3 de dez. de 2010

A pequena atrás do balcão

[Barros com Independência, quase lá. Foto: Adriano Comissoli]


Descia a rua de casa, na altura do Salão do Gomes, com duas sacolas plásticas de supermercado à mão, pão, papel higiênico, iogurte, presunto de peru, quando pensei que talvez devesse ter dito umas palavras a mais para ela. Afinal, ela havia sorrido. Coincidência como a que motivou o riso solto e convidativo, acho difícil voltar acontecer.

Já havia notado a presença dela. Pequena, pele morena, com poucos porém chamativos pelinhos nos braços, olhos escuros, porém profundos. A notei num domingo. Tão logo entrei no mercadinho, a vi passando ao meu lado. Percebi nos olhos dela algo diferente. Não soube o que. Depois daquele dia, a tinha visto, tão somente, uma vez. Deixei de lado.

Até esta tarde. Estava em dúvida sobre o que pedir. Ela quase desaparece por detrás do balcão. Uma graça. A touca esconde os cabelos escuros, os quais, ando enlouquecido para saber como são: livres, soltos, por sobre os ombros. Pedi quatro pãezinhos e, como acompanhamento, cento e cinqüenta gramas de presunto de peru. Nada mais.

Surpresa minha, quando as delicadas mãozinhas dela acertaram a medida e conseguiram retirar exatos cento e cinqüenta gramas de presunto de peru da prateleira. Não soube esconder a surpresa.

Disse:

- Uau, certeira!

Foi ai que ela riu. Foi ai que eu devia ter aproveitado. O sorriso era a deixa. Estava longe quando percebi que deixará passar a chance. Já no limiar da Cristóvão Colombo, por onde passa o Chácara das Pedras antes de subir pela Barros Cassal e pegar a Independência, atravessando a rua e assistindo o grupo de velhinhos que rotineiramente se empoleiram em caixas de madeira para conversar. Sempre assim, depois das dezoito horas.

Era tarde demais para mim. Perdi o sorriso. A chance.

Mas o que poderia ter feito. A chave já se contorcia na fechadura da porta do prédio. Já estava em casa. Refugiado. Com as duas sacolas de plástico e com doze reais a menos no bolso. Talvez, se tivesse dito algo a mais, ela entendesse de forma errada. Porém, é possível, que fosse justamente isso que ela esperava. Que eu falasse mais que “ual, certeira!”.

As chances de ela voltar a ser tão precisa nas cento e cinqüenta gramas de presunto de peru são mínimas. Não vou perder meu tempo com isso. Já estou no segundo copo de iogurte e ainda penso. Ela sorriu. Eu gostei do sorriso. Gostei dos olhos, do jeito e estou, quase em pânico de curiosidade, para saber como são os cabelos sem a bendita touca. Irei lá amanhã. Na primeira hora. Não. Talvez seja precipitado. Esperar para quê, ora pois? O que falar, meu deus.

O que sei, tão somente, é que preciso ser certeiro, tanto quanto ela.

2 comentários:

Unknown disse...

Perdeu, preyboy.

AzimutE disse...

Caro Anton,

belo post!

Me lembrou escritas de Rubem Fonseca e Jorge Amado.

Play now "Precious Illusions" - Allanis Morrissete.

Sds,

Sivaldo Reis.