos casos, condições adversas e precárias de treino, ainda assim, conseguem índice para representar o país nos jogos. Os resultados abaixo do resto do mundo não são culpa deles, mas sim, da maneira amadora como a maioria dos esportes é tratado em terra brasilis.

O velódromo construído para o Pan do Riode Janeiro em 2007 é um exemplo crasso da incompetência e total amadorismo degerência esportiva. O complexo foi construído sem obedecer os padrões olímpicos e hoje, cinco anos depois, está defasado e não serve para abrigar os jogos do Rio em 2016. A pista recebeu investimentos federais e municipais – uma bagatela de R$ 14 milhões – para conseguir sediar as competições latinas, inclusive o piso foi feito de pinho siberiano tratado na Holanda. O que intriga é que razão faz com que se construa uma obra como essa se ela não pode ser aproveitada no futuro e agora, parece até imprópria para o incentivo da prática do esporte a crianças e jovens brasileiros.

Burrice? Malandragem? Desrespeito com o erário público? Em tempo, o risco de o velódromo ser demolido é gigantesco. Independente de qual seja a resposta, a esperança é que as crianças e jovens de hoje consigam fazer do exemplo vitorioso de Sarah Menezes e Arthur Zanetti, um incentivo para a prática esportiva e nossos políticos, tenham a hombridade de evitar os discursos chinfrins de sempre para colocar em prática, políticas de incentivo ao esporte nas escolas o quanto antes. O Brasil como um todo agradece. Esporte nas escolas é sinônimo de qualidade de vida, e desenvolvimento social. As medalhas serão conseqüência. Natural.


* O professor Cléver morreu no último ano do segundo grau, deixando uma legião de alunos e admiradores órfãos de seus ensinamentos, dicas, e parceria.



18 de ago. de 2012

Me abraça



Me abraça, disse ela, virando o rosto para o meu e entrelaçando as pernas nas minhas. A escuridão da noite era bela. As estrelas pareciam se exibir como se soubessem da nossa presença ali, deitados, sozinhos. 

Se tivesse planejado não teria sido tão especial como foi. Nos minutos que se passaram, nada parecia importar. Por um tempo ficamos deitados na areia, como dois amantes/amigos, contemplando o show que vinha dos céus, falando de constelações, galáxias e extraterrestres. 

A bem da verdade, enquanto ela falava e gesticulava minha mente estava longe, talvez procurando alguma explicação. Alguma razão para tudo que acontecerá durante todo o dia.

Os minutos que passamos abraçados, deitados na areia e abençoados apenas pelo brilho das estrelas no céu pareceram infinitos. Não haviam fantasmas do passado a nos atormentar. Pessoas, quaisquer que sejam a opinar sobre nós dois. Sobre o que é certo ou errado. 

Apenas nós

Como sempre quis que fosse, mas, pelos desencontros e circunstâncias da vida, nunca foi. Até aquele momento. Tão nosso e de mais ninguém. 

A respiração dela junto a minha era algo que a muito tinha vontade de sentir. Respondi ao seu pedido com o melhor abraço possível, pois no fundo, o que mais queria era que o abraço representasse o grito de quem não quer deixar escapar a quem se ama. Não de novo. 

Quando dirigia pelo trajeto de volta senti seus dedos me acariciando os cabelos. Tive vontade de parar. 

De gritar. 

De me jogar nos braços dela e esquecer que o amanhã pode não nos oportunizar uma nova chance. Talvez ela tenha razão e a culpa de tudo aquilo tenha sido do brinde que fiz horas antes na mesa do bar. 

“À vida que nos deu uma nova chance de estarmos próximos um do outro”

Não me arrependo. O dia seguinte pode parecer o mais incerto, sem direção, rumo, ou esperança de que o abraço, as estrelas e o carinho possam se repetir, mas ainda assim, é preciso vive-lo para saber se um dia vou ouvir ela me pedir novamente: me abraça.

30 de jul. de 2012

Entre gnomos, South Park e o voto obrigatório

E aí, acredita em mim?
Nem sempre bater pé em relação ao que se pensa sobre determinado assunto é o melhor a fazer. As pessoas costumam não entender ou assimilar pontos de vista demasiado radicais. A opinião, por incrível que possa parecer, precisa seguir a lógica do momento. Escapulir a regra é perigoso. Quem o fizer corre um sério risco de ficar taxado de chato, anti-social, rabugento ou intelectualóide.

Não queira, por exemplo, defender uma tese sobre os prazeres da vida vegetariana em uma churrascaria lotada de carnívoros e entusiastas de carne mal passada. O mesmo vale para o contrário, ou, para uma tentativa de evangelização numa mesa de bar, uma citação de Focault numa conversa sobre violência com o pai ou mãe de um adolescente preso por tentativa de assalto, ou ainda, para defender que gnomos existem e South Park é o melhor programa de televisão já feito. Desista. 

Na grande maioria das vezes manter uma opinião não significa estar correto. De nenhum dos lados de um debate ou discussão. É tudo uma questão de ser seletivo. Pessoas inteligentes sabem respeitar diferentes pontos de vista e conseguem manter um diálogo mínimo e razoável, sem que seja necessário sair nos tabefes ou escorregar para xingamentos de baixo calão. Os demais, estes sim, descambam para um mais do mesmo tão resistente quanto casca de ovo. Não estão errados, mas a depender da situação é melhor não gastar saliva. A opção é livre, cada um segue pelo caminho que achar melhor. Eis o ser seletivo, citado ali em cima.

Se existe algo que aprendi desde cedo é tirar sempre o melhor proveito das experiências que temos ao longo de nossa vida. Isso vale na formação de opinião também. Se algo não te acrescenta positivamente, ao menos, te fará aprender que determinado lugar não merece uma segunda visita, que uma pessoa, no máximo, será merecedora de um cumprimento educado, e assim por diante. Não importa, por exemplo, se o mundo vive um momento de idiotização, a juventude ouve músicas que mal conseguem rimas para “balada” e “galera” e as meninas não usam mais que cinco centímetros de pano como vestido e bebem o dobro do que você bebia quando tinha 16 anos.

"Fudeu geral cara"
Se pensas assim, o que te resta é respeitar, mesmo que veladamente. Você não é obrigado a concordar com isso, da mesma forma que não é obrigado a assistir novela. Meu caso. De nada vai adiantar tentar me convencer que esse produto televisivo vale a pena ser assistido. Não é. Minha opinião. Ponto. Também não sairei por ai fazendo citações de Focault ou defendendo South Park. Posso até não concordar com o sistema político brasileiro e com essa imbecilidade de voto obrigatório. Democracia não é exigir que todos façam um título de eleitor e votem sempre da realização de um novo pleito eleitoral. Aliás, isso é tão estúpido quanto se valer de argumentos esdrúxulos como “depois não vá reclamar”, ou “faça valer sua cidadania”.

Ora, se não houvesse obrigação para o voto, em tese, iriam às urnas aqueles que de fato querem fazer valer essa dita cidadania e acreditam que o ato de votar, por si, contribui para o futuro de sua cidade, estado ou país. O ponto é que o sistema político praticado nestes confins verde e amarelo depende, para bem ou para mal, que todo cidadão acima dos 18 anos vá até seu colégio eleitoral e escolha entre A ou B. Os partidos políticos são dependentes desse sistema. Só existe brecha para se criar um novo partido por não haver um pingo de consenso e razoabilidade no modus operandi eleitoral brasileiro. A falta de respeito vem de cima e o povo que, por razões óbvias, odeia política é taxado como eleitor e visto deste modo. Daí lhe cospem na cara os tais: “depois não vá reclamar”, “não jogue seu direito no lixo”, “faça valer sua cidadania”. A mudança de pensamento e postura da população em relação à política só se dará com educação e isso, não parece, nem de longe, ser prioridade de qualquer que seja o governo.

 Em tempo, podem começar a me chamar de chato, anti-social, rabugento ou intelectualóide. Eu odeio novelas, não acredito em gnomos, sou fã de South Park e reitero minha opinião absolutamente contrária ao voto obrigatório.

26 de mai. de 2012

A morte do meu celular



Não sou da geração dos celulares tijolões. Sou da seguinte, em que o hábito e necessidade de ter um pequeno aparelho telefone ainda não se faziam tão obrigatórias como são hoje. Era uma moda, em vias de se tornar uma tendência, um vício, um utensílio básico para qualquer um, até entre as crianças.

Naqueles dias, dizia-se, ainda com um certo ar blasé:

- Que chique, fulano tem celular.

Os aparelhos eram caros e não dispunham de muitos atrativos como os de hoje. O interesse neles jazia no simples fato de você estar transportando um telefone móvel para todo canto e não na interatividade com as redes sociais, na máquina fotográfica com qualidade similar as melhores digitais do mercado, mapas para navegação móvel, editores de texto tão bons quanto os de um notebook, capacidade para armazenar vídeos de alta resolução, jogos, e etecetera.

Os celulares exerciam a mais simples das funções. Fazer e receber ligações. A inclusão de mensagens de texto ao pacote ecoou como um divisor de águas nas relações humanas. Era o máximo conversar sem abrir a boca usando um mínimo aparelhinho de bolso. Rápido, instantâneo e prático.

De tão pequenos que eram, os celulares vinham com uma espécie de tampa. Para atender as ligações era preciso levantar a dita cuja. Tive um celular desses. Morreu numa manhã de março. Dois anos atrás. Assim que acordei e estava no banheiro com cara de zumbi, entre o sagrado primeiro xixi do dia, o lavar as mãos e o escovar os dentes. Nesse meio tempo, vibrou o telefone. Odeio ringtones com músicas. Evito-as. Zonzo e com o xixi pela metade, resolvo que atender o chamado era uma opção válida, embora perigosa.

Eis meu erro.

O telefone saltitou da minha mão tão logo iniciei a tentativa de levantar a maldita tampinha. Escorregou entre os dedos, como um sabonete molhado e mergulhou no vaso ainda vibrando. Inconsciente dos meus próprios atos e ainda com a braguilha aberta, estiquei a mão para dentro da latrina, resgatei o telefone, abri a tampa e como que se tomado por uma estranha sensação de loucura, disse:

- Alô!

Precisei de segundos para retomar a consciência. Ri alto. Com a mão encharcada de xixi e o telefone ensopado e pingando e imprestável. Era uma sexta-feira e feriado, só poderia trocar o aparelho na segunda-feira. Por mais boa vontade que tivesse o contato da urina com os circuitos internos do pobre telefone o destruíram. Uma das mortes mais horrendas que um telefone celular pode ter, com toda certeza. Troquei o dito por um, à época, com acesso à internet. Um espetáculo.

Meu pai quando o viu pela primeira vez disse:

- Mas é um notebook em miniatura.

Não era. Nunca foi. Meu celular novo era a prova que a tecnologia não avança, atropela. Não tardou para ele ficar obsoleto. Um cara quadrado com um teclado similar a de um computador. Só. Essa semana ele simplesmente parou de fazer ligações. Deduzo que tenha morrido também, ou esteja em vias de. Dia desses o coitado caiu de uma altura de metro e meio, quicou como uma bola de tênis quadrada quicaria. Nunca mais foi o mesmo. Chegou a hora de trocá-lo.

O detalhe é: por qual aparelho. Minha prima comprou um i-Phone. Coisa fina. Os novos celulares estão percorrendo caminho inverso ao que já foram. Estão cada vez maiores. Mal cabem no bolso. Não quero um telefone que mal consiga carregar no bolso. A adesão a um celular de ultima geração é um convite para se mergulhar cada vez mais no mundo virtual. Estar conectado às 24 horas do dia. Cegamente. Sem vida social. De posse do celular mais moderno, que amanhã não vá mais servir pra nada. Tecnologia morta. Meu primeiro celular morreu. Meu segundo está prestes a morrer. Um minuto de silêncio. 

Paz.

Eu sou anormal, vi as fotos da Carolina e fiquei sem café


 

Tudo que eu queria e precisava era uma generosa xícara de café. Daquelas em que o aroma invade as narinas e impiedosamente te obriga a fechar os olhos para absorver o perfume, e, depois, já embevecido, rir com um bobo alegre que sacia uma vontade tão íntima quanto secreta. Era só isso que eu queria e precisava. Estava perto de conseguir. Já tinha até colocado o suficiente em açúcar e mexido o líquido negro e fervente com a colher. Não me faltava muito. Era só assoprar umas duas vezes para não queimar a língua e pronto. Teria tido meu café. Saciado minha vontade íntima e secreta.

Talvez até suspirasse:

- Hummmmmmmmmmmm. C – A – F – É.

Mas não. Quis o destino, ou como prefiro acreditar, minha patetice de início de uma manhã cinza e com um ar meio londrino que possivelmente não saiba explicar, que em um segundo, todo meu café estivesse espalhado por sobre a toalha de mesa e pior: por sobre a toalha que uso para colocar o notebook, quando ali trabalho. Imagine a toalha: branca, cheia de flores, violetas talvez, pintadas em detalhes, agora toda manchada, marrom. Ensopada com o meu café. Aquele que fiz com tanto carinho e em instantes transformou a mesa, a tolha e até o chão da cozinha num completo desastre, isso as 7h40 da manhã.

Meu humor e o suspiro prazeroso de quem se prepara para um longo dia de trabalho se esvaiu automaticamente, afinal, era o meu café que tinha se perdido. Todinho. Uma generosa e claudicante xícara de café. Minha e de mais ninguém. Como se não bastasse ter de tapear a bagunça para sair de casa e enfrentar a jornada do dia, só conseguia pensar (ainda o faço) no estado da toalha, toda manchada e que possivelmente nunca mais voltará ao seu estado natural. Quiçá, não lembre, daqui cinco ou dez anos, quando me deparar com esta bendita toalha (sim, vou guardá-la com todo amor e carinho), da manhã em que não tomei minha sagrada xícara de café antes de partir para a labuta.

Enquanto dirigia, pensava no café e na tolha, na tolha e no café. Em como podemos, em fração de segundos, transformar o simples em complicado. Num momento eu me preparava para tomar minha xícara de café e no outro, estava soltando os bofes todos pra fora, rogando pragas a trigésima geração do meu pior inimigo, simplesmente, porque num momento de total desatenção consegui desperdiçar todo meu café e feito uma bagunça cavalar na minha cozinha.

Transformei minha tristeza irresoluta numa divagação solene na mais viciante das redes sociais e, não me falhe o senso interpretativo, fui incompreendido. Não estava expondo minha privacidade como a Carolina Dieckman. Não. Só divagando. Poetizando minha patacoada. Quem mal há nisso. Ninguém irá limpar minha bagunça ou me dará uma toalhinha nova, para compensar a trapalhada que cometi e que transformou a anterior, branca e cheia de flores violeta, numa enorme mancha marrom e cheirando a café. Existem coisas piores que isso.

A própria Carolina, coitada. Deixou-se fotografar e depois que suas imagens sem qualquer vestimenta ganham o mundo, faz pose de boa moça, sentida e, quase que arrependida. Primeiro, deixou-se fotografar como Eva no paraíso e depois move o mundo para prender o hacker que lhe roubou a intimidade. A única pergunta que faço é: e as anônimas que fazem o mesmo e têm suas fotos espalhadas pela grande rede, o que acontece? Será que as montanhas todas são movidas até que os invasores de privacidade são presos?

Não. Digo isto, porque a justiça não é justa. Não é igualitária e parece só acontecer quando há interesses maiores envolvidos. É aquela história do falso moralismo que esbocei quando escrevi sobre as cotas raciais. São sazonais. Vivemos uma falsa sensação de liberdade de crença, de esperança em um mundo mais justo. Onde não tenhamos de conviver com um leilão do quem dá mais para ficar com o partido político X nas próximas eleições. Por fim, um mundo em que eu possa escrever sobre minhas trapalhadas ao tomar café sem que ninguém me aconselhe a ser normal, afinal, poxa vida, era uma generosa xícara de café que foi, toda ela perdida. Para sempre.

31 de out. de 2011

Jardel: renovado e feliz


Jardel: "Quando você não tem carinho é porque não construiu coisas positivas"


De bermudão e camisa pólo, sob a pouca luz do hall de entrada do Hotel Saint Louis em Luís Eduardo Magalhães, as duas mãos nos bolsos, sandália de praia e a expressão cansada de quem recém acorda de um revigorante cochilo, Mário Jardel Almeira Ribeiro, ou simplesmente Jardel para os torcedores do Grêmio de Football Portoalegrense e “Super Mário”, como ficou conhecido entre os torcedores do Porto de Portugal, (os dois clubes onde obteve mais conquistas e reconhecimento), prepara-se para duas horas mais tarde ser a atração principal da I Convenção Regional de Torcedores do Grêmio, organizada pelo Consulado Gremistas Oeste Bahia.

Receptivo, antes do início da conversa, Jardel pede duas garrafas de água mineral e encontra tempo para se divertir com uma cena da novela que passa na TV. “Vamos lá, pai”, diz, antes de soltar um sorriso e dar a deixa para o início da entrevista. Recém-chegado de uma viagem a Portugal, Jardel não esconde o remorso por estar sem jogar. Do seu último contrato como jogador restou apenas más recordações. “Estava no Rio Negro do Amazonas, mas não tinha estrutura nenhuma. Consegui patrocínio para o clube, mas eles não tinham nem campo pra treinar”, conta. “Até gostaria de continuar jogando, mas se não pagam e não te dão valor, não dá”, completa.

Em Portugal, Jardel procurava trabalho. Algo com o que se ocupar. “Fui atrás de trabalho. Para morar lá, seja no Sporting, ou no Porto. Trabalhar com categorias de base, ser embaixador internacional do clube. Algo de um meio que eu conheço que é o futebol”, emenda.

A breve interrupção de um torcedor do Grêmio para um autógrafo e um abraço tira por instantes a concentração do ídolo. “Fico muito feliz, pelo que fiz no futebol”, revela, assim que o gremista satisfeito deixa o restaurante do hotel onde se dava a conversa. “Quando você não tem carinho é porque não construiu coisas positivas”, diz, falando da importância em receber o reconhecimento dos torcedores dos clubes por onde passou. “Quando você conquista vitórias e títulos e entra pra história do clube é natural esse carinho, como acontece com os torcedores do Grêmio e do Porto”, explica.

Sobre a final do Mundial Interclubes de 1995, contra o Ajax da Holanda:
"Faltou só o gol, não fiz gol"


Chute certo
Natural de Fortaleza, onde iniciou a carreira de jogador aos 17 anos, não demorou para o faro de gol e o dom na bola área chamar a atenção do futebol do centro/sul do país. Contratado pelo Vasco da Gama, entre 1991 e 1994, Jardel disputou 39 partidas marcando 22 gols. Deste período destaque para os dois gols marcados na final do Campeonato Carioca de 1994, contra o Fluminense. Com o Maracanã lotado, o clube ainda sentia a perda precoce de uma de suas maiores promessas: Denner, morto em um acidente automobilístico semanas antes.

Pinçado a dedo pelo técnico Luis Felipe Scolari, Jardel deixou o clube de São Januário em 1995 para disputar a Taça Libertadores da América pelo Grêmio de Porto Alegre. Mal sabia o atacante que no Estádio Olímpico, ao lado do baixinho endiabrado Paulo Nunes, levaria o clube gaúcho ao bi campeonato da América. Em pouco tempo, Jardel se tornou ídolo da torcida tricolor. Em um ano e meio de clube, disputou 73 jogos e marcou 67 gols, um deles no jogo de volta das quartas-de-final contra o Palmeiras no Parque Antártica.

“Felipão deu o chute certo. Mostrou que tem estrela”, relembra o artilheiro, ao recordar o inesquecível ano de 1995, razão pela qual saiu de Fortaleza, cidade onde, depois de 20 anos de futebol, voltou a morar com a esposa e mantém uma pequena confecção de artigos femininos, para participar da festa gremista no oeste baiano. “Foi por um fio, mas Deus estava do nosso lado”, resume o ídolo, ao comentar o histórico embate contra o Palmeiras naquele ano. Após uma goleada surpreendente no Olímpico por 5 a 0, em São Paulo, o gol marcado por ele logo no início garantiu a vaga na fase seguinte, apesar da derrota por 5 a 1. “Psicologicamente, ali nós ganhamos a libertadores”.

A conquista da América 12 anos depois do primeiro título e da conquista do mundo em 1983, serviu de combustível para que torcida, dirigentes e jogadores acreditassem no bi mundial. Numa manhã de dezembro, a metade azul do Rio Grande do Sul parou para ver a partida decisiva contra o Ajax da Holanda. O time holandês, base da seleção do país, era o bicho papão da época. Uma equipe, considerada por muitos, imbatível. Não para Jardel, que revela ter entrado em campo contundido. “Joguei com dores no joelho, com a tendinite bem infiltrada. Fui mesmo, porque era um jogo importante pra mim e pro Grêmio”, explica, lembrando que o time jogou com um a menos boa parte da segunda etapa e toda prorrogação. O zagueiro Rivarola foi expulso aos 22 minutos. O Grêmio acabou derrotado nos pênaltis, depois de 120 minutos sem gols em Tóquio. “Faltou só o gol, não fiz gol”, brinca o ex-atleta, hoje com 38 anos.

Recebendo o carinho dos fãs tricolores, Jardel lembra os momentos difíceis da
carreira e o conturbado envolvimento com as drogas: "É preciso força de vontade, não dá pra se entregar nunca"


Luta diária
A boa fase vivida na capital gaúcha continuou em Portugal. Pelo Porto, entre 1996 e 2000, Jardel alcançou a incrível média de mais de um gol por jogo. Ao todo foram 125 partidas e 130 gols marcados com a camisa do clube português. A fase áurea e a fartura de gols continuou por mais três anos. Entre 2001 e 2004, no Galatasaray da Turquia e de volta a Portugal, mas vestindo a camisa do Sporting, Jardel continuou ídolo e artilheiro. No entanto, foram as férias e as más companhias que aos poucos tiraram o atleta dos trilhos.

“Os excessos, as drogas, o álcool vinham quando estava de férias dos clubes e por conta dos amigos ‘chupa-sangue’”, diz o ex-jogador. O vício se tornou um problema na carreira do craque. Os gols se esvaíram e as propostas também. Entre 2004 e 2008, Jardel passou por 10 clubes, no Brasil e no exterior, sem conseguir ser nem sombra do ‘matador’ de anos antes. Em 2008, sem dinheiro, sem amigos, e desiludido com a vida, Jardel convoca a imprensa nacional para uma declaração bombástica. Ao mesmo tempo em que assume o problema com as drogas e a necessidade de reabilitação, o ídolo não esconde o desejo de voltar a vestir a camisa de Vasco ou Grêmio.

“Fecharam as portas para mim”, conta, três anos depois. “Simplesmente pedi para os presidentes para ficar treinando, mas existiu um medo depois da declaração que eu dei. Lamento muito, mas não guardo mágoa. Não guardo mágoa de ninguém”, diz Jardel. Para superar o momento turbulento, o ex-artilheiro é taxativo. “É uma luta diária”, comenta, ligeiramente incomodado em falar sobre o passado conturbado. “Eu sei que errei. Todos nós temos problemas e só depende da gente superar, mais nada. As pessoas mudam. Tem duas escolhas. Ou se vai para baixo ou muda. É preciso força de vontade, não dá pra se entregar nunca”, desabafa.

Sem qualquer aviso, Jardel antecipa-se, levanta e vai ao banheiro. Na volta pede um café e diz para seguir com a conversa. Questionado sobre que orientação teria para os jovens que sonham se tornar jogadores profissionais, o artilheiro não hesita. “Força de vontade, Fé na mudança e convicção de que vai conseguir”. Para o craque alertas sobre os malefícios do uso excessivo de drogas e álcool não faltam na televisão ou nos jornais. O que importa, segundo ele, é manter-se afastado das más companhias e não se ludibriar com o glamour do futebol. “Estudem, busquem fugir das drogas, busquem ocupar suas mentes”, decreta. Mas, e o Jardel, hoje, como está, quem é, o que pretende: “Sou um homem renovado e feliz”, simplifica.


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O texto acima foi originalmente escrito para a edição de novembro da Revista A, mas acabou passando por edição e sendo diminuído em mais da metade

22 de out. de 2011

Eu te amo!


Habermas: “O mundo da vida é a esfera de 'reprodução simbólica', da linguagem, das redes de significados que compõem determinada visão de mundo, sejam eles referentes aos fatos objectivos, às normas sociais ou aos conteúdos subjectivos”


Foi de repente. Uma pequena mão com unhas feitas e esmalte transparente me bateu nos ombros para me entregar um bilhete. “Você tem namorada?”. O questionamento me causou surpresa. Assistia a uma aula sobre a Escola de Frankfurt, recheada de teorias e frases do tio Theodor Adorno. Era noite e ainda tinha de encarar uma desgastante viagem de 90km em um ônibus nada confortável e repleto de baderneiros.

A responsável pelo bilhete tinha o cabelo cacheado carregado com cremes e hidratantes. As madeixas negras estavam sempre úmidas. Usava óculos e tinha os olhos escuros como a noite. Morena de rosto esguio, não era bonita tampouco feia. Era comum. Nada, além disso. O maxilar um pouco alongado acentuava o sorriso, com todos os dentes a mostra, diga-se, brancos a neve.

No mesmo bilhete, rabisquei a resposta: “Não, por quê?”. Em instantes, o mesmo pedaço de papel, um pouco mais amassado que do início do seu vai e vem, retornava as minhas mãos. “Quero falar com você no intervalo”. Olhei as horas. Ainda tinha uns 20 minutos de explanações sobre Adorno, Horkheimer e outros pensadores da comunicação dos séculos XIX e XX.

Pensei:

- Que diabos, essa mulher quer comigo no intervalo?

No banco frio e cimentado do corredor da faculdade, sentamos, eu e ela, a morena de óculos e cabelos úmidos. Ela estava nervosa. Conhecíamo-nos, se muito, há uns dois meses. Após alguns rodeios, ela, enfim, revelou o que a agoniava tanto:

- Eu te amo!

Corei. Como assim me ama. Não é possível. Alguma coisa estava errada. Por pouco não coloquei as costas da mão na testa da guria. Podia ser febre. Amor, não. Jamais.

- Eu tenho pensando muito em você e estou certa que te amo – continuou.

Pedi um tempo. Precisava (mos) respirar. Sabe como é. Não é todo dia que uma pessoa diz para outra “eu te amo”. Isso não acontece com um estalar de dedos. Não fiz nada para que aquela jovem, à época com seus 18 ou 19 anos, de uma hora para outra, revelasse uma paixão por mim. Falei que a entendia mas que – infelizmente (ora, precisava ser educado) – não nutria por ela o mesmo sentimento. Logo, não havia chance alguma daquela história ir adiante.

Encerrada a conversa fui ao encontro do melhor amigo que tinha na classe naqueles saudosos dias. Contei a ele. Tudo. Às gargalhadas, confessou-me:

- Relaxa meu amigo, não és o primeiro.

Como assim. Houve outros antes de mim. Era uma várzea. A cada palavra dita, sentia um peso saindo das costas. Estava preocupado com a garota. Não precisava. Para minha total e absoluta surpresa, eu já era o terceiro pelo qual a morena de rosto esguio se apaixonava desde o início do semestre. Em suma, outros dois antes de mim, passaram pelo ritual: troca de bilhetinhos durante a aula e conversa no banco de cimento do corredor.

Essa história me faz lembrar a política. O quão fácil e rápido se “ama” e se vende e se compra. O quão promíscuo e rasteiro é o ritual de troca de bilhetinhos e conversa no banco do corredor. “Eu te amo”. Frase de bajulação. As pessoas são carentes. Precisam ouvir esse tipo de agrado. Pena. Ama-se de mentira. Temporadas. Momentos. Não é algo verdadeiro. Tem interesse. As urnas. O amor é o teu voto. Eu te amo, vote em mim. Outubro. Um ano. Não é mais sem tempo. Apaixonar-se. Palavra de ordem. Custe o que custar. A paixão é não é para sempre. Tem prazo. Limite. Tempo determinado.

O bilhete, assim que terminou o intervalo, foi devidamente amassado e depositado no lixo. A conversa, em duas semanas, esquecida. A vida seguiu seu rumo. Os amores da morena de rosto esguio a levaram a conhecer seu verdadeiro amor. Enfim. Quem dera fosse assim também com a política. Não é. Respeito. É tudo que se exige de quem legisla e executa. Seguimos com Habermas, “O mundo da vida é a esfera de 'reprodução simbólica', da linguagem, das redes de significados que compõem determinada visão de mundo, sejam eles referentes aos fatos objectivos, às normas sociais ou aos conteúdos subjectivos”. Amém!
           


11 de out. de 2011

Nada mais que razoável


Foto: Divulgação (extraída do blog Ecojornalismo)
O embaixador e ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, Rubens Ricupero, é um homem esguio, de estatura mediana para alta e inegável desenvoltura na arte de falar para grandes audiências. Na quinta-feira, 22, embora para uma plateia muito aquém o esperado, Ricupero manteve a atenção dos heroicos remanescentes do VIII Congresso Brasileiro do Algodão – entre 19 e 22 de setembro – com maestria e sem a necessidade de qualquer aparato tecnológico, como telões ou colas sobre o que teria de falar. Rubens apenas falou.

Como parece praxe entre os economistas, principalmente os que abominam o governo petista desde a ascensão de Lula, o ex-ministro de FHC, iniciou sua longa alocução criticando o governo Dilma. Em tom de rebuscada ironia, RR questionou declaração presidencial de dias antes, na qual a presidente – nego-me a usar o termo presidenta – teria dito com “entusiasmo” que o país passa por um “momento extraordinário”

“Pergunto-me se é possível utilizar o adjetivo com esse sentido”, indagou Ricupero com um ligeiro sorriso de canto de boca e olhar incisivo apontado para os que o assistiam e ouviam. “O momento do Brasil é nada mais que razoável”, decretou, antes de estrebuchar as razões que o fazem acreditar que o risco de um abalo geral na economia brasileira, em decorrência da iminente crise internacional, é maior do que se pensa, ou, na pior das hipóteses, maior do que o governo nos faz acreditar.

“O que acontece no mundo nos últimos dias, mostra que a crise não é habitual, com curta duração. Estamos em um tipo de crise, que alguns costumam chamar de grande depressão, uma variedade mais maligna e perigosa de crise”, disse, lembrando a alvissareira crise de 29 que provocou quebras generalizadas no mundo todo e até hoje é capaz de gerar calafrios em qualquer especialista em economia que e preze. Na comparação entre a de ontem e a de hoje, Ricupero disse que a diferença é que atualmente a China e parte do Ásia dão sustentabilidade para o mercado como um todo, impedindo uma derrocada como a de quase 100 anos atrás.

A título de exemplificação, Rubens rememorou que na década de 1930 houve um começo de recuperação com alguns altos e baixos – em 32 e 38, no qual como vem ocorrendo nos dias de hoje, também houveram, entre as quedas, algumas bruscas, de preços, algumas “ilusórias recuperações”. A chamada “montanha russa” é onde reside o perigo, alertou o magérrimo e cabelos brancos Ricupero. “Os EUA teve de esperar até a segunda guerra para se recuperar”, observou, sempre dando a entender que o momento global é muito mais de precaução do que de reserva e tranquilidade, como alguns ainda insistem em proclamar.

Em relação a década e meia perdida no país entre os idos dos anos de 1980 e 1990, o semblante e até o tom da voz do embaixador mudam. O endividamento, a alta inflação e a ociosidade interna, provocaram revoluções na autoestima do povo brasileiro, àquela altura, recém-saído de um período de mais de 20 anos de ditadura. O equilíbrio e razão para o entusiasmo presidencial de Dilma Rousseff é, segundo o ex-ministro, fruto da criação e fortalecimento do “real” na metade da década de 1990. A ascensão do Brasil deve-se a este momento e nada mais, insiste nas entrelinhas o embaixador, para o qual é preciso dissociar, antes de qualquer avaliação mais profunda, as crises de 2008 e está que vem tirando o sono e Obama e não para de fazer estragos na Grécia e alguns outros países europeus.

Mesmo sem escancarar como fez o também ex-ministro Maílson da Nóbrega em palestra proferida no auditório do Hotel Saint Louis (em Luís Eduardo Magalhães/BA) em julho último, o atual Ministro da Economia, Guido Mantega não dispõe do apreço e solidariedade de parte dos especialistas e “ex-alguma-coisa” da política brasileira. Assim, as correntes de especialistas mais apertam o nó do que repassam informações claras à massa faminta e consumidora compulsiva de novelas de país continental. A razoabilidade do momento vivido pelo país é justa e merecedora de todos os louvores. Vai que a corda estica e velhos fantasmas reapareçam. 

31 de ago. de 2011

Levemente bravas e charmosas


Não existe nada mais atraente que uma mulher levemente brava.

O homem que discordar dessa afirmação, muito provável, que estará mentindo. Algumas pequenas provocações no dia a dia, arrisco, são feitas apenas para ver as bochechas coradas, o olhar quase ameaçador e o biquinho nos lábios.

Este, aliás, é o estágio preferido dos homens. Quando a mulher começa a ficar irritada e brava. Particularmente, e acredito assim o ser para muitos, um momento de raro – talvez raríssimo – prazer.

Reparem meninas, como ficamos bobos e com um quase irreparável sorriso de embasbacamento, quando vocês começam a sair do sério, por qualquer que seja a razão.

Há alguns anos ouvi uma recém casada dizendo-se totalmente incompreendida pelo marido. Falava com ar pesaroso de quem não aguentaria o descaso do homem amado, se assim continuasse por muito tempo.

Segundo ela, o marido não dava a mínima quando ela se dispunha a discutir as trivialidades do dia-a-dia do casal. Leia-se:  aquelas efemeridades, que somente as mulheres tem predisposição para discutir. Como quando você coloca uma camisa um pouco amassada ou, depois de todo desgaste de um dia de trabalho, resolve sair para jantar vestido de bermuda e chinela.

A inércia do marido ante sua gesticulação e braveza a irritava mais e mais.

O homem apenas ria.

Ela enlouquecia.

No entanto, o que, possivelmente, a recém casada incompreendida, aquela altura não havia se dado conta, é que quanto mais irritada e brava ela ficava, mais o marido gostava.

Não por chacota ou depreciação.

NÃO, nunca e jamais.

O que ela não entendia é que o marido simplesmente amava quando ela ficava assim, levemente brava.

Bochechas coradas, olhar quase ameaçador e biquinho nos lábios são quase um sinônimo de homem feliz e sorridente.

Nós amamos ver as mulheres assim. Rimos, e assim o faremos, na maioria das vezes em que vocês (mulheres) estiverem vociferando aos quatro ventos, reclamando que esquecemos a tolha molhada através da porta do banheiro ou do fato de não termos levantado o tampo do vaso antes do descarrego das impurezas líquidas, ou, ainda, quando, por um daqueles lapsos exclusivamente masculinos, esquecemos do aniversário do dia em que nos vimos pela primeira vez, ou da música que marcou nosso relacionamento.

Bobalhões que somos, vamos esquecer sempre e também sempre vamos nos deliciar ao ver vocês (mulheres) levemente bravas.

Não faz muito, revelei, no auge das bochechas avermelhadas e da braveza feminina, ser um amante das mulheres nesse estágio. Por incrível que pareça, a reação foi quase idêntica a da recém casada e incompreendida de alguns parágrafos acima.

Eu ri.

Ela disse:

- Ai,vou te bater.

Ri mais e mais. Gargalhei até. Era incontrolável. Não apanhei, mas tive de explicar em miúdos que ria apenas por achar irresistivelmente atraente e charmoso uma mulher brava e delicadamente irritada.

Não mais que isso, afinal, já atesta o ditado: tudo em excesso faz mal. Inclui-se ai, mulheres demasiadamente bravas. É como disse na primeira linha deste malfadado texto: Não existe nada mais atraente que uma mulher levemente brava. Levemente brava.

22 de ago. de 2011

Comia muçarela pensando ser mussarela

Esparramado no sofá esperava o sanduíche – que minutos antes havia preparado: pão, manteiga e queijo, muito queijo– gratinar na torradeira.

Com o controle remoto, procurava algo para assistir na televisão e, com isso, passar o tempo enquanto meu precioso manjar ficava pronto. Melhor: enquanto o queijo derretia o suficiente no meio do pão francês.

Nada num, nada outro, estacionei na Globo News. Eram pouco mais de oito da noite. O programa exibido, com particularidades de algumas regiões brasileiras lá pelas tantas anunciou uma receita culinária.

Não lembro o prato. Lembro o que li:

MUÇARELA.

Entre os ingredientes havia muçarela.

Na primeira mordida no meu exagerado sanduíche de queijo, zombei da suposta gafe global. Sem compreender ao certo, considerava-me um afortunado comedor de mussarela. O suposto erro me deixou intrigado. Como seria possível ter comido mussarela a vida toda e, de repente, a poderosa Globo me dizer que o correto é com cedilha e não com dois ‘ésses’.

Dois dias depois, desta feita, enquanto vasculhava a grande rede em busca de receitas culinárias com exageradas doses de queijo, uma vez mais li:

MUÇARELA.

Entre os ingredientes da receita pesquisada estava escrito, com todas as letras: muçarela, com cedilha e não dois esses, como até então, considerava certo.

Senti-me como que perdido e na pior das hipóteses um repetente do ensino primário que faltara às aulas da Professora Rosana. Sem hesitar busquei uma explicação. Minha pesquisa, por mais simplória que tenha sido, revelou que, de fato, eu é quem estava errado.


Em suma:comia muçarela pensando ser mussarela.

Acontece que o duplo “z” em palavras de origem italianas, quando traduzidas para o nosso bom e velho português, vira “ç”. É o caso, por exemplo, de “carrozza” que, para nós é “carroça”. Assim também o é para “piazza” (praça) e “razza” (raça).

Na velha bota, escreve-se muzzarela, com dois zês, por isso, da muçarela da Globo News e da receita da internet estarem corretos. A palavra escrita com dois ésses está, portanto, errada, embora a maioria esmagadora das pessoas neste país verde e amarelo escreva mussarela.

O professor Laércio Lutibergue, autor do livro Em dia com a língua, tem a receita: “escrevo "muçarela", mas não corrijo quem escreve "mussarela", pois sei que este é mais um dos tantos erros que o uso consagrou”.

Por falar em erros, em um texto publicado nesta mesma coluna no já longínquo 2009, confundi “calda” com “cauda”. Não fosse o olhar cirúrgico de uma das minhas queridíssimas leitoras, talvez, nem tivesse dado conta do bizarro equívoco gramatical. Lembro ter vivido dias intermináveis, até enfim, ter tido a chance de recolocar os pingos nos is e consertar o deslize. Naquela ocasião o erro foi meu e de mais ninguém. Desta feita não. O erro é de todos, já que todos comem pizza de mussarela ao invés de pizza de muçarela

A propósito, a quem queira aportuguesar a palavra pizza. Nesse caso, ficaria “píteça”. A proposta, embora tenha pouca ou nenhuma aceitação, é do gramático Luiz AntonioSacconi.

Já imaginou os cardápios:

Píteça de Muçarela. Uma beleza não?