19 de ago. de 2012

Nunca quis ser como Aurélio Miguel


O judoca Aurélio Miguel, único ouro nos jogos de Seoul,
em foto de Gil Pineiro/Manchete

Nunca em todos os anos de colegial tive qualquer aspiração em disputar uma Olímpiadas. Também, nunca houve qualquer tipo de incentivo na escola ou dentro de casa pra isso. Ainda não há. As crianças em idade escolar e em tempo de serem iniciadas esportivamente não recebem nenhum incentivo para tal. A culpa, arrisco afirmar, não é das aulas de educação física. É da falta de estrutura, afinal,não temos uma política adequada de incentivo à prática esportiva dentro do ambiente escolar.

Em 1988, era um meninote de nove anos quando Aurélio Miguel sagrou-se campeão olímpico no judô. Mesmo assim, nunca tive chance de conhecer o esporte e tentar, impulsionado pela febre dourada do judoca brasileiro, praticá-lo. Minha maior lembrança dos jogos de Seoul, embora tenha visto o momento do ippon consagrador de Miguel, foi a derrota do time brasileiro de futebol para a extinta União Soviética na final olímpica.

Lembro como se fosse hoje: a primeira coisa que fiz ao final da prorrogação que nos valeu a prata foi sair à rua com minha bola debaixo do braço e me imaginar um craque do esporte bretão tabelando com as paredes de casa para depois usar o portão da garagem como gol. O fato é que nunca quis ser como Aurélio Miguel. A escola que estudei, mesmo sendo particular, jamais proporcionou a qualquer um de seus alunos suporte para a prática de esportes que não os coletivos. O máximo de recordação que tenho de outras experiências esportivas nas duas horinhas semanais de educação física são esporádicas manhãs tentando saltar por sobre uma fita elástica amarrada em duas hastes de ferro, em simulação ao salto em altura, e parcas corridas em simulações de salto em distância e salto triplo.

O detalhe é que mesmo assim, sem um mínimo de estrutura. Saltávamos sem vestimentas adequadas. Sem tempo para um aquecimento mínimo e sem nenhuma condição de almejar dar seguimento a uma carreira no atletismo. Óbvio que o fato de estarmos em uma cidadezinha do interior, distante mais de 500 km da capital gaúcha exercia um peso negativo ante a vil possibilidade de um de nós sonhar praticar um esporte alternativo de maneira profissional. Aliás, isso praticamente inexiste no país.

As aulas de educação física sempre foram vistas com desdém. Não era preciso esforço para obter uma nota que nos garantisse aprovação no final do ano. Responder a chamada, correr em volta da quadra coberta por duas ou três vezes e estar presente, mesmo que inutilmente, as atividades propostas pelo saudoso professor Cléver, eram o bastante. Não éramos incentivados a gostar do esporte. A levar o esporte a sério. Era tudo brincadeira. Sempre foi assim. (Nota deste colunista (blogueiro vez ou outra): Nosso mestre, eterno em nossos corações, é bom que se diga, jamais teve culpa nisso. Era um batalhador. Lutava com as armas que tinha, com os mínimos recursos que possuía e nós – os meninos – o tínhamos como um ídolo*).

O esporte no Brasil é levado na brincadeira. A cada ciclo olímpico renovam-se esperanças do país se tornar uma potência no quadro de medalhas, mas sempre, o número de ouros, pratas e bronzes é inexpressivo e muito pouco diante das dimensões continentais que possuímos. A maioria dos atletas que vão aos jogos, mesmo os anônimos, são heróis pelo simples fato de estarem lá. Sem estrutura, incentivo, material e em muitos casos, condições adversas e precárias de treino, ainda assim, conseguem índice para representar o país nos jogos. Os resultados abaixo do resto do mundo não são culpa deles, mas sim, da maneira amadora como a maioria dos esportes é tratado em terra brasilis.

O velódromo construído para o Pan do Riode Janeiro em 2007 é um exemplo crasso da incompetência e total amadorismo degerência esportiva. O complexo foi construído sem obedecer os padrões olímpicos e hoje, cinco anos depois, está defasado e não serve para abrigar os jogos do Rio em 2016. A pista recebeu investimentos federais e municipais – uma bagatela de R$ 14 milhões – para conseguir sediar as competições latinas, inclusive o piso foi feito de pinho siberiano tratado na Holanda. O que intriga é que razão faz com que se construa uma obra como essa se ela não pode ser aproveitada no futuro e agora, parece até imprópria para o incentivo da prática do esporte a crianças e jovens brasileiros.

Burrice? Malandragem? Desrespeito com o erário público? Em tempo, o risco de o velódromo ser demolido é gigantesco. Independente de qual seja a resposta, a esperança é que as crianças e jovens de hoje consigam fazer do exemplo vitorioso de Sarah Menezes e Arthur Zanetti, um incentivo para a prática esportiva e nossos políticos, tenham a hombridade de evitar os discursos chinfrins de sempre para colocar em prática, políticas de incentivo ao esporte nas escolas o quanto antes. O Brasil como um todo agradece. Esporte nas escolas é sinônimo de qualidade de vida, e desenvolvimento social. As medalhas serão conseqüência. Natural.


* O professor Cléver morreu no último ano do segundo grau, deixando uma legião de alunos e admiradores órfãos de seus ensinamentos, dicas, e parceria.



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